sábado 16.9.2000
0:03 18-09-2000
Amanhece chovendo e minh'alma se refresca. É como diz Cartola: «Bate outra vez / com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão / enfim
» Tenho planos hoje, um passeio no «eléctrico 28» , o bonde de número 28, que vai dos Prazeres a Martim Moniz.
Desço até o Rato pela Rua Braacamp e, no caminho, entro no Mercado do Rato para ver qual é a do lugar. Não é um Mercado Municipal de São Paulo. Não é nem um Mercado da Lapa da minha infância. Tem lá umas tantas bancas de peixes e uns talhos de um lado e bancas de frutas e verduras e lojinhas várias do outro. Há o pitoresco para um brasileiro, claro: coelhos esticados sem pele, cabeças de leitão, tripas
Mas não há o que vim buscar: salmão e atum fresco. «Nunca vi vender por aqui» me diz a matrona.
O prédio , se serve de consolo, foi tombado pela câmara municipal como patrimônio.
Retomo o caminho do Rato para parar e tomar o desjejum em Il Caffé di Roma , que é uma cadeia de cafés espalhada por Lisboa (ah, se você vir grafado «Lx», isso quer dizer Lisboa) que me pareceu mais autêntica que a Starbucks, apesar de ter mais ou menos o mesmo estilo. Deve ser porque é muito menor. Anyway, as atendentes são simpáticas e não entendiam meu brasilês. Peço um sanduichinho misto que é servido com azeite e orégano, um expresso de Jamaica Blue Mountain e um capuccino italiano. O sanduíche é básico e o pão é meio seco, o capuccino deixa a desejar, mas o Blue Mountain é sensacional. Nunca tomei um café assim. Não é muito ácido nem muito doce, é saboroso e desce redondinho. Não é muito aromático, though, mas tem um aftertaste perfeito. Já viram onde vão ser meus cafés da manhã de fins de semana
Sigo pela Avenida Álvares Cabral até a rotunda em frente ao Jardim da Estrela , cujo nome oficial é Jardim Guerra Junqueiro . O Jardim da Estrela foi construído em 1842 e tem plantas que obviamente não são daqui . Os gramados são manicurados , os caminhos aprazíveis e as muitas estátuas meio escondidas , não intrusivas. Tem até uma pequena biblioteca no meio do parque para leitura local (nos moldes da biblioteca do Parque do Ibirapuera, só que menor e mais bonitinha), um castelo de brinquedo pra molecada se esbaldar e dois laguinhos , com patos e cisnes (com direito a um café na margem).
O coreto verde , em ferro fundido, construído em 1884, é o destaque na opinião dos guias. Na minha, é a calma, os recantos, os banquinhos e o verde cerrado com essa luz de Portugal passando pela copa das árvores e salpicando o gramado .
Saio do jardim para frente da Basílica da Estrela , em reforma e muito bonita, para pegar o bonde 28 até Martim Moniz. Percebo logo por que essa linha é o trajeto turístico por excelência. O bonde lota em frente à basílica. Como são apenas dois pontos até o inicial (na Praça São João Bosco), resolvo subir a Rua Domingos Siqueira à procura do ponto intermediário. Viro à esquerda na Rua Saraiva de Carvalho e encontro o ponto, em frente à Livraria Antiquária de Campo de Ourique.
Pego o 28, que custa 165$00 e sento à janelinha (sim, peguei o bonde andando e sentei à janelinha, meu povo), para uma viagem que me iria espantar. A bateria da máquina fotográfica, porém, acaba e ficamos sem fotos da viagem.
Da Rua Saraiva de Carvalho, o bonde segue pela Rua Domingos Siqueira abaixo, até passar em entre a Basílica da Estrela e o Jardim da Estrela e desce pela Calçada da Estrela, passando pelo Palácio de São Bento (Assembléia da República), à esquerda até a Rua de São Bento, depois subindo pela Rua do Poço dos Negros até o Largo do Dr. Antônio de Souza Macedo, onde fica o Palácio Cabral, depois pela Calçada do Combro, onde fica a igreja de Santa Catarina e o ponto final do elevador (funicular) da Bica (que sobe a Rua da Bica Duarte Belo).
O bonde tem a estrutura de madeira, só os bancos têm a estrutura de ferro (imagino que o chassi também). Há uns botões acima da fileira direita de bancos, campainhas de parada. O bonde para em todos os pontos (sempre tem alguém esperando ou querendo descer). Um porre. Mas é bom porque dá mais tempo de ver alguns prédios.
Seguimos pela Praça Luís de Camões até o Largo do Chiado e daí pela Rua Antônio Maria Cardoso, descendo a Rua Vitor Cordon e a Calçada de São Francisco até a Rua da Conceição, na Baixa.
Subimos a Rua de Santo Antônio da Fé, contornando a igreja de Santo Antônio, passando pelo Largo da Sé, com uma visão privilegiada da catedral da Sé. Aqui há um ponto e o bonde chapa de turistas.
Daí é uma subidona pela Rua de Augusto Rosa, passando pelo Largo de São Martinho, Largo do Limoeiro, e pela Rua do Limoeiro, onde há um ponto que fica na frente de uma escadaria que leva ao Castelo de São Jorge. Passamos pelo Mirante de Santa Luzia e pelo Largo das Portas do Sol, que tem outro mirante. Viramos à direita na Rua das Escolas Gerais, para longe do castelo. As ruas perto do castelo são ruelinhas onde só passa um bonde de cada vez. E a gente fica impressionado como eles conseguem passar com aquele trambolho ali. Tem horas que fica uns 5 cm de cada lado, só. A cabeça para fora, nem pensar!
Continua a subida pela Calçada de São Vicente de Fora, passando pela igreja homônima até a rua trocar de nome para Rua da Voz do Operário, subindo até o Largo da Graça. Daí, vamos pela Rua da Graça passando pelo antigo Royal Cinema (que virou supermercado), e então por ruas menos glamourosas, descendo até o Largo de Martim Moniz, de onde se tem um bela vista do castelo.
Martim Moniz foi capitão do exército de Afonso Henriques (o tal que libertou Lisboa dos mouros em 1147 e se tornou o primeiro rei de Portugal). Reza a lenda que o Moniz se colocou com o machado segurando os portões do castelo abertos para o exército cristão entrar. Morreu trespassado pelas lanças dos mouros mas salvou o dia.
Para voltar, bastava pegar o metrô no Martim Moniz, mas atravesso a praça e pego o 28 do outro lado. Faço todo o caminho ao contrário (exceto aqueles pedaços em que não passam dois bondes ao mesmo tempo, e em que desviamos), até a Praça São João Bosco, ponto final. Dali volto andando e paro na Livraria Antiquária de Campo de Ourique (claro). Dali para o flat.
À tarde vou ao cinema, o King (o Espaço Unibanco de Lx, com direito a café, livraria e três salas de projeção). Assisto Luna Papa com Moritz Bleibtreu (de Lola Rennt) e Chulpan Khamatova, atriz engraçada e engraçadinha. A produção é russa, filmada no Tajiquistão, e a história é bonitinha, com toques de surrealismo bem engraçados. Os atores são bons e o final quase esperado.
Mas o mais legal é andar pela Avenida de Roma até a Praça de Londres e descobrir ruazinhas de prédios baixos que são bem bonitinhos e as primeiras ruas com casas (sobrados) que vejo em Portugal. É a segunda (vizinhança) forte candidata a ter o Kazi como morador. Se os preços deixarem...
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