Vinte e oito de janeiro de 1997
Eduardo Horácio Jr.
- Terça-feira triste, aquela. Acompanhando atenciosamente o noticiário do rádio e da TV, Capone estava indignado. Mudaram as regras do jogo. Estava aprovada a emenda da reeleição para o presidente.
- Capone não é um sem-terra, nem mesmo petista. É da elite. Nasceu nela. Como bom ex-mafioso que é, Capone já passou dos cinqüenta anos, é universitário e sonha em casar com uma moça, também universitária, chamada Inês.
- Agora ele já superou o estado em que, solitário, falava sozinho. Hoje Capone fala com qualquer um, mesmo que desconhecido. Deixando sua vida pessoal de lado, Capone está indignado mesmo porque seu presidente rasgou uma lei moral que é obedecida até pelos maiores mafiosos que já conheceu no passado: não se mudam as regras depois de iniciado o jogo.
- Capone acha que a aprovação da famigerada emenda é golpista. Para ele, o presidente fez acordos que até então eram impensáveis no passado só para quebrar tal lei.
- "Men are men" já dizia o grande escritor (citar Shakespeare está na moda de novo) mas, para Capone, o presidente é mais "homem" do que outros homens nesse mau sentido. O presidente fez acordo até mesmo com o monte Olimpo global, para o desespero do nosso amigo ranheta.
- Capone guarda seqüelas da ditadura. Herança dela, Capone ainda chama o céu de anil só para rimar com Brasil. Não sabe ver o azul do céu. Também o presidente não deixa, diz ele.
- O ex-mafioso achava que, mesmo com a reeleição aprovada, o presidente não se reelegeria. Engano seu. Para seu desespero, até mesmo Inês votou no famigerado.
- O fã de Inês, entretanto, nada faz de substancial para mudar a situação. Ri dos panfletários. Sofre da síndrome do "aulismo", pensa que universidade é lugar onde o que importa é aula (talvez seja só uma outra herança da ditadura). Capone, um homem que um dia, fabulosamente, resolveu deixar de ser mafioso, poderia contribuir mais ao mundo. Poderia.
Eduardo Horácio Jr. é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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