Mártir, Medo, Merda, Mídia, Morte
Alenor Alves Jr.
- Neste outono de 98 vivemos conciliando opostos: o sol escaldante desse mês que, aliás, é o mais calorento das últimas três décadas com as amenidades da vida moderna da juventude desse final de milênio. O termo juventude é freqüentemente explorado nas campanhas marqueteiras que relacionam os jovens com vivacidade e aventura sempre vinculados a um cigarro ou bebida. Essas virtudes tão expostas talvez não condizem com o público juvenil, rotulado de consumidor "teen"(que aliás era um refrigerante anos atrás). O jovem dos dias atuais passa por dificuldades. Alguns aspectos podem ser discutidos. Antes de falar de jovem, é necessário lembrar que são e estão divididos em grupos distintos, apresentando a cada aglomerado um perfil social diferenciado.
- A tipologia geralmente apela à conceitos explorados pela mídia: nerds, skatistas, head-bengueurs, strait edges, clubbers, novos hippies e outros. Acontece pois há uma cadeia de influências cíclicas que envolvem as pessoas e os "meios". Lançam-se modas que são inspiradas em tendências tiradas da rua, e esses modismos são difundidos entre as pessoas. O mais grave é a venda de estilos comportamentais: o que beber, o que fumar, o que lutar e em quem bater, o que estudar, sempre determinando o que a pessoa é pelo que ela tem ou paga para fazer. E por falar em posses, chega-se ao ponto desejado, fazendo uma crítica traçando um caleidoscópio que estampa várias situações típicas dos que têm e os que não têm, e procuram diversão, ter o que fazer na noite, às vezes sem ter o dinheiro necessário. O aspecto socio-econômico é o mais aceitável pois propõe uma dicotomia ríspida: lugares para os que têm e lugares para os que quase não têm. Esses lugares na realidade dividem e segregam os jovens dos dois grupos, coitado daquele que tenta romper as barreiras, quais barreiras? Entradas de cinema que às vezes são pagas com vaquinhas, entradas de boates que correspondem ao ganho semanal de muitos, eventos que acontecem em lugares distantes (pois o centro perdeu seus espaços de lazer para tendas do messias) que impossibilitam o acesso de quem depende de ônibus coletivo (a cidade abriga à noite pessoas que ficam ilhadas durante o hiato de cinco horas que não circula ônibus), exigência de roupas à rigor que expõe muitos ao ultraje de serem barrados por não estarem usando calças ridículas de linho maquinetado que na magdal custavam "apenas trinta e cinco reais", não andar à noite por correr o risco de levar 'ovo na cara', coco, latas de cerveja, sempre arremessados por pessoas que se empolgam por andar em um cubículo que traz 'liberdade', virou objeto de desejo, catalisador de relacionamentos, motor de propulsão do desrespeito à pedestres, "ciclistas, outra barricada que represa a canalização aos espaços nobres".
- É a apreciação que certos locais, e pessoas fazem de uma indumentária falida mais conhecida como o estilo country, a qual abrange símbolos tirados da cultura sulista norte-americana (texana) que remete a lida do agropecuarista yankee. A raiz da música destinada aos incautos apreciadores do estilo começou a vingar em nashville que, aliás, não por mera coincidência é o berço da Ku Klux Klan. Em contrapartida aos argumentos das intempéries enfrentadas pela pessoa que quer transpor barreiras noctívagas goianienses de falsa estirpe surgem falsas justificativas: "para cada pessoa existe o lugar apropriado, seu canto, existem lugares para todos os gostos e estilos", "cada um na sua" etc. Esses dizeres se agrupam formando uma tendência displicente e conformadora que prega uma falsa idéia de que tudo está bem, para perceber melhor basta reparar no 'lay out': não demonstrar fraqueza, ocultar inseguranças, conciliar vícios químicos e virtude, enxergar os problemas alheios como banalidades.
Alenor Alves Jr. é acadêmico do 4o. ano de radialismo da UFG.
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