Inês e a Fábula do Cotidiano
Luís Cláudio Guedes
- Deixe-me apresentar Inês, uma simpática estudante de Comunicação Social. Filantropa de carteirinha, ela se acha imbuída de uma missão especial aqui na Terra: possui uma existência destinada a colaborar na construção de um mundo melhor, mais humano. Nada assim à madre Tereza de Calcutá ou irmã Dulce de Salvador, que ela não é besta de se enfiar num convento.
- Inês, a claustrófoba, é um exemplo típico desta nossa era imagética (perdão, leitor, pelo indesgustável imagética). A colaboração que ela pretende dar para a melhoria do nosso "belo quadro social" se dá noutro campo de atuação: seu grande sonho é ser repórter de televisão. Câmera ligada e microfone à mão, e eis que a nossa heroína estará pronta para enfrentar qualquer desafio. Paladina da verdade, D. Quixote de saias a combater moinhos de vento.
- Inês, a crédula, é um poço de contradição. Quer mudar o Mundo, mas votou em FHC na última eleição. À semelhanã de outra Inês, vivente nos versos de Alceu Valença, a nossa tem o "peito de operária" e também "não esconde o seu ar conservador". Inês, a ingênua, já teve, no passado, dias de alienação total. A sua fase de ninfeta coincidiu com o auge do reinado televisivo da ex-rainha dos baixinhos. Quis porque quis fazer concurso para paquita, para desespero da sua família, gente habitante da periferia cultural do continente do Brasil. Veleidades de adolescente. A Síndrome Adquirida do Exibicionismo Precoce arrefeceu, porém não se extinguiu. A moça quer porque quer ser uma nova Ana Paula Padrão. Ilusão de gente grande.
- Nossa intrépida personagem venceu a guerra surda do vestibular e agora passeia triunfante pelos corredores da Academia. De escrever ela não gosta muito, jornalismo no papel é coisa menor na sua concepção. Os pendores literários de Inês, é bom que se saiba, não passam nem perto de um Jardel Sebba, por exemplo. Nossa musa permanece no estágio de O Pequeno Príncipe, com todo o respeito que a imortalidade de Saint Exupéry possa inspirar.
- - Ler é muito custoso, ela diz, enquanto espera pelo dia sagrado em que finalmente debutará na telinha da TV.
- Inês, a otimista praticante, minimiza as primeiras frustrações como mundinho da universidade pública e gratuita - só Deus sabe os sacrifícios a que ela se submeteu para chegar ali. Tem fé e faz disto sua profissão. Quando fica sabendo que a sala de leitura que serve ao bloco da Faculdade de Comunicação não dispõe de jornais devido aos cortes de verbas autorizados pelo MEC, propõe de imediato uma campanha para adquiri-los. Desespera-se, ao perceber que seu apelo não encontra eco entre os colegas. Ela acredita, piamente, que uma omissão não justifica a outra. Quando alguém questiona o destino da dinheirama dos impostos e das privatizações, ela contra-argumenta:
- - Mas nós temos que fazer a nossa parte!
- De passagem pelo corredor, Inês lê o seguinte cartaz-aviso em uma das salas:
- "REDAÇÃO INFORMATIZADA. FECHADA POR TEMPO INDETERMINADO. FAVOR NÃO INSISTIR".
- Quando Inês nasceu, a velha e boa máquina de escrever já se preparava para sair de cena nas redações jornalísticas. Ela entende que catar teclas no limiar do século XXI é o pior dos disparates. Movida pelo senso precoce de repórter investigativa, procura a coordenação do curso para saber o que significa, afinal, aquele absurdo. Descobre que a sua Faculdade possui apenas um décimo dos recursos necessários para tocar um ano letivo que está apenas começando.
- Inês, a neorevolucionária, pensa logo em mobilizar a comunidade escolar. Sugere que todos acampem em frente ao prédio da Reitoria e só saiam de lá com a solução para o caos. Sua indignação sobe à enésima potência ao verificar que, dentr outros, o laboratório de televisão (o recinto sacro, valha-me Deus!) está caindo aos pedaços, obsoleto e sem equipamento. E tem mais: pode vir a faltar água, luz, telefone etc, caso Brasília não acene com um armistício.
- Inês, a panfletária, não se contém. Distribui veemente libelo propondo a sublevação geral, e lamenta profundamente não ter ainda um microfone em punho - câmera, luzes, ação! Inês, a universitária otária, vê a lava da sua revolta ir fazer fumaça no lago frio da indirerença. A instituição, toda ela, imersa na letargia que aniquila qualquer intenção.
- Caso tivesse lido Shakespeare, ela certamente compartilharia com o sentimento do súdito Marcelo, na peça Hamlet, quando este constata que, de fato, "há(via) algo de podre no reino da Dinamarca". Inês, a fabulosa, é pura decepção. Ela não desiste, apesar de tudo. Teima e sonha com o seu doce deleite global, mas já sabe que é longa a jornada rumo ao monte Olimpo da Serrinha Dourada.
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Luís Cláudio Guedes ou para a direção do jornal.
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