Nostalgia
Jardel Sebba Filho
- Pete Shelley escreveu uma letra de música, em 1979, para uma namorada que insistia em dizer que não o entendia. Aquele inglês da cidade de Manchester, então com seus vinte e poucos anos, já havia escrito pérolas como "eu tinha por você um sentimento bom que eu adorava chamar de amor", mas aquela resposta foi, particularmente, interessante. Shelley já começava atirando "eu duvido que você me ame como eu amo você", seguia com "meu futuro e meu passado estão harmonicamente desarrumados" e concluía que estava condenado a "sentir nostalgia de uma época que ainda estava por vir". Não estranhe nunca ter ouvido falar em Pete Shelley. Ele nunca posou de alternativo, nunca teve um videoclipe bacaninha e, talvez por causa disso, nunca vai ter uma de suas músicas tocadas por uma banda cover de Goiânia – e perdôem a redundância; banda cover de Goiânia é como entrar para dentro.
- Shelley fez parte de uma geração musical perdida no tempo, a dos poetas autobiográficos. Gente que, lá pelos anos oitenta, resolveu falar de sua própria vida e descobriu que angústias e frustrações eram mais comuns do que imaginavam. Em toda roda com "músicos" de plantão, alguém levanta a voz para divagar, com arrogância, sobre acordes e oitavas que deveriam estar desta ou daquela maneira. Virtuosismo, crianças, é lixo. Música é sensibilidade, emoção, sentimento. Se não falar direto sobre a sua vida, esqueça, é só mais uma forma de descarregar suas energias. E, para isso, colocar um "sparring" ou uma bola de luz espelhada no meio da sala pode ser bem mais útil.
- Eu quero a geração dos grandes poetas musicais de volta. A constatação de que "a vida é muito longa quando se é sozinho", o fato de "não querer morrer, mas de já ter desejado nunca ter nascido". Entre samplers, pedais, colagens, instrumentos de percussão marroquinos e efeitos de baixo, quando alguém gritar "ao contar das horas, com tudo dito e feito, sei que vou ter perdido cada momento", pare para ouvir. Não se sente isso apertando botões num aparelho de última geração.
Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
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