A idéia de progresso
Odair José Torres de Araújo
- A palavra progresso tem sido constantemente usada de forma indiscriminada, o que em alguns casos pode ser considerada como ingenuidade de seus usuários, que envolvidos pelos belos discursos políticos ou pela historiografia tradicional, com perspectivas evolucionistas (para usar um jargão antropológico) acabam absorvendo-a sem a preocupação de seu sentido ou pelo menos o que ela sugere.
- Após a leitura de alguns historiadores contemporâneos, tenho percebido o cuidado, em seus escritos, com essa palavra, ora ignorada, ora aparecendo sob uma análise crítica. Cheguei a pensar que, nos dias atuais, ela só estivesse sendo usada sob a perspectiva "acrítica", como citado acima na comunicação do senso-comum.
- Entretanto, recentemente, este jornal publicou um artigo de Luiz Roberto Cupertino, com o título "O medo do Progresso" (INTEGRAÇÃO, n.º 01. set/97). O artigo sugere a existência de um atraso brasileiro em se tratando da relação Estado x Igreja. O medo do progresso, ou impossibilidade de sua efetivação seria, nesse caso, devido à presença da religião. Ela seria o grande entrave do "progresso".
- Estranhei, pois se tratava de um texto "acadêmico"! A linguagem usada pelo autor, no que se refere estritamente à palavra progresso, mostrou a presença de "acriticidade" também na "Comunicação" acadêmica. Bem! Talvez eu esteja sendo injusto. Minhas palavras anteriormente apontam para uma acriticidade presente em todo meio acadêmico da área de Comunicação. Não é essa minha intenção, tampouco penso assim. Limito portanto minha crítica ao acadêmico Luiz R. Cupertino, sendo ela restrita à questão aqui tratada.
- Voltemos ao "progresso". "Curiosamente" o Estado getulista teve como importante base de apoio a Igreja católica. Justo este Estado, cujo governo pregou o progresso, o desenvolvimento, o Brasil "moderno"! Não cabe aqui discutir se de fato ele conseguiu ou não o seu "objetivo". Apenas chamo atenção para o uso dessa palavra. Ela está presente num Estado que tem relação próxima com a Igreja, com a religião. O que pretendo apontar é que enquanto o autor de "O medo do Progresso" afirma um atraso brasileiro na relação Estado x Igreja, sugerindo, com isso, o não desenvolvimento devido à religião, ela aparece em outro momento da História como colaboradora de um "Estado desenvolvimentista" ou "progressista".
- É interessante observar, ainda, que a Inglaterra, um dos países mais importantes da Europa, tem o monarca como chefe da Igreja Anglicanaque advém do séc. XVI. Não me parece que isso tenha sido causa de algum atraso à Inglaterra!
- Pensando numa perspectiva teórica, podemos citar Max Weber (1864-1920), um clássico do pensamento sociológico, que ao estudar as causas do desenvolvimento do Capitalismo, aponta como sendo uma delas a ética protestante.
- A partir dessas explanações, acredito que não se pode ter uma visão simplista acerca da religião. Não quero com isso ser interpretado como um dos seus apologistas, mas apenas chamo a atenção do leitor para a gravidade de atribuí-la como responsável pelo atraso de um Estado, sem antes fazer uma análise histórica. Ademais, a palavra "progresso" está envolta em um discurso ideológico, que só tende à incompreensão e questionamentos de seu significado.
Odair Torres de Araújo é acadêmico do 4o. ano de ciências sociais da UFG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
Primeira -
Anterior -
Próxima -
Última
© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
|