Jabor e o meu despertador
Jardel Sebba Filho
- Há poucos meses, Goiânia sofreu um abalo em seu meio cultural, que por sinal não precisa de muito para tal, com a visita do jornalista Arnaldo Jabor para uma palestra no Centro de Convenções. Jornalista? Tudo indica que sim, inclusive alguns estudantes que se emocionaram com a "visão de mundo" do "jornalista". Mas, da série antes-tarde-do-que-nunca, eu preciso perguntar o que é ser jornalista?
- Talvez seja um estado de espírito, um dom, uma vocação muito maior do que um diploma. Mas me incomoda que um acadêmico de direito que passou colando e dava duas aulas de cinema em escolas em que nunca se predispôs a freqüentar seja modelo profissional para alguns de meus colegas. É público e notório que o talento para escrever está muito além das universidades, mas enquanto carreira profissional, precisamos de um embasamento que, ainda longe de ser pleno, passa necessariamente pela escola. Senão, vejamos.
- A histeria coletiva que tomou conta de alguns estudantes de jornalismo me lembra aquele estudante de direito que insistiu comigo que o exército peruano tinha o dever de matar os guerrilheiros do Tupac Amaru; ora, então vamos rasgar os códigos legais, parar de sustentar com dinheiro público as escolas de direito, os fóruns, os promotores públicos, vamos viver de bom (?) senso. Matar guerrilheiro rendido é contra lei, é execução sumária, é tão chacina quanto a Candelária ou o Carandiru. Idolatrar um cara que fez faculdade por conveniência, cinema por dinheiro e televisão por vaidade e tê-lo como exemplo de jornalista me faz perguntar o porque de acordar todas as manhãs para assistir aula.
- Muitos já devem estar enumerando os talentos que Jabor demonstra ter, e não duvido deles. Da mesma forma que eu tenho certeza que entendo muito mais de relacionamento e de alma humana que a minha professora de psicologia, o que não me torna um profissional. É evidente que não devemos nos privar dos textos do Jabor e de nenhum outro colaborador eventual ou efetivo que venha a engrandecer nossa profissão; o que precisamos é ter bem claro quem é profissional e quem escreve por hobby, por dom, por vocação, por vaidade, pelo bem do sentido que tento dar ao meu despertador todas as manhãs.
- Poderia acrescentar que sua vaidade trabalha em prol do método global de ensinar política, destruindo todas as instituições tradicionais para o cara ir aprender sobre o assunto na novela das oito, mas deixaria transparecer minha antipatia pessoal e comprometeria minhas idéias. Portanto, vamos simplesmente repensar o papel do Jabor dentro do jornalismo, para poder manter a importância do meu despertador. Enquanto o sindicato se preocupa tanto com os estudantes da área nas redações, as mesmas são invadidas por advogados, médicos, publicitários, e nós aplaudimos, como a platéia do Centro de Convenções.
Jardel Sebba Filho é acadêmico do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
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