Para que serve um C.A.?

Vanessa Chaves Vieira

A participação no Centro Acadêmico de Jornalismo já foi apontada pelo colega Giordano Maçaranduba como critério para se medir a politização dos estudantes. No entanto, o que se observa é um constante decréscimo da adesão e da participação dos alunos nessa instituição. Eu faço parte dessa grande maioria que não freqüenta as reuniões do C.A., exceto em ocasiões especiais, quando ele é o responsável pela mediação ou organização de algum evento. Mas, de onde vem esse desinteresse? Por que essa apatia quanto ao C.A.?

Cheguei a especular algumas possíveis razões. Comparando, por exemplo, a expressividade dos centros acadêmicos da minha faculdade (de Comunicação), com a dos de outros cursos, como os de Odontologia e Medicina, não há como desconsiderar o desigual apoio que a sociedade dá às áreas de Biológicas e Humanas. Há pouco tempo o professor Edson Spenthof também tocava nesse assunto na minha sala, falando do que ele chama de "hierarquização dos cursos". Na sua sabedoria, ele comentava que a sociedade, organizada por um modelo capitalista que cobra constantemente uma resposta financeira, divide os cursos universitários entre os de elite, geralmente na área de Biológicas, e os 'ralé', de Humanas. Seguindo esse raciocínio, logicamente, os C.A.s daqueles cursos acabam recebendo maior respaldo social e das reitorias, fazendo passar mais facilmente seus projetos e conquistando uma maior receptividade entre os alunos.

Porém, o que se percebe é que, também nesses casos, não há uma visão de que o C.A. seja um instrumento de mobilização política estudantil. Além do mais, trata-se de exceções num quadro geral que classifico como de crescente desprestígio dos centros acadêmicos. Também poderíamos tentar explicar esse fenômeno como "alienação política dos estudantes", como preferem alguns remanescentes dos C.A.s. Mas o fato é que, bem ou mal, os estudantes contribuíram para o processo de impeachment do ex-presidente Collor, ainda participam de manifestações como a Marcha dos Cem Mil e, no nosso estado, podem ser apontados como alguns dos maiores responsáveis pela derrubada do candidato da situação ao governo nas últimas eleições. Além disso, os estudantes universitários ainda parecem capazes e dispostos a questionar o sistema político-econômico em que vivemos, e a debater e levantar bandeiras políticas. Basta contar, por exemplo, a quantidade de textos abordando o tema "socialismo" na edição passada.

Portanto, não sei se essa pretensa alienação seria a principal causa do descrédito dos centros acadêmicos. Na minha opinião, isso se deve, na realidade, à falência de um modelo criado há mais de 30 anos. Precisamos entender que os C.A.s foram criados numa época em que as reivindicações estudantis só eram possíveis se houvesse uma estrutura burocrática que garantisse a sua apresentação. O excesso de cargos e funções era uma forma de evitar que a instituição acabasse, em caso de perda de alguns líderes e outras figuras-chaves. Eram tempos de perseguição política, sobretudo na América Latina e, de fato, os C.A.s foram uma importante conquista da Revolução dos Estudantes. No entanto, nos nossos dias, é absurdo e pedante acreditar que dependemos de uma instituição altamente burocrática, que conta com presidente, vice-presidente, diretores, secretários, sub-secretários e uma infindável lista de cargos que na prática não existem.

De qualquer forma, frente à igualmente defasada estrutura burocrática da universidade, não se pode dizer que o Centro Acadêmico seja totalmente desnecessário. Afinal de contas, qual é o estudante que nunca precisou ou que nunca precisará de uma assinatura de um membro do seu C.A em algum documento? Fora isso, é irracional dizer que não vivamos em um tempo que nos permita, individualmente ou em classe, fazer reclamações, solicitar mudanças e reivindicar melhorias. Para isso, basta procurar a secretaria, a coordenação, a direção e, se for o caso, a Reitoria ou as pró-reitorias.

Estou chegando à conclusão de que o grande problema dos centros acadêmicos é de identidade. Eles precisam se modernizar urgentemente ou, como em alguns cursos, se conformar com o papel de "comissão organizadora e promotora de eventos". Num tempo em que se vive o desemprego galopante, a fome, e a privatização das universidades públicas é iminente, não há tempo para debates pouco objetivos e fragmentados, restritos a cada C.A.. Isso, sim, mais do que alienação política, é alienação da realidade, é falta de amor e respeito ao próximo.

Vanessa Chaves Vieira é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

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