Tu, que eu teria amado
Daniela Soares
- Quando se trata de emoções, fazer analogias não é fácil. As emoções não são objetivas, ao contrário, são desordenadas, antagônicas, quase impossíveis de determinar. Traduzir em palavras esse caos, acertar ao dizer, quando o desacerto é enorme no sentir, é de extrema dificuldade. A poesia é a reprodução, mesmo que imperfeita, dessas sensações transcendentes. Então, reconhecendo a minha mediocridade, me sinto no direito de tornar minhas, as palavras de autores que sentiram, para não dizer igual, de forma parecida a mim e que souberam falar de maneira exata sobre amor, ódio, desejo e frustração.
- Acredito que uma das sensações mais difíceis de precisar é o assustar-se com a beleza e a graça. Por maior que seja a sofisticação verbal, a palavra só consegue louvar, nunca reproduzir. O desejo que decorre após a encantadora visão é manifestação primeira de um vir a ser, responsável pelo despertar de fantasias e das mais extasiantes sensações. A contemplação já é prazer. Um prazer que só depende daquele que deseja. A promessa de um prazer maior, mais próximo e concreto, no entanto, nem sempre se cumpre, pois este não pertence somente àquele que deseja, depende também do ser desejado.
- Mas, de súbito, a adoração se confunde com o medo. Medo de não ser correspondido, atendido nos seus anseios. Medo da desilusão. Medo e desejo, sentimentos muito bem expressos em "A paixão segundo GH" de Clarice Lispector, quando a personagem diz: "Não, não quero te dar o susto do meu amor, se te assustares comigo, eu me assustarei comigo".
- O conflito entre essas duas forças contrárias e a dor que provoca na alma, impele o amante para frente, e ele se enche de coragem. Entretanto, mais comum que o olhar correspondido é o desprezado. Diante da indiferença, a humilhação se torna mais forte que o amor. A adoração se transubstancia em ódio. Chico Buarque saberia traduzir fielmente esse estado em "Atrás da porta", quando seu amor é desprezado e o olhar do outro é de adeus: "(Dei) pra sujar teu nome, te humilhar, e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso". Mas, como que mais forte que o ódio, a adoração permanece e ainda assim aquele que ama sonha com o amado e dirige, mesmo que apenas à sua silhueta, palavras e olhares de carinho. Deixa-se apaixonar. Kafka metaforiza essa situação ao comparar o amante a um prisioneiro, que deseja, tanto fugir, quanto transformar sua prisão num castelo de prazeres, mas se vê impossibilitado a ambos.
- Frustração maior pode assolar o admirador, quando este é privado até mesmo da contemplação. É a torturantes lembranças que ele está confinado. A consciência de que algo poderia ter sido e a saudade daquele que poderia ter amado. "Não sabes aonde vou, eu não sei aonde ias, tu que eu teria amado, e que tão bem o sabias", diria Baudelaire.
Daniela Soares é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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