Duas árvores

Quando Orlando gozou, ela engoliu tudo. Depois do clímax dele, sobreveio um momento de tranqüilidade. Eles permanecerem deitados na cama, ele a afagar os cabelos dela, ela a passar delicadamente as unhas no peito dele.
- Cê chupa tão gostoso, amor... Eu te amo.
- Eu também te amo, Orlando.
E ficaram os dois, assim, em paz, por algum tempo. Mas o idílio logo foi interrompido pelo som histérico do celular dele. Afobado, ele atendeu rápido à chamada. Era Zé preto, querendo notícias do seu secretário. Fazia já dois anos que Orlando trabalhava para o esperto traficante, um homem muito vivo, verdadeiro osso duro de roer. Era justo, mas implacável. Orlando ainda sentia, vez ou outra, dores nos lugares onde o chicote havia rasgado a sua pele. Uma vez, Zé preto tinha o enviado para buscar um carregamento no quilômetro quarenta da estrada Salvador - Feira de Santana. Aparentemente, o caminhoneiro estava marcado pela polícia rodoviária, e corria risco de amargar um prejuízo nas mãos dos policiais. Orlando devia ir encontrá-lo no meio da estrada e receber a carga, enquanto o outro voltava dali direto para Salvador, evitando assim passar pelo lugar onde certamente haveria uma patrulha, a corruptamente vigiar o movimento na estrada. Mas Orlando demorara demais, entusiasmado com uma partida de biriba, e perdera o horário. Impaciente, o caminhoneiro resolvera partir de qualquer jeito para Feira. O resultado foi nada menos que o esperado; E o prejuízo, Zé preto descontara no lombo do relapso secretário, em frente a loja do Martins, e também a vista de todos. "Assim você aprende que tem coisa na vida que precisa de ser sério, e nunca mais esquece a lição." O chicote de açoitar boi soou nas costas de Orlando, uma, duas, cinco vezes.

Ele, por si só, era um tremendo irresponsável. Menino criado pela avó, filho de mãe morta com pai fujão. Era assim, meio estereótipo, mesmo por quê não lhe faltaram oportunidades. Estudara até a oitava série, por firmeza da avó. Mas quando esta se fora, Orlando ficou só no mundo, e acabou entrando na bandidagem, apadrinhado por Zé preto. Bom de biriba, bom de copo, bom de enrolar baseados, mas ruim de fazer conta, e de ler até jornal. Mas, apesar de tudo, possuía boa aparência, tinha os olhos coloridos da mãe, azuis, e a tez forte, como o pai. Herdara do pai a malandragem; Este havia ido embora quando ele era ainda uma criança de colo, largando a esposa atrás de qualquer boceta que ele conhecera em um dos muitos botecos que freqüentava. Ele era, como o pai, um perdido no mundo.

Tinha na noiva a grande alegria de sua vida. Cristina era uma morena de cabelos bem pretos e lisos, olhos negros e rosto e corpo bem formados. Ele a amava sinceramente, mesmo sem saber que esse sentimento era a única coisa pura que possuía, entre o tráfico de drogas e as partidas de biriba regadas a schincariol. Cristina morava com a mãe e o pai, ambos funcionários públicos, a progenitora caixa do Banco do Brasil, o pai escriturário. Na casa simples de dois cômodos, quarto e sala, o retrato da irmã mais velha de Cristina tinha destaque em cima da televisão. Atropelada por um caminhoneiro cheio de rebite e cachaça antes de Cristina nascer, a menina se fora na tenra idade de dois anos. Mas Cristina não gostava de olhar para a imagem da irmã que nem conhecera, portanto virava o porta - retrato de costas toda vez que sentava-se em frente ao televisor para assistir aos encontros e desencontros de fantasia do folhetim das seis. Virar e revirar a fotografia já havia se tornado um hábito imperceptível na consciência dela. Para os pais, não havia castigo maior, sendo que Cristina não era exatamente uma substituta de qualidade para a outra. Esperta mas preguiçosa, mal sabia ler e escrever, nem manifestava desejo de procurar emprego. Passava os dias vendo televisão e indo pra cama com Orlando. Nisso ela era impagável. Assim como podia discutir até os mais intrínsecos detalhes da trama das novelas, era uma amante espetacular.

Zé preto falava com uma voz calma, enquanto ordenava ao secretário que fosse até o Campo do Galo, um bairro "popular", e resgatasse uma dívida do Nenéu caveira, que comprara cinco quilos mas esquecera de repassar o dinheiro para quem era de direito. "Fica tranqüilo que o Válber vai com você, para garantir que o Nenéu caveira não vai dá uma de homem macho e negar o que me deve. Eu tenho certeza que ele vai pagar, por que o Nenéu é homem bom e não fuma nem cheira, só faz o movimento. Mas é pra ir agora, que eu tô com pressa de botar as mãos nesse dinheiro" Assim, Orlando largou a noiva na cama e saiu atrás do Válber, que estava em casa por que era dia de caruru, que a esposa dele cozinhava muito bem. No caminho foi pensando em Nenéu caveira, um dos principais concorrentes de Zé preto, mas que não contava com seus próprios contatos para conseguir a droga. Precisava comprar o produto de outros peixes maiores, e fazendo isso, ficava no prejuízo em relação aos outros. As ruas de Feira de Santana estavam vazias. Eram quatro horas da tarde, alguns automóveis levantavam poeira e o sol batia de frente com as janelas de algumas casas. Quando entrou na rua da casa de Válber, uma criança descalça e barriguda olhou para ele e sorriu com os dentes de leite apodrecidos e a bexiga descomunal. Orlando encontrou o capanga de barriga para o ar, deitado na rede e roncando que era uma maravilha.
- Acorda porra! Levanta que o Zé preto mandou a gente resolver uma parada ali no campo da galo. Leva o ferro que é cobrança! - Orlando não teve cerimônias: Entrou na casa do sergipano e começou a sacudir a rede sem pena nenhuma.
- Oi, oi, seu chegado...Isso é jeito de se acordar um cristão? - O homem passava a mão pelos cabelos e coçava os olhos, limpando os dentes com a língua.
- Qual o quê, Válber, que a última vez que você entrou em uma igreja foi no casamento, e mesmo assim cê tava com os cornos cheio de pinga!
- Mas ainda sou cristão, batizado em nome de Nosso Senhor... - O homem sorriu para Orlando, enquanto calçava as botinas. Válber era o capanga fixo de Zé preto, um sergipano de meia idade, estatura mediana e com fama de sanguinário. Orlando sabia muito bem que era só fama, já que fazia algum tempo que o homem não mandava ninguém para acertar as contas com Deus, ou com o diabo. Mas mesmo assim, Válber possuía o revólver, e esse era o verdadeiro intimidador da estória.

Chegaram na casa de Nenéu caveira e encontraram-no limpando uma montanha de entulho no quintal. Ao enxergar os dois, ele imediatamente percebeu do que se tratava. Depois dos tradicionais cumprimentos de homens de "negócios", Orlando explicou que Zé preto estava esperando o dinheiro que ele devia, que já estava na hora de mudar de mãos.
- É Nenéu...O home ligou pra mim hoje cedo, e disse que era pra vir conversar com o senhor com todo o respeito. Ele me disse que o senhor era pessoa honrada, que não costumava negar dívida não. Pois Zé preto me disse que tava precisando do dinheiro era agora... Sem espera.
- Mas não é, seu Orlando?- Nenéu sorriu para Válber, e depois para Orlando. O sorriso dourado das obturações refletia a luz diagonal da tarde, tornando a boca do traficante sedutora como uma coroa de jóias. - Peraí que eu vou buscar o dinheiro.

Nenéu caveira demorou não mais que cinco minutos. Voltou com o dinheiro na mão, sem embalar. Entregou a Orlando, que deu para o capanga conferir.
- Tudo certo, seu Nenéu! - Ao terminar de contar o dinheiro, Válber confirmou a legitimidade do pagamento.

Despediram-se e Orlando foi deixar o sergipano em casa. Depois, rumou para a casa de Zé preto. O traficante morava em uma casa de dois andares em ótimo bairro da cidade, com paredes bem caiadas e janelas translúcidas, acabamento de primeira qualidade. A residência ainda contava com um amplo quintal, já que Zé preto gostava de plantar frutas e verduras, e uma piscina. Orlando encontrou o chefe ocupado com um exemplar de A Tarde, e coçando os pés como costumava fazer quando estava em casa, relaxado. Ele cumprimentou-o animadamente, e foi logo perguntando sobre o dinheiro.
- Está aqui. - Respondeu Orlando, entregando ao chefe o pacote cheio de notas, das menores até as mais graúdas. Zé preto contou o dinheiro até a última nota, sem perder a conta uma única vez. Enquanto o chefe contava a dívida recebida, Orlando ocupou-se em olhar a mirrada laranjeira, próxima a taluda e bem formada goiabeira.
- A laranjeira tá morrendo, Zé. Não é melhor tirar ela de perto da goiabeira? Uma deve de estar secando a outra.
- A laranjeira está ótima. É só a terra que está meio ruim - Disse o traficante, e logo em seguida deu uma longa e gostosa risada.

Enquanto isso, Cristina assistia a reprise de O Rei do Gado. Conhecia a estória de cor, mas mesmo assim assistia, pelo puro prazer de relembrar a novela. A campainha toca, e ela vai atender. É sua amiga Lucinha, uma vizinha de muitos anos, negra e com a boca cheia de palavras. Era dona de um par de olhos pretos imensos, chamativos como seus seios duros e empinados. Quando passava em frente ao boteco da rua, os homens suspiravam e diziam que "Não tem fruta como essas jaboticabas!" e a moça preferia imaginar que comentavam seus olhos. As duas sentaram-se no sofá amarelo com motivos florais e iniciaram uma conversa. A amiga está bastante excitada. Seu namorado, Giovan, encerrou o longo noivado e resolveu marcar, assim que possível, a data do casamento. Radiante, Lucinha regurgitava detalhes maravilhosos sobre a cerimônia: o bolo de dois andares, o vestido lindo que iria usar, quem convidar e a quem ignorar por vingança.

De início Cristina ouviu tudo com muito interesse, e até um pouco de excitação, também. Mas a sua própria realidade a chamou de volta. Sentiu inveja da amiga, e refletia sobre a sua própria situação; Estava noiva há quatro anos, e sabia muito bem que as pessoas comentavam. Sendo ela uma pessoa simples e sem muito auto controle, começou involuntariamente a dar sinais de que a conversa estava desagradando. Mas a incansável Lucinha continuava desfiando o seu rosário casamenteiro:
- ...Mesmo assim, quando meu pai soube que o Giovan estava disposto a marcar a data do casório, ele ficou feliz. Você sabe que lá em casa o pessoal nunca gostou muito dele, meu pai ficava falando que ele era vagabundo, que esse negócio de trabalhar com vendas era disfarce pra vagabundagem e negócio sujo, e essas coisas todas....Cristina, cê tá chateada? - Lucinha havia percebido o desinteresse da amiga, sabendo que toda vez que ela começava a catar bolinhas no tecido gasto do sofá, era por que a conversa a estava desinteressando. Aproveitando a pausa, Cristina suspirou e abriu a sua caixa de pandora:
- Sabe o que é, Lucinha, é que você falando assim, que o Geraldo resolveu casar logo, e que sua família ficou feliz, e tudo isso, me deixa meio pensando, por que já tem mais tempo até que eu e o Orlando tamos noivando, e ele não resolveu o mais importante ainda. Eu queria me casar pra sair logo daqui, ir morar com ele, ter a minha casinha. Esse negócio de homem que demora pra marcar data cê sabe muito bem como é que termina... Por mim a gente casava logo, mais toda vez que eu toco no assunto, ele desconversa. Eu tô ficando cansada, e com medo. Pra ele a situação é ótima, ele é dono dele mesmo, não presta conta pra ninguém, mais eu? Eu fico aqui, o dia todo, numa vontade louca de ter um gurizinho dele...pra eu criar, tomar conta... - E buscava nas paredes azuis desbotadas o amparo da familiaridade. Lucinha permaneceu calada alguns segundos, assimilando a angústia de Cristina. Tomou fôlego e destilou o elixir para o problema.
- Olha, eu vou te dizer. Homem não presta mesmo, se não puxar as rédeas eles saem soltos mesmo, tem mais é que botar um freio forte nesse rapaz, Cristina. Se você não falar com ele de uma vez, e dizer o que você quer, ele fica assim, nessa indecisão que a gente sabe que não é indecisão coisa nenhuma, é mais medo de se amarrar e largar essa vida boa que eles levam. Tem que dar uma idéia firme pra ele, senão ó...cê fica na mão, olha o que eu tô te dizendo.

Depois de conversar por uma hora com Lucinha, que lhe deu mais uma série de conselhos sobre como abordar Orlando, Cristina sentiu-se melhor. Determinada, decidiu que precisava conversar urgente com o noivo. Foi até o orelhão da esquina e ligou para o celular dele. Orlando atendeu, com uma voz que mostrava que já estava era tomando umas e outras com os amigos e parceiros de jogo.
- Môr.... Queria falar com você. É coisa bem séria...- Orlando conhecia a voz melosa dela e optou por interpretar o papel da inocência.
- Oxente, o que foi menina? Problema na sua casa, é? - Não, é que eu queria falar com você, sobre aquele assunto, lembra? Que eu te falei mês passado e você falou que ia pensar. - A ansiedade na sua voz era nítida.
- Agora não dá, Cristina, que eu tô muito ocupado. Depois eu passo aí e a gente conversa.
- Depois, assim que horas?- Perguntou ela, ainda com a voz melosa que usava quando queria enternecer o noivo.
- Ah, não sei. De noite.- A resposta deixou Cristina furiosa. Ela imediatamente abandonou a voz tatibitante para encarnar a mulher furiosa do sertão:
- Ah é? Tá ocupado demais para vir falar comigo? Eu sei o quê que tá lhe ocupando. É a cachaça e esses amigos vagabundos, que chupam seu dinheiro todo e fazem você pagar cerveja pra eles, e você paga com o maior prazer, mas é tudo uma cambada de filho da puta, que não serve nem pra limpar merda de gente com a língua! - E bateu o telefone na cara dele. Depois, voltou pra casa furiosa, e foi descontar no pássaro preto que não cantava e estava sempre encolhido no cantinho da gaiola, na cozinha. Chacoalhou a gaiola até que o bicho começou a bater as asas e olhar pra ela, abrindo e fechando o bico mas sem emitir nenhum som.
- Passopreto vagabundo! Só serve pra comer, dormir, e fazer sujeira! - E chacoalhou mais umas vezes a gaiola, só pra descontar a raiva, que ela sabia que era para isso, por que não era de todo estúpida.

Mas não era a partida de biriba, nem as duas grades de schincariol empilhadas junto a mesa que enchiam a cabeça do rapaz e tomavam a sua atenção. Orlando estava era pensando na vida. Estava cansado de trabalhar para o Zé preto, já conhecia todos os truques do negócio e estava pensando que ia lucrar mais fazendo o seu próprio movimento, não secretariando o dos outros. Mas sabia muito bem que não tinha como iniciar a coisa ali, em Feira, por que ia tomar a clientela do chefe e esse ia estar no seu direito de mandar ele comer capim pela raiz. Precisava de dinheiro; Muito dinheiro. Sabia como entrar em contanto com os fornecedores, no sertão, e muitos deles confiavam primeiro nele e depois em Zé preto, já que era ele, Orlando Moreira Canhão que negociava, pagava e recebia quase tudo que o chefe passava. O difícil era arrumar o dinheiro. Precisava de uma boa quantia para começar, já que tinha de pagar aos policiais, comprar o material e arrumar um lugar pra armazena-lo. Mas ele não possuía economias. O dinheiro que conseguia trabalhando para Zé preto gastava todo, se sustentando e sustentando a cachaça dos outros. Mesmo que conseguisse emprestando algum pra começar, sabia muito bem que não ia ser negócio de pai pra filho; Os agiotas iam cobrar juros escorchantes, ainda mais nestes tempos de crise.

E se roubasse o dinheiro de Zé preto? Não sabia onde era que o chefe guardava o dinheiro. Desconfiava que ele guardasse suas economias, que Orlando sabia que não eram poucas, debaixo do colchão. Mas isso parecia óbvio demais, Zé preto era um homem muito esperto. Mas não era só roubar o dinheiro. Como é que ele ia se livrar do próprio chefe? Ele era vingativo, e Orlando sabia disso muito bem. Precisava pensar bastante, até arrumar um bom plano. Largou o jogo e a cerveja sob protestos dos companheiros e foi pra casa, deitar na cama e olhar o teto cru, onde podia-se enxergar as telhas escurecidas pelo sol e pela chuva, que era o que ele fazia quando precisava refletir.

Depois de pensar durante umas três horas, recebeu uma nova ligação de Cristina. Chorosa, ela pedia desculpas. Decidiu ir vê-la, para desanuviar as idéias. Chegou na casa de Cristina e desculpou-se pela falta de atenção que mostrara mais cedo no dia. Pelo estado do passopreto, ele sabia que a noiva estava com raiva. Quando ela entrou na cozinha para servi-lo de suco, a ave se encolheu na gaiola. Ela terminou por perdoá-lo, e fizeram as pazes entre beijos e abraços. Ele fez com que a saia dela deslizasse até os pés, e com mãos de desejo afagava suas coxas e puxava a calcinha. Quando sentiu o cheiro dela, ele sorriu e ela olhou para o chão, e depois para os olhos dele. Fizeram sexo durante uma hora, até que aproximou-se a hora de jantarem. Quando os pais dela chegaram em casa, encontraram o noivo aninhado no velho sofá, assistindo ao Jornal Nacional, e um cheiro de cuzcuz e café fresco pela casa.

No outro dia, Orlando tratou de resolver algumas coisas pendentes. Cobrou algumas dívidas e perdoou outras, apenas aquelas as quais ele sabia impossíveis de receber a tempo. Encerrou o contrato de aluguel da casinha onde morava, e cuidadosamente embalou suas coisas, colocando-as já na mala do carro. Tinha muito pouco, sequer televisão. A geladeira e o fogão eram do proprietário, e assim pelo final da tarde estava pronto. Restava falar com Zé preto. Havia decidido contar uma estória qualquer ao chefe; Que estava abandonando o posto de secretário para casar e constituir família, e partia para Salvador com uma promessa segura de emprego. Iria para a capital e voltaria alguns meses depois para a pilhagem. Restava saber onde o traficante escondia o dinheiro. Orlando achava que conseguiria a informação com um dos filhos de Zé preto.

Quando chegou na casa do chefe, notou que Nenéu caveira dobrava a esquina da rua, acompanhado de um capanga. Ele parecia nervoso, e ao vê-lo, passou sem cumprimentar. "Deve ter levado alguma prensa do Zé. O Nenéu é muito pão duro." Ele pensou, enquanto estacionava e preparava-se para entrar na casa. Assim que abriu a porta, estranhou o silêncio na casa. Os filhos de Zé preto eram barulhentos como só uma tropa de bois, e aquele horário no final da tarde era o pior. Fazendo a volta pela parte externa da casa até o quintal, Orlando descobriu o por quê daquele silêncio. O corpo do traficante permanecia inerte sob os pés de tomate. O sangue escorria do seu pescoço, e pingava na terra e nas plantas, gotejava em cima dos vegetais bem rubros e maduros. Ele estava de bruços, com a cara na terra. Algumas formigas começavam a caminhar pela sua cabeça, e alegremente elas sentiam o açúcar do sangue e organizavam longas filas para transportar aquela delícia vermelha.

A princípio, Orlando ficou chocado. Então Nenéu caveira assassinara o maior traficante de Feira de Santana! Enquanto as formigas tomavam de assalto o cadáver de Zé preto, ele assimilava lentamente a nova realidade. O homem estava ou acabado, ou finalmente obtivera a coragem para fazer o que sempre desejara: Tomar o negócio do seu único concorrente de nível. Mas a realidade era bem pior; Nenéu não só matara o traficante, mas também seus quatro filhos, a esposa e a babá das crianças. Os pequenos cadáveres das crianças Orlando encontrou caídos na sala, em frente a televisão ligada, tranqüilos como nunca foram a assistir um programa infantil vespertino. A esposa e a babá também foram mortas juntas, na cozinha. Nenéu não se dera ao trabalho de apagar o fogo das panelas, que agora empestavam a cozinha com um aroma de carne e leite queimados, assim como o fedor que exalava do corpo das duas mulheres. Ao morrerem, seus intestinos e suas bexigas livraram-se da onerosa carga que sempre os tumultuaram, e agora tudo se misturava com o sangue, no chão.

Passado o choque inicial, Orlando começou a pensar no seu lucro. Precisava achar a caixa forte do chefe. Começou a raciocinar, penosamente. Ninguém sabia que ele estava se mudando, exceto pelos amigos a quem cobrara as dívidas e o proprietário do imóvel onde morava. Mas se ele desaparecesse justamente agora, as mortes certamente cairiam sobre suas costas. Se ele esperasse até que descobrissem ser Nenéu caveira o autor da chacina, talvez perdesse a fortuna acumulada do gangstêr sertanejo para a família do homem, ou para a da esposa. Não tinha como garantir que ele fosse o único a saber da existência do dinheiro. Resolveu arriscar. Tomou a decisão rapidamente, sem pensar, apenas medindo os riscos contra o peso da pequena fortuna que imaginava botar as mãos. Iniciou frenética busca; passados quarenta minutos, não havia encontrado nada. O telefone tocou, tirando Orlando do transe ganancioso em que se encontrava. Lembrou-se que seu carro estava parado na porta. "E se os vizinhos desconfiassem?" Certamente que depois, iriam ligar uma coisa a outra. Decidiu partir dali o mais rápido possível. "Melhor livre e sem dinheiro que preso e sem porra nenhuma!" Pensou, enquanto descia as escadas e saía para o quintal. O cadáver continuava lá, escorrendo sangue e tingindo a grama de um tom escuro. A laranjeira mirrada também estava lá, uma entre muitas plantas que agora velavam o seu jardineiro.

Orlando foi até a pequena árvore e ficou olhando para ela, enquanto um sentimento de nostalgia tomava conta dele. Quando começava a pensar que Zé preto não merecia morrer assim, notou uma pequena deformidade no solo ao pé da árvorezinha. Quando pisou em cima do buraco, notou que a terra era fofa. Com o sapato ele retirou um pouco da terra, e descobriu uma caixa preta enterrada. Esquecendo instantaneamente a piedade, cavou e retirou a caixa de dentro da terra. Esta continha mais do que ele imaginara. Notas graúdas e pacotes de dólares se misturavam, apertados dentro da caixa, que estava cheia até o topo. Rindo para si e limpando os últimos restos de terra da caixa, Orlando saiu da casa e rapidamente entrou no carro, certificando-se que ninguém na vizinhança o vira saindo. Feliz, partiu para a casa de Cristina. Depois de busca-la, embarcariam juntos para uma vida nova. Mas no caminho, encontrou os amigos, sentados em uma mesa de bar, jogando uma animada partida de biriba. Estavam todos embriagados. Orlando decidiu parar e tomar a última cerveja. Demorou duas horas, confabulando e despedindo-se dos companheiros. Lá pelas oito, finalmente foi buscar a noiva.

Cristina contou o dinheiro nota por nota, mas não conseguiu fazer as contas do câmbio e os dólares continuaram com valor de moeda estrangeira. Mas no total, era mesmo uma fortuna: duzentos mil reais, e mais vinte mil em dólar. Assim que ela arrumou as malas, iniciaram-se as despedidas. Os pais dela foram categóricos em suas recomendações para os dois: que logo assentassem em algum lugar e tivessem filhos. Cristina disse aos seus pais que estavam indo morar na capital, onde ele contava com uma ótima oportunidade de emprego. Ele queria partir logo, ainda no início da noite, mas os pais dela insistiram para que permanecessem ainda um pouco.

O pouco virou muito, e Orlando achou que estava seguro na casa da noiva. Dormiam os dois juntos, na sala, quando no meio da noite, a porta foi aberta violentamente. Dois capangas entraram rapidamente dentro da casa e dispararam suas armas. Cristina e Orlando foram pegos em cheio, e logo os lençóis e os colchonetes estavam esfolados pelas balas, e encharcados com o sangue do casal. Orlando morreu com a boca aberta em um grito surdo, enquanto inutilmente tentava proteger Cristina com um dos braços. Ela recebeu dois tiros no rosto, e agora a outrora linda face ostentava dois buracos vermelho escuros, que brotavam sangue quente abundantemente. Quando tudo terminou, os dois foram embora, prestar contas ao chefe deles, Nenéu caveira. Deviam ir agora até a casa do capanga sergipano de Zé preto, Válber, encerrar de vez com o esquema do traficante morto. Enquanto Cristina e Orlando pingavam sangue no chão de azulejos da sala, os pais dela contavam o dinheiro no quarto. E no céu, as estrelas, testemunhas inatingíveis. A vizinhança tentava ser igual as estrelas, com a diferença que podia ser facilmente alcançada. Permaneceram então silenciosos, para serem como as estrelas, e ninguém jamais descobriu nada, tendo o delegado recebido o seu justo quinhão, e Nenéu caveira agora mora em uma linda casa, e os pais de Cristina nunca mais tiveram que trabalhar um dia só, na vida.

maio de 1999/OGDENZINE #4,5,6

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