Atenção, a ditadura acabou!!!

Manoel Rubens Miguel

O pobre coitado que enfrenta o vestibular para jornalismo na UFG, espera encontrar um curso dinâmico, diligente, que esteja inserido na presente realidade globalizada, através da qual o processo comunicacional se constrói e/ou se reconstrói a cada instante.

Mas os poucos que passam pela barreira social do vestibular, já nos seus primeiros contatos com a academia, percebem que a realidade é bem outra. A desilusão atinge seu auge ainda no 1º ano, onde, por falta de atividades práticas, a ânsia de produzir e o desejo de se comunicar são substituídos pela paciência de se prender a uma sala de aula ouvindo professores que parecem desconhecer noções básicas de oratória, retórica e pedagogia. Sendo assim, desde o início, são comuns questionamentos do tipo: "será que é isso mesmo que eu quero pra mim?" ou "será que isso é o suficiente para me tornar um jornalista?".

Na década de 70, essas deficiências acadêmicas eram supridas, muitas vezes, pelos estágios, mesmo que este não fosse seu objetivo. Mas a Lei nº 6.612 de 7 de dezembro de 1978 eliminou o estágio afirmando que "constitui fraude a prestação de serviços profissionais gratuitos, ou com pagamento simbólico , sob pretexto de estágio". Desde então, alunos de jornalismo de diversas universidades brasileiras, em especial os da UFG, se isolaram entre quatro paredes de suas faculdades, se limitando ao aprendizado de uma teoria caquética, que geralmente se perde no tempo e no espaço sem manter uma ligação direta com a atualidade, e a uma prática que tenta "simular em laboratório" a realidade lá fora.

Bom, considerando a constante busca por inovações tecnológicas por parte das empresas de comunicação e, paralelamente, o sucateamento das universidades públicas brasileiras, pode-se imaginar o quanto essa "simulação da realidade se desenvolve de forma débil e improfícua. Dentro desta perspectiva, o professor Palácios, em seu livro Projetos experimentais e mercado de trabalho: o papel das práticas laboratoriais, diz que "a tentativa de substituir o estágio profissional por tais práticas laboratoriais não só resulta impossível, mas também extremamente nefasta (...). Diz ainda que "esse tipo de concepção coloca um série de problemas, dentre os quais... o artificialismo, a emulação estreita e o reboquismo".

Torna-se ainda mais pertinente o que afirma o professor José Marques de Melo em seu livro Indústria Cultural, jornalismo, jornalista (1991, pag 27): "com poucas exceções as escolas que formam jornalistas estão se esclerosando rapidamente, porque não dominam a competência do novo jornalismo e também porque enveredaram por um academicismo inconseqüente, aprovado por viéses ideológicos adquiridos no período de resistência à ditadura militar e que não foram abandonados".

O pior é que após anos de deficiências, o empresário de comunicação goiano passou a conhecer, minuciosamente, essa problemática. Hoje, inseguro em apostar na inexperiência de recém formados, ele prefere contratar o profissional que venha de fora, já com uma certa experiência. Ou o que é mais abominável, contratar radialistas, como jornalistas, pois estes, na sua maioria, devido a inexpressividade de seu sindicato aliada à deficiente teleologia de seu curso, se lançam ao mercado em estágios ilegais de jornalismo.

Faz-se ainda necessário compreender o que foi relatado na carta Estágio em Jornalismo aberta aos congressistas no Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecom) em 1994, a qual afirma que "as contribuições trazidas pelo estagiário podem ajudar na reelaboração dos paradigmas de produção de conhecimento acadêmico. E isso significa melhoria na qualidade de ensino e dos profissionais no mercado".

Mas infelizmente, enquanto essa conscientização óbvia da realidade atual não permear as mentes retrógradas de sindicalistas e professores que se posicionam contra o estágio de forma incondicional, devo reconhecer que resta ao pobre jornalista formado pela UFG contar com a sorte de, um dia qualquer, conhecer um pistolão que o ajude a "conseguir" algo que ele deveria "conquistar" pelo próprio mérito: uma vaga no mercado de trabalho.

Obs.: As citações no texto foram retiradas do texto Estágio em jornalismo: uma experiência da UFG do professor Francisco Ponte Pierre.

Manoel Rubens Miguel é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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