Insetorama

Entrei no carro e uma luz acendeu no teto: fumante ou não fumante? Fumante, respondi. Ótimo, disse uma voz feminina vinda diretamente do painel, Agora fale sobre sua vida sentimental. Ignorei a voz inquisidora até que o veículo deu sinais de que ia passar reto em todas as curvas. Respondi que tinha uma boa vida sentimental, era casado com três mulheres e tinha posto no mundo cinco filhos de diferentes tamanhos, todos portadores da marca de nascença que os identificava como vindos do meu sangue, adicionei com orgulho. Segui traqüilo por alguns minutos, a voz parecia satisfeita. Mas antes mesmo que eu chegasse à mansão, ela fez outra pergunta, Você se considera um bom homem? Abandonei o carro uma quadra antes do meu destino e continuei a pé. Cheguei à bela e rica mansão do Sr. Woodward (185 quartos, o Quintal, uma garagem e dependências separadas para os servos e onitorrincos), que estava rodeada de automóveis brilhantes (pára choques cromados, faróis duplos). O Sr. Woodward é casado com Luanda Luplace, a famosa escritora (seis livros publicados em oito línguas). Entrei no magnífico portão, enquanto diversos convidados em trajes de luxo catavam pedrinhas na pequena estrada de seixos que levava o visitante direto para o Quintal. Segui na direção da casa. Entrei no pátio amplo. Nele, três mulheres conversavam próximo a mesa do buffet, e alguns convidados sentavam-se nas pequenas mesas que cobriam o chão de granito. Resolvi cantar uma das mulheres. Escolhi a mais bela, uma morena de canelas finas e lábios cheios, e iniciei uma conversação. Eu não quero ficar calado em um lugar cheio?, perguntei, ao que ela falou desafiadora, Por que você deve ir para esse lugar?, Com certeza lá eu não te darei meu telefone, disse confiante. Ela respondeu, Fluído canivete!, e foi embora. As suas amigas limitaram-se a rir de mim, até que o garçom passou por nós rapidamente e informou: O show vai começar. Imediatamente todos foram para o Quintal.

O Quintal:

Bonitos cadáveres em cores que variavam do cinza ao verde decoravam a piscina. Uma senhora em um vestido de grama murcha falava para cinco pessoas, Dá muito trabalho conseguir que estes cadáveres atinjam a coloração certa, eu mesma estou extremamente chateada porque meu marido comprou um daqueles cadáveres falsificados de Agrapur para nossa nova casa de campo, e agora não conseguimos que parem de escurecer! As pessoas em volta concordaram, silenciosas. Do outro lado do Quintal (piscina, estátuas gregas, numerosos servos), um grupo se aglomerava em volta de alguém que parecia discursar com eloqüência. Ao me aproximar vi que o bebê falava para uma platéia atenta, Se os capitais investidos não retornam à quem lhes pertence, dizia ele, cabe à sociedade interferir garantindo assim a ordem das relações comerciais. Enquanto os cantoneses passeiam impunemente por nossas ruas, eles se disseminam entre os bolsões mais vis da patuléia. Parou, encarando cada um dos ouvintes diretamente nos olhos, então concluiu enfático, A segurança é uma forma de justiça!, recebendo palmas ardentes. O show já havia começado, uma mulher paria em um palco baixo observada por convidados embriagados que riam sem parar do movimento doloroso que expulsava a criança para fora. Encontrei um amigo meu a assistir, o Dr. Hudson, proeminente cardiologista especializado em operar corações partidos. É duro, ele me falou, algumas vezes encontramos espécimes realmente avariados, mas rapidamente eliminamos o problema, por que esperar se a medicina resolve tudo? E me entregou o seu cartão, Apareça se precisar. Fui interrompido pelo Sr. Woodward, falando em sussurros no meu ouvido, Minha esposa quer conversar com o Senhor. Me despedi do Dr. Hudson e segui o dono da casa até o fundo do quintal, onde um biombo de seda transparente separava o resto da festa de Luanda Luplace. Ela era feia, tinha lábios finos e gordurosos e usava uma roupa folgada cujo caimento escondia propositadamente o corpo disforme. Estava sentada em um sofá ricamente decorado, cercada por onitorrincos que passeavam nervosamente a sua volta. Deixe-nos a sós, falou ela ao marido, que partiu silenciosamente em seguida. Eu sabia que Luanda me desejava. Sentei no sofá e ela falou com o seu sorriso aquoso, Estou escrevendo um livro e gostaria que você ouvisse a minha estória. Sim, por que não, respondi, e então ela começou, Certa vez uma moça amou, amou muito e de maneira poderosa. Mas você sabe como as coisas são... A desilusão. Para ela foi tão forte como a amor que cultivou, uma espécie de buraco negro energético, resultando em um desejo potente de auto destruição. Ela tornou-se mordaz com o corpo que tanto amava, tratando-o com um desprezo absurdo; os cabelos castanho claros passaram a ter uma irregularidade de pura mutilação. Sempre nua, ela se satisfazia com o cheiro que exalava de sua virilha e sabia que ninguém mais a tocaria. Os seios cortados possuíam cicatrizes novas e pequenas chagas róseas ornamentam a carne firme e jovem, e ela pensava "Ninguém mais me tocará", enquanto olhava para si própria e lembrava daquele que a destruíra, ela havia sido feliz, encharcada com o mito. Tamanha foi a sua decepção com aquele negócio tão procurado que ela decidiu, bem, tornar-se à prova de qualquer desejo externo. Assim, estaria protegida. Ao cabo de quatro meses, começou a atrair dos arredores um número crescente de insetos. Os diminutos besouros interessavam mais a ela. Sempre curiosos, eles passeavam por todo o seu corpo. No entanto, ela não apreciava as borboletas voadoras que serelepes pousavam na cabeceira da cama velha e empoeirada que era seu lar. Além destes, uma pequena legião de cupins prestava homenagens diárias à sua rainha. Diferentes dos besouros, os cupins limitavam-se a admirá-la, formando pequenas fileiras a sua volta. Por vezes ela sentia-se atormentada, mas encontrava consolo nas traças e sobretudo nos pequenos ácaros que passeavam microscópicos por toda a cama. Havia também, é claro, uma respeitável comunidade de baratas. Elas corriam nervosas de um canto ao outro, mas eram excelentes companheiras. Diferente das borboletas, que apenas flertavam ocasionalmente com a podridão a que ela se afligia, as baratas sempre a acompanhavam. Ela apreciava a lealdade dos insetos, que a acompanhavam e lhe davam atenção, eram seus únicos companheiros. E um dia, um dia muito claro e feliz, o Ácaro Gigante vem procurá-la. Ele chega por volta do meio dia, passa devagar o vão da janela e em um pulo se coloca ao lado dela. Sua carapaça translúcida reflete um arco íris de cores vivas. Inebriada pela beleza daquele barril imenso de vida pulsante, ela toca a casca e sente os órgãos se mexerem e vibrarem sob suas mãos. Auto confiante, ela não se assusta quando o Ácaro Gigante pula para cima dela. De fato é um tanto pesado, mas e daí? O homem que a possuíra pela primeira vez parecia ser de um volume assustador; nada poderia ser mais pesado que aquilo. Nem um Ácaro Gigante. Mas ela começa a sentir uma ponta de apreensão quando nota o órgão alongado que vagarosamente saí de uma dobra na barriga do Ácaro Gigante. O órgão tem o formato de um falo, coroado de espinhos e pingando incessantemente um tipo de líquido ácido. Ela sente a pele retorcer e queimar cada vez que uma gota é derramada sobre o seu corpo. Inutilmente começa a gritar apavorada, mas nada que ela posa fazer pode impedir o inevitável: logo o Ácaro Gigante está dentro dela e a cada estocada se aprofunda cada vez mais, perfura toda a extensão do corpo dela até atingir a boca. Ela está morta, e em um último jorro de líquido o crânio dela se dissolve. Satisfeito, o Ácaro Gigante a abandona para se deitar na cama por algumas horas. Depois vai embora. Assim que ele deixa a cama, é uma festa, os besouros, as borboletas, os percevejos, as traças e as formigas, todos banqueteando nos restos mortais ainda frescos e quentes da pobre garota. No final todos se divertiram bastante, exceto as baratas, estas ficaram a assistir enquanto os outros comiam. Encerrou sua estória e olhou para mim, o sorriso aquoso esperando uma reação. Antes que eu pudesse responder Luanda falou apressadamente, Espere um pouco, traga-me um martini, por favor. Saí do biombo apenas o suficiente para localizar um garçom. Trouxe a bebida. Ela agradeceu, e depois perguntou, O que achou da minha estória?, Um lixo, Mas como, ela parecia não acreditar, Minha senhora, eu sou um coveiro, o que esperava, lágrimas abundantes? O sorriso dela secou. Está bem, disse, Pelo menos você trouxe meu martini.

11: 57

Depois de caminhar até o automóvel, tive ainda que agüentar suas insistentes perguntas. O motor esfriara na brisa noturna e agora a voz me perguntava se o achava potente. Respondi que sim. Insatisfeita, perguntou de novo, Mas você não acha que estou ficando velho?, Não, que é isso, você ainda dá muitos quilômetros. Ela insistiu, Você vai me trocar por outro? Praguejei, apenas para descobrir que o automóvel agora estava rodando na contramão, puta que o pariu, veículos movidos a palavras nunca vão dar certo mesmo.

OGDENZINE #15

<| 0 |>

1