Chuva de verão (se houvesse verão)


Flávia Gomes Franco

E num segundo via-se a escorrer densas gotas turvas. Pelo vestido fino espalhava-se, rapidamente, o barro da enxurrada. Chovera naquela tarde. Mas aquela chuva não trouxera paz e, sim, lembranças. Não só a chuva, não só o vento, o frio, enfim. Eis que surge o carro. 

Mulher estonteante. Madame, donzela, tão doce e delicada tomou-se de um estranho arrepio. Surgia da ponta dos pés. Quanto aqueles pés já haviam caminhado e travado caminhos incertos. Certo apenas era o seu amor. Belo marido. Cobiçado por quem o via e por quem o tinha. Belo, porém traiçoeiro. 

Guardara seu vestido de noiva e batizara-o de herança. Seria de sua filha, de sua neta e o mais importante era vê-las entretidas com os cortejos matrimoniais. Ainda teria uma filha mulher, como sempre dizia. 

Mas o arrepio tornou-se um aperto inexplicável, sufocante até. Quis respirar e, por alguns instantes, foi inútil. Lembrou-se de sua mãe, estendida na cama, aguardando o momento final. Em vão, clamou pela filha. Queria abrir-lhe os olhos, contar-lhe a verdade sobre o homem com quem tudo dividia. A mulher, mesmo entre lágrimas, ainda se fez linda. E de uma beleza doce sangrou-lhe a boca. A mãe tantava dizer-lhe o que então já sabia. 

O céu permanecia enegrecido e as gotas escorriam pelas pálpebras. Mostrou-lhe o rosto. Nem havia percebido. Parecia inerte, vagando por outro mundo, noutro tempo. Foi quando recebeu a notícia: grávida. Agora sim irradiava vertiginosa formosura. Quão grandes eram aqueles olhos e tantos sonhos passavam por eles em poucos minutos. Seria menina. 

O vestido de noiva deve servir, pois ela terá exatamente as medidas da mãe. A lama começava a secar e o arrepio atingira o ápice da cabeça. Era menino. Não pode ser tão ruim. Continua sendo criança, como todas as outras. E cresceu como outra, estranha em seu próprio habitat, vestindo um corpo inadequado à sua mãe. 

As mãos agora tremiam e suavam, agarradas à parte limpa que sobrara do vestido. Mas aquelas mãos estavam sujas e não deviam tocar naquele vestido tão delicado apenas para manchá-lo ainda mais. Pouco importavam detalhes. Seu coração estava esculpido com a argila de seu descaso. A enxurrada, no entanto, pudera tocá-lo. 

A chuva recomeçara. Gotas barrentas subiam do chão, supitando das poças ao longo da rua. O filho, vendo a mãe em deplorável situação, tomou-a nos braços e apertou-a fortemente. O carro sumira de vista. Era o pai, aquele belo marido. Fugia da chuva, das responsabilidades, do futuro. Consigo uma mulher, não tão doce, não tão meiga. Uma, apenas uma, dentre tantas outras. 
 

Flávia Gomes Franco  é estudante do 1o. ano de jornalismo da UFG.

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