É preciso aprender, não interessa o lugar. Debaixo de uma árvore,
sentado num banco ou no chão, o importante é começar a
decifrar os signos que marcam a língua que falo ou que quero
aprender. E aprender as primeiras letras sem preconceitos de
idade na comunhão do saber.
Estas crianças da aldeia de Metuge
começam, assim, a mergulhar nas águas tépidas de outro saber
das coisas, outro mundo de ideias e que a partir da própria
realidade poderá ser a luz, a energia, o movimento para
transformar o seu mundo.

Na aldeia de Metuge não há
moageiras. O pilão antigo é o cadinho onde se transforma o
milho em farinha. Há beleza no suor destes corpos em contra-luz?
Certamente. Mas são corpos de trabalho, sempre mulheres,
encurvados pela vida. Um dia, a criança que agora assiste ao
espectáculo do labor, talvez inventará um moinho para o vento
das mãos, uma torneira para a água do poço, um candeeiro sem
fumo para o tecto da casa.
Roda de água na ilha do Ibo. Balouça a
mão na sede do poço. Os rios escasseiam em Cabo Delgado. Há
que escavar a terra que esconde a água para a boca do Homem e a
raiz das plantas. Depois vem o verde. E quando não chove? Fica
apenas a esperança do poço a esvaziar-se como uma canção
aflita na garganta dos camponeses. Fica apenas o restolhar seco
das folhas dos cajueiros no chão ressequido. Fica a natureza sofrendo
sedenta de carinho.
Que máscaras são estas para a alma do meu
rosto? Há muitos séculos misturei minha cultura no culto da
pele. Descobri o musiru. Com esta raíz-caule, que esmago para fazer
um creme, unto-me de mistério para a beleza da derme.
Inventei também um ritual para que
o meu rosto se mascarasse em pleno dia e a certas horas, pois
para o meu amor a minha pele tem noites imensas de suavidade.
Nossas mãos femininas se ajudam no
carinho do gesto feito arte, um toque de sabedoria para a magia
do rosto.
Mulheres do litoral Norte de
Moçambique põem máscaras no, rosto e espelham a alma; põem um
creme de raiz e tonificam o corpo; põem o riso dos simples e
são belas. Amam a vida como um sumo doce de caju.
Quirimba: O casario quase que desaparece no
aconchego das árvores, Aqui a copra e o pescado impulsionam a
vida dos Kimwanis. E cada palmeira tem uma história antigo com
sabor a mar. Sobretudo, cada palmeira é uma dádiva singular da natureza.
Com ela se cobre a casa, se arma a cama, se entrança o cesto e
se esfia a ráfia para a sandália do pé. Com ela se animo o
fogo, se faz a jangada, se varre o chão e se ergue a paliçada.
Com a palmeira se alimenta o corpo, se mata a sede, se faz o
óleo e se fermento o pão. Com a sura da sua seiva se anima a
vida.
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