Giuseppe e Associados L.T.D.A.
Vanessa Chaves Vieira
Naquela manhã Jonas acordou atrasado para o trabalho. Lavou a
cara de qualquer jeito, enfiou o terno no corpo, engoliu o café
e saiu mastigando o pão enquanto ajeitava a gravata. Mesmo atrasado,
encontrou um jeito de, passando pela banca de jornal, catar umas moedas
e comprar o exemplar do dia.
Enquanto caminhava para o metrô, ainda que com pudor, repetiu
um hábito: foi direto ao caderno de cultura procurar o horóscopo.
A profecia para o seu dia lhe pareceu assustadora: “Dia turbulento. Os
assuntos profissionais merecem cuidados especiais. Reúna todas as
suas forças para lutar pelo que é seu. Conjunção
astral em torno de Marte favorece a tomada de decisões.”
Distraído com o vaticínio astrológico, Jonas tropeçou
numa pedra. “Maldita pedra”, reclamou Jonas enquanto cortava a multidão
forçando o seu caminho com o corpo. Que poderia querer dizer aquilo
no jornal? Por que os assuntos profissionais mereciam cuidados? O problema
devia ser com o Carlos. O Carlos, sim, há muito tempo andava fazendo
de tudo para tomar o seu cargo. Será que perderia o emprego?...afinal,
o Carlos nunca chegava atrasado. Ora, o que é isso? Então
estava se deixando angustiar por causa do maldito horóscopo? Deixa
disso, Jonas, discutia de si para si.
Chegou ao metrô. O trem estava cinco minutos atrasado. “Azar,
azar”, repetia. Abriu o jornal na seção de Economia. Demissão
em massa na fábrica de refrigerantes. Começou a ler os primeiros
parágrafos. Parou. Pensou de novo no horóscopo e na história
da pedra. Vieram-lhe à mente os versos do Drummond: “no meio do
caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meio do caminho”. Só
podia ser o Carlos, aquele Carlos, que era uma pedra no seu sapato.
Olhou para o lado. Um menino imundo passou estendendo a mão à
cata de moedas. Jonas virou o rosto ruminando: “maldito, Carlos!”. Começou
a ler os cartazes das paredes para matar o tempo de espera do trem e a
raiva. Viu a propaganda de um carro popular com ar condicionado. Lembrou-se
da sua poupança para comprar um carro. Se aquela demissão
viesse, adeus, carro, adeus entrada do apartamento próprio, adeus
casamento com a Rosa. Iam ter de esperar mais alguns anos. “Maldito Carlos!”
O trem finalmente chegou. “A essa altura, o Carlos já está
puxando o saco do Seu Giuseppe e fazendo a minha caveira na presidência”.
Afinal de contas, o Carlos nunca havia superado o fato de ele ter mostrado
ao Seu Giuseppe aquela imperdoável confusão na tabela de
projeção de vendas, apontando um crescimento de 2,5% e, não,
2,3%. Mas o Carlos era invejoso e vingativo. Jonas precisava arranjar urgentemente
um jeito de tirá-lo da jogada do acordo com os japoneses.
Jonas se sentou. Ao lado dele ia se segurando na barra para viajantes
em pé uma senhora de idade, cheia de sacolas penduradas nos braços.
Por causa do peso e da idade, ela bamboleava nas paradas das estações.
Numa delas, desequilibrou-se e pisou em cima do pé de Jonas. “Desculpe,
senhor”, disse ela. “Não tem problema “, respondeu, e em voz baixa,
“maldita e maldito Carlos. Se estivesse aqui, o puxa-saco já teria
oferecido o lugar” e foi pensando em como odiava o maldito, cem vezes maldito
Carlos. Lembrou-se da vez em que a secretária lhe levou café
frio e em que pensou que isso nunca
aconteceria ao Carlos. Pensou que o Carlos já havia sido convidado
para almoçar com o Seu Giuseppe e que no escritório já
se falava até que ele seria promovido. Promoção ao
cargo que Jonas sempre acreditou que seria seu.
A raiva foi subindo. O trem, cheio por causa do rush, foi ficando quente.
O calor também foi subindo no corpo de Jonas. De repente, começou
a sentir uma dor no braço e a ver tudo rodando. Foi perdendo a consciência.
Os barulhos, ficando distantes. Uma sirene...um burburinho de gente...e
ao longe ouvia o nome Carlos, Carlos, Carlos sendo chamado. Foi abrindo
os olhos. Parecia estar num hospital. Uma enfermeira se aproximou e lhe
disse que o médico já estava chegando. Jonas estava com medo.
Sentia o peito doendo e o braço adormecido. Ainda estava meio fora
de si.
O médico veio chegando. Era um sujeito grande, boa-pinta, com
um sorriso tranqüilo. Jonas gostou dele. O médico se aproximou
e disse com uma expressão de confiança: “Pode ficar calmo,
amigo. O senhor está numa boa clínica e será bem tratado”.
Jonas sentiu uma sensação de paz e segurança. Estava
nas mãos de um profissional competente, e sentiu que tudo ia passar
depressa: a dor, o medo e todo o resto. Jonas sorriu com gratidão.
Tudo ia melhorar. Quis dizer uma coisa boa. “Obrigado, doutor...”, “...Carlos”,
completou o médico. O corpo de Jonas sacudiu violentamente na maca.
Um infarto fulminante o levara.
Vanessa Chaves Vieira é estudante
do 3o. ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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