Aprendiz de sonhador, ou Nárkissos


Gilberto Gomes Pereira

“De palavra em palavra me esforço para dizer de outro modo 
o mesmo da minha imagem, impropriamente o impróprio de 
meu desejo: viagem ao término da qual minha última filosofia 
só pode ser reconhecer - e praticar - a tautologia.” 

Roland Barthes 

As palavras não são as coisas. E muito menos substratos de meus sentimentos. No entanto, necessito delas para viver, para exprimir minhas aspirações,meus anseios. Necessito delas para me confundir com os outros seres de minha espécie e, ao mesmo tempo, me perceber diferente de cada vivente humano sobre a Terra. Em verdade me sinto preso, definitivamente enclausurado nas telas da mortal linguagem dos homens. Uma linguagem que me faz agir pelo senso comum, pelos estereótipos, ideologias, ditando as regras da comunicação, que me direciona pelos caminhos tortuosos do coliseu que se instala sobre o caos metafísico da vida, fazendo colagem dos recortes de realidade. 

Essa mesma linguagem me faz deparar com um sentimento megalomaníaco, que se contrasta com meu complexo de inferioridade. E uma eterna sensação trágica, trazida por ventos longínquos que ondularam o olhar triste e raivoso de Nietzsche, trava em mim uma batalha infinda e me exorta à cumplicidade de um devaneio solitário. Enquanto penso sou chutado pela linguagem verbal. Vou deslizando pelos trilhos do saber e roçando nas tênues linhas da loucura humana. 

A articulação de meu pensamento não vai muito além de meu vocabulário, e tal fato me faz sentir como um analfabeto que não buscou em Machado de Assis um jargão intelectual para expressar seu contentamento, ou não consultou Pessoa para manifestar sua genialidade criadora e saber que “ tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Mas, a alma!! Não faz o menor sentido se ela não reivindica as palavras como sua sustentação. É introspecção demais para um homem. Afinal, até para falar do surrealismo de Dali, ou da dor incomensurável de Edvard Munch em “O Grito”, precisamos dessa arbitrária criação. Assim, uma lufada irregular de contradições alimenta meu espírito, ao mesmo tempo que me faz crer na ordem natural das coisas, e sou observado pela coletividade do que se pensa e diferenciado pela inefabilidade do que sinto. 

No estojo de meu coração nõa há borracha para apagar de minha “memória poética” os amores que tive, que vieram de sensações diferentes, porém, quando os relembro, o que me vem à mente são palavras mortalmente iguais, de caráter epitético, adjetivando e classificando as alegrias e tristezas de meu coração, submetendo às repetições do código linguístico meus inefáveis sentimentos. Pois quando eu digo “eu te amo”, não quero dizer “eu te amo”, quero dizer que te amo na especialidade de meu amor. Um amor que as palavras teimam em citar como qualquer um e em me colocar na condição de um ser tautológico. 

É como o uso da razão que, às vezes, é apenas um pressuposto tirânico que dissolve, na emoção, o leitmotiv da existência. Quando isso acontece, lá está o verbo para dizer o indizível e lembrar que o homem é um ser social, político, moral, racional. Tal qual o mito de Eco, a ninfa que, ao se apaixonar por Narciso, não suportando a indiferença do belo jovem, se jogou de um penhasco, se espatifando rochedo abaixo. Toda vez que alguém grita nas montanhas, ou na floresta, Eco devolve as últimas sílabas do que foi dito. Quando falo sou como Eco. Um Eco narcísico. Um “papagaio virtuoso”. Quando sinto sou quase único. Meu medo é singular. Meu ódio se esconde na peculiaridade de meu ser e meu amor é. 

O “Eu” é um eco, a reverberação do imaginário social, com individualidades que se diferenciam de acordo com a organização mental de cada um. O conteúdo do ‘Eu” é mutável e passível de contradições, como as palavras que mudam de sentido e são arbitrárias em si, um camaleão da linguagem. Já a sociedade é o próprio narciso. Ama deus porque é sua imagem. Ama a Ciência porque é sua criação, a própria figura refletida no espelho. Todas as formas de organização das experiências humanas passam pelo crivo da linguagem, que é do homem, e narcisam-se promiscuamente no fluxo da história. 

Eu não tenho história. Sou uma repetição. Eu não sou história. Tenho idiossincrasias. As palavras me perseguem, me acusam, e quando preciso delas, fogem de mim. Por isso escrevo. “Verba volant, scripta manent”, “as palavras voam, mas permanecem quando escritas”. Na verdade sonho, ou estou aprendendo a sonhar. Sonho pelo efeito onírico de minhas noites dormidas e por força de minha vontade imperativa de sentir o mundo. “Reaprendo a ver o mundo” e aprendo a sonhar com a filosofia do mito, o sonho coletivo, as mais belas histórias que o homem foi capaz de criar para explicar seu próprio surgimento. Uma lágrima sorri para mim, ao saber que sou a criatura cômica de um criador trágico. Eu... Sou uma metáfora cósmica. Um mito esquecido. 
 

Gilberto Gomes Pereira  é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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