A Vizinha do Diabo
Cinira Lucchesi Pereira
Isto aconteceu num dia, que poderia ter sido um qualquer, numa esquina,
que poderia ter sido uma qualquer, com uma pessoa, que poderia ter sido
uma qualquer. Ou não?
- Êta perguntinha besta meu Deus! - parodio o poeta.
E revivo com palavras escritas o fato que me fez sentir a vizinha do
Diabo.
Dentro do carro faz um calor tremendo.
- Você pode abrir mais o vidro? E abaixa esse som! - resmungo,
dividindo minha atenção de motorista entre o trânsito
caótico e essas bobagens cotidianas.
Segue-se o caminho. Sinal verde. Sinal verde. Sinal verde. Até
que vê-se ao longe, o verde transformar-se em amarelo.
- Mesmo que eu acelere, não vai dar pra passar - penso, ferindo,
no mínimo, o manual do candidato à motorista.
Depois em vermelho. Depois em pessoa. Em um pedinte. E uma voz vem do
banco do passageiro:
- Isso me agride.
- O quê???
- É! Isso me agride.
Bingo! Alguém acaba de "materializar" o sentimento vigente no
carro.
- Como assim te agride? - reajo com caras e bocas, cumprindo o dever
de um bom cristão.
- Não sei. Mas não gosto. A cidade fica suja. Eles são...
- Credo! Não fala mais nada. Você tem é que ajudar.
"Faça o bem, sem olhar a quem".
- (...)
- (...)
Mas nesse intervalo, sente-se que os pés, culposamente, fazem
o carro desacelerar para que ele vá bem devagarinho até que
sua chegada ao sinal coincida com o verde. (E não será culpa
de ninguém, se não for possível dar, nem mesmo aquela
moedinha que se reserva para essas ocasiões, àquela pessoa).
E, dada a largada, o carro arranca tão fortemente que pouco pode-se
ver a cara daquele sujeito.
Cinira Lucchesi Pereira é estudante
do 3o. ano de publicidade e propaganda da UFG.
Mande um e-mail para Cinira Lucchesi
Pereira ou para a direção
do jornal.
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