Músicas que são músicas
Fabrício Magalhães Gonçalves
Neste domingo estava ouvindo música. Sim, ouvindo música!
E, realmente achei que estaria desatualizado na segunda. Amanhã
quando encontrar com outras pessoas, talvez fique meio deslocado, sem assunto,
pois não vi os fatos, ou seja não assisti ao Faustão,
nem ao Gugu, nem ao show da vida, não li O Popular, nem a Folha
de São Paulo. Não que tenha alguma coisa contra a TV ou especificamente
a esses programas ou mídias. Até gosto, mas o que eu queria
mesmo era curtir um som.
Nestes momentos em que viajamos, eu e meus discos, alguns devaneios,
algumas divagações ocorrem.
Uma das questões que me instigam é: como uma pessoa pode
ouvir Gary Moore, em seguida Teodoro e Sampaio, depois Chico Buarque, passar
de ponta a ponta o disco A Vida é Doce do Lobão, logo em
seguinte Counting Crows, música dos anos 60, The Smiths e assim
vai...
Então durante meus devaneios de uma tarde de domingo, penso:
aonde vou chegar com isso? Sou fruto do sistema porque ouço essas
músicas? Sou apenas um eclético que quer apenas ouvir um
som legal? Outra coisa que penso é: na verdade sou é um à
toa, pois enquanto fico aqui tendo meus momentos musicais, deveria estar
trabalhando, produzindo.
Talvez, diriam alguns, esse tipo de pessoa está meio perdida,
não
sabe o que realmente quer e fica indo de acordo com a moda, esse tipo
de gente não tem é personalidade. Ou, o que ouvir música
tem a ver com alguma coisa? É só música, bam, bam,
bam, tá, tá, tá e nada mais do que isso.
Diante disso, penso eu, que expondo essas preferências e ecletismo
musical, corro alguns riscos, como: eu perder algo interessante na
TV.
Como irei me sentir quando encontrar alguns colegas e eles estiverem
comentando como é horrível essa televisão, esse
tal de Morango do
Nordeste, as obscenidades da Banheira do Gugu, como é que permitem
isso na Televisão? Esse tal de sistema que só aliena as pessoas.
É, não liguei a televisão, fiquei sem fazer nada...
Outro risco que estou correndo, por ficar à toa, é o de
perder alguns
colegas. Alguns críticos musicais, entendidos, experts em música.
Será
que aceitariam em seu nobre gueto alguém que de Rock inglês
só conhece os Beatles e o Iron Maiden?, uma pessoa que agüenta
o Rappa, Cássia Eller, Zeca Baleiro e Titãs? Um cara que
só pode ser doido, pois 75% de seus discos são de MPB? Dos
internacionais tem 10.000 Maniacs, The Cranbierries? Ainda tem o pior,
ouve até pagode e sertaneja. Espero que os que realmente gostem
da boa música, da que não é do sistema, da alternativa,
da que não aliena, das que as letras não falem de amor e,
sim, “Fuck you, mother fucker and go to hell because I’m the best. Can’t
you understand?”... continuem conversando comigo. Não precisa ser
sobre música (gosto não se discute?!), quem sabe conversemos
algo sobre comunicação, sobre o sexo dos anjos, sobre a legalização
ou não do alternativo, o transporte, ou se há mais coisas
entre o céu e terra do que podemos imaginar?
Porém, tenho um consolo, um disco recente, um alternativo que
comprei na banca. O do Lobão, um cara que é legal embora
cante em português. Não produziu seu disco em grandes gravadoras,
foi no Faustão e disse que não iria mais. Apareceu na Internet,
dando entrevista no UOL explicando o motivo pelo qual não gosta
das gravadoras.
Ainda bem que, apesar de tudo, tenho um disco alternativo. Não,
não
importa sua exposição na mídia em geral. O fato
de algumas de suas
músicas serem usadas em comerciais também não.
O importante é que ele não faz parte do sistema, ele é
alternativo. Seus discos são vendidos em bancas onde se encontram
também a bibliografia do apresentador
Carlos Massa, a revista Contigo e as da Ana Maria Braga. Ainda bem
que nestes pontos de venda, alternativos, se vendem discos alternativos
porque esses, sim, são legais e fazem a verdadeira música.
A música que é música na qual o importante não
é vender e, sim, fazer um trabalho legal. E o melhor disso é
que eu tenho esse trabalho, realmente legal, embora tenha me custado R$
15,00.
Fabricio Magalhães Gonçalves é
estudante do 3ºano de Publicidade e Propaganda da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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