Ecos do Grito

Luís Cláudio Guedes

"Independência ou morte!" Transcorridos 175 anos do brado histórico com que D. Pedro II sentenciava a separação e o fim do jugo colonial que Portugal nos impunha, para multidões de brasileiros a rotina ainda é mais de morte de que independência propriamente dita, aqui entendida como cidadania.

São os excluídos de sempre: os sem-terra, os sem-teto e os tantos sem-nada que na cidade e no campo convivem, indefesos e impotentes, com a violência que campeia sob as formas mais diversas.

O "3o. Grito dos Exluídos" organizado pela Conferência Nacional dos bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o MST, a CUT e ampla simpatia do PT, pretendeu ser um alerta para o País sobre a efetiva independência do seu povo. A fome, a corrupção, o desemprego, a política neoliberal e ogoverno FHC foram simbolicamentecontemplados com o "cartão vermelho" - no futebol este instrumento pune o "faltoso" por jogo perigoso, desleal ou ofensa ao juiz e adversários. Sob a ótica dos organizadores deste movimento, o "atual jogo político" praticado no Brasil tem um pouco disto tudo.

FHC manobra aberta e pouco eticamente para que a sua recondução ao cargo ocorra sem maiores riscos e atropelos. É no Palácio do Planalto, portanto, que os gritos de 7 de setembro irão ecoar por mais tempo. Para o presidente a questão se reduz a um mero maniqueísmo: ou ele ou o caos.

O próximo grito, o quarto, que certamente haverá, estará acontecendo a pouco menos de 30 dias da eleição presidencial, a 3 de outubro de 98. Se até lá FHC não aprontar mais um casuísmo que transforme em candidato único, a gritaria promete esquentar.

Os ouvidos presidenciais que foram tão ágeis em captar a tal "voz rouca das ruas" que esgoelavam um suposto (e muito conveniente) apoio ao projeto reeleitoral, não podem e não devem agora ficar indiferentes aos "berros" que eclodem de Norte ao Sul do País. O som cacofônico pode ser pouco agradável aos sonhos continuístas do atual Fernando. São os gritos de ontem contra ganância portuguesa que se somam aos gritos de hoje, emitindo os clamores de um povo sempre explorado e a margem do processo social. A surdez mais grave é a de quem não quer ouvir.

Luís Cláudio Guedes é acadêmico do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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