O vazio e a verdade tropical

Jardel Sebba Filho

Se Nikos Kazantzakis fosse vivo, com certeza teria orgulho do Brasil de novembro de 1997. O célebre escritor grego morreu em 57, mas deixou um legado fundamental na literatura em obras como "A última tentação de Cristo" e "O Cristo recrucificado". Nesta última, registrou que qualquer nação precisa de ídolos, e muitas vezes os tem não por algum mérito, mas pela simples necessidade de idolatrá-los.

No último dia 1º foi lançado em todo o país, num esquema de distribuição assustador para nossos padrões editoriais, o livro "Verdade Tropical", de Caetano Veloso. Dois dos principais patrimônios da família Marinho, a edição do "Globo" de domingo e o " Fantástico'', prestaram dedicação quase que exclusiva para a divulgação da obra. Já temos um hour-concour para o livro mais celebrado e menos lido desse ano.

E a profecia de Kazantzakis começava a se desenhar. O fã revoltado do cantor já deve estar me acusando de não ter lido o livro. E realmente não li. Assim como quase ninguém leu. Mas se o texto for fiel ao que vem dizendo e cantando Caetano nesses últimos trinta anos, me sinto apto a comentá-lo, afinal falar sobre nada é mais fácil do que parece, principalmente um nada tão idolatrado como esse.

Um patético e até então ignorado Tom Zé discursa sobre a sinceridade de Caetano. Ora, desde quando o grau de interesse que uma obra documental desperta está relacionado com o grau de sinceridade do autor? Então eu posso lançar um livro sobre os bastidores das gravações do programa "Conexão Arte", da Rádio Universitária, que, do alto da minha sinceridade, vou arrebatar um número tal de leitores? Corro para achar no dicionário o verbete "tropicalismo", que aparece com a imponência de um brigadeiro em festa infantil entre os interlocutores da obra. Não acho nada sobre a bossa ou palhoça, nem sobre os pretensiosos cinco mil auto-falantes.

O tropicalismo sempre me pareceu tão consistente quanto os modos da Rosinha na festa do Bolinha. Então um maravilhoso Gilberto Gil vibra com a constatação de Caetano sobre sua cor negra. Provavelmente o livro deve descrever minúcias das roupas íntimas de Gil durante o exílio em Londres ou sobre as tinturas de cabelo usadas por Maria Bethânia durante sua carreira, da série detalhes-tão-pequenos-de-nós-dois. O tropicalismo, esse desconhecido, passa a ser tão importante que qualquer detalhe imbecil da vida de seus protagonistas passa a ser fundamental. Glauber Rocha teria orgasmos filmando "Verdade Tropical".

Jorge Mautner releva a opinião do autor a seu respeito. Temo pelo dia em que não poderemos comprar feijão no supermercado sem antes consultar a opinião de Caetano sobre o preço ou os rendimentos daquela marca. Bethânia celebra a formação intelectual do irmão. Mas o dia em que a relação entre livros lidos e brilhantismo for diretamente proporcional, nossa triste e linda Facomb vira o ápice da mediocridade. Tentar se impor pelo fato de ter freqüentado uma faculdade de filosofia e/ou por aquela verborragia característica do cantor é justificar a minha não-leitura, e de todos os outros.

Não há nada nas obras ou nas posições tropicalistas que justifique essa comoção coletiva. Só a teoria de Kazantzakis. Os tropicalistas são como os cara-pintadas; só existem por conta de uma juventude medíocre que necessita de ídolos vazios para poder se identificar neles. Mas porque esse nada me incomoda tanto? Temo que minha filha, daqui há uns vinte anos, me questione sobre o impacto estético de "Leãozinho" sobre a contra-cultura dos anos 80. Vou preferir abrir as janelas para que entrem todos os insetos, pois ela vai estar para lá de Marrakesch.

Jardel Sebba Filho é acadêmico do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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