Dois
velhos suíços, sentados em um banco de praça, olhando os pombos. É mais
um frio entardecer na cidade de Ogden, uma pequena vila encravada no
coração da terra ancestral. Os dois estão bem agasalhados, pois Isabelle,
a enfermeira sueca, não os deixa saírem de casa sem estarem bem protegidos
do frio. Como sempre, estão a discutir. É o único passatempo que restou
aos dois, cujos débeis corpos se recusam a participar de qualquer atividade
física. Dado momento, um dos pombos famintos se aproxima dos pés de
Gruber.
- Pise nele - Fala Frankel, enquanto tira do
bolso o cachimbo de detetive inglês.
- Pra quê? Só quero que me diga porquê.
- Gruber sente-se impaciente. Odeia o fedor
do cachimbo de Frankel.
- Todos os dias nos sentamos aqui, e
esses merdas desses pombos seguem a vida deles, insignificante, enquanto
nós continuamos aqui, sentados. Isso me irrita.
- Ah, e a sua vida também não é insignificante?
O que você é, em termos de importância, no mecanismo do universo? Um
nada! E além do mais, isso não é motivo para matar a ave.
- Claro que é um bom motivo! Além do
mais, eu não contei as vezes em que eles cagam na gente.
- É, esse é um bom motivo. - Gruber
tenta chutar o pombo, sem muito sucesso. Os seus músculos frágeis não
conseguem movimentar as juntas doloridas. Ele admite o fracasso com
um gemido.
- Você é uma puta mesmo. Não consegue nem chutar
uma bosta de animal com o QI de uma framboesa! - Satisfeito, Frankel
acende o cachimbo.
- Framboesa não tem QI, seu energúmeno. E os
pombos são animais inteligentíssimos. - Gruber fala sem tirar os olhos
dos pombos, que seguem ciscando pela praça.
- Os pombos não são animais inteligentes. São
aves burras que só servem para cagar e transmitir doenças. Mas vindo
de você, eu entendo a sua opinião.
- Ah é? E por que?
- É uma simples questão de padrão. Para
o seu padrão de inteligência, os pombos são animais espertos.
- O que você quer dizer com isso? -
- Eu? Nada.
- Escuta aqui, seu animal, os pombos
tem o mesmo direito a vida que você, que é um ser humano e também caga,
como os pombos.
- Só porquê eu os pombos temos um ponto
em comum, que para mim é irrelevante, não significa nada em termos argumentativos.
Eu sou infinitamente mais importante que um, dois, até cem pombos.
- Me diga uma coisa, Frankel, você sabe qual
a média de vida de um pombo europeu?
- Sei lá! Mas que pergunta imbecil!
Essa deve ser a informação mais inútil do mundo.
- Não! A informação é importante para
os ornitólogos, então já deixou de ser inútil.
- Os ornitólogos são uma raça inútil.
- Mas é claro que não são! Meu Deus,
como você é reacionário! -
- Prefiro ser reacionário. Enquanto você e seus amigos estavam correndo
de um lado para o outro, se entupindo de gás lacrimogêneo, e ainda por
cima apanhando da policia, em 68, eu estava em casa, tranqüilamente,
comendo um monte de mulheres.
- Quando acontecer uma revolução, você
vai ser o primeiro a ir para o paredão. - Gruber desiste de conversar
com Frankel. Está com raiva.
- Gruber?
- O que é?
- Por que você queria saber a média
de vida de um pombo?
- Está bem. Um pombo, digamos, vive
entre uma a dois anos. Você já está aí pelo menos há uns setenta anos.
Quem cagou mais? Você, ou o pombo? Hein, hein?
- Mas que raciocínio estúpido! Só porquê
o pombo cagou, ou cagará menos que eu, isso não significa nada. Eu construí
uma sólida reputação no meu ramo. Deixei descendentes. Quer comparar
isso com a vida do pombo?
- Não interessa, só quero que você admita
que a quantidade de merda produzida por você é amplamente superior a
produzida pelo pombo.
- Ora, vá se fuder! Toda essa discussão
é irrelevante.
- Irrelevante pra você, que perdeu.
Neste exato momento, um menino chega
correndo e espanta todos os pombos. É Helmut, o gordo e rosado filho
de um casal de alemães. Ele se aproxima dos dois alegremente, e lhes
deseja boa tarde. Os dois o ignoram. Ele traz um papel na mão.
- Senhor Gruber e senhor Frankel, posso ler
meu poema para vocês? - Os dois se entreolham.
- Vá embora. - Fala Frankel, secamente.
- Deixe ele ler o poema dele, seu grosso.
- Está bem, mas seja rápido. - Frankel
põe mais fumo no cachimbo e acende. O menino se apruma todo e começa
a ler:
- "Como são belas
As flores de Ogden
Como são doces
Os pães de Ogden
Como são belos
Os riachos de Ogden
E como são vivos
Os pombos de..." - Não pode terminar,
pois Frankel havia lhe arremessado o cachimbo na cabeça. Algumas das
brasas do cachimbo atingem o casaco da criança, que instantaneamente
rompe em chamas. O menino sai correndo, abandonando o poema no chão.
- Frankel, seu desgraçado, vá se fuder! Não
se jogam cachimbos em crianças de oito anos! -
- Eu faço o que eu quiser, você não manda em mim.
- Não é uma questão de mandar, é uma
questão de coerência. Não se jogam cachimbos em crianças de oito...
- Quieto! Acho que ouvi a voz de Isabelle.
- A enfermeira se aproxima, vinda da padaria. Nas mãos ela traz um pacote
de pães frescos, fumegando no frio da quase noite.
- Vamos voltar para casa, está ficando muito
frio. - Ela fala com sua boca sensual. O uniforme de enfermeira possuí
um vigoroso decote, que deixa escapar um par de seios deslumbrantes.
Os dois derretem-se em sorrisos.
- Já vamos. - Responde Frankel. Isabelle
faz cara de preocupada, e segue de volta para a casa. Os dois seguem
com os olhos e a libido o seu rebolar sinuoso.
- Pra quê está olhando, seu velho impotente?
- Fala Gruber
- Impotente é você, que não tem uma ereção
desde 1984. - Devolve Frankel, com estilo.
- Eu gozo da mais perfeita potência
sexual.
- Claro, você esperava o quê, depois
de passar a sua vida toda sem comer ninguém.
- Eu comi sua esposa. - Afirma Gruber,
desafiante. - Comeu nada. A única mulher que você comeu foi a Martha,
sua secretária.
- Mentira! Quem comia a Martha era você.
Enquanto você ficava lá, comendo ela, eu estava na sua casa, comendo
a sua mulher e limpando o pau nos seus lençóis.
- Mentira. Ah, vamos embora Gruber,
eu estou com frio.
- Vá, se quiser. Eu gosto do frio. -
Frankel tenta se levantar, mas só consegue depois da terceira tentativa.
Com dificuldade, se abaixa para pegar o cachimbo, que ficou no chão
congelado da praça. Ao pegar o cachimbo, nota que está rachado.
- Garoto desgraçado, quebrou meu cachimbo!
- Não, foi você quem quebrou. E sabe
disso.
- Ah, foda-se. Vou cagar no poema. -
Frankel baixa as calças e, tiritando de frio, tenta defecar em cima
do poema de Helmut. Depois de alguns segundos de bruto esforço, consegue
soltar um belo par de cagalhões em cima do papel. Satisfeito, levanta-se
com dificuldade e sorri para Gruber. Este limita-se a ignora-lo, enquanto
passeia com o olhar perdido pela paisagem fria e desolada de Ogden.
Nisto, aparece Isabelle, ao longe. Certamente que veio para busca-los.
Frankel ajuda Gruber a se levantar e os dois seguem juntos, de braços
dados, em direção à casa.
PROA DA PALAVRA / OGDENZINE
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