Mudanças
Cássio Carvalhaes
Nevava muito naquele dia... o vento cantava, anunciando a tempestade
que viria... as árvores balançavam cada vez mais fortes...
suas folhas iam de um lado para outro em uma sincronia espiritual... as
pessoas corriam para o abrigo de suas casas...
Crianças não mais brincavam... homens e mulheres não
trabalhavam... tudo estava parado: o tempo... os animais... as pessoas...
o mundo... o universo.
As folhas das árvores eram bruscamente arrancadas... os frutos
separados do ventre materno... as árvores, uma a uma eram separadas
da mãe natureza. A tempestade aproximava-se cada vez mais da vila
trazendo consigo só destruição... os telhados das
casas saiam voando como aviões de papel... um tornado tomou conta
da vila... relâmpagos... trovões... uma avalanche... gritos...
choros... silêncio... uma criança.
Ninguém sabia de onde viera... era só um bebê...
em meio a tanta destruição, tanto caos e ela estava lá.
Abriu seus pequenos olhos e só viu um grande vazio. Não existia
cidade, não existiam árvores; só um riacho com águas
cristalinas e muitas pessoas.
E a criança foi aceita por aquelas pessoas... com o passar do
tempo, ia acostumando-se com aquela paisagem monocromática daquele
lugar: as casas, ruas, pessoas, plantas, florestas; tudo era de uma coloração
branca.
Não entendia o modo de andar daquelas pessoas; sempre dando dois
passos para frente e um para trás; mas fazia da mesma forma para
não desagradar ninguém.
Ficava sempre distante das pessoas da vila; não as entendia muito
bem e elas também não a compreendiam: as crianças
não brincavam... homens e mulheres não trabalhavam... ficavam
atônitos o dia inteiro.
Certo dia, longe da vila e com muita sede, lembrou do riacho que corria
próximo à aldeia. A menina ajoelhou para pegar um pouco de
água e assustou-se quando viu uma estranha imagem na água.
Era algo que nunca tinha visto... algo tão, mas tão assustador
que chegava a ser bonito: o seu reflexo... percebeu o quanto era bonita.
Seu coração palpitava acompanhando o vento... e este tornava-se
cada vez mais forte. Levantou-se e começou a andar, não preocupou-se
com as águas geladas do rio, na verdade nem as sentiu.
Um sentimento havia desabrochado dentro da jovem. Ela nunca desfrutara
de algo tão puro. Sentia que precisava fazer aquilo... mas ela não
devia... era maior que ela... era contra as regras... ela tinha que tentar...
ela não podia... mas ela queria... sim, ela queria... e ela correu...
correu como ninguém já o havia feito.
A sensação era ótima, inexplicável. Tão
boa que foi preciso a exaustão para pará-la. A noite caiu
sobre o vale e com ela a jovem voltou à vila. Estava tão
entusiasmada, queria contar a todos a novidade. Estranhou pois no caminho
de volta, o rio não estava lá, ele havia desaparecido. Mas
não deu muita importância para isso.
Infelizmente, as pessoas da vila não compartilhavam do seu entusiasmo
e não aprovaram o fato. Foi formado um conselho para julgá-la.
Pela primeira vez a vila saia daquele estado de hipnose e começava
a agir.
No julgamento, a jovem foi condenada... e sua sentença: o exílio...
saiu correndo aos prantos e foi alojar-se no alto da montanha.
E não parou de chorar: por cinco dias e cinco noites ela chorou...
e por cinco dias e cinco noites a vila foi coberta por uma tempestade:
nevava muito naqueles dias... o vento assobiava forte... forte... as árvores
balançavam... as pessoas corriam assustadas... as folhas eram bruscamente
arrancadas das árvores... e estas uma a uma eram separadas de suas
raízes... um tornado... relâmpagos... trovões... gritos...
silêncio... as pessoas olharam para cima de suas cabeças e
onde antes só existia um espaço em branco, opaco; agora era
como um rio, de um azul tão intenso que chegava a lhes cegar.
Assustaram-se quando, ao olhar para cima, viram estranhas imagens, desconhecidas
para todos mas ao mesmo tempo familiares... um inexplicável sentimento
tomou conta de todos... alguns relutavam em aceitá-lo mas era maior
que eles...
Cássio Carvalhaes
é estudante do 1o. ano de engenharia elétrica da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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