O Anti-Édipo
Luiz Roberto Cupertino
- Foi com muito espanto que li, há alguns dias atrás, em um livro chamado "Crítica da modernidade" do sociólogo francês Alain Touraine, diga-se de passagem um tomo recomendável para uma melhor compreensão dos últimos séculos e deste que está prestes a acabar, a afirmação contundente do autor de que a família se constitui a principal formadora do Sujeito. O cidadão como um misto da razão e da subjetivação, a fim de engendrar um ator social ativo e consciente da sua trajetória histórica. Não sei se por ingenuidade ou prepotência não pude de forma alguma concordar, principalmente tratando-se de um livro aparentemente social-democrata por essência.
- A família, o triângulo edipiano papai-mamãe-filho, é uma forma velada de massacre da individualidade necessária para a formação do sujeito. É a forma primária de manifestação do poder e também a mais explícita. O poder na família é pleno e consistente justamente porque ele é incontestável. Com a família ninguém pode se insurgir com voz de negação. Ela impõe desde cedo a condição submissa e escravizada da relação pais e filhos. Ela incita a obediência à hierarquia repressora, punitiva e incontestável do pai. O pai se vê na condição de proprietário do filho, se vê no direito de escolher o seu futuro, de ordenar os seus atos. Quase sempre ele vê primeiramente a figura do filho para, a posteriori, ver a figura de uma pessoa, ou em termos mais fortes, de um terráqueo. Do filho é esperado submissão, obediência à ordem vigente no lar, respeito às leis preestabelecidas. É uma máquina de poder que produz uma massa mole, caquética e podre. Vomita no mundo alguém que já está subordinado desde sempre ao poder sempre insuspeito da hierarquia. Não é à toa que nós temos sempre a vontade de Ter um filho. Temos sede de poder, sede de propriedade, vontade de potência como um animal erótico, parafraseando Nietzsche e Freud respectivamente. Não posso concordar que essa situação gere um ator social consciente da idéia de democracia. Ela está mais ligada à idéia de desigualdade social, de sujeição a uma elite dominadora, de eliminação da liberdade. Fascismo de édipo.
- O pai que delimita os caminhos de seu filho, que utiliza antolhos para formar um cidadão, não pode ser visto como formador de um sujeito consciente. Essa situação insuportável que o pai estabelece está gerando o fenômeno de desintegração da família, o que é prejudicial, já que o filho agora se sente no direito de ser autônomo, e se ressente contra a ordem de uma maneira niilista. É inútil e débil. O ressentido, nos termos de Scheller, não contribui para o coletivo. O ressentido se vira exclusivamente contra a família, quando na verdade ele deveria se revoltar contra a ordem social massacrante e repressora. A figura dominadora do pai é nociva para a sobrevivência da família, bem como para a disseminação da democracia. Ela não forma Sujeitos, forma delinqüentes ressentidos e niilistas. Isso o Estado adora e incentiva. Neste molde a ação social fica mais distante e o sistema agradece a participação benéfica da família. O presidente gosta dela, o papa também. Ou o papa não conhece a família, ou o presidente a conhece demais.
- Não sou partidário do fim das instituições familiares. Apenas contesto o excesso de autoritarismo dos pais que colocam os filhos na condição de propriedade alienada, que moldam o seu pensamento. A família deve ser um grande centro de debates, não uma entidade proibitiva. A desintegração da família é a desintegração de uma máquina de poder. Talvez os gênios ainda sobrevivam a elas. Temos exemplos históricos. Mas uma sociedade não é formada de gênios. Não há mais espaço para proibições incontestáveis. A liberdade do indivíduo deve ser adquirida de forma consciente, pois quando adquirida de outra forma é ineficaz e perigosa para o seguimento da história. A família tradicional e repressora é o assassinato do pensamento criativo, com ela estamos fadados a conhecer um mesmo pensamento. Aquele do vovô que disse que seu pai respeitava muito o seu avô, exatamente como o bisavô do meu avô respeitava seu avô.
Luiz Roberto Cupertino é acadêmico do 5o. período de filosofia da UCG.
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