- Eu sou DICKMAN
- E eu sou PUSSYMAN- Responde Gruber
- Quer dizer que você é o homem DICK?
Poderosa! - Ironiza Frankel
A voz sai da penumbra e agarra os dois
pelo pescoço, segurando-os firmemente. Ele é alto, mais ou menos dois
metros de altura, e seu braços poderosos vibram com a força de mil touros.
Seu pescoço é um emaranhado de músculos e veias pulsantes. No tórax
grosso e musculoso, ele enverga uma camisa com os dizeres: "Eu sou da
paz".
- Ughr...Me...solte seu brutamontes!
- Fala Frankel, próximo da asfixia.
- Se você nos matar, pode ter certeza
que Isabelle vai arrancar sua cabeça e urinar no buraco! - Gruber está
possesso. Dickman solta os dois. Arfantes, eles esfregam seus pescoços.
- Não brinquem comigo. Posso matar vocês
com um simples peteleco.
- Qual é o seu problema? Não aceita
brincadeira CACETEMAN?
- Meu nome é DICKMAN! - Urra ele, seu
hálito alcança os dois velhos suíços com o aroma de um urso da montanha.
- Tá bom, tá bom. Nunca ouviu falar em Tic
- Tacs, não?
- Seus velhos decrépitos, eu quero saber onde
foram parar as loiras PEITUDAS! - Berra ele mais uma vez.
- É justamente isso que nós queremos saber.
- Responde Gruber, com um tom de escárnio. Dickman ri. Sua gargalhada
portentosa chacoalha os lustres no teto.
- O que vocês querem com as minhas loiras
peitudas, seus velhos impotentes?
- Impotente é você, que deve estar brocha
de tanto esteróide que já tomou - Frankel responde desafiador.
- BASTA! Estou com fome! Onde tem comida nesse
bote mal cheiroso?
- Parece que nós temos algumas coisas
em comum...também procurávamos onde comer. - Dickman ri de novo, dessa
vez mais forte. Um lustre se solta do teto e cai estrondosamente no
chão.
- Nós não temos nada em comum, seus
fracotes débeis e inúteis! Eu sou DICKMAN! Mulheres no ocidente e no
oriente suspiram ao ouvir meu nome! Generais tremem com a simples menção
do meu nome! Eu já comi DIANA! Eu sou DICKMAN, o fodedor!
- Escuta aqui, Dickzinho, eu não estou
nem aí se você comeu o príncipe Charles ou a Monica Lewisky. Ambos estamos
famintos e podemos nos ajudar mutuamente: vamos achar comida! - Gruber
finalmente acerta o tom. Dickman pára por alguns instantes, seu peito
enchendo-se e esvaziando-se de ar, inalando e exalando oxigênio como
se fosse uma turbina de 747. Frankel começa a sentir falta de ar.
- Está bem. Mas nada de brincadeiras,
ou eu jogo vocês no mar...no mar não, que vocês velhas fezes provavelmente
flutuariam até o continente...- Ele ri mais uma vez, mas é interrompido
por Gruber:
- Por favor, pare de rir senão o teto
vai cair, já está rachado - diz ele em tom de súplica. Dickman levanta
os dois como se fossem penas e os coloca sentados em seus ombros.
- Está bem, vamos procurar comida! - E segue
em direção à parede.
- Que é isso! A porta é ali!- Fala Frankel,
ainda ofegante.
- Dickman não usa portas. Dickman é original.
- Disse isso e começou a abrir um buraco na parede com as mãos poderosas,
cada golpe era uma marretada que esfacelava a parede de compensado como
se fosse papelão. Depois de abrir um novo caminho na ala norte do transatlântico,
Dickman finalmente chega ao refeitório.Casais de gays e velhinhos olham
com curiosidade para aquele ser monstruoso carregando dois velhos cinzas
e enrugados.
- QUERO COMIDA! - Seu grito é tão poderoso
que as paredes vibram e alguns vidros ficam trincados. As pessoas no
refeitório começam a fugir, gritando de pavor. Dickman se aproxima da
mesa do buffet e começa a se alimentar como um animal, colocando frangos
inteiros na boca para cuspir fora uma maçaroca de ossos.
- Esse homem não é humano! - Fala Frankel,
impressionado.
- Então vamos colar nele. - Gruber responde,
também admirado. Nesse instante Isabelle entre no refeitório. Seu corpo
excepcional brilha com a loção bronzeadora, apenas um pequeno biquíni
cobrindo as formas perfeitas.
- Frankel! Gruber! Pensei que vocês estavam
incendiando garotinhos de novo...- Fala Isabelle, um ar de preocupação
visível em seu rosto. Quando Dickman a vê, quase engasga com a metade
de um leitão que estava mastigando. Imediatamente deseja possuí-la.
Ele se aproxima dela, completamente besuntado de gordura.
- Você é minha! - E parte para cima
dela. Com um golpe rápido e gracioso, ela esquiva e o joga no chão.
Uma morsa se forma no lugar onde Dickman aterrissa. Ele se levanta,
furioso, e parte de novo na direção dela. Com um salto atlético misto
de bailarina e lutadora de kung-fu, ela decola para pousar com as pernas
entrelaçadas no pescoço dele. Começa a apertar até que Dickman fica
vermelho. Mas ele não se entrega. Se joga de costas na parede, na esperança
de esmagá-la. Isabelle salta novamente, dando uma cambalhota no ar e
aterrissando entre Frankel e Gruber, os seios fartos subindo e descendo
no ritmo da sua respiração.
- Por hoje é só - Fala Dickman, a face rubra
de ódio e desejo - Mas você será minha! - Vitoriosa, Isabelle apenas
sorri.
- Amanhã vamos atracar na Jamaica. Dizem que é um lugar muito bonito,
ela diz com seu sorriso encantador - Vamos descansar agora, e Frankel,
aposto que não tomou seu antibiótico.
- Não...- Frankel está assustado. Sente-se
como se estivesse em um ringue de Telecatch. Dickman abre uma porta
na parede e desaparece entre os escombros e a nuvem de pó. Isabelle
e os velhos suíços voltam para a cabina. Ela lhes dá banho cuidadosamente,
um de cada vez, e os coloca na cama para dormir.
-
Descansem bastante, que amanhã teremos um dia cheio. Boa noite. - Boa
noite! - Respondem os dois juntos. Em algum lugar do navio, ouve- se
o som de paredes sendo destruídas.
* * *
Dois velhos suíços, um homem de força física
absurda e uma enfermeira sueca, em um bote, na costa da Jamaica. Dickman
conseguiu fazer parte da comitiva depois de arremessar o piloto do bote
ao mar. Depois das ameaças de Isabelle, consentiu em ficar calado e
não arremessar mais ninguém ao mar, salvo se por um motivo aceito por
todos (cláusula imposta por Frankel, que vê em Dickman um excelente
segurança. O peso de Dickman empena o barco perigosamente para a esquerda,
enquanto a paisagem suave de Kingston surge perante os olhos deles.
- Que merda, está quente, eu não consigo
respirar- Fala Frankel, sentindo falta de ar.
- Você está assim porque não agüentou e fumou
um cachimbo inteiro. Imagino como seu pulmão deve estar, um bloco sólido
de alcatrão e nicotina.
- Pra mim tudo bem, pelo menos meu cérebro
não virou uma massa de gordura inútil.
- Mas como você é imbecil! O cérebro tem em
boa parte de sua composição gordura.
- Mas o seu já virou toucinho, pelo
jeito.
- Parem já vocês dois! Estamos em uma
viagem de férias. - Fala Isabelle em um tom levemente exasperado. Mas
ela não consegue, logo está a afagar Frankel enquanto o massageia com
vick vaporub.
- Mas você é um fresco mesmo - Fala
Gruber - Parece uma propaganda pervertida de bálsamo. No lugar da tradicional
criança rosada, uma uva passa.
- Fresco é você, que desfilou na parada
do Gay Pride...E ainda pousou pra fotografias! Ogden inteira riu de
você.
- Não era gay pride nada, era a "Parada
anual dos Transformistas de Amsterdã". E eu fui extremamente elogiado
pela comunidade local.
- Claro! A comunidade local ou é "transformista"
ou está chapada...
- Chegamos!- O barco
treme com a voz poderosa de Dickman. Enquanto Dickman tira os dois velhos
de dentro do barco, Isabelle pula do bote e se dirige alegremente para
a praia. Quando Dickman e os velhos suíços a encontram, tem em sua mão
um folheto:
Cerimônia RASTAFARI VENHA CURTIR
O SOM DA BANDA HALF & HARRISON E EXPERIMENTAR A DELICIOSA GANJA LOCAL
- Vejam isso, acho que seria interessante
ir, o navio vai ficar atracado mais uma noite aqui - Isabelle está interessada
em ir. Com um beicinho consegue convencer os velhos suíços.
- Está bem, mas nada de contatos físicos.
- Frankel está entediado
- Nada de contato físico? E o verão
do amor? Você correu as ruas de Ogden pelado e com o símbolo da paz
pintado na bunda! Agora fica aí...
- Isso é uma invenção. Eu nunca fiz
isso. Sou um respeitável homem de negócios.
- Ah, claro, assim como naquela vez
em Frankfurt que você contratou uma prostituta espanhola e soltou um
flato bem na hora em que ela lhe chupava...Ela pediu o adicional de
insalubridade...E você pagou! Ahahahahahahah...Que otário!
- Calem-se! - Os dois interrompem a
conversa imediatamente, tamanho é o poder da voz de Dickman
-Parem com essas estórias ridículas! Eu rio das mentiras de vocês! Eu,
Dickman, que já comi cinqüenta mulheres em uma noite, e ainda saciei
Mara, a insaciável ninfomaníaca esposa do rei da Etiópia!
- Ih, começou de novo - Gruber é quem
está entediado agora - Para que nós calemos a boca, basta que prove
ser verdade as suas façanhas.
- NÃO PRECISO PROVAR NADA! - As pessoas
na praia começam a fugir, apavoradas, enquanto Dickman, em um acesso
de raiva, levanta o bote no ar e o arremessa na direção de uma banca
de mariscos. O dono consegue escapar segundos antes de ser esmagado.
- Enquanto não provar nada, você será para
nós o Dickizinho. Dickman levanta Gruber no ar e começa a gira-lo, até
que o arremessa no mar a cinco quilômetros da praia. Isabelle nada desesperada
até a local, mas não consegue achar Gruber. Retorna chorando para pular
em cima de Dickman. Ele desvia dela e a pega pelo pé, apenas para a
imobilizar.
- Desgraçado! Sangüinário! Você matou
Gruber! - Isabelle olha para os lados, e subitamente nota que Frankel
também desapareceu. Sua preocupação torna-se enorme, chora e treme e
não quer mais bater em Dickman. Este fica parado, os olhos negros frios
e a expressão de uma locomotiva na estação. Isabelle está desesperada.
Ela se volta para Dickman e diz, a voz cheia de raiva:
- Se você encontrar os dois, eu vou pra cama
com você - A face de Dickman se ilumina. Ele levanta Isabelle em seus
braços e parte na busca. Os dois procuram até o anoitecer. Nenhum sinal
de Frankel e Gruber. Quando os dois se preparam para retornar ao navio,
Isabelle triste e Dickman frustrado, ouvem cânticos ao longe. Vão investigar,
e descobrem se tratar de cerimônia rastafari do folheto. Em uma clareira
na mata, uma banda de Reggae toca animadamente, enquanto um cheiro espesso
domina o ar. Em frente a uma fogueira, Frankel e Gruber estão sentados,
tomando drinks com guarda chuva e fumando gulosamente de um cachimbo
de palha. Feliz, Isabelle corre para abraça-los.
- Estamos aqui provando da Ganja e discutindo
se o filho de Gruber é homossexual ou não- Frankel está feliz, a ganja
iluminando sua face.
- Eu consegui nadar até a praia, encontrei
com Frankel que estava tentando comprar cigarros com marcos, sem muito
sucesso. Estamos cansados de Dickman.
- Pode ter certeza que a partir de agora,
Dickman vai embora- Isabelle suspira, sabe o que a espera. Neste exato
instante, luzes começam a piscar no céu. As luzes brilham em intervalos
irregulares, até que começam a se aproximar e iluminar cada vez mais
a clareira. A banda é a primeira a fugir, seguida logo depois pelos
vendedores de drinks e pelo resto da festa. As luzes se aproximam e
o que parece um disco prateado, do tamanho de um ônibus, pousa no centro
da clareira. Frankel, Gruber e Isabelle estão paralisados, mas Dickman
parece tranqüilo. Uma luz forte sai de um lugar ignorado no disco e
os envolve totalmente. Demora menos que um segundo, e eles se materializam
dentro do disco. Criaturas de pele cinza, cabeça grande e grandes olhos
negros os rodeiam. Uma delas, a mais alta entre todas se aproxima, parece
ser o líder. Ele se aproxima de Dickman, que o encara com um olhar tranqüilo
e desafiador. Antes que ele possa perceber, já é tarde demais. Com uma
expressão de felicidade no rosto, Dickman o arremessa contra a parede.
O líder das criaturas bate contra a parede e escorre até o chão, os
ossos quebrados e um líquido negro escorrendo de diversos ferimentos
no seu corpo. Dickman arranca um painel na parede e faz dele sua clava,
iniciando uma varredura mortífera pelo disco voador. As criaturas correm
apavoradas, enquanto Dickman acerta três criaturas de vez, quatro, cinco.
Logo o interior do disco voador está coberto pelo sangue negro e pelos
cadáveres das criaturas. Satisfeito, Dickman grita com toda a força
possível:
- VINGANÇA!
Frankel e Gruber se encontram abraçados
um ao outro, apavorados e cobertos de sangue negro. Isabelle jaz desacordada
no chão do disco voador. Por uma escotilha, vê-se a órbita da terra,
o azul inexplicável do planeta.
- VINGANÇA!
- Grita Dickman, mais uma vez. Seus olhos brilham.
* * *
O cenário é sensacional,
as paredes prateadas do disco voador cobertas de sangue negro e viscoso,
pedaços das criaturas juntos ou dissociados de seus troncos pendiam
dos painéis metálicos. A escotilha grande de vidro absolutamente cristalino
mostra uma terra azul, bela e inexplicável. Dickman se vira depois de
seu urro de vingança, e enxerga Isabelle caída. Ele se aproxima devagar,
enquanto Frankel e Gruber discutem sobre a natureza da situação.
G- Se Isabelle estiver morta, estamos
perdidos. Esse Hércules vai nos matar só de raiva.
F- Claro que Isabelle está viva. Ela morrendo,
algo se altera na ordem das coisas. Pare de choramingar como uma puta
fresca.
G- Estamos em um disco voador, no meio do espaço sideral, e tudo o que
você consegue pensar é que isso não altera a ordem das coisas! Isso
só poderia vir de você, um conservador incubado. Tinha até pôster do
Reagan no escritório.
F- Mentira!
G- Isso é para lhe mostrar que eu comia a Elga, sua secretária.
F- Mas você não disse que comia a minha esposa?
G- Também.
F- Então você não comeu a Martha.
G- Isso é verdade. Mas a Elga comia a Martha, que falou do pôster.
Dickman termina de se aproximar lentamente
da inconsciente Isabelle. Olha para ela durante exatos cinco segundos,
e se joga contra um painel lateral do disco voador. Este é seu último
movimento. Tudo pára. Dickman e os velhos suíços apenas conseguem discernir
a passagem de meio segundo, e tudo volta ao normal. Na escotilha, alguma
coisa marrom começa a se aproximar cada vez mais.
F- O que é isso? Parece que estamos
indo diretamente para algum lugar.
G - Você é mais estúpido do que eu pensava,
seu cérebro virou carvão também. E conservador de carteirinha, tá vendo,
"estamos indo diretamente para algum lugar"...
F- O fato de eu dizer que estamos indo
diretamente para algum lugar não significa que eu seja conservador,
você é que não consegue raciocinar além de determinados estereótipos.
G- Mas não se preocupe, você é para
mim mais um estereótipo de uma uva passa do que qualquer outra coisa.
A coisa marrom torna-se nitidamente um planeta,
que cresce até tornar toda a vista da grande escotilha marrom.
G- Frankel, faça alguma coisa!
F- Eu não sei pilotar esta porcaria!
G- Mande o caceteman pilotar!
F- DICKMAN! PILOTE!
Dickman o olha com o mesmo olhar frio e a expressão de uma locomotiva
na estação. Ignorando completamente os gritos fracos e desesperados
de Frankel, Abre um buraco no chão do disco voador com as próprias mãos
e começa a aumentá-lo. Imeditamente Gruber percebe seu plano.
G- Ele quer nos abandonar, este desgraçado! Pilote essa tampa de garrafa
sideral, seu Dickzinho!
Ao ouvir a alcunha, Dickman para de cavar o buraco e parte na direção
de Gruber. Antes que ele pudesse alcançar o velho suíço e esmagá-lo
com um peteleco, um estrondo sacode o disco, arremessando Dickman contra
o teto e os velhos suíços dentro de um pequeno fosso. É escuro no fosso,
que está coberto com uma substância abundante, viscosa mas com uma certa
consistência variada em alguns pontos. O estrondo dura sete segundos,
e pára. Os velhos suíços não conseguem enxergar nada, e não tem nenhum
sinal de Dickman. Horas se passam, até que Gruber convence Frankel a
se arrastassem fora dalí, que era melhor morrer fora do que morrer alí,
imersos em algo que nem sabiam o que era. Os dois arrastaram-se vagarosamente
por um dia, até que chegaram a algum lugar. Era uma substância ao mesmo
tempo mole como o queijo e dura; A substância parecia ser maior que
eles, e estava envolta em panos sedosos. Era Isabelle. Contentes, eles
tentam de tudo para acordá-la, e não tem sucesso. Terminam por arrastar
ela até o lado de fora, onde a depositam com a cabeça apoiada em um
dos destroços do disco. Então os velhos param para comparar a paisagem
local com a de Ogden.
F- Bah! Isso aqui é bem pior que a paisagem fria e desolada de Ogden.
Aqui só tem terra e umas pedras da mesma cor que você pega e elas esfarelam.
Até onde a vista fraca e miópe dos velhos alcança, é apenas uma planície
interminável de terra marrom escura, com algumas pedras salpicadas e
um céu bêge, sem nuvens no céu mas com dois sóis de cores diferentes,
roxo e laranja. A fusão das cores dá um tom vesperal à luz.
G- Esse lugar imbecil está me dando nos nervos. Onde está o Caceteman?
D- Aqui.
Dickman responde e os velhos suíços se voltam para ele. Está acompanhado
de duas criaturas peludas, de cor marrom, medindo aproximadamente um
metro de altura. Possuidoras de um nariz estranho, quase humano, mas
de forma estranha, com um forma esférica na ponta. As criaturas possuem
uma boca sem lábios e dois olhos, um atrofiado.
D- Estes são os Mircs.
A um comando seu, as criaturas seguram
os velhos suíços firmemente. Os Mircs tem uma força fenomenal para a
sua reduzida estatura. Eles levam os velhos suíços adiante pelo campo
de terra, praticamente carregando-os. Dickman leva Isabelle com um braço
só, e o pequeno grupo segue adiante pelo campo de terra marrom. Andam
por três horas, a luz aos poucos esvanecendo. A noite surge sem lua,
quando o grupo chega ao que parece ser uma vila formada por três edifícios,
cada um medindo trinta metros, feitos de pedra com pequenas janelas
simétricas horizontais, a semelhança de um prédio humano. O acabamento
das habitações é rústico, já que aparentemente são feitas de rocha ígnea.
Os Mircs depositam Frankel e Gruber no chão, próximo a uma fogueira,
onde pequeninos Mircs brincam acompanhados de seres que aparentam ser
mais velhos. A chegada do grupo causa uma forte impressão. Logo uma
grupo numeroso se forma junto a Dickman e os velhos suíços. Dickman
começa a dialogar com bastante fluência com um dos Mircs que usa colares
de contas de mármore, provavelmente o líder do povoado. Ele aponta Isabelle
e faz perguntas.
F- Está vendo que era uma boa idéia
a gente ter colado no Dickman? Ele não é de todo burro, já aprendeu
a falar a língua dos ursinhos Gummy aí.
G- Tem algo de muito estranho no Caceteman.
Lembra no disco, quando ele começou a gritar "vingança" todo ensandecido?
Dickman se volta para eles e fala:
D- Velhos inúteis, esse com quem eu falo é o líder deste povoado. Ele
diz que apenas o RAMGOD pode ajudar Isabelle.
G- Caceteman, como você aprendeu a falar a língua dos ursinhos carinhosos
aí?
D- AGORA NÃO HÁ TEMPO PARA BRINCADEIRAS! É necessário que curemos Isabelle,
rápido.
F- Ela vai ficar bem, tenho certeza, acho que só bateu a cabeça na hora
em que você brincava de helicóptero com os extraterrestres.
Um som de sirene, vindo de uma torre mais alta entre todas parece
chamar a atenção dos Mircs, que se retiram e seguem na direção da torre.
Dickman pergunta ao líder, e ele lhe responde rapidamente, enquanto
segue para a torre.
D- Acho que agora vamos descobrir quem é esse
tal de RAMGOD. O líder disse que está na hora da Missa.
G- Aí Frankel, você conservador vai se sentir
ótimo aqui, tem até missa!
F- (Ignorando Gruber) O que é esse RAMGOD?
D- Parece ser o Deus deles.
Dickman e os velhos suíços chegam ao pé da torre, onde se encontra
uma escada cuidadosamente bem construída. Sobem até o topo, onde os
Mircs se aglomeram ao redor do que parece ser uma caixa cinza de plástico.
A caixa produz uma série de sons, como o de uma máquina ligando. Uma
pequena tela se acende no centro da tela, onde um número aparece: um.
Depois aparece um zero, e então uma série crescente até sessenta e quatro,
e pára. Da caixa saí um som agudo e curto, e então ela fica em silêncio
durante alguns segundos. Novos sons se propagam da caixa, só que agora
em tons diferentes e de igual duração, até que o único som se torna
o de estática. Esta é substituída pelo silêncio, e logo depois por uma
voz trovejante que comanda imperiosamente os Mircs, que enfiam um dedo
no olho atrofiado e começam a cantar cânticos estranhos, semelhantes
aos diferentes tons do início.
D- A caixa disse que "todos devem se submeter à onisciência do RAMGOD",
e depois disse que durante os próximos cinco ciclos diários, os Mircs
devem se abster de consumir qualquer comida, em honra do RAMGOD.
A cerimônia acaba, e os Mircs vão se dispersando. Um deles fica,
até todos os outros saírem. Ele se dirige a Dickman e eles começam a
conversar. A face dele fica rubra, e seu olhar adquire a cor fria de
outros momentos. Depois de conversar longamente com o Mirc, ele se despede
e se dirige ao Velhos Suíços:
D- Esse Mirc que me falou é um rebelde entre
seu povo. Ele me explicou essa história de RAMGOD. Séculos atrás, esse
povo era próspero e de tecnologia evoluída, e este planeta possuía oceanos
e florestas. Uma guerra violenta destruiu toda a biosfera e matou a
maior parte de população, exceto a elite tecnológica e as classes mais
baixas, que hoje formam a população. A elite tecnológica criou este
sistema de dominação á distância, através de meros computadores. Assim,
eles comandam o restante do povo para minerar metais preciosos e outras
coisas. A dominação consiste não apenas da ideologia, mas também dos
alimentos, que estas criaturas não podem mais produzir por que o solo
não é mais fértil. Uma vez a cada cinco dias um transporte traz suprimentos.
O Mirc com quem conversei se ofereceu para nos levar até o lugar onde
estes tecnocratas se escondem, e me disse que lá Isabelle pode ser curada.
Amanhã o transporte chega.
F- E como é o nome dessa "fortaleza"
dos tecnobichas aí?
D- O Servidor.
* * *
Como matar personagens
ou
Paradoxo da existência narrativa
Dois velhos suíços, um homem de força física
descomunal e uma mulher desacordada, em um transporte automático. Já
faz três horas que os quatro deslizam silenciosamente pela paisagem
marrom das planícies do quinto planeta daquele sistema solar. Agora
se aproximam da enorme pirâmide luminosa que já haviam conseguido definir
a algumas horas, sua luminosa presença geométrica no horizonte espalhando
cores amarelas claras sobre o marrom frio das redondezas. Era impossível
calcular o tamanho da pirâmide, mas apenas bastava enxergar a sua presença
ominosa e firme como o monte Everest no meio do nada. "Olha, chegamos",
disse Gruber, enquanto Frankel acendia o escurecido cachimbo de fumo.
"Agora salvaremos Isabelle" fala Dickman, enquanto Gruber olha para
a enfermeira desacordada, segura nos ombros dele. O transporte automático
pousa em uma plataforma próxima ao cume da pirâmide que estranhamente
não brilha como o resto, constituindo-se da mesma cor e talvez até da
mesma camada do resto, marrom de terra estéril. "Gruber, eu acho que
Isabelle está morta", Frankel baixa o tom de voz para impedir que Dickman
ouça algo. "Mas como?" pergunta Gruber, ao que Frankel tapa sua boca
e continua no mesmo tom sibilante, "Shhhh....fale baixo. Dickman pode
ouvir". Gruber se aproxima mais do velho suíço, "Como sabe que ela está
morta?", pergunta, enquanto tenta olhar por trás dos ombros e manter
a figura monstruosa de Dickman sob vigilância. "Ora, bem...ela está
desacordada há três dias...", fala Frankel. Gruber faz uma objeção,
"Mas ela pode muito bem em coma". "Pessoas em coma não ficam cinzas
nem soltam fluídos pegajosos....Além do mais, de tanto Dickman carregá-la
nessa posição, já endureceu por aí mesmo. Agora a coitada vai apodrecer
assim, dobrada com a bunda pra cima". Frankel se sente subitamente assombrado.
Nunca lhe passou falar assim de Isabelle, e muito menos reagir assim
à sua morte. Gruber pergunta revoltado, "Como você pode ser tão frio?
Isabelle cuida de nós a anos!", "Não sei...há alguma coisa estranha
no ar", Frankel olha para o seu braço, instintivamente. Sua pele está
mais branca que o normal, e ele começa a enxergar os ossos e frágeis
músculos através dela. "Oh Gruber estou ficando transparente!" grita
Frankel, fazendo Dickman se virar e encará-lo com uma face sinistra.
Com sua força absurda, ele abre uma porta no casco do transporte, a
alargando sem problemas, como se estivesse manejando uma parede de papelão.
"Era só o que me faltava. Agora você vai começar a pedir tintura pra
cabelo, um lifting, e logo vai estar tomando algum coquetel maluco de
californiano para ficar jovem", ironiza Gruber, enquanto tenta sair
para o ambiente externo ao transporte, suas juntas doloridas esfaqueando
seus ossos e tornado seu andar lento e instável. "Não, é sério! Veja!
Seu braço também está ficando mais claro!", Gruber olha e nota que realmente
seu braço está translúcido. "Não vamos entrar em pânico. Dickman sabe
pra onde está indo". Frankel tenta ficar calmo, mas esbarra no pânico
de Gruber: "Esse gorila aí não sabe nem que Isabelle está morta! Como
vai descobrir o caminho?" O próprio Dickman responde à pergunta. Absortos
em seu diálogo, sem perceber os velhos suíços seguiram Dickman através
de uma entrada na pirâmide, e por um corredor escuro até que rapidamente
chegaram no topo. Agora estão do lado de fora, a luz vesperal dos dois
sóis iluminando uma paisagem marrom, mas finita. No centro, uma cabana
de barro com teto de palha. "Não acredito...depois de tudo isso, o tal
Servidor é uma cabana de palha! Nem tinha guardas!" Gruber sente-se
bem. Mas logo volta ao pânico de antes. Seu braço já se tornou tão transparente
que ele pode enxergar o chão marrom através dele. Lentamente eles se
aproximam da cabana. Dentro dela, uma sombra se mexe. Quando o grupo
está a cinco passos da entrada da cabana, uma figura surge de dentro
e sorri para eles. É um jovem, branco, cabelos castanhos, aparentando
ter entre 18 e 20 anos. Ele usa uma camisa branca, uma bermuda jeans,
e um par de sandálias de dedo. "Olá. Meu nome é Patrick", fala ele.
"Você é o Servidor?", pergunta Dickman ansiosamente. "Não", Patrick
responde, enquanto acende um cigarro e olha para Dickman e os velhos
suíços com uma cara de curiosidade. "Você pode salvar Isabelle?" pergunta
Dickman. "Posso. Mas Isabelle já está morta há algum tempo". O choque
atravessa o grupo. Dickman derruba o cadáver da enfermeira sueca no
chão, que cai rija no chão na cômica posição de um boneco que era carregado
e foi subitamente abandonado à própria sorte. "Quem é você? Por que
estou ficando transparente?", pergunta Gruber. Uma sombra passa pelos
olhos de Patrick. "Eu não imaginava isso. Bem, eu sou o Criador". Frankel
o encara com um olhar espantado, e pergunta "Você é Deus?". "Sim. Não.
Bem, depende. De uma certa maneira, sim. Sou Deus de um mundo que é
só meu, única e exclusivamente. Você são minhas personagens. E o mundo
onde vivem, em termos físicos, não é menor que alguns bytes e umas poucas
folhas de papel impresso". Com a voz triste, sua existência subitamente
reduzida à imaginação de alguém, Frankel fala. "Se você nos criou, faça
com que eu pare de sumir!". Patrick ouve o desespero na voz de Frankel.
E sem dificuldade olha e vê que seu rosto adquiriu tons de um fantasma.
"Eu não sabia que isso ia acontecer. Claro que vocês estranharam quando
estavam no corredor e não sentiam nada com a morte de Isabelle, assim
como não estão tristes agora. Eu quis assim. Estava com pressa de acabar
com essa saga", ele fala. "Então é assim? Você nos dá vida e agora quer
nos destruir!", retruca o velho suíço. "Vocês se tornaram demais. A
exigência de escrever pelo menos uma boa piada por semana estava me
angustiando. Além do mais, com vocês a piada é sempre a mesma: "Nhé
nhé, Gruber, você é um bundão. Nhé nhé, Frankel você é uma puta fresca.
Nhé nhé seu filho é bicha...." Merda! Vocês me dão nos nervos, seus
velhinhos imbecis!" quando ele termina de falar, Frankel e Gruber ficam
nitidamente mais claros. Seus corpos adquirem uma aparência quase diáfana.
Os dois se entreolham, e Gruber fala. "Pra que nos trouxe aqui, então?
Estávamos felizes em Ogden". "Porque eu quis. Eu posso mandar vocês
pra onde eu quiser. Aí é que está a graça da coisa". "E Dickman?", pergunta
Gruber. Ao ouvir seu nome, o monstruoso ser olha para Gruber, que o
ignora. "Ele foi uma invenção. Algo para dar mais emoção à estória,
pra que eu não tivesse que escrever piadas pra vocês o tempo todo. Acho
que explorei apenas um aspecto, o burlesco. A sua vulgaridade os destruiu.
Mas eu gostaria de explicar umas coisas antes de terminar definitivamente
a estória. Bem, Dickman adquiriu essa força absurda e essa voz potente
depois que alienígenas como aqueles do disco voador seqüestraram sua
família quando sua mãe ainda estava grávida, realizando estranhas experiências
nela, que resultaram no monstruoso ser que agora me olha com uma expressão
de peido e está começando a ficar transparente. A sua ânsia em comer
Isabelle se dá devido ao simples fato de que Dickman nunca conseguiu
engravidar nenhuma mulher, porque os aliens implantaram um chip no seu
pequeno cérebro que impedia seu corpo de produzir quaisquer gametas.
O objetivo era que Dickman fertilizasse apenas à mulher ideal, gerando
assim uma superaça de homens que dominaria este planeta. Sendo Isabelle
realmente um estereótipo da mulher perfeita, sentiu-se atraído por ela
assim que a viu. Aliás, vocês nem estariam aqui se não fossem eles.
Mas, continuando, como os alienígenas haviam transformado seus pais
em refugo de laboratório, nada mais justo que ele quisesse vingança
contra os extraterrestres. Mas isso não explica a razão pela qual Dickman
fala a língua dos Mircs. Bom, os alienígenas alteraram seu código de
DNA de forma que ele aprendesse rapidamente a falar qualquer língua.
Bem acho que isso é só". "Espere! Eu tenho uma dúvida!" fala Dickman,
que parece cansado. Ele pisca muito e começa a dar poderosos bocejos
"Como é que Gruber sobreviveu quando eu o atirei a cinco quilômetros
de distância?" "Ahn, boa pergunta. Bem, eu estava com um problema naquele
dia, acho que uma infecção no olho ou coisa parecida, e não conseguia
enxergar direito. Aí escrevi errado", encerra Patrick com um sorriso.
"AHHHHHHHHHHHHHH!!!!!" , grita Dickman, enquanto desaparece em uma coluna
de fumaça. No chão ficam apenas o seu par de calças e a mesma camisa
com os dizeres "eu sou da paz" que usara durante toda a aventura. "Acho
que nós somos os próximos" fala Gruber, tristemente. Patrick tenta consolá-lo.
"Saiba que vocês ainda viverão, na memória... Porque seu mundo não é
formado apenas por uns, zeros e algumas papéis. Agora vocês são parte
do inconsciente de todos que os leram. Seu mundo agora transcende as
barreiras impostas pela minha própria exclusividade na criação. Mas,
pra que eu estou dizendo essa porra? Ninguém vai lembrar de vocês, exceto
por algum maluco em Minas Gerais que vai virar colecionador das estórias
de vocês. Pronto". "Mas como é que você sabe disso?", pergunta Gruber.
"Eu não sei. Eu crio". Ao terminar a frase, os velhos suíços desaparecem
por completo. No chão fica apenas o cachimbo de Frankel, enegrecido
pelo fumo. Patrick o apanha do chão e volta para a cabana, um expressão
de tédio melancólico em seus olhos. Senta-se em uma tosca cadeira de
madeira, à sua frente um computador Aptiva IBM K01, seu único elo com
a vida real. Seus dedos ágeis, acostumados a voar sobre o teclado, digitam
vagarosamente, quase que arrastando as pontas dos dedos pelas teclas:
r...e...g...
REGRA NÚMERO UM: AS CRIATURAS NÃO DEVEM JAMAIS
SABER DA SUA CONDIÇÃO DE CRIAÇÕES.
CAUSA: A estória se torna fatalmente inverossímil.
EFEITO: Desfragmentação do tempo; Sua existência
pode se tornar paradoxal. Ou não.
Everything I create is real. They are real.
Somewhere within the dark passages of my cranium, they are alive and
shouting at each other, throwing pipes at German children and shooting
the pigeons. But they will never be characters again. They died in the
real world, to be born in the wonderworld. Because to wonder at the
world is the only thing that I still hold on to, in this world.
OGDENZINE # 9, 10, 11, 12
|