Cem anos d.C.
Gilberto Gomes Pereira
- No dia cinco de outubro de 1897, às margens do rio Vasa Barris, no sertão da Bahia, a população de Canudos chegava ao fim. Mais de 25 mil pessoas foram mortas pelas tropas do Exército, por ordem do governo republicano, numa guerra que durou de janeiro a outubro daquele ano. Alegação: o povo do arraial de Canudos, liderado por Antônio Vicente Mendes Maciel, ou Antônio Conselheiro, estava pregando a desordem e incentivando as pessoas a se voltarem contra a República, para reinstaurar a monarquia. A opinião pública foi preparada. Era preciso salvar a república. O Brasil não poderia permitir que um fanático religioso, monarquista, liderando um grupo de sertanejos, igualmente fanáticos e revoltados, continuasse se rebelando contra a Ordem e a Segurança nacional. Eram as justificativas do Governo de Prudente José de Morais Barros, o primeiro presidente civil da história do país. As justificativas foram aceitas. O povo brasileiro foi envolvido por um véu ideológico que não lhe permitia ver as causas primárias do movimento de Canudos.
- No final do século XIX, o Nordeste brasileiro sofria sua maior crise econômica. As condições de vida da população nordestina eram lastimáveis. Vivia-se num regime semi-feudal. O trabalhador "livre" não tinha outra saída a não ser trabalhar para os grandes proprietários de Terra, em média de 12 horas por dia, para garantir o seu sustento e o de sua família. Com a abolição da escravatura, em 1888, aumentou o número de trabalhadores "livres" e os latifundiários podiam escolher seus "servos" como quisessem, pois havia muitos passando fome, e fariam qualquer coisa, trabalhariam quantas horas fossem preciso, por qualquer pagamento. O povo era explorado, ignorado, tratado como se fosse apenas uma parte insignificante do trabalho com o cultivo da terra. O sertão nordestino estava assolado pela miséria, pela fome e pelo analfabetismo. Uma massa ignorante, faminta, desprovida de qualquer esperança de melhoras, sem a menor perspectiva de futuro, só poderia apelar para a inexplicabilidade imediata, a fé religiosa. O primeiro que passasse pregando uma ideologia contrária à da classe dominante e baseada em princípios religiosos, conquistaria aquele povo carente e explorado, como o fez, de fato, Antônio Conselheiro. Se não levou um número maior que 30 mil pessoas para Canudos, foi porque os donos do poder resolveram acabar com a "festa" antes que fosse tarde demais. Estavam perdendo sua força de trabalho, seus burros de cargas, e se Canudos desse certo, poderia haver um surto de desobediências e a estrutura agrária, baseada na grande propriedade rural e no trabalho semi-escravo, estaria ameaçada. Canudos, então, deveria deixar vestígios, sem entrar para a história como a luta desesperada de um povo que só queria matar a fome e sair da miséria. Para o Governo, aquele povo era um bando de desordeiros, fanáticos que só pregava a desordem e merecia morrer. Como todos morreram. Velhos, crianças, mulheres. Foram impiedosamente assassinados, exterminados sem direito à prisão de guerra. Porque não eram guerreiros. Eram desordeiros. Não eram gente. Eram uma mistura de animais brutos com a mais ínfima classificação humana. Eram servos, semi-escravos dos latifundiários. A opinião pública aceitou as justificativas do Governo e não se abalou com a morte de mais de 25 mil pessoas, no mais vergonhoso massacre da história do país.
- Cem anos depois da guerra de Canudos, a grande propriedade rural ainda existe. A grande massa ignorante, faminta, analfabeta, continua a existir. A mesma opinião pública de cem anos atrás continua a existir. Mas, agora o governo e toda a classe dominante contam com um aparelho mais ajustado. A realidade não são os fatos. É o que a classe dominante quer que seja. Se se perguntar hoje, para um trabalhador comum, o que foi a guerra de Canudos ou a revolta de Contestado, se ouvirá a mesma resposta de um estudante de 1° ou 2° grau ou, até mesmo, 3°grau: "não sei". No máximo uma escapadela, dizendo que foi uma simples revolta de fanáticos. Poucos saberiam responder.
- O movimento de Canudos ficou perdido na consciência histórica das pessoas. Os responsáveis pela história do país não deram a esse acontecimento histórico, seu merecido valor. Como diz Rui Facó, em seu livro Cangaceiros e Fanáticos, Editora Bertrand Brasil, Rio de janeiro: "Não é por acaso que historiadores, mesmo os mais honestos, exageraram o misticismo religioso dos habitantes de Canudos e o transformaram no móvel único de sua luta. Procuraram assim esconder as causas que a geraram, os verdadeiros motivos de sua resistência maravilhosa e de suas arrancadas heróicas: a opressão semifeudal do latifúndio, a miséria e a fome, frutos da posse monopolista da terra por uma minoria de grandes fazendeiros" (pág.124).
- Canudos não é uma lenda, não é um mito. Foi um fato. Um acontecimento histórico de que cada brasileiro deveria ter conhecimento e saber que a violência autoritária não é privilégio nosso. O que ocorreu em Eldorado dos Karajás não foi um mero acidente. Canudos, a cima de tudo, foi um movimento social. Embora quase que inconsciente, foi uma luta de classes.
Gilberto Gomes Pereira é acadêmico do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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