A via crucis de Beatrice
Jardel Sebba Filho
- Nada melhor que colocar em prática os ensinamentos recebidos. Eu aprendi, na última edição do jornal INTEGRAÇÃO, que, para escrever, não são necessários assuntos de extrema relevância ou de importância nacional. O enriquecimento pessoal que tal revelação me causou acabou estimulando minha vontade de aproveitar essa segunda edição do ano para falar de mim. Acreditem, nada, mas nada mesmo, nem uma revolução nas Ilhas Maurício ou um novo disco do Carlinhos Brown, poderia ser mais irrelevante e desinteressante. Um dos meus maiores sonhos é ter uma filha. Se nascer homem, vai ser uma desgraça. Minha mãe jura que vai ser melhor que nascer sem um braço ou uma perna, mas eu tenho minhas dúvidas. Vários são os motivos para esse radicalismo, mas o principal seria ter uma última oportunidade de entender as mulheres. Não chega a ser um objetivo tão absurdo, se você pensar que os Bitkids conseguiram lançar um CD ou que o PSTU vai lançar candidato à presidência da República. Talvez tão absurdo quanto.
- Assim que Beatrice nascer - seu nome vem de uma atriz francesa, que provavelmente ela nunca vai se interessar em saber quem foi; não vai estar perdendo muita coisa - vou comprar um uniforme do Flamengo, apesar da certeza de que ela vai torcer para o Botafogo. Quando der suas primeiras palavrinhas, vou tentar convencê-la a falar meu nome, o que será uma tortura consciente com a pobrezinha, mas provavelmente ela vai aprender primeiro o nome da mãe, me chamando apenas por apelidos incompreensíveis. E com certeza ela só vai sorrir no meu colo longe das máquinas fotográficas, se apressando em fazer uma pose desesperada sempre que uma se aproximar, deixando para a posteridade a minha falta de jeito.
- Quando ela estiver as vésperas de entrar na escolinha, eu vou comprar o brinquedo mais caro da loja, apesar dela se manter fiel àquele carrinho de bombeiro de plástico que uma tia deu. E vou ter a falsa impressão que ela aprendeu a falar: "Eu quero ser Karen Carpenter quando eu crescer", apesar de estar respondendo essa pergunta no colégio com um simples "bombeira". E aquele vestido cheio de babados e caríssimo vai acabar virando toalha para os lanches com as amiguinhas.
- Um pouco depois, vou doar minha coleção do Monteiro Lobato, para logo descobrir que algumas páginas foram parar no bloco de anotações da galera da bola de gude da rua. E quando a gente tentar ver MTV juntos e ela chamar o Bon Jovi de "velho charmoso", tudo já poderá estar perdido. Logo, os primeiros rapazes vão estar adentrando audaciosamente a minha sala, mexendo nos meus CDs do Joy Division e perguntando se "naquela época existia bateria". Mas o primeiro, com certeza, vai chegar com uma camiseta do Olodum e uma prancha embaixo do braço, intrigado para saber quem foi esse tal de Augusto dos Anjos, "que nunca pegou onda".
- E quando eu pensar que ela está pesquisando meus discos, ela vai chegar em casa com uma cópia raríssima do CD do "É o Tchan" que achou num sebo, apregoando a revolução estético-cultural que a banda promoveu e me perguntando, ríspida, o que eu estava fazendo em 98 que não tinha nenhum disco deles entre os meus.
- E assim os anos vão passar, e logo ela vai idealizar para si uma pequena botafoguense surfista e adepta da geração saúde. E, quando isso acontecer, eu vou ter a certeza que, apesar de mim, ela foi feliz. E que a vingança está a caminho...
Jardel Sebba Filho é acadêmico do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
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