Artaud, magnificamente louco

Luiz Roberto Cupertino

"Podem meter-me numa camisa-de-força, mas não há nada mais inútil do que um órgão. Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado de seus automatismos e devolvido sua verdadeira liberdade. Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas, como no delírio dos bailes populares e esse avesso será o seu verdadeiro lugar". Esses escritos são de autoria de Antonin Artaud, poeta, filósofo, e ator francês, em uma de suas últimas obras, a saber, para acabar com o julgamento de Deus, uma peça que foi pronunciada por rádio em 1947, já nos anos finais da loucura derradeira do artista.

Entender a obra e a vida de Artaud não é tarefa para moralistas, censores, ou paladinos da lei e da ordem. Ele foi bem mais que sobrevivência enjaulada em uma convenção humanitária, foi um mágico do inconsciente, ávido por afirmar somente sua existência plena e livre. Um carrasco que decapitou a cabeça arrogante da razão, fundando na irracionalidade as evidências imanentes do corpo, bem como sua negação, a prisão, e o determinismo que o corpo atribui ao ser humano. Resumir em um pequeno texto a vida de Artaud é pretensão impossível e que não pode se atualizar. A intenção do autor dessas linhas é lembrar de Artaud, no mês que completa cinqüenta anos de sua morte (Foi encontrado morto em 1948, num quarto de hospício de Paris, estirado como um bambu seco e com um sapato nas mãos).

É importante lembrá-lo não só pela importância de sua obra para o teatro (o livro "O teatro e seu duplo" foi um dos mais lidos na década de 60), mas, principalmente, penso eu, pela maneira inusitada de existir num mundo dominado pelo juízo coercitivo e pernicioso. Artaud foi internado num hospício onde foi penalizado com torturas corporais, como eletrochoque no ânus, excluído do mundo como um louco que não deveria ser sequer notado. Mas Artaud só queria viver uma vida isenta, sobrevivendo sobre a face da Terra como se encenasse uma peça de teatro. Aliás, sua teoria do teatro consistia justamente em destruir este e atualizá-lo na objetividade da vida. Os cães impetuosos da razão o aprisionaram. Artaud não queria órgãos, sejam eles de natureza humana ou institucional. Não queria a ordem, Deus, dinheiro, ou realizar um ato político. Artaud simplesmente não queria. Por isso foi considerado louco.

Em determinados momentos da sua vida fazia "greves de fome", uma maneira achada por ele para se insurgir contra o homem e seu corpo dependente e enfermo. Em suas palavras, "o homem é enfermo porque é mal construído". Deve-se, então, colocar o humano em uma mesa de operações e refazer sua anatomia. Retirar do homem os inúteis órgãos, libertá-lo do micróbio que é Deus, o homem em sangue e osso somente. Não mais um prisioneiro de Deus, que nos dá um corpo sofrível e se ri, do alto da sua arrogância, da nossa bestial existência. Artaud foi um homem sofrido, tinha problemas constantes de saúde, física e mental, freqüentemente internado em hospitais psiquiátricos por suas atitudes anti-sociais.

Toda essa vida surpreendente e sofrida poderia ter sido evitada se Artaud tivesse sido compreendido. Mas não o foi. E agradeço por isso. Agradeço a oportunidade de vislumbrar a coragem de um gênio irracional e tento compreendê-lo de forma irracional. E até aceito que a sociedade chame Artaud de louco, mas me faço sempre um lembrete, introspectivo: Artaud era magnificamente louco.

Luiz Roberto Cupertino é acadêmico do 3o. ano de jornalismo da UFG e do 5o. período de filosofia da UCG.

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