Em África, os instrumentos de percussão
estão entre aqueles que mais homogénea e regularmente se
espalham por todo o continente. O início do fabrico deste sonoro
artefacto perde-se na noite dos tempos. Contudo, sabe-se que os
tambores africanos foram, antes de qualquer outra coisa, um extraordinário
meio de comunicação à distância. Os diversos sons
representavam distintas mensagens de um para outro grupo humano.
A sua gradual mudança para instrumento musical, em que hoje
está praticamente transformado, salvo as respectivas excepções
no interior africano, ter-se-à acentuado com o desenvolvimento
de outras formas de comunicação neste continente. Também os
modelos foram variando em tamanho e material de fabrico. Na Ilha
de Moçambique e litoral nampulense, estendendo-se hoje por zonas
do interior, o tipo de tambores denota uma nítida influência
árabe e, por outro lado, contrariando uma ancestral tradição
bantu, já são também percutidos por mãos femininas. Os
vários ritmos dão outrossim, testemunho desse sincretismo
bantu-árabe. É a magia do ser humano em comunhão.
Dizem que as cidades nascem do
campo. De pequenas aldeias passam a vilas que, por razões sócio-económicas
diversas, podem crescer e transformar-se em belas cidades.
Esta cidade de Nampula tem uma história
interessante. Ao contrário de outras congéneres do interior,
semelhantes em tamanho e desenvolvimento, como é o caso de
Chimoio e Tete, frutos de um crescimento económico específico,
Nampula parece ter o seu desenvolvimento ligado a razões de
ordem estratégico-militar e de ocupação administrativa do
vasto interior moçambicano pelas autoridades coloniais. Foi
assim que nasceu e cresceu a cidade de Nampula, que nos anos 60/ 70,
transformada em quartel general das forças operacionais portuguesas
que lutavam contra a guerrilha nacionalista moçambicana, teve um
crescimento notável, favorecido também e em parte por nela
passar a linha férrea ligando o porto de Nacala ao Malawi, no
altura em franco progresso. De linhas arquitectónicas modernas,
Nampula está no centro de uma vasta região agrícola e tem
agora largas possibilidades de crescimento fora dos motivos que a
fizeram erguer. 
Aos domingos a bela capital daquela
província realiza uma feira de artesanato que é hoje conhecida
em quase todo o país. Com predomínio de peças em pau-preto, a
feira de artesanato de Nampula é, efectivamente, um local de
grande interesse turistico-cultural. O ébano, o pau-rosa, o
marfim - mais embutido em peças do que trabalhado na sua inteira
dimensão - a cestaria requintada e os suas famosas peças de
mobiliário em madeira bordada a recordar heranças decorativas
de vários quadrantes do mundo, são o espelho da alma deste povo
Makwa que aqui habita.
O inebriente fumo dos homens amadurece na
pequena construção à beira do caminho. Entre Ribáuè e a
região oeste, limite da província de Nampula com o Niassa, ao
longo dos dois lados da linha dos Caminhos de Ferro, há uma
antiga tradição de cultura do tabaco. Nos anos 70 um autêntico
"boom" tabaqueiro aconteceu naquela região. Pelos
vales maravilhosos separados por blocos maciços de montanhas
pedregosas estendiam-se grandes machambas de tabaco e, por toda a parte,
eram visíveis desde grandes armazéns e estufas para o sequeiro
a humildes construções para a curtição das folhas.
Efectivamente, esta planta deu cor de trabalho a todo aquele
vasto mundo agrícola. Hoje, devido à guerra que por ali também
passou, aquela região deixou de ser a grande produtora que já
foi, contudo, a tradição tabaqueira permanece e o relançamento
em larga escala desta cultura está para breve.
O tabaco de Nampula tem mesmo tradição,
dá dinheiro e é muito gostoso de se fumar, dizem os entendidos.
Nos mercados locais, onde a
cavaqueira animada abre o sorriso para o negócio andar, o bom
tabaco de Nampula, curtido e enrolado ao gosto dos fumadores, é
presença obrigatória e cheirosa.
Não basta cultivar e curtir o
tabaco. É preciso saber vendê-lo ao ritmo da tradição, da
sempre interessante disputa do preço. Compradores e vendedores
chegam a sentar-se lado a lado para acordarem o preço ideal. De
uma boa conversa nasce um bom negócio.
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