O medo do progresso

Luiz Roberto Cupertino

Vivemos num país completamente atrasado quando se trata da relação Estado X Igreja. Na maioria das vezes porque as pessoas religiosas são sempre ávidas por polêmicas e basta uma pessoa se declarar descrente que é logo polemizada (FHC sofreu na pele essa discriminação perdendo as eleições municipais de São Paulo após se declarar ateu em um telejornal). Mas o mais impressionante e patético, o que pode nos levar a erigir valores abstratos e insuficientes, é que as pesoas associam a descrença em Deus com um grave ataque aos valores ético-morais da sociedade, sendo considerados, portanto, pessoas que fazem a apologia do caos. Nada mais ingênuo.

Ludwig Feuerbach sofreu essa abjeta acusação em dose mais sutil. Dizia ele que Deus nada mais seria que um instrumento que o homem criou para amar os próprios homens. Sim, pois um Deus que ama os homens, Deus que este criado pelo próprio homem, desperta nos homens um sentimento de gratidão por ele tanto nos amar, o que acaba sendo amor pelos próprios homens. "Amemo-nos sem a necessidade de um Deus", dizia ele. Foi acusado de trocar Deus pelo amor. Tamanha injustiça só poderia sair da falta de argumento, essa hora quando o discurso do sentimento toma corpo, ignorando até mesmo os princípios lógicos que devem reger nossa sociedade. Ora, amor é amor, Deus é Deus. Confundí-los é eliminar ambos simultaneamente.

Não podemos pensar que um Estado separado da Igreja será um Estado infrator por um simples fato: os valores ético-morais não têm de maneira alguma origem divina. Eles nascem de um contrato social rousseauniano onde os próprios cidadãos criam, de acordo com seus sentimentos, uma teoria que possa ser cumprida universalmente. É claro que isso é muito difícil devido à variedade histórica que cria diversos valores morais. Mas não é a religião que irá resolver o problema. É muito mais uma questão de cultura. Tais teorias pertencem exclusivamente ao Estado.

Essas divergências absurdas e fanáticas fazem com que um país discuta questões da laicidade nos vestíbulos do século XXI. Um mal entendido sem precedentes. As religiões devem ser respeitadas pelo Estado de modo igual, mas não podemos deixá-las atingir um estado de impasse, a oposição mal feita sempre atrasará o progresso de uma nação já cansada de pseudoteorias sem eira nem beira.

Luiz Roberto Cupertino é acadêmico do 5o. período de filosofia da UCG.

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