Para não dizer que não escrevi
Nilton José dos Reis
- A reação, dura e surpreeendente, da professora Iara Barreto, pró-reitora da Graduação, às minhas insinuações de que, às vezes, enxergo uma relativa má vontade da administração superior da universidade com a Faculdade de Comunicação, me empurrou dois sentimentos simultâneos: 1. havia exagerado na dose (como é meu feitio de contador de histórias); 2. tinha acertado na mosca.
- Como a pró-reitora tem nos apoiado com relativa desenvoltura, sobretudo se comparado com a postura meio mosca-morta de alguns de seus colegas da chamada administração superior, mudei de assunto e não apontei provas concretas. Todas elas, diriam amigos e inimigos, passíveis de dupla ou várias interpretações. Recolhi a violinha barulhenta e esperava me convencer de que sou realmente um exagerado.
- Para surpresa, desagradável por sinal, a realidade me desmentiu sem que movesse uma palha para isto. Afinal, não fossem os cortes autoritários e inexplicáveis do Radoc, veriam, como disse a uma promotora, que estou no time daqueles, como o boboca do prof. Edson Spenthof, da Rádio Universitária, que trabalham como uma mula. Fico sem tempo para firulas de corredor embora as ame apaixonadamente. Juro.
- Como alguns sabem, há alunos produzindo um programa semanal para a TV Comunitária, NET-Canal 12, apesar das dificuldades, da falta de equipamentos, quebra da ilha de edição e da má vontade... A determinação, criatividade e paixão do grupo são comoventes e nos estimulam a não parar, a tentar, tentar, tentar. Tanto que mandaram entrevistá-los para o caderno que a UFG publica em parceria com o DM.
- Até aí nada anormal não fosse a orelha atenta de um dos integrantes do grupo que ouviu o repórter sussurar (espero que de pesar e não de alegria ) que "(abro aspas livremente) só posso ouvir vocês, alunos". A orientação, segundo ele, era não ouvir o professor, que teria "divergências" com alguém ou alguéns lá de cima. O meu informante, não soube (ou não quis) dizer se da Ascom (Assessoria de Comunicação da UFG) ou da bendita A. Superior.
- Não trabalhasse numa faculdade de comunicação, talvez deixaria tudo como algumas palavras ao vento. Me alegra saber que o grupo de alunos - que coincidentemente ou por opção mergulha comigo em alguns sonhos que parecem tão impossíveis - é competente o suficiente para tocar o projeto. Falar sobre ele, idem-idem. Me orgulha ver que são referências. Babo como se lambesse crias.
- Não fosse eu, por capricho ou desatino do destino, professor de jornalismo e não vivêssemos numa Faculdade de Comunicação, estas maltraçadas linhas, como diziam nossos pais ao iniciar suas missivas, talves nunca existissem. A censura desse tipo não me estimula sentimentos de ódio ou perda de tempo em dialogar com ela. Esgrimo em outras esferas, uso outros métodos de combate. Vivo outra vida.
- Quando meu amigo e conterrâneo, e muito mais irmão, Juarez Ferraz, dirigia a Ascom, a editoria do jornal da UFG, na época, se recusou a publicar uma réplica do Conselho Departamental, combatendo insinuações infantis sobre este escriba porque ousou estranhar, em carta, que legenda, em foto de capa toda (feito por aluno de projeto que coordenava), chamava xavante de índio carajá, etc e tal.
- Creo en la justicia - não a que rouba, mata e cheira. Como creio e pelejo por outro tipo de mídia. Não perco tempo debatendo com essa gente, ainda que por questões de princípios. Da mesma forma, não mendigo espaço para publicar artigos aqui ou ali. Não critico quem age de outra maneira. Me envergonho de tê-lo feito um dia. Como disse, me bato por outras coisas. Talvez até outros princípios, quem sabe.
- No entanto, me permitam, não poderia - por excesso de zelo - deixar de registrar um grande espanto quando, numa escola de jornalismo, a um aluno-repórter é imposta a censura que o editor ou chefe teria que assumir ao fazer os cortes no texto. Proibi-lo previamente, orientá-lo ao não-jornalismo, é o que incomoda. E muito. Mas fornece, ao mesmo tempo, elementos concretos para esta conversa toda.
- O que, para ser oportunista, me faculta ir mais longe e dizer que esta má vontade com a Facomb me parece real, concreta e palpável. Daí, ouso afirmar publicamente que muita coisa, a exemplo da TV Universitária a cabo, não deslancha por razões simples: não há vontade política para tal; e não há porque (e por enquanto) qualquer iniciativa neste sentido passaria forçosamente pela Facomb.
- O mais triste é que este veto desnuda outras coisas (vindas de esferas invisíveis da ufg, mas onde transitam coleguinhas de ufg ou de faculdade). Sei que, amanhã, dirão que exagerei na dose. De novo, será? O curioso é que, no mesmo dia em que o aluno era forçado a se constranger, a TV Comunitária fazia, com prazer, uma animada entrevista com a senhora reitora. É muita ironia para minha fraca cabeça, confesso.
Nilton José dos Reis é professor da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia (Facomb) da UFG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
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