O bilhete de Júlia
Luís Cláudio Guedes
- Negligenciada como fêmea e quase sempre incompreendida enquanto mulher, Júlia é uma destas criaturas a quem a vida reservou mais dissabores do que alegrias. Desde a infância pobre vivida no roça, seus dias podem ser resumidos ao pernicioso círculo que a miséria impõe a algumas boas almas. A vida na cidade grande seria melhor, sonhou um dia, enquanto juntava suas poucas coisas numa velha mala que herdara da avó. Não foi.
- Na adolescência, amou sem restrições um desses cafajestes que comumente cruzam os caminhos de pessoas generosas como era a Júlia de então. Conto de fadas sem nenhum glamour, assim foi o primeiro amor daquela moça simples e pouco instruída. Seduzida e abandonada, não lhe restaram muitas ilusões. Casaria com o primeiro que aparecesse, jurou na ocasião. E casou-se com Agnaldo, um antigo pretendente, na esperança de que o amor um dia voltasse a vicejar na aridez do seu peito. Não voltou.
- Dividiram decepções e dívidas à medida que procriavam. Júlia suportou tudo com heróica resignação e calculada indiferença, até mesmo os porres do marido e a sua teimosa mania de fazer em pedaços o pouco que conseguiam. Sonhos pagos na extorsão do crediário, reduzidos a nada em noites de fúria . Um jogo de pratos esmaltados, o velho rádio a pilha e a foto do dia do casamento, tudo em destroços. Mas seguiram juntos, numa solidão compartilhada. Apáticos de si, desceram ao inferno em vida. Foram. E não voltaram.
- Júlia não sentiu remorsos quando um dia finalmente decidiu encontrar a felicidade com a qual sonhara na adolescência, o amor dos romances com príncipes encantados e mocinhas felizes. E traiu com surpreendente entusiasmo, pouco se importando para as convenções sociais ou com a prudência necessária aos adúlteros. Agnaldo fingia não saber, mesmo diante das evidências. No que foi eficientemente ajudado pela bebida, cada vez mais senhora do seu cérebro e vergonha. Justificava-se neste torpor etílico.
- Com o passar do tempo, as vicissitudes daquele casal esquisito não mais interessavam nem mesmo à maledicência da vizinhança, pelo banal da repetição. E o tempo fluiu, até que um dia veio o choque da notícia: Agnaldo havia esfaqueado a esposa com um grau de barbaridade insuspeito para a sua conhecida passividade. Descobrira num velho baú, aquele que fora presente da madrinha, um bilhete carinhosamente dobrado que Júlia endereçara a um amante. Fora este o motivo.
- Agnaldo foi encontrado em prantos ao lado do corpo da mulher, lendo a intervalos, a carta de Júlia: "Escrevo já com saldades dos momentos que mim vi inteira nos braços de alguém. E onde quer que você esteja, vou ti amar sempre. Ti amo. Ti amo. Ti amo. Ass. Júlia." Na Delegacia, Agnaldo contou que sentiu o mundo abrir aos seus pés quando viu a prova documental da traição da mulher. Enlouquecido, só a muito custo foi possível impedir que ele se matasse.
- E Júlia, que só queria ser feliz, agora jaz em velhas páginas de jornais que o vento açoita pelas ruas da cidade. No programa vespertino da TV, um debate aborda o crime passional, enquanto a vida segue, pois há sempre uma nova tragédia em gestação.
- O que vai se revelar agora, nem o marido traído soube: o bilhete de Júlia fora escrito 20 anos antes, no auge do desespero da mulher rejeitada na primeira paixão. Ela não tivera tempo nem coragem de entregar ao seu primeiro algoz a frase de despedida, inconscientemente transformada na reserva antecipada que a levaria da vida. E Júlia só queria ser feliz.
- (Extraído da série "Crônicas que ninguém leu", exceto o autor, a mãe do autor e agora... você.)
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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