Tristes recordações


Nazareth L. de Paula

O inverno de 1995 foi especialmente diferente para Julie. Com ele, não viria apenas a neve e o frio dos outros anos, mas também o doce e ao mesmo tempo amargo gosto do amor. Não demoraria muito para que, pela primeira vez, ela sentisse seu coração se expandir sem limites, assim como não demoraria muito também para que o sentisse menor que um grão de areia.

O amor se chamava Alexandre, e tinha no olhar uma tristeza tão profunda como Julie jamais vira. Seus olhos lhe fascinavam também pela cor- um verde cinzento, que contrastava perfeitamente com a pele clara e com os lábios escarlates.

A desgraça bateu em sua porta sob o disfarce do mais terno dos anjos, e Julie mal podia imaginar o que se desenharia por trás daquela imagem angelical. Se naquele instante ela pudesse ter imaginado a que ponto pode a crueldade humana chegar, teria fugido de Alex como o diabo foge da cruz. Mas tudo aconteceu quando ainda ousava sonhar e, naquele dia, mesmo em pleno inverno, a esperança surgiu como uma chuva de verão, tão forte e tão inesperada. Em sua ingenuidade, Julie viu o mundo todo tomar um aspecto diferente, mais bonito, mais leve. Pobre alma era a sua, cedo demais o sonho se tornou pesadelo, cedo demais teve contato com a realidade, essa megera que insiste em nos arruinar. (...)

Certos acontecimentos têm o poder de mudar um ser por completo. Depois de tudo o que viveu, Julie jamais voltaria a ser a mesma. O cristal foi quebrado e seria impossível juntar os cacos novamente. As marcas sempre ficam e mesmo que se passe tinta, que se tente encobri-las de todas as formas, a ponto de não mais serem vistas, nada pode fazer com que desapareçam. Elas continuam ali,ninguém as vê, mas ainda existem, e com a mesma intensidade. Quando menos se espera, seja numa manhã ensolarada, seja numa tarde cinzenta, elas surgem para atormentar. Daí, o que se esconde em forma de resignação é derramado e não mais se está no presente e sim no passado. Uma batalha é travada entre os dois tempos.

O frio daquele inverno congelou o coração de Julie para sempre.

Nazareth L. de Paula é estudante do 4º ano de jornalismo da UFG.

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