A vida e o aborto
Luiz Roberto Cupertino
- Tratar de uma questão que envolve tantos sentimentos humanos, de altruísmo e de caridade extrema, é uma tarefa perigosa. Tanto mais é quando se trata da questão do aborto. Um grande leque de discussões é logo aberto e de imediato posições discrepantes e raivosas são colocadas à mesa. É, sim, uma questão complicada, pois envolve princípios religiosos, princípios de vida e, principalmente, uma ameaça à espécie. O que não se pode fazer é ditar uma liberdade, ou seja, dizer o que alguém deve fazer ou deixar de fazer quando o que está em jogo é uma questão amplamente pessoal antes mesmo de ser uma questão de sobrevivência da espécie.
- Tal discussão gira em torno principalmente da idéia de assassinato. Abortar é matar um ser humano. Abortar é tirar a vida de alguém. É esse um aspecto interessante: o nosso talento de cuspir vida onde o que se manifesta nada mais é do que um poder-ser. Dar vida a um feto é algo que fazemos de melhor e isso não me estranha. Constantemente dizemos que uma máquina "engoliu" a ficha, o meu tênis "comeu" a meia, ou não nos sentimos nem um pouco sentidos ao comer um ovo frito. Mas o ovo não seria uma vida que foi brutalmente interrompida? Sim, mas Deus criou seus súditos à sua imagem e semelhança. Se há ensejo mais pedante para um ser humano não posso dizer, mas acho bonito a nossa superioridade como fruto de um preconceito evolutivo. É questão de humanidade.
- Diferente dos animais, os seres humanos se reúnem conscientemente e têm como dádiva da razão o princípio do altruísmo: cada ser humano consegue pensar coletivamente. Enquanto os animais só conseguem se conceber em sua individualidade, os homens conseguem pensar sua espécie. Tornam-se, então, todos guardiães da espécie que tem como mestre e mentor o Todo Poderoso. Salvar vidas é uma questão de honra. É o trabalho do operário de Deus na Terra. Conservar a espécie, manter a soberania de Deus sobre a ciência, destruir os valores que não se enquadram em determinada moral...
- A contradição é que as pessoas que são radicalmente contra o aborto, normalmente pessoas que nunca sofreram uma gravidez indesejada na pele, são as mais religiosas. Sim, aquelas que vêm na ciência o monstro da pós-modernidade, a aniquiladora de vidas, a dona da bomba H. Mas é justamente sobre a ciência que elas apóiam suas falácias. O feto é vida, pois possui as fitas genéticas que a biologia caracteriza como vida. Resta saber se o feto sabe disso.
- Não se sabe ao certo onde as discussões sobre o aborto vão chegar. Há muito fanatismo, muitas operárias da fé de plantão prontas para avacalhar o desenvolvimento do país. É preciso legalizar o aborto. Socialmente. É uma estupidez pensar que a não legalização do aborto vai parar com a indústria do aborto clandestino, porque não vai. Enquanto isso milhares de mulheres morrem vítimas de péssimas condições na hora de fazer o aborto. Não se pode simplesmente fechar os olhos para esta realidade. Mas não é preciso apenas legalizar. É preciso dar condições sócio-psicológicas para que a pessoa realize o aborto e se sinta bem. É preciso que ela saiba que não se tornou uma assassina. É preciso dar a ela a liberdade de poder ao menos ter domínio sobre seu corpo, e sentir-se bem no exercer da liberdade.
- Sartre dizia que a existência precede a essência. Não pretendo pregar o existencialismo ateu aqui. O que me interessa é a frase fora de qualquer denominação teórica. A vida, penso, só é manifestada quando o ser está no mundo, quando ele tem consciência de que está no mundo. Quando ele desenvolve suas atividades vitais através dos sentidos. Não é consciência crítica, é claro. Uma criança recém-nascida seria um feto no mundo, argumentariam. Mas é o a palavra mundo que faz sentido aqui. Somente nele podemos desenvolver uma essência real, e esse desenvolvimento começa a partir do momento em que aquele homem de branco dá sonoras palmadas no homenzinho nascido. Que chora para mostrar que, agora sim, faz parte da terra e seus minerais. Chorar, sorrir, sentir, desejar... são essas as tarefas do homem enquanto existente. Reprimir essas tarefas, sim, constitui um crime contra a essência humana. Não sou contra o que pode vir a ser uma vida, apenas sou mais adepto àquela vida que já se faz presente.
Luiz Roberto Cupertino é acadêmico do 5o. período de filosofia da UCG.
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