Pé no vento
Marcela Toledo França
- Gente virando porco, porco virando cachorro, cachorro de pura ferida rolando com as crianças na areia fofa, que voa para as casas trazendo, de não muito longe, perigos que não se pode ver, mas que são recebidos com tanta inocência, pelas janelas abertas, que só "Padim Padi Cícero prá dá jeito".
- Barrigas grandes, pernas e braços tão finos que apenas um empurrão de um bêbado poderia quebrá-los. O olhar é tão triste que hipnotiza quem de longe vem pensando que muito pode fazer. Quase tão triste quanto a visão deste mundo é a idéia de que fomos para "ajudá-los", levar um pouco do que "sabemos" e "mostrar" para eles que podem ter uma vida melhor. Mais do que nós fizemos por eles, eles fizeram por nós. Abriram suas casas e suas bocas, mostraram a realidade de um povo "esquecido por Deus e por todos", como nos disse um senhor de oitenta anos, ao nos receber em sua casa, com o olhar firme e a fala forte. Porém, muito cuidado, pois a consciência pode fazer com que sua cesta básica não chegue no próximo mês.
- Uma política ferrenha traz com o assistencialismo uma inércia petrificante, o sentimento de que apenas a ajuda política poderá melhorar suas vidas. Nesse ponto eu discordo do senhor de olhar firme, Deus não se esqueceu daquele lugar, onde a beleza natural nos faz sorrir de verdade. Quem não olhou direito e por isso nada sentiu foram os próprios homens, principalmente os que lá habitam e hoje têm condição de fazer daquele lugar muito mais do que um pedaço de terra perdido no mapa. Muitas oportunidades brotam espontaneamente da terra, mas a terra tem sempre um dono. Todo coqueiro, cajueiro, toda mangueira está dentro de uma cerca. E o que fazem os adolescentes e os homens? Trabalham uma semana, com muita sorte duas, e, durante dois meses ou mais, bebem a limpa (pinga) e aguardam uma oportunidade, mesmo que seja a chance "maravilhosa" de ir para São Paulo.
- Com um pouco mais de ingenuidade poderíamos pensar na beleza desse ato solidário, de jovens bem criados, de boas universidades, saindo de tão longe para "ajudar" pessoas das quais nunca ouvimos falar, em um lugar nunca imaginado por nós. Lindo! Mas não tão simples assim. Esperávamos uma chance de ver o que não se enxerga, de falar o que se lê e de voltarmos mais fortes com essa experiência fantástica. Tenho que admitir que foi uma experiência fantástica a qual nos fez voltar com o olhar mais triste, o coração pesado e os braços abertos como as janelas esperando a areia.
Marcela Toledo França é acadêmica do 11o. período de psicologia da UCG.
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