O Universo Paralelo
Leandro Quintanilha
Seu nome era Francisco. 17 anos, culto, inteligente, de bom caráter.
Mas havia um problema. “Dificuldade de socialização”, como
havia diagnosticado seu terapeuta. O rapaz não tinha amigos, nem
namorada. Na verdade, nunca teve. Sua vida social se resumia ao colégio,
onde praticamente não conversava com ninguém, e às
sessões de análise que os pais lhe impuseram há mais
de um ano.
Francisco tinha problemas de dicção. Dentes, aparelho
e língua: tudo na sua boca parecia grande demais para o espaço
disponível. Quando falava, gotículas de saliva saltavam no
rosto do interlocutor. Isso o deixava aflito. Evitava conversas sempre
que possível. Suas mãos eram trêmulas. Seus gestos,
hesitantes.
A inconstância de seu olhar era facilmente percebida por quem
tentasse encará-lo. Corpo franzino coluna curvada, , óculos
fora da moda. Francisco era o protótipo de um “nerd” de filme
norte-americano. Suas roupas tinham botões demais. Seus sapatos
estavam sempre engraxados. No conjunto, formavam uma aparência excessivamente
formal.
No entanto, aquele rapaz tinha um universo interior bastante diferente.
Era sensível e perspicaz.Compreendia as pessoas rapidamente. Captava
seus medos, desejos e angústias apenas com algumas horas de observação.
Pena que esse dom não era aplicável a si mesmo. Francisco
se desconhecia. Não sabia lidar com suas próprias limitações.
Os problemas de Francisco pareciam não ter solução.
Não havia sequer como amenizá-los. A terapia parecia não
chegar a lugar algum. Ficava progressivamente mais isolado, mais infeliz.
Mas, num dia, as coisas começaram a mudar. Seu pai comprou um computador
e não demorou muito para que a máquina fosse conectada à
Internet. Francisco descobriu um mundo novo. Um refúgio de sua existência
insuportável.
Seu nome agora era Ivan. Suas medidas também mudaram: 1,80m,
76kg. Ivan freqüentava academia, tinha músculos definidos.
Cabelos negros, olhos verdes, pele bronzeada. O publicitário
Ivan, de 25 anos, morava numa cobertura no Leblon e gostava muito de viajar
com os amigos. Já conhecia a Europa, a Ásia e a Oceania.
Seu hobby era voar de asa-delta. Não tinha namorada fixa no momento,
pois, afinal, estava um pouco abalado com o fim de seu namoro de três
anos com uma modelo australiana.
O ex-Francisco não enfrentava nenhuma crise por causa dessa metamorfose.
Uma personagem de um filme que havia visto do Almodóvar afirmava
que ser verdadeiramente autêntico é ser o que se sonha e,
não, o que se é. Ele acreditava nisso. Francisco vivia burocraticamente.
No colégio, contava as horas para
chegar em casa e se conectar à rede. Ivan era bastante requisitado
nas salas de bate-papo. Afinal, todos queriam fazer amizade com alguém
tão bem sucedido e tão bem relacionado. Francisco/Ivan era
uma pessoa feliz. Virtualmente. E isso era muito mais do que o antigo Francisco
poderia ter no mundo real.
Leandro Quintanilha é estudante
do 3o. ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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