Amor bondoso Depois de um dia duro de trabalho, ele chegou à sua casa. Vendedor de uma firma de aparelhos odontológicos, ele passava os dias percorrendo consultórios médicos que eram sempre iguais: recepção, revistas, pacientes, burlar a triagem das recepcionistas para enfim mostrar seu produto que segundo seu chefe, "era o importado mais barato e melhor", quando ele sabia que era tudo feito em Botucatu. Tendo efetuado a venda diária requerida para receber uma comissão aceitável, pôde voltar para casa mais cedo. O caminho inteiro ostentara uma expressão de felicidade plena que se repetia todos os dias, e ninguém entendia por que: o cobrador do ônibus que pegava, sempre o mesmo, o padeiro que lhe vendia quatro pães todos os dias há mais de seis anos, o porteiro do pequeno edifício onde morava. Fechando a porta calmamente, olhou para o relógio e viu que faltavam cinco minutos para as seis. Perfeito, ele pensou. Casa simples, de quarto e sala, ele possuía poucos móveis, de fato apenas uma televisão preto e branco que só mostrava tons de cinza claro, uma mesa e um sofá. Nada de quadros, decoração ou qualquer tipo de adereço. Saiu da sala e entrou no quarto com o passo sereno, fechando a porta atrás de si. Uma cama de solteiro, um criado mudo marrom escuro faltando uma gaveta no lado direito do catre e no esquerdo um armário de mogno novo e polido, o cheiro do verniz fresco que ele aplicava com freqüência. Abriu o armário: dentro dele uma bela imagem da Virgem Maria em tamanho natural, colocada ao lado de um rádio portátil preto. Ele ligou o aparelho e o som de uma canção popular encheu o ambiente, cavaquinho ressoando nas paredes, menos vibrante no entanto que os atabaques e o surdo que mantinham o compasso à semelhança de uma marcha de 297 soldados. Olhou mais uma vez para o relógio, e depois para as paredes brancas e para o teto infiltrado e mofado, uma mancha verde ameaçadora se espalhando quase pela sua totalidade. Eram 6:00 horas da tarde. Sem nenhum aviso, a música começou: "AVE MARIA", cantava o intérprete italiano. Desabotoou a calça preta de sarja e agarrou firmemente o sexo quente e duro. A imagem da santa tão bela e piedosa transfigurava seu olhar, e ele pensava o quanto a amava enquanto afagava o rosto piedoso da escultura, Ah como eu te amo, dizia ele em voz alta, seu clímax cada vez mais próximo até que gozou com um grito de felicidade para depois beijar a imagem da sua adorada santa com uma reverência e fascinação típicas do amor mais profundo que se pode imaginar. OGDENZINE # 14 |