O Natal de Denis
Nazareth L. de Paula
Naquela manhã aparentemente alegre, a tristeza gritava nos olhinhos
de Denis. Enfim chegara o Natal, mas com ele não viriam os presentes
e as velhas reuniões de família. Viriam sim, como em todos
os anos, o esmorecimento do corpo, ao puxar aquele carrinho, e os sobressaltos
do coração, que, à cada esquina, aceleravam diante
do perigo. A cada passo, os sonhos se distanciavam mais de seu caminho.
Enquanto se desenhava à sua frente a imagem de um menino bem
vestido e impaciente, que estreava, naquele momento, a bicicleta nova que
ganhara de Natal, Denis via lá no fundo, quase no final do túnel,
o iluminado rosto de sua mãe. Seus cabelos estavam ainda presos
e as rugas não escondiam uma vida repleta de privações.
Ela ainda trazia no olhar a confiança, mas sua vida já não
lhe pertencia, apesar de tanto ter implorado a Deus que não a levasse
antes de seu filhinho.
Ver novamente sua mãe era o maior desejo de Denis. De certa forma,
o desejo se realizou, porque há muito tempo não via aquele
rosto tão nítido e tão expressivo como naquele instante.
Três anos foram o suficiente para que seus traços se dissolvessem
em meio ao abismo em que mergulhava o pobre garoto. Tudo o que ele queria
era ter de novo aquele abraço, e aquela certeza de que, apesar de
tudo, estava protegido. Bastava para Denis, neste Natal, ter de volta o
velho prato de sopa, envolvido pelas mãos acolhedoras de sua mãe.
Ter de volta aquele nada, que para ele era tudo, e que o feria, e que ainda
o mataria de tanta dor.
Quando suas pequenas mãos tentaram tocar a doce imagem materna,
elas se chocaram apenas com o ar e com a desilusão. Triste destino.
Seu estômago sentia fome e o pãozinho que todos os dias costumava
ganhar, nesta manhã fria, ele não o teria, porque, no Natal,
as padarias estão sempre fechadas. Geralmente, os estômagos
são irracionais e, portanto, costumam chorar um pouco, até
que cesse o desespero.
As pernas do pequeno Denis, já esmorecidas, não o permitiam
mais puxar aquele carrinho. À sua frente, eis que surge um banco,
tão brilhante como o rosto de sua mãe. Ao lado, uma roseira.
Alguém lhe oferece uma flor. É o garoto que, há pouco,
estreava sua nova bicicleta. Ele pergunta a Denis o porquê de suas
lágrimas, mas o pequeno não responde e apenas mergulha o
rosto entre as mãos.
O belo garoto, de tez rosada e olhos azuis, não desiste e, apesar
do silêncio, insiste em se comunicar com nosso herói:
_Oh, meu bom amigo, por que choras, se a manhã está tão
linda e já é Natal? Não vês? O sol sorri para
ti! Com a voz embargada, Denis responde ao gentil garoto:
_ De que vale o brilho do sol, se ele não ilumina a todos? Meu
estômago chora, e
minha mãe não virá para secar estas lágrimas.
_Mas eu estou feliz, amigo! Ganhei hoje a bicicleta que tanto desejava!
Veja, não é linda?! És tão ingrato! Por que
não sorris? Aposto que também ganhastes vários presentes
neste Natal.
_Cale-se! Não percebes? Meu estômago chora, minha pele
está suja e minhas roupas estão rasgadas. Não me venha
falar de presentes. Tudo o que tenho é um carrinho de lixo. Veja!
Meu corpo não suporta mais essa existência tão pesada.
Meu estômago chora, meus olhos choram, e minha mãe não
virá.
O belo garoto se comove, mas, ao longe, vê a esperança.
Então, ele diz a Denis:
_Olhe, lá vem o Papai Noel! Certamente ele trará um remédio
para tuas chagas!
Olá, Papai Noel! O que tens para meu amigo? Papai Noel então
lhe responde:
_ Para ti, tenho tudo, mas para teu amigo, não tenho nada. Papai
Noel não presenteia os pobres e, além do mais, teu amigo
é feio.
_Oh, Papai Noel, não te mostres assim tão cruel! Não
vês? Meu amigo chora!
_Não posso ajudar teu amigo. Sou pago para alegrar apenas o
Natal de crianças ricas. Vá reclamar a Deus e a teus pais!
Denis vê mais uma vez o rosto iluminado de sua mãe e, numa
fração de segundos, desperta daquele horrível pesadelo.
Ao recordar a imagem degradante daquele Papai Noel, o pequeno ainda sente
calafrios pelo corpo. “Para que existem os presentes? Para que existe o
Natal, e por que o brilho do sol é assim tão sorridente?...
Ele sorri, mas não me faz sorrir.”, pensa nosso pequeno garoto,
enquanto seu estômago chora.
A história de Denis não é feliz como costumam ser
a maioria das histórias. Quisera eu que fosse. Mas, eu, pobre mortal,
o que posso fazer, além de expressar os sentimentos daquela frágil
criança? Não posso mentir, inventar um final feliz, pois
essa história não tem fim. Ela apenas existe, independentemente
de tempo e de espaço. Nesse exato momento, vários garotos,
como Denis, choram pelo mundo afora. Suas imagens se condensam em meio
a presentes impossíveis e à esperança que Papai Noel
nenhum sustenta.
Nazareth L. de Paula é estudante
do 4o. ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
Primeira - Anterior
- Próxima - Última
Voltar para a página principal
© 1997 1998 1999 2000 Jornal Integração
Todos os direitos reservados
|