Estes princípios, escritos com muitas interrupções, ás
vezes se repetem; pareceu-nos preferível aceitar essas repetições a fim de
dei xar a cada conjunto a sua coesão e o seu vigor. Não há nestas páginas
uma só palavra que tivesse sido colocada para parecer bem. Nada mais fizemos
senão revelar as conclusões de uma experiência. As poucas citações
empregadas não foram escolhidas por causa da personalidade de seus autores, mas
porque foram também experimentadas.
A experiência, aqui referida, foi prosseguida durante oito
anos de vida marítima e quinze anos de ação social. Muitas obras re sultaram
disso e, no setor marítimo, até mesmo reforma de instituições.
1. Os Objetivos
Partindo dos fatos, à luz da razão e da fé.
É preciso abordar um problema pelo seu objeto, no sentido
mais amplo da palavra: "De que se trata?"'
Nada, a não ser a submissão ao objeto. Nada, a não ser a
ambição do bem.
Inserir-se no plano de Deus. Tudo colocar no plano de Deus.
Ser totalmente dominado por esse grande desejo.
Apagar-se diante da obra que vai ser empreendida e que tem o
bem como objetivo.
O que conta é a obra a realizar. Assim sendo, ninguém
perderá tempo consigo mesmo, nem atrapalhará os outros com a sua pessoa; e
aqueles que nos virem viver, desinteressados e ardentes, ficarão nossos amigos.
Colocar constantemente essa obra como uma parte integrante da
obra total do Cristo.
A obra a ser realizada: trabalhar com todo o seu ser para a
elevação humana.
E preciso ter uma mensagem para anunciar ao mundo.
É preciso propor aos homens um grande objetivo. Sofrem por
serem convidados apenas para o medíocre.
O que é preciso é dar testemunho da verdade, testemunho de
Cristo.
2. Salvação do Homem
O objetivo: salvar e elevar o homem. O homem todo e toda a
humanidade.
Salvar o homem, salvar o homem na totalidade de seu ser;
logo, antes de mais nada, salvar o espírito. Sim, o respeito a cada homem; mas
a neutralidade é traição.
Engajamento é o ato do misericordioso impelido pela
justiça, animado pelo amor.
Não se agarrar tanto aos males, mas às suas causas.
O setor do engajamento: lá onde houver mais o que fazer, e o
que se for capaz de fazer; lá onde houver menos resposta à necessidade ou ao
apelo.
Para que gemer? O que é preciso é atracar-se corpo a corpo
com o mal, atacá-lo e vence-lo.
Meditar e tornar a meditar o Evangelho do caminho de Jericó.
O moribundo à beira da estrada? É o infeliz que realmente encontramos em nosso
caminho, mas é, também, o proletariado oprimido, os ricos materializados, a
burguesia sem grandeza, os poderosos sem horizontes, toda a humanidade de nosso
tempo em todos os seus setores.
A miséria, toda a miséria humana, toda a miséria das
habitações, dos vestuários, dos corpos, do sangue, das vontades, dos
espíritos; a miséria dos desclassifi cados, dos proletários, dos que ajuntam
avaramente, dos banqueiros, dos nobres e dos príncipes, das famílias, do
sindicalismo, dos "cartéis", dos impérios.
Devemos acolher antes de tudo em nosso coração a miséria
do povo. É a menos merecida, a mais tenaz, a mais opressiva, a mais fatal. E o
podo não tem ninguém para preservá-lo da miséria, para ajudá-lo a sair
dela. Muita gente tem dó dele, algumas pessoas o auxiliam, mas ninguém se
preocupa com as causas profundas dessa miséria. Daí a ineficiência da
filantropia, da assistência, da beneficência. A miséria do povo está ao
mesmo tempo no corpo e na alma. Cuidar das necessidades imediatas adianta pouco
enquanto as inteligências não forem alargadas, enquanto as vontades não forem
retificadas e fortalecidas, enquanto os melhores não estiverem animados por um
grande ideal, enquanto as opressões e as injustiças não forem suprimidas ou,
pelo menos, atenuadas, enquanto os humildes não se unirem para a conquista
progressiva da própria felicidade.
Colocar em nosso coração e sobre os nossos ombros a
miséria do povo; não com a atitude de um estranho, mas como uma criatura entre
outras criaturas, com as cria turas; arrastando-as para a luta comum,
atirando-as ao combate pela própria salvação, ajudando-as a se elevarem na
realização de um grande esforço.
Desde que a gente se preocupa seriamente, eficazmente, com a
miséria, ela começa a chover em volta de nós, sobre nós. Ou então, é como
uma maré montante: ela nos submerge.
Quem quiser ter muitos amigos não precisará senão pôr-se
a serviço dos abandonados, dos oprimidos. Mas nada de esperar muita gratidão.
O contrário da miséria: não a abundância, mas o valor. O
principal não é produzir riquezas, mas valorizar o homem, a humanidade, o
universo.
Salvação do homem: que ele perceba Deus naquele que o
aborda e que o ama.
O outro deve, ao mesmo tempo, sentir que está envolvido de
ternura, por causa do bem que nele existe e do bem que poderia nele existir.
3. Orientações da Ação
A virtude é o bom uso da natureza; o pecado, o abuso.
Exercer o nosso esforço nos setores que ficaram
disponíveis; tomar a nosso cargo aquilo que resta por fazer.
Grandeza. Ver com grandeza, querer com grandeza, pensar com
grandeza, realizar com grandeza. Nos combates de hoje tudo se trava na escala do
homem e na escala do mundo.
E preciso estar sempre disposto a realizar, por todos os
modos, coisas grandes, mesmo se, na ação empreendida por muitos, não se puder
conservar senão um papel secundário.
Não se preocupar em fazer carreira, mas em encher a vida em
plenitude, pois todos os atos são finalizados pelo essencial.
O essencial não se percebe sem procura e sem a intervenção
do Espírito Santo.
Nada de imitar a burguesia: não se trata de obter ou de
conservar considerações e privilégios; trata-se de servir.
Nada de discutir: construir.
Não se trata de descobrir e de percorrer sozinho, uma única
vez, uma pista, mas de traçar e de construir, para uso de muitos, uma larga
estrada.
Não adianta estar a par de tudo o que os outros dizem ou
escrevem, se a gente se privar do contato direto com o objeto. O problema não
consiste em acumular informações, mas em julgar bem a realidade. O
conhecimento não consiste num "estetismo" de conceitos, mas num
acordo com o objeto.
A melhor escola para aqueles que têm mais capacidade: o
banho. É preciso entrar nele, e nadar, e vencer a correnteza ou servir-se dela.
Mas, é preciso não jogar na água aqueles que não
tardarão a se afogar. Nem todos são feitos para a heróica aventura.
4. A Eficiência
Há uma técnica da ação: não querer estudá-la nem
aplicá-la é tentar Deus.
Uma vez fixados os fins, usar meios proporcionais. Começar
pelo inquérito, que deve ir-se tornando progressivamente exaustivo. Aquele que
sabe, porque viu, porque experimentou, porque meditou longamente, não ficará
dependendo da aprovação dos outros; seguirá com segurança o próprio
caminho.
No começo da vida ativa qualquer ação de certa
importância precisa ser preparada pacientemente, minuciosamente. A
improvisação é normalmente desastrosa. O reflexo da ação objetiva não é
conseguido senão pouco a pouco, depois de muitas apalpadelas, de muitas
experiências, de muitos fracassos.
Não é preciso, entretanto, esperar saber tudo para agir.
Ninguém nunca sabe tudo e é a própria ação que permite progredir no saber.
Amar a obra bem feita. Dedicar a isso o tempo necessário.
Mamãe me dizia que a gente nunca deve fazer as coisas como quem "não se
importa".
As interrupções da ação - as doenças, por exemplo - são
muito úteis para a gente pôr cada coisa em seu lugar, para a gente retomar as
perspectivas. Graças a essas interrupções, muitas vezes, o nosso trabalho
tornase mais fecundo. Isolados do barulho, libertados dos empurrões, podemos
olhar as coisas e os acontecimentos de mais alto, e domina-los. Podemos assim
exprimir as conclusões de nossa ação. Podemos, enfim, confrontar a
experiência e os princípios, e dar aos princípios uma nova vitalidade,
repondo-os em estado de germinação.
Conforme o dito de São Tomás: é preciso pensar sempre no
assunto.
Logo que a gente consiga adquirir em todos os domínios o
sentido daquilo que é mais essencial, não sobrará tempo senão para ele.
Tender para um fim único, arrastando a ele os outros, e
pensando sempre nele. O ser transforma-se pouco a pouco. Temos assim a
orientação, a dinami zação de todo o ser. Obtêm-se, assim, os reflexos de
ação objetiva.
A vida é curta demais para a gente gastar, uma hora que
seja, em intrigas.
É preciso chegar a impregnar a lei das condições da
elevação humana para as multidões.
Nossa eficiência verdadeira será talvez, aquela dos
momentos em que nos arrancamos daquilo que consideraríamos o nosso trabalho
essencial. Apesar do
cansaço recebemos bem e ajudamos aquele que considerávamos
um impostor, e a orientação de uma vida foi mudada.
5. A Verdadeira Prudência
Não tomar posição antes de conhecer a questão. Evitar
julgamentos apressados ou apaixonados sobre os homens e sobre os acontecimentos.
Evitar na ação qualquer precipitação.
Queres saber? Vai ver. Desconfia do livro; segue o objeto.
No setor que escolheste, deves ser o homem mais sabido: não
porque conheças melhor todos os pormenores - isso é impossível - mas porque
conheces, e de maneira coordenada, pormenores suficientes para perceber o
conjunto. O que mais falta hoje, em todos os domínios, é o homem capaz de
abranger a totalidade do problema. Às vezes surgem alguns, mas são falsos.
Não começaram pela análise minuciosa. Ou, então, falta-lhes cultura, ou
esquecem o elemento humano.
É preciso tudo isso ao mesmo tempo.
Dar um jeito? - Nada disso. Entregar-se ao objeto.
Sinceridade e lealdade. Jogar jogo franco é a suprema
habilidade. (Isso de dar um jeito, de dar um arranjo, é coisa que exaspera.) É
preciso deixar os "golpes" aos medíocres.
Muitos há que procuram, não a verdade, nem o bem, mas o que
convém no momento, o que dá bom resultado. Esses são malfeitores.
Ousar. Quem segue o objeto arrisca menos. Ensinam-se aos
homens, sobretudo, a não fazer, a não empreender, a não arriscar: exatamente
o contrário da vida.
Espiritualidade. Afastar-se, em cinco pontos, da
espiritualidade habitual da gente de bem, que consiste em:
- não fixar os objetivos,
- não usar os meios proporcionais, - fracassar,
- acusar os maus,
- abandonar-se a Deus.
Ao contrário, observar, ouvir, concluir, querer, engajar-se,
retificar-se, racionalizar, insistir, alargar, orar, abandonar-se.
Fixar- os fins, estudar o terreno, não desprezar os
adversários, estabelecer um plano, usar de todos os meios racionais, de que se
possa dispor; preparar cuida dosamente as armas, empenhar-se valentemente no
combate, abandonar-se a Deus.
Aceitar os recursos pobres, e não recorrer aos menos pobres,
a não ser por objetividade, por necessidade. Gastar sem hesitar para adquirir o
"necessário" para a tua vida e para tua ação, e Deus te ajudará.
Mas, para que Deus te ajude com recursos, exige o teu esforço e exige que sejas
pobre de verdade.
Cada um só dispõe, conforme a saúde, o temperamento, as
ocupações, de certo potencial de combate. É preciso não gastá-lo em
escaramuças.
Muitos se gastam em lutas inúteis, em lugar de administrarem
bem a agressividade para reagirem com vigor quando for preciso.
O importante é embarcar. Mesmo sem saber que navios se irão
encontrar, que tempestades se irão sofrer, em que portos se irá descansar.
Mesmo não tendo pre visto tudo, a gente parte e chega. Basta que o navio não
tenha rombo, que os porões estejam suficientemente cheios, a máquina em bom
estado e que o capitão e os seus homens entendam suficientemente do ofício.
Há risco. Isso não impede de partir.
Uma grande obra é sempre, aos olhos do mundo, uma
imprudência.
O cristão não corre nenhum perigo de
"materializar-se", desde que procure, antes de tudo, o reino de Deus e
a sua justiça.
6. As Regras de Ouro do Marinheiro
Meter à orça.
Expressão marítima. Navegando à vela o mais perto, o mais
perto possível do vento pela proa, meter-se no vento para aliviar o navio
quando a brisa força passa geiramente. Essa passagem mais forte do vento
chama-se pé de vento. É notada pela cor mais sombria da água e pelo
embranquecimento das ondas. Em outras palavras: Diminuir as dificuldades
dando-lhes menos pontos de ataque. Ou ainda: Diante de uma súbita oposição,
ceder um instante e retomar o caminho. Outros dizem: Deixar passar o pé de
vento ou Deixar passar a tempestade. Vigiar o pé de vento.
O pé de vento caracteriza-se por um aumento rápido da
força do vento, seguido muitas vezes por chuva ou neve; é muito perigoso na
navegação à vela; pode arran car as velas e até mesmo desarvorar o navio.
Logo, é importante prever a sua chegada, reduzir o velame ao estrito
necessário antes que ele chegue, estar com o olho atento na barra.
O chefe deve vigiar o pé de vento quer dizer, deve ver de
longe as dificuldades futuras, estar pronto para vencê-las, antecipar-se aos
acontecimentos. Sem o quê, um dia ou outro, será arrastado. Nunca deve dormir
embalado pela impressão de segurança.
Pôr a proa em cima.
Expressão marítima. Quando um navegante medroso, desejando
reconhecer um marco de arribação põe a proa a um ponto situado a uma certa
distância desse
marco, corre o risco de não atingir o alvo. É preciso,
portanto, caminhar resolutamente em direção daquilo que a gente quer atingir.
O seguro morreu de velho.
Expressão popular. Isso significa: É preciso garantir
sempre certa margem de segurança.
Aproveitar o vento favorável.
Quando as circunstâncias forem favoráveis é preciso
aproveitá-las, para ganhar um bom pedaço do caminho.
7. O Combate
Amar o combate. Considerá-lo como normal. No estado da
natureza decaída ele é a vida. Não ficar espantado com ele; aceitá-lo,
mostrar-se corajoso, ser senhor de si, jamais faltar à verdade e à justiça.
As armas do cristão não são as armas do mundo.
Amar o combate, não por ele mesmo, entretanto, mas por amor
do bem, por amor dos irmãos que devem - ser libertados. Há mesmo no combate
certa beleza; não é proibido gozá-la.
A batalha, ataque decisivo.' Não se trata de guerrilhas, e
não se vai armado de lanças ao encontro de carros blindados.
Não ceder diante de obstáculos sucessivos. Lutar até o
fim. "Uma batalha perdida é uma batalha que a gente pensa ter
perdido".
Quem quiser dominar os acontecimentos deve andar mais
depressa do que eles. É preciso para isso ver com antecipação a realidade em
suas causas e agir sobre as causas. Uma vez. travado o combate, é preciso
triunfar. Não se trata de ter um pé aqui, outro lá. É preciso ir ao fundo
até a decisão.
A ação é sempre um combate; quem a conduzir com moleza tem
garantido o fracasso total. Na ação é preciso ir mais depressa do que os
acontecimentos, é preciso impor-lhe o ritmo,.
É muito difícil a gente não se deixar manobrar, mesmo se
não se procura senão a verdade e a justiça. A recepção cheia de cuidados, o
bom jantar, o sucesso que nos foi prepa rado, o oferecimento de uma subvenção
excepcional, de u-m automóvel, de um apoio permanente sem condições: são
essas as armadilhas mais vulgares. Há a ação sobre os membros mais
conciliadores da equipe para faze-los ceder cada vez um pouco de terreno; há a
exploração da_s divergências, de tal maneira que a gente é obrigada a
capitular debaixo da ameaça de uma cisão; há a maioria da clientela que quer
impor uma determinada ton alidade; há a introdução de falsos amigos nas
equipes. JE- preciso estar sempre vigilante para que possamos guardaiLr
verdadeiramente a liberdade, para não nos deixarmos engolir, ou comprometer,
por um grupo.
Exploram tudo: a tua falta de dinheiro, a tua necessidade de
apoio, a tua virtude e as tuas fraquezas, a tua timidez e a tua audácia, os
teus amigos e os teus inimigos, a tua ingenuidade e a tua prudência.
Aproveitamse de cada uma de tuas hesitações, de cada um de teus tropeços.
Cercam-te, pouco a pouco, de todos os lados. Pensam que já te dominaram. Deus
queira que não seja verdade. É quase um milagre.
Para vencer é preciso ser o primeiro em tudo que diga
respeito à documentação. É preciso ter antenas, e conseguir livre entrada em
toda parte. É preciso estar dominado por uma idéia poderosa que não se irá
exprimindo, senão pouco a pouco.
Quando a idéia se apresenta aos homens sucessivamente,
debaixo de muitas formas diferentes, desde que essa idéia os preocupe, eles
não lhe resistirão por muito tempo.
É preciso agüentar firme. Muitos ficam gastos depois das
primeiras batalhas. Não tinham armas, ou não tinham tenacidade. É preciso
agüentar firme, cerrar os dentes, encarniçar-se, obstinar-se, preparar
recursos poderosos de ação, aperfeiçoar as técnicas pessoais, a tática,
tornar-se estrategista. Todos pensam que estás morrendo, e nunca estiveste tão
forte.
O capitalismo julga que tem todos os direitos, outorga-se
todos os direitos. Pensa que a justiça só pode estar do seu lado. Tendo
dinheiro, crê que pode ter tudo. E assim crê, porque já corrompeu muitos
infelizes, que não se revoltaram; enganou muita gente parcimoniosa que continua
a alimentá-lo, impôs muitas leis favoráveis a seus planos, corrompeu muitos
políticos... não imagina que alguém possa resistir-lhe por muito tempo.
Quando encontra oposição da parte dos humildes, ou da parte
dos padres, acusa-os de heresia, de revolução, de anarquia, de comunismo. Tem
tamanha cons ciência de representar a ordem, que imagina que a Igreja está
sempre do seu lado.
Nada o impressiona tanto, nada o põe tão zangado, quanto a
pacata afirmação diante dele dos direitos do homem. Mas, essa afirmação não
basta. É preciso colocar os homens em situação de resistir-lhe.
O comunismo, no fundo, tem medo. E é por isso que é tão
duro. Não compreendendo o homem, é obrigado a maltratar o homem. Mostrou-se
por toda a parte, e não pode deixar de manter-se, opressor. Ainda tão jovem,
debate-se na contradição. Tendo aniquilado Deus, tornou-se um falso deus.
Sua força consiste em ter encontrado em seus opositores
inimigos que não percebem sua verdadeira fraqueza. Imaginam que é preciso
liquidá-lo pela força, quando não se triunfará dele a não ser pelo amor.
De fato, mostra-se impotente em fazer do homem o deus do
homem. É esse o ponto que é preciso atingir nele. A revolta de seus súditos
grita contra ele.
Se seus inimigos amassem a humanidade, não tardaria a
esfacelar-se.
O anticomunismo, o anticapitalismo: bobices. É preciso amar
todo homem, apaixonadamente. É com as doutrinas e os comportamentos que é
preciso lutar. Mas isso exige mais esforços do que a negação pura e simples.
A gente nunca está sozinho, mesmo nas horas de pior solidão. Desde que alguém
afirme a verdade, desde que queira o bem, desde que combata pela justiça, faz
muitos inimigos, mas prepara também muitos amigos. Ao lado de cada um de nós,
outros há que amam a verdade, o bem, a justiça. Amanhã, estarão todos
abertamente a nosso lado.
Mesmo entre os que hoje se opõem à nossa ação há sempre
homens dispostos a se unirem conosco, desde que conheçam os nossos verdadeiros
sentimentos.
8. O Chefe
O chefe é aquele que recebeu ou assumiu o encargo de um
setor da humanidade e do universo para orientá-lo de conformidade com o plano
de Deus.
São palavras de Bossuet: A realeza e um poder universal de
fazer o bem. Quanto mais autoridade tivermos, tanto mais dela nos aproximamos.
Função do chefe: prever, organizar, ordenar, coordenar,
controlar.
O chefe deve habituar-se a abranger os conjuntos; a colocar o
que vê e o que faz no conjunto. O chefe deve ver com largueza e à distância.
Antigamente, envelhecendo, a gente se tornava mais apto para
dirigir. Hoje o mundo gira depressa demais.
Os velhos não podem mais se adaptar. É preciso estar
preparado, perto dos "quarenta", para empenhar-se na ação decisiva.
E, como tudo está mais complexo do que nunca, é preciso, ao mesmo tempo em que
se faz o aprendizado da ação, adquirir uma cultura universal. O chefe
realmente grande destes tempos deve ultrapassar, e muito, o príncipe de
antigamente. E por isso não se vêem chefes como esses emergindo da massa dos
ambiciosos. Por isso é cada vez mais importante preparar homens superiores que
estejam amanhã à altura das circunstâncias.
O chefe esbarra constantemente com a passividade e com a
autonomia de seus colaboradores; ao mesmo tempo retardado e ultrapassado, deve
continuamente fazer a revisão do seu plano, adapta-lo. Assim, não é nunca o
seu projeto que ele realiza, mas um compromisso entre a sua personalidade e a
dos membros da sua equipe. Muitas vezes isso resulta em graves prejuízos; e,
outras vezes, em sérias vantagens: conforme a estrutura, o espírito, o
verdadeiro devotamento à causa daqueles que por ela se responsabilizaram. A
obra, enfim, é comum; apesar dos obstáculos criados por alguns e de ninguém
ter visto realizar-se o seu próprio plano.
Sofrimento dos chefes: sofrimento de quem está na frente e
que os outros não seguem e não compreendem. 0 seu sonho, as intuições, as
certezas constituem a sua riqueza e o seu tormento. Os outros têm também os
seus sonhos; e julgam que têm também as suas certezas, as suas intuições.
Por que o chefe há de ter razão? Com idéias tão acanhadas... Veja quanta
coisa lhe falta. Então, por que desejaria ele nos arrastar pelo seu caminho?
Ele nos limita, quebra a nossa vontade. Queremos explorá-lo, utiliza-lo, mas,
não queremos servi-lo.
O chefe deve muitas vezes continuar o seu caminho na
solidão, com o seu quinhão de certeza, seu quinhão de ilusões, seu grande
sonho e todo o seu risco. Na maior parte das vezes estará sozinho; e mesmo
aqueles que o tendo melhor compreendido mais se entregaram a ele, esses mesmos,
terão os seus períodos de desafeição. Esses mesmos, nas suas horas de
lassidão, de extrema prudência, ou de orgulho, ameaçam abandona-lo.
Desde que o chefe quer subir sobre um pedestal, ele está
perdido. Se perceber que está instalado nele, que trate de descer depressa.
O chefe deve ser forte, e sua virtude teologal é a
Esperança.
Confiança do chefe: esperar que aqueles que o seguem apesar
de tudo hão de ultrapassa-lo; ou porque estejam melhor equipados, ou porque as
suas próprias hesitações lhes serão poupadas, ou porque estarão muito
reunidos na mesma obra.
Sobretudo, não ter a mística do chefe diante de quem tudo
deve curvar-se.
Tanto mais seremos chefes, quanto mais formos simplesmente e
integralmente servidores.
É preciso, à medida que os colaboradores crescerem,
deixar-lhes com confiança o setor de responsabilidades que possam validamente
assumir.
É preciso sempre estar pronto a entregar a mão àquele que
se tornou mais capaz do que você para segurar o leme.
O essencial para o fundador ou para o responsável consiste
em não se julgar em função de si mesmo, mas da obra total a ser realizada.
Quem pensa em seu prestígio, em seus direitos, já está
fora de combate, já é um estranho. Os colaboradores cessam de segui-lo. É
preciso não cessar de esquecer-se. É preciso não se dar conta de si.
É fatal que os jovens, tornando-se adultos, sejam exigentes.
Um dia superam, ou julgam superar, aquele que lhes abriu o caminho. Querem mais
liberdade, mais iniciativa, menos controle. Estão prontos a fazerem secessão.
A reação de defesa dos direitos adquiridos sobre a
instituição que criamos e sobre os homens que nela se engajaram não deve ser
em nenhum caso a defesa de si mesmo. É preciso pôr-se de novo diante das
finalidades mais altas que foram por nós fixadas, e julgar em função desses
objetivos.
Que importa se um grupo se separa, embora se mantendo na
mesma perspectiva? Que importa que a equipe seja absorvida num organismo que a
torna eficaz? Que importa que tudo pareça comprometido, quase perdido?
Finalmente, tudo encontra de novo a convergência e o melhor
jorra dos escombros.
9. A Vida da Equipe
A equipe é o grupo ligado ao mesmo trabalho construtivo. Seu
vigor é feito das intensidades da adesão. É às vezes mais sólida, às vezes
mais frágil. Essas flutuações são inevitáveis. Quem nela trabalha para si a
desassocia. Quem nela se insere sem reserva a fortifica.
Nunca se faz de uma só vez. Forja-se na constância do
trabalho.
Viver a vida de equipe; e conformar-se em não poder dizer a
última palavra.
Aceitar "perder tempo" pela obra comum;
administração, trabalhos manuais, recados, conferências, conversas...
Muitas vezes é nisso que consiste o nosso trabalho, a parte
importante que é desejada por Deus. É com esses trabalhos que podemos também
enriquecer de saber e de experiência certos setores em que somos deficientes.
Por meio dessas atividades podemos arranjar uma porção de relações que nos
poderão ser muito úteis mais tarde.
Enfim, o que conta, não é tanto o ato realizado, mas o
grande amor que o anima.
Mas é preciso salvar os minutos de plenitude intelectual. E,
portanto, não hesitar em afastar os que atrapalham. E preciso não ter medo de
descontentar os importunos e os indiscretos. Eles que aprendam a ter juízo.
Deixar todos à vontade e, contudo, impor a disciplina do
grupo.
Sempre preciso... nunca hesitante. A confiança não se
impõe; ganha-se. Não apenas comandar: associar-se.
Não querer que os outros adiram a nós, mas ao objeto.
Sobretudo, não tomar a atitude do eterno bom aluno que
derreia os outros, sem descanso, com princípios dos quais ele mesmo ignora o
alcance.
Podemos ter uma vida muito ativa e cheia de iniciativa, na
obediência. A obediência pusilânime não adianta nada. A verdadeira
submissão consiste em saber interpretar e em realizar a vontade dos superiores.
Aceitar e desejar o controle é o sinal de que não nos desviamos.
Se queres guardar a justiça e manter a paz, não endosses as
paixões dos teus colaboradores, ou dos teus amigos.
A base do sucesso é o dom de si mesmo. É preciso fazer o
que os outros não fariam; empregar o esforço naquilo que não anda; deixar
cada membro da equipe tomar todo o lugar que convém a seu temperamento, a sua
inclinação; e tomar para si os setores que foram abandonados.
Atribuir o sucesso aos colaboradores.
A si mesmo atribuir todos os fracassos ou imperfeições da
ação.
A equipe ideal nunca existe, mas toda equipe pode ter belos
dias que lhe dão o ar da equipe ideal.
Para que haja equipe, basta que cada um perceba alguma coisa
do bem comum e, mesmo resmungando contra os meios, nela se alinhe.
A equipe toma a sua consistência na luta por atingir os
objetivos e triunfar das dificuldades.
Há equipes de disciplina estrita, há equipes de
espontaneidade orientada e, entre esses extremos, todas as cambiantes.
Por vezes, as tensões na equipe serão benéficas.
Obrigam-nos a aprofundar e a progredir. Poderão também tornar-se destrutivas,
sobretudo quando o orgulho toma parte, ou simplesmente porque alguém se engana
a respeito da própria capacidade e quer dirigir mais do que na realidade pode.
A equipe que consegue manter-se firme durante muito tempo,
sem abandonar os objetivos e se renovando constantemente, beira o milagre.
É preciso, porém, impedir que os mais velhos nela se
enquistem e se tornem, assim, peso morto ou verdadeiros "breques". A
vitalidade da equipe exige que cada um queira permanecer jovem, aceite a
contradição, reveja periodicamente suas posições.
Quem já não quer ser criticado, já pulou fora.
Um grande sofrimento: quando o companheiro da equipe, que
parecia ter-se entregue, se retoma, quer honrarias ou ganhar muito dinheiro.
Daí já não é mais totalmente homem de equipe. Já não anima. Breca.
Complica.
10. Organização
Observar sempre, e tomar nota; senão a observação fica
sendo uma simples impressão.
É preciso adquirir as técnicas da ação. Quem as despreza,
fatalmente fracassa! Cada ação tem a sua técnica! Uma meditação, um dia de
estudo, um retiro, um congresso, uma sessão, uma viagem de conferência, uma
campanha de jornal; a redação, a administração, a conjuntura, a secretaria,
o sindicalismo, a corporação, a comunidade, um movimento.
É preciso que aqueles que têm experiência nos iniciem, e
é preciso que experimentemos por nós mesmos. Muitas vezes as pessoas de bem se
obstinam em empregar meios fora do uso; perdem o melhor do seu tempo em
trabalhos ridículos. Desde que um homem, desde que um grupo deseje conseguir
alguma coisa, é preciso organizar uma secretaria rudimentar, mas bem
aparelhada, principalmente quando a tarefa a realizar for mais importante e
menor a quantidade de dinheiro disponível.
Excelentes taquígrafas, boas datilógrafas, excelentes
contadoras são indispensáveis, hoje em dia, para a eficiência de qualquer
equipe.
Nada de páo-durismo com a compra de materiais. O que é
preciso é estandardizá-los para o pessoal e para a equipe. Verificar o que há
de melhor, e mais em conta, em arquivos, cadernos, fichários, escrivaninhas
etc., e tratar de adquiri-los. Com isso, ganha-se tempo, e isso facilita a
ordem, a iniciação e educação do novo pessoal, a qualidade do trabalho, a
paz e a alegria.
Sempre que for possível, é preciso aperfeiçoar, cada vez
mais, a utilização racional desse material.
Nunca se comprometer com despesas por capricho; Deus não
será obrigado a nos ajudar se deixarmos de ser fiéis ao objeto.
Um lugar e um tempo para cada coisa; e cada coisa em seu
lugar e a seu tempo.
Nenhum ano se parece com o outro. Nada recomeça de novo. A
ação consiste sempre numa adaptação a novas situações, a novas
necessidades. Daí o perigo de a administração, no sentido corrente, querer
estandardizar, isto é, recomeçar indefinidamente. A verdadeira administração
proporciona, modifica, inventa incessantemente.
Não devemos resolver imediatamente nenhum problema, além
das decisões do serviço corrente. É preciso deixar o problema repousar, ou
colocá-lo em repouso; deixá-lo ao cuidado do subconsciente. O subconsciente,
quando não o acorrentamos, é um instrumento admirável de absorção, de
decantação, de harmonização. Um belo dia ele nos dá a solução.
Não crescer muito depressa, mas como uma árvore.
11. A Divisão das Responsabilidades
Em cada setor designar o responsável e só trat com ele.
Sacudir e agitar o responsável até que ele ten] tomado consciência do seu
serviço. Não ter senão algu: responsáveis diretamente diante de si, e a eles
subordin os outros responsáveis.
Na alta direção devem existir muitos responsávei Temo o
"Diretor" único quando se trata de obras q vão além da
possibilidade de um só homem. É preci que muitos de igual inteligência se
unam à obra comui para juntos abrangerem todo o horizonte, e resolvere as
oposições pela submissão ao objeto e pela afeiç', mútua. O coração
representa aqui um grande papo
Ajudar o chefe de equipe pela disciplina, pela co fiança e
pela afeição. Não o deixar resolver tudo sozinh Não lhe levar de repente o
nosso pequeno plano. Leve lhe luzes - ele muito necessita delas - e, não un
vontade predeterminada. Não o deixar cair dizendo: E sempre consegue se
arrumar.
Nunca devemos esquecer que somos apenas uma parte do
exército, e que deve ser realizado um plano de conjunto.
Disciplina intelectual, inteligente e ativa, dizia Foch. Isso
quer dizer que cada um deve procurar compreender a situação e a posição do
chefe diante dessa situação; que cada um deve procurar os meios de realizar o
pensamento do chefe, e que cada um efetivamente o realize. Obedecer é completar
o chefe.
O "desabafo": dizer tudo o que a gente tem no
coração, tudo o que não anda direito, tudo o que pesa, o que parece idiota,
ridículo, inadaptado, ultrapassado. Ser simplesmente, e algumas vezes
brutalmente, sincero. "O desabafo": "meter o pau". É a lei
da vida.
O chefe deve ter a maior potencialidade possível de
"agüentar firme".
É preciso não nos assustarmos quando os nossos
colaboradores nos dão o contra. Alguma coisa eles nos têm que dizer.
Freqüentemente têm razão. Mas é preciso manter-se inflexível quanto ao
essencial. Para manter-se na linha, uma suave obstinação é necessária.
12. Os Colaboradores
Uma equipe é uma pirâmide que sobe constantemente, pois
surgem sempre debaixo novos elementos que a tomam sobre os ombros e que a
elevam.
Deixar cada um tomar o seu lugar: sempre haverá muito que
fazer. Entretanto, qualquer ascensão rápida demais é perigosa, tanto para o
que quer subir, como para a equipe. Quem não souber suportar trabalhos
medíocres, quem não teve uma extensa base de experiência, quem não foi
judiado em diversos postos não tardará a capotar.
Realizar a união mútua pela submissão ao objeto. O Padre
Sertillanges chama São Tomás "um conciliador". É preciso saber
colaborar com pessoas muito diferentes. É preciso associá-las a nós, apesar
dos seus preconceitos, de suas oposições, elevando-as. A compreensão é
atingida em planos superiores. É preciso mergulhá-las em uma luz superior. É
preciso atrelá-las ao mesmo trabalho, apesar das suas discordâncias. À medida
que crescemos na mesma luz e que realizamos em comum, cada vez mais nos unimos.
É preciso que cada um se torne um conciliador. Os homens
brigam muito por ninharias; no "fundo" estão de acordo. É preciso
atingir esse "fundo", desembaraçá lo. E, assim, unir. Este é
essencialmente o papel daquele que tem sabedoria, daquele que sabe perceber as
razões profundas e reduzir o múltiplo à unidade. Isso não quer dizer que
devemos abandonar a verdade e a justiça; muito pelo contrário. Não se trata
de encontrar posições oportunas para sair do embaraço, mas de a gente mesmo
ir adiante e fazer com que os outros alcancem a justiça e a verdade.
Os colaboradores são exigentes. Nenhuma das fraquezas do
chefe lhes escapa. Se não se sentirem compreendidos e amados, retraem-se. Se as
facilidades de vale rem mais não lhes forem oferecidas, tornam-se amargos. Se
forem dominados demais, revoltam-se ou tornam-se diminuídos.
Se o chefe trabalha para si mesmo, para sua glória, sua
segurança, seu ganho, a equipe já está em vias de dissolução.
É importante saber que se terá muitas espécies de
colaboradores.
Há o que se dá todo, com a totalidade de si mesmo, e que
aceita plenamente a aventura.
Há o que somente se dá por metade e quer garantias.
Há o que se dá por certo tempo e que não espera manter-se
sempre na aventura.
Há o que adere às perspectivas, mas quer um gênero de vida
digno de ser honrado.
Há o homem de equipe cuja família é insaciável de honras
e de dinheiro.
Há o que ajuda procurando coisa melhor.
Há a personalidade forte que se tornará o chefe da equipe
ou chefe de outra coisa.
Há o estipendiado que fará conscienciosamente o seu
trabalho, desde que seja pago.
Todos juntos constituem um pedaço interessante da
humanidade. Não há motivo para a gente se lamentar. Todos servem, de um jeito
ou de outro, à construção.
Aqueles cujo concurso é preciso recusar são os amargos, os
críticos negativos, os ingênuos demais, os irrefletidos, os vadios.
13. Escolha e Educação dos Colaboradores
Educar pacientemente os colaboradores. Escolhêlos, o quanto
for possível, cuidadosamente.
Não deixes passar perto de ti o homem que te seria
necessário para levar a bom termo a obra empreendida; trata de colocá-lo na
situação que lhe convém.
Aceita, deseja colaboradores que te sobrepujem. Com bons
meninos bem comportados, passivos e sempre de acordo, nunca farás nada de
grande. Para conhecer os homens é preciso p0-los a trabalhar. É preciso tentar
distinguir na atividade de cada um o que é de Deus e favorecer-lhe o
desenvolvimento.
Evitar o "atrapalhado", aquele que por toda a parte
leva o desequilíbrio.
Evitar o "mole", aquele que não será capaz de se
dar e irá resmungar diante do obstáculo.
Não adianta discutir, o que é preciso é decidir.
Deixar que um trabalho seja mal feito. E, a não ser para
evitar uma catástrofe, só repreender o responsável no fim.
É preciso "carregar" seus colaboradores,
gerá-los, fazer com que desabrochem. Isto só é possível no esquecimento de
si mesmo.
É preciso, às vezes, muitos anos até que um colaborador
manifeste sua medida. É necessária muita paciência. E eis que um homem
"complexado" se libera e um hesitante se torna forte.
14. As Cisões
O orgulho é o pior flagelo de uma equipe. O orgulho de quem
nunca se quer enganar; o orgulho de quem não quer tomar conhecimento da maneira
de pensar do ou tro; o orgulho de quem pensa já ter adquirido tudo e nada mais
ter para aprender; o orgulho de quem julga levianamente; o orgulho de quem fica
a impingir princípios mal digeridos. Aí então, os outros se opõem,
encasquetam, tornam inevitável a cisão.
Quando houver dificuldades entre os colaboradores o melhor é
não intervir logo no primeiro choque, quando a paixão ainda domina. Muitas
vezes a briga morre como uma faísca no ar e, logo depois, já ninguém mais
pensa nela. Depois que a paixão amortecer, então discutir friamente o caso.
Para que isso aconteça é preciso, às vezes, esperar anos e anos, e nesse
entretempo a vida já se encarregou de retificar muita coisa.
Nada de dramas! Há colaboradores que dramatizam tudo. Nada
disso. É preciso pacificar, ter paciência, olhar as coisas friamente; não se
zangar, nem com o que aconteceu, nem com o que é inevitável.
É preciso aceitar certas separações. Elas saneiam a
situação. E logo a gente se encontra de novo. É fatal, cada qual realizou a
obra providencial que lhe cabia. Nem todos devem habitar a mesma morada...
Depois das separações definitivas, por mais dolorosas que
possam ter sido, é preciso não cessar de amar aqueles com os quais trabalhamos
e combatemos.
15. Seguir seu Caminho
Aquilo que anda é porque pode andar.
Ninguém se deve espantar, ou comover, com a estupidez e a
maldade dos homens. Aliás, se há uma legião de espíritos medíocres, raros
são os homens verdadeiramente maus.
A gente sempre desaponta alguém. Não devemos nos inquietar
com isso.
Não devemos nos incomodar muito com o que os outros dizem.
Quem segue o objeto tem sempre razão. Não devemos perder tempo em discutir com
os estetas, com os críticos, com os espectadores. Tocar para diante. O que é
preciso é construir. Devemos ouvir pacientemente o homem que viu, que
construiu. Não devemos dizer "não" para quem viu e executou; como
não devemos dizer "sim", sem mais nem menos, para quem gosta de dar
conselhos, enunciar princípios.
Não fazer caso de ser apenas seguido de longe. E alegrar-se
quando outros passarem à frente.
É preciso não esquecer que as idéias caminham lentamente.
Há muita gente que imagina que basta descobrir uma verdade para que ela penetre
imediatamente em todos os espíritos. Esses se irritam com a demora, com as
resistências. Esse torpor, essas resistências são normais; provêm da apatia,
da experiência pessoal, da cultura dos outros. Cada um parte do que é, do que
já adquiriu para si. Para que aceite, plenamente, outro pensamento é preciso
que o fixe, o assimile, o harmonize com a aquisição anterior.
Não se admirar nem se irritar com a oposição: ela é
normal, muitas vezes é justa. Indica um engajamento no combate e prepara, ao
mesmo tempo, a adesão dos outros e _nossa maior adaptação ao real.
E preferível que eles resistam e que discutam as nossas
idéias e os nossos atos: assim a nossa contribuição ao bem comum penetra mais
profundamente, retifica, anima; e quem se for embora esquecendo-nos - depois de
inventar de novo ou melhorar o nosso sistema - acabará queira ou não queira,
militando ao nosso lado. Isso é suficiente.
Não adianta nada a gente se gastar com brigas.
- Seu negócio está em crise, me dizem; está seriamente
ameaçado de soçobrar.
- Em crise? Entretanto, não vê como estou calmo?
- Vejo, mas há isso, e mais isso e mais isso que não anda
bem.
- Mas, meu caro amigo, há sempre muita coisa que não anda
bem. E apesar disso anda, não é verdade? O que anda está, na verdade, sempre
em crise. E a lei da ação.
O homem evangélico é um homem de audácia, na certeza que
lhe dá Deus. Há sempre uma via evangélica nas mais difíceis conjunturas.
16. A Força
Procede sempre com desinteresse: serás logo o árbitro, e
não te deixarão na mão.
Não te entregues nunca aos ricos e aos poderosos. Manter-se
puro, ser duro, tornar-se seguro; quer dizer, procurar unicamente a verdade, o
bem e a justiça.
Não poupar esforços para atingir esses ideais e, à medida
que forem conquistados, tornar-se um sólido apoio para os outros.
O característico do forte: doçura, flexibilidade e
obstinação ao mesmo tempo.
Desejo de conhecer a fundo, de ter nas mãos todos os
recursos, e correr os riscos. Preparação do êxito, e coragem na adversidade.
Ser ingênuo, fazer questão de continuar ingênuo.
Acreditar, apesar de tudo, no ideal, na justiça, na verdade, no bem, num pouco
de bondade no coração dos homens. Acreditar nos recursos pobres. Travar
batalhas, em boa fé, com os poderosos. Não procurar nunca enganar ninguém.
Não se corromper. Não deixar o coração endurecer-se. Ser reconhecido.
Manter-se fiel aos amigos. Não fazer ursada com ninguém.
Fraqueza de muita gente: ruminar antes de ter pastado; querer
dominar antes de se ter dominado a si próprio.
É preciso não usar sua agressividade contra ninharias, mas
reservá-la para aquilo que vale a pena.
Muitos homens, diante dos obstáculos, páram,
consideram-nos, medem-nos e ficam no lugar. Encontram um cupim e o transformam
numa montanha. Bastaria, quase sempre, saltar por cima ou contornar.
Outros, ficam parados, sistematicamente, analisando todos os
obstáculos, todas as dificuldades reais e possíveis, atuais e futuras. Tal
atitude é semelhante à do ciclista que pretendesse permanecer em equilíbrio
sem pedalar e sem correr. O equilíbrio da ação está no movimento.
Quando é a oposição dos homens que cria o obstáculo a
melhor tática consiste quase sempre em continuarmos o nosso caminho sem nos
preocuparmos com essas oposições. Perdemos um tempo precioso com polêmicas
quando o que está em jogo é apenas a construção.
Os injustos ignoram a força da justiça. Pensam que são
poderosos, e basta que encontrem um só homem justo para todos os seus planos
caírem por terra. Logo que encontrem um grupo de justos são obrigados a bater
em retirada, a recompor ou, pelo menos, a usar a máscara da justiça.
Se a oposição vem dos homens de boa vontade, dos
"santos", dos superiores, devemos verificar nossa orientação e, se
estivermos com a Igreja, devemos tirar o melhor partido das circunstâncias, sem
estardalhaço. A vida dos assuntos humanos consiste em não andar sem
dificuldades, sobretudo nos assuntos apostólicos. Pertencemos à Igreja
militante, vivemos num estado de "tensão". O testemunho do apóstolo
tem algo de violento. Os violentos arrebatam o reino de Deus.
Ser forte! Ser capaz de ficar sozinho contra todos. A gente
ainda vai bem longe depois de estar cansado.'
Muitas vezes nos sentimos esgotados. Seria necessário um
descanso. Ele é impossível. Avançar apesar de tudo, confiando-se a Deus.
É necessária uma grande força quando, conforme a razão,
tudo está perdido e quando, entretanto, Deus pede que se agüente firme.
A grande ascese: não parar para colher as flores do caminho.
É preciso ter coragem de despedaçar o coração. Que
terrível ascese a ação eficaz!
O sofrimento, a cruz: não a cruz que teríamos escolhido. A
verdadeira cruz, aquela que vem porque ficamos em nosso posto no meio do grande
combate em que nos atiramos. Esta, configura ao Cristo.
17. Humildade e Magnanimidade
A regra fundamental consiste em a gente considerar-se um
Zé-ninguém a serviço de uma grande obra; servidor inútil, mas servidor.
Parar, nem que seja um instante, diante das honrarias ou da
glória é puro vazio.
Colocar-se no seu verdadeiro lugar entre os homens e diante
de Deus. Do lado dos homens não é a ridícula posição de considerar-se como
inferior a todos; e do lado de Deus é o conhecimento de nossa absoluta
dependência, a concepção de que se está separado dele por um infinito: a
percepção de que todas as superioridades que se têm com relação aos outros
vêm, antes de tudo, dele.
Apagar-se diante de Deus, diante de seu plano, diante da obra
a realizar. Apagar-se, mas tendendo para Deus, realizando seu plano, levando
para a frente a obra empreendida. Não um apagar-se retirando-se, tornando-se
Não se deixar embevecer. Olhar imediatamente todo o batente
que espera ainda, e atacá-lo de frente. O amanhã de novo trará os seus
fracassos.
Munificência, magnificência, magnanimidade, três partes da
força desconhecida de nossa época sórdida. O munificente magnífico não teme
as despesas para reali zar de uma maneira grande e bela. Pensa noutra coisa, e
não em investir ou em encher os bolsos de seus parceiros. O magnânimo pensa e
realiza na escala do homem e na escala da humanidade; se é cristão, pensa e
realiza na escala do Cristo.
Magnanimidade e humildade são complementares.'
Magnanimidade: o espírito e o coração que se dilatam.
Magnanimidade: poucas partidas são jogadas num só setor de
atividade ou num plano local. No mundo moderno, tudo se entrelaça e não se
pode isolar nada. As partidas são jogadas no plano nacional e no plano
internacional. Quem não tiver uma visão larga, quem não tiver uma vontade
grande, estará vencido antes de combater. É carta fora do baralho.
Muitos gritarão em teus ouvidos: Cuidado com o orgulho,
porque tens grandes planos.
O toque de alerta é inútil: a gente é sempre tão pequeno
diante dos grandes trabalhos, e tanto menor quanto eles são maiores. É
preferível ter a humildade de
se passivo, mas um dom em plenitude, um esforço vigoroso de
inteligência e de inserção.
Humildade: não se iludir a si próprio; colocar-se no
próprio lugar. Reconhecer ajusta medida da própria inteligência, da própria
habilidade, da própria virtude, ter consciência das próprias superioridades.
Mas, diante de Deus, saber da sua absoluta dependência, da sua carência e,
diante dos irmãos, saber que somos todos da mesma natureza e que Deus é o
Mestre soberano de seus apelos e de seus dons.
Toda superioridade é para o bem comum.
Não cuidar de si, mas da obra. Nunca se embevecer, nunca se
deixar abater.
Ir no passo de Deus. Não correr mais depressa do que Deus.
Fusão de nossa vontade de homem com a vontade de Deus: tudo
se resume nisso. Perder-se nele.
Tudo o que ponho de mim sem ele é demais, ou melhor, nada
é. Não esperar nenhum reconhecimento. Alegrar-se com o que vier.
empreender grandes obras arriscando o fracasso, do que o
orgulho de um sucesso completo no medíocre. Grandeza e recompensa do chefe: no
meio do grande combate de que ele participa, precisa sempre sobrepujar-se no
amor.
Fazer objetivamente e valentemente todo o esforço possível,
e abandonar-se a Deus.
18. Especialização e Cultura
Temo o especialista de uma só especialidade. Tenho dó do
homem culto que só estudou nos livros.
É preciso desenvolver ao mesmo tempo a especialização e a
cultura. Quem se especializar nos problemas do homem concreto, qualquer que seja
o setor, sem se preocupar com o homem todo, será levado a formular a si
próprio tantas questões que será obrigado a procurar saber tudo; a extensão
de sua cultura se fará a partir do real que ele conhece diretamente. Centrada
no homem a cultura se desenvolverá harmoniosamente na unidade. Nessa linha,
cultura e especialização vão a par. O homem de estudo e o homem de ação
não se opõem: deve-se ser, ao mesmo tempo, um e outro.
Cultura: deve-se fazer isso como se cultiva uma terra, por
lavras profundas, pondo nelas sementes escolhidas e bom adubo. Depois, é
preciso regar, capinar, colher, deixar a terra descansar; ou melhor, praticar a
rotação tendo em conta a qualidade dos terrenos e equilibrando a exploração
da melhor maneira, atendendo as próprias necessidades e o suprimento dos
mercados.
A cultura do espírito é sempre um equilíbrio que
recompensa um trabalho metódico e contínuo. Difere da erudição. O erudito
aprendeu muito, mas sobretudo nos livros. Não equilibrou, não harmonizou, não
repensou o seu saber. Não verificou a objetividade de seus conhecimentos
fundamentais. Não centrou toda sua bagagem nos problemas do homem.
Cultivar-se é tornar-se capaz de perceber todos os problemas
impostos à humanidade. Olhando, ouvindo, defendendo os humildes, alarga-se
consideravelmente a própria cultura.
Muitos pensam que são cultos. Sabem tudo da história dos
homens passados, todas as filosofias antigas e modernas, são iniciados em todas
as ciências exatas e aplicadas, seguem todas as publicações literárias na
medida em que aparecem. Vivem ou encolhidos em si mesmos, ou debruçados sobre
os maiores problemas da Pedagogia e da Política. São capazes de julgar e de
falar de tudo. Mas, ignoram o homem, o homem real de seu tempo; grupo, classe
por classe; a miséria profunda do tempo em que vivem lhes é estranha; o grande
sofrimento dos lares sem ar e sem pão, a grande resignação e a grande revolta
íntima dos infelizes, a realidade da vida das vilas operárias, dos cortiços,
das favelas insalubres, do barzinho consolador, da evasão ao acaso, nos cinemas
e nos encontros, da compensação no álcool, no sindicato, na política. Nada
sabem do contato dos dirigentes com os homens, da grande candura, da grande
pureza e do grande apelo que existem muitas vezes no coração dos humildes; do
egoísmo sórdido de muitos de seus amigos que subiram; da generosidade que
cochila ou estoura nos menos afortunados. Falam do povo sem conhece-lo;
incapazes de compreende-lo, de amá-lo, de auxiliá-lo.
Passam sabendo tudo e ignorando o que deveria ser importante
para eles: o homem do tempo em que vivem, o semimorto ao longo do caminho de
Jericó, e a tarefa que lhes cabe diante dele.
O humanismo requintado e avariado que eles exibem não
impedirá que o primeiro líder que apareça, conhecendo a psicologia dos homens
de seu tempo e dig nando-se falar-lhes, tome conta do povo à espera de um pouco
de justiça e de amor.
19. O Equilíbrio
Antes de tudo, guardar o equilíbrio pessoal. Sobretudo,
tornar-se e manter-se senhor de si mesmo; dominar-se.
Conservar, se possível, a saúde, mas sem cair na angústia
a respeito dela, nem na moleza. Ficar firme, ao máximo, segundo as próprias
forças.
Respeitar os ritmos da natureza e da vida. O heroísmo do
excesso contínuo é tolice.
Semear, dar tempo ao tempo, dar tempo a Deus. Muitos imaginam
a ação como uma pressão contínua; a ação é antes um impulso que a gente
renova, tornando-o preciso, adaptando-o. É fácil colocarmos centenas de homens
em nossa ambiência, encontrandoos uma vez por ano, escrevendo-lhes de tempos em
tempos, importunando-os para um artigo de jornal, pedindo-lhes às vezes um
serviço.
Estão embarcados, fazem parte da expedição, não nos
largarão, como nos teriam largado se tivéssemos cessado de procurá-los. O
homem exige que se tenha confiança nele; nunca estima o chefe que o fiscaliza
constantemente.
O verdadeiro animador sabe administrar os seus impulsos,
adaptando-se aos homens e às circunstâncias. Mas não procura nunca fazer
tudo, ver tudo com os próprios olhos.
Devemos impor a nós mesmos contatos freqüentes com a
natureza. Isso descansa o homem, equilibra-o; isso lhe dá as justas
proporções das coisas.
É preciso, de tempos em tempos, um pouco de fantasia.
O equilíbrio de uma grande vida prepara-se de muito longe
pela extensão e variedade de observações e de experiências, pela escolha
harmoniosa de disciplinas, por uma mescla feliz de estudo, de ação e de
reflexão, pela volta habitual à contemplação.
Não se dispersar.' Mesmo vivendo em pleno turbilhão,
manter-se no eixo, e atirar-se a Deus. Eis aí uma verdadeira oração.
Precisamos arranjar horas de repouso, momentos de solidão.
É-nos preciso recuar para podermos julgar a ação passada, para termos uma
visão de conjunto, para nos pacificarmos, e para conseguirmos ver claro.
Cada um conforme seu tamanho: ter a ambição de dar toda a
sua medida, mas reconhecendo seus limites, as necessidades dos outros, seu setor
providencial de ação.
Dar-se cem por cento, até o limite. Mas organizar a vida
para salvar o rendimento.
Evitar as dispersões: mas manter as diversões necessárias
para o enriquecimento cultural, ou para o equilíbrio humano, ou para a euforia
espiritual.
O homem não encontrará plenitude de equilíbrio se não
tiver trabalhado com suas próprias mãos, se não tiver viajado, se não tiver
lutado e criado.
A abnegação é um princípio de equilíbrio. A tática de
Deus consiste em constranger a isso aqueles que dizem trabalhar nele.
Há fases em que o equilíbrio está particularmente
ameaçado. Não que se tenha visto grande demais. Mas provocamos séries de
determinismos, de operações, dian te das quais já não podemos recuar. É
preciso afrontar num esforço excessivo que já não deixa quase mais tempo para
a reflexão e a oração.
Tornamo-nos um escravo na obra empreendida. Somos como um
animal de carga no serviço da humanidade de Deus. Se não ficarmos sob a
dependência de Deus estaremos perdidos.
Sobretudo, nada de sublimidades. A vida fecunda é devorada
por trabalhos concretos e humildes. Quem não aceita o pequeno é incapaz do
grande: quem se contentar em conhecer apenas os princípios, nem sequer chegará
a compreendê-los. O intelectualismo barra a verdade.
Não forçar o espírito. Ele tem os seus ritmos. Quem o
sobrecarregar e o maltratar impede-o de inventar. Ora, é para isso que ele foi
feito.
Encher a nossa vida de plenitude quer dizer que nada devemos
fazer de mais ou de menos do que convenha à nossa dimensão, conforme os dons
recebidos, a nossa bagagem e as circunstâncias; isso quer dizer que não
devemos recusar nada ao Espírito e nunca devemos procurar passar sem ele.
A ação pode tornar-se tão dominadora que já não se vive
mais humanamente. Fica-se como um animal perseguido, sem nenhuma possibilidade
de salvaguardar o tempo da reflexão e da oração. E isso pode durar muitos
anos. Somos arrastados pelo determinismo dos atos anteriormenté praticados, das
operações que não podem ser recusadas, da multidão dos apelos.
É grande o perigo de esgotamento, de estafa, de
desequilíbrio, de procura de compensações numa vida dirigida para os
excessos.
Para responder a todos não se pode dar a cada um senão
muito pouco tempo; para manter os prazos previstos - sem o que toda a
planificação desmorona - é preciso fazer prodígios de trabalho concentrado e
coordenado.
Os ritmos ultra-rápidos, agitados, da vida moderna, tornam
impossível o momento de parada entre duas atividades. A diversidade dos
problemas a serem considerados obriga a uma ginástica intelectual arrasadora.
Se não tivermos acumulado na fase anterior de nossa vida, se
não guardarmos a unidade no esforço, nessa dispersão aparente, se não nos
mantivermos dominados pelo objetivo final que não pode ser senão a elevação
da humanidade, estaremos perdidos.
É preciso não se engajar deliberadamente nessa malha de
impasses. É preciso desengajar-se se percebemos que iremos nos desviar ou que
não poderemos man ter nosso equilíbrio psicológico e espiritual essencial.
Mas, uma vez enredados nas malhas, eis que não poderemos mais nos retomar.
Somos acorrentados no dom absoluto de nós mesmos, na aceitação da
escravidão. É preciso retomar-se, equilibrar-se, afirmar-se na pureza da
adesão a Deus, na renovação e na purificação do amor pela humanidade, no
encontro doloroso e pacificador do Cristo verdadeiro.
20. A Fé
A fé é uma luz invasora. À medida que vivemos mais, ela se
torna mais iluminante.
Ela tudo penetra, fazendo-nos tudo ver em função do
essencial, da eterni dade.
Ela tudo reduz à simplicidade, à unidade. Quem a segue
nunca está nas trevas; ela a tudo traz solução. Por meio dela, nos momentos
das piores dificuldades, no mais aceso combate, no fim das forças, nós nos
evadimos até Deus, encontramos o Cristo, saltamos como a rolha do
"champagne" que não pode fugir senão subindo.
O otimismo da fé: cada gota conta....
O entusiasmo que dura só pode ser o entusiasmo da fé
Crer obstinadamente no contágio do bem, no poder da verdade.
Ressalvar o contato com o Cristo na fé pura. De fé em fé.
Saber que devemos ser semelhantes ao Cristo; logo, devemos
sofrer.
Deus pede o nosso máximo esforço, mas nada mais do que
isso. É preciso ter bastante fé para ir ao máximo; e bastante fé para se
manter aí. Se quisermos ir além, estamos então no plano do homem, não mais
no plano de Deus.
Desde que um homem abandona os caminhos batidos, luta com os
poderosos, fala de revolução, todos o tomam por louco, sobretudo, se ele for
cristão. Como se dar testemunho do Evangelho não fosse loucura, como se a
sabedoria não consistisse em abrir os olhos para todo o objeto e em lutar
contra todo o mal; como se o homem não fosse capaz de um grande esforço
reformador e construtor, como se o militante não fosse forte na própria
fraqueza. Precisamos de muitos loucos e não devemos engajar em nossa equipe
senão loucos.
A fé e, muitas vezes, a projeção no impossível.
O homem de fé nunca é totalmente desamparado. No mais
profundo, no mais alto de si mesmo encontra de novo Deus e, na luz de Deus, a
estrada de saída do abatimento ou dos impasses.
Não é senão pouco a pouco que até mesmo os melhores se
acostumam a viver no impossível da fé.
21. A Esperança
Lá vem pancada.
Cincoenta por cento de fracassos. Gozar os fracassos.
Começar por acusar-se a si mesmo.
O fracasso também constrói.
Alegria, paz, tralalá.
Pois então, tralalá.
Viva a vida.
É a vida.
A vida é bela.
Não se indignar.
Não se irritar.
Não estourar.
Não gritar.
Sorrir sempre, apesar de tudo, e levantar o ânimo do outro.
Continuar. Nada se faz num dia, num mês. No fim de dez anos
fez-se muito. Cada gota conta. A cada dia basta a sua pena.
.
Esperar os piores "espinhos" e não pensar que tudo
está perdido quando eles chegam. O tempo dá arrumação para muita coisa.
Se a gente olhar cada setor da ação, um por um, nada anda;
entretanto, o conjunto anda e conforme a vontade de quem o faz andar.
Quando se realizou até o máximo do esforço, quando a gente
está esmagada, não podendo mais e não tendo diante de si senão incertezas e
dificuldades, é o momento de suspirar um pouco, de encontrar de novo ritmos
normais de trabalho, de abandonar-se a Deus.
Depois de uma pancada, esperar outra. Habituarse a agüentar
firme, a ser abandonado, a recomeçar. A gente está sempre a ponto de
soçobrar. Muitos amigos encaram a nossa dificuldade como um espetáculo: Perdeu
o pé, mas sabe nadar. Vejam como está cansado. Não pode mais. Vai-se afogar
na certa. Levou a breca. Por que se foi meter nessa encrenca? E vão-se embora,
em lugar de se atirarem à água para nos salvar. Mas, com um esforço mais
vigoroso, vencemos a onda e eis que estamos de novo em plena ação.
E um novo naufrágio nos ameaça.
Dar sem fazer caso, sem trapaça, em plenitude, dar a Deus e
aos irmãos. Então, Deus tomará cargo de ti. Ele te levará e passarás indene
no meio de incríveis dificul dades. Ele te conduzirá ao seu trabalho, ao
trabalho que conta. Ele te aperfeiçoará, te completará. Servir-se-á de ti.
Ele te porá em convergência com todos os que o procuram e que são animados
por ele. Quando ele te segura não te larga facilmente.
Já não sabes mais aonde Deus quer levar-te. Pouco importa:
ele te jogou no impossível, para te fazer sair dele de uma maneira que não
poderás imaginar.
22. O Respeito pelo Outro
Nunca desprezar ninguém.
Respeitar toda criatura humana como uma pessoa feita à
imagem de Deus e chamada por Deus.
Nada de ódio, nem mesmo para os próprios inimigos. Contudo,
um ódio ardente contra o erro, contra a injustiça.
A justiça: ter fome e sede dela até que ela se faça. É um
duplo serviço: para aquele que recebe justiça, e para aquele que
espontaneamente ou por constrangimento faz justiça.
Desde que se reconheça que uma alma se deu toda a Deus, é
preciso ter confiança no Espírito Santo a seu respeito. Seria tolice querer
impor-lhe as nossas vistas curtas. O Espírito Santo se servirá dela e de nós
mesmos para realizar harmoniosamente o seu plano.
Ninguém sabe, a não ser Deus, o que cada um leva em si.
Cada um pode, entretanto, ter intuição da mensagem que será capaz de
comunicar, da obra que deverá realizar. É como que um chamado dentro de si,
como um fogo, como um grão que germina, como um braseiro que se acende, como se
a gente subisse a bordo de um navio prestes a partir. Não enxergamos o futuro,
adivinhamolo, tiramo-lo daquilo que sabemos, que fizemos, da visão que temos do
mundo, dos apoios que nele encontramos, dos fracassos nele sofridos, dos
sucessos nele alcançados, das faculdades que desenvolvemos, da cultura que
adquirimos, da força d'alma que empregamos, da grandeza de nosso desejo, da
profundidade de nossas raízes, de nossa fé, da nossa esperança, do nosso
imenso amor.
Compreendemos que nem a vida, nem a natureza, nem a ciência,
nem a amizade, nem a graça nos foram dadas para serem estragadas, para serem
aviltadas, para serem mutiladas, para que nós as gozemos egoisticamente, a sós
ou com alguns. Temos a consciência de um testemunho a afirmar, de uma luz a
manifestar, de um movimento a suscitar, de um combate a travar, de uma
generosidade a espalhar, de um dom a aperfeiçoar, de um ideal a comunicar.
Não sabemos exatamente como se irá realizar. Não temos de
nosso, senão a nossa vontade e o nosso cabedal, e talvez, o nosso plano e
diante de nós está o desco nhecido; estão as resistências, as armadilhas, as
desilusões. Que nos importa? Embarcamos, vivemos a nossa grande esperança, e a
realizamos por etapas, de noite em noite, de luz em luz.
Muitos se enganam sobre o seu próprio potencial autêntico.
Quebram as asas e recaem mais medíocres; mais medíocres do que quando tentaram
subir acima das próprias forças.
Outros nunca chegaram, sozinhos, a tomar consciência da
própria grandeza, a desempenhar a própria missão. Que uma clarividência
atilada, que um coração amigo possa então descobrir a riqueza escondida,
avivar a chama ainda hesitante, provocar o vôo!
O chefe deve auxiliar cada um dos seus a conhecer-se, a
ocupar o lugar que lhe cabe, a dar em plenitude, sem nada tentar acima das
próprias forças, a não se deixar embebedar de orgulho.
O chefe é aquele que desperta almas para a grandeza; não
atrai a si os outros só para associar-se a eles, mas para associá-los ao plano
de Deus. Deverá muitas vezes modificar seu plano e quebrar seus projetos a fim
de que resulte o melhor possível.
Não devemos sacrificar os outros aos nossos planos. Há um
ponto de parada que devemos respeitar na pressão sobre as pessoas, para
levá-las ao que temos em vista, à nossa ação. Há uma região extrema de
liberdade onde não podemos, mesmo para o bem, exercer nenhuma violência. Há
um respeito último do direito de cada um escolher, e do plano secreto de Deus
sobre o outro que não devemos violar.
Temos tanta certeza de estar no bom caminho, somos levados
por tal paixão de realizar a grande obra a que estamos ligados, de tal modo
essa recusa nos parece catastrófica para os projetos que temos em mente, que é
duro renunciar ao companheiro escolhido. É a hora de subirmos mais alto, de
aderirmos mais profundamente aos planos de Deus, de fundirmos mais
universalmente o nosso desejo só no desejo de Deus.
Então, as almas que se distanciaram, juntas comungam ao
essencial. Sabem que se associaram na procura do melhor bem; sabem que na
abnegação total, na plenitude do dom, ia o atingiram.
Depois desse grande combate, repousam durante certo tempo
numa grande paz; tomaram contato com o absoluto, com o eterno.
23. O Amor
Deixar-se amoldar lentamente e enobrecer pelo amor.
O verdadeiro segredo da grandeza: sempre avançar e nunca
voltar atrás no amor.
É preciso a gente estar animada por um imenso amor.
Sobretudo, guardar, intacto o nosso amor.
Amar intensamente todos os nossos irmãos em humanidade.
Sofrer com seus fracassos, com suas misérias, com sua opressão.
Amá-los por tudo quanto neles há de valor autêntico.
Amá-los para que cada um se torne mais do que é. Um único
amor pode sintetizar o amor de Deus, o amor de si próprio, o amor de cada
homem, o amor à
humanidade, até o amor à natureza: é o amor pelo Cristo.
No Cristo vamos encontrar todo o objeto de nosso amor, até a natureza que ele
criou como Deus e libertou como homem. Tudo amar com o Cristo, é aproximar tudo
de Deus.
Nenhum ato é pequeno na caridade.
Não há atos pequenos; cada qual tem o seu lugar no plano de
Deus e cada qual pode estar carregado de um infinito amor.
Tantas espigas caídas, outros tantos grãos guardados,
outros tantos atos de amor!
O amor, sim, mas de caridade.
O amor, sim, mas o amor inteligente e perspicaz. E preciso
muito esforço para atingi-lo.
É muito difícil determinar o que na ação provém da
necessidade de agir, de querer ter sucesso, da procura de si mesmo, do dom
autêntico. Não se deve perder tempo com isso. É somente depois de muito tempo
que o amor se torna totalmente puro. O essencial é que ele esteja presente e
que ele cresça.
Há momentos em que não se sabe mais como sair do embaraço.
Tantos deveres preciosos acumularam-se que é impossível atendê-los. Já não
se pode mais. Já não se encontra normalmente uma saída.
Então, porque se fez tudo quanto se acreditava dever fazer,
é preciso simplesmente entregar-se a Deus. E eis que uma solução aparece. A
situação fica clara. Ofe recem-se novos prazos. Colaboradores se apresentam.
Enfim, tudo saiu bem para aquele que não tinha agido senão por amor.
Já não podes mais. Está bem. Adere à vontade divina.
24. Sabedoria e Contemplação
Quem se especializar nos problemas do homem pode estar seguro
de que alarga harmoniosamente a sua cultura.
Cultivar-se por absorção, partindo de uma cultura básica,
que permite tudo acolher; escolher em qualquer aquisição o melhor. Não há
nenhum objeto sem interesse.
Contemplação e ação não se opõem, não se subtraem, mas
adicionam-se.
Tanto quanto se possa, repensar tudo por si mesmo,
objetivamente.
Felicidade do homem deste tempo: ele possui a ciência. O
admirável esforço da inteligência humana de três séculos para cá nos
forneceu a chave das coisas, descobriu a dialética dos acontecimentos,
entregou-nos o plano do universo. Quando comparamos o que sabemos da natureza e
da história, e os nossos instrumentos de análise, com os meios de
investigação dos antigos ou da Idade Média e com suas físicas, suas
cosmogonias, suas lendas, devemos agradecer ao homem e agradecer a Deus. Tudo
nos fala de Deus, nos conduz a Deus, nos dá
Deus, postula Deus, se soubermos olhar o mundo e os homens.
A nossa contemplação deve ser universal e incessante. Se
nos assenhorarmos de tudo pelo conhecimento e pelo uso, poderemos conduzir tudo
a Deus pela oferenda e pela ação.
Querer tudo o que Deus quer, querer todo o ser com Deus, todo
o natural e todo o sobrenatural ao mesmo tempo. Inteligência, desejo, oração,
ação, sofrimento, fecundidade, abandono, sabedoria: uma mesma árvore.
Sabedoria: dar a cada coisa, a cada acontecimento sua real importância, seu
verdadeiro valor.
Em resumo: vida teologal, vida prudencial, vida eficaz; nada
a não ser a vida, mas toda a vida; nada a não ser o Evangelho, mas todo o
Evangelho. Não ser senão testemunha do Cristo.
A ação católica: o movimento universal para Deus pela
humanidade no Cristo.
Os momentos mais felizes do homem engajado: quando encontra
Deus, quando Deus o arrebata.
Deus pode ocultar-se durante longo tempo. É duro agir na
escuridão. Depois Deus se dá e nos lança outra vez na austeridade do
esforço.
25. A Arrancada Humana
Elevar o mundo, e que isso provenha do Cristo. Não se trata
de impor o jugo do Cristo, mas de dar à vida do Cristo todo o seu
desenvolvimento.
Trata-se, para cada um, de viver plenamente o Cristo e de
querer com o Cristo todo o bem do mundo, portanto a marcha do mundo para o
máximo do ser, para o máximo do valor. E isso não é senão muito
parcialmente, sem dúvida mesmo, muito secundariamente, uma questão de
orações recitadas ou cantadas, de procissões, de manifestações. É a
arrancada universal para o melhor; e, portanto, inicialmente, libertação do
desordenado, do impuro; e quebra das alienações, libertação dos homens.
Muitos cristãos se esgotam em querer conservar quando se
trata de construir. Felizmente, Deus faz germinar Santos. A chama cristã não
deseja senão tornar-se um braseiro, mas muitos padres a apagam, querendo fazer
uma Igreja bem arranjadinha, bem calma, bem garantida, de completo repouso.
O sopro do Espírito Santo coloca o cristão numa aventura
perpétua. Mas só essa aventura dá a verdadeira segurança. 0 Espírito Santo
é empreendedor.
Nunca o mundo esperou tanto da cristandade.
É preciso que em dez anos a espiritualidade do
"engajamento" seja universalmente. adotada. Isso há de vir. É
preciso quebrar todos os quadros artificiais em que se quer aprisionar o
Espírito Santo. Tudo o que é falso deve voar em pedaços. Temos medo demais de
escandalizar: o conformismo nos esmaga.
Catástrofe. Uma notícia imprevista. Todo o plano caiu por
terra. Desespero? Impaciência? Não. Manter-se bem calmo, jantar bem, dormir
sossegadamente. De manhã tudo já estará mais claro. Implorar Deus mais
longamente na solidão. Um novo plano aparece. Basta recomeçar. Quando Deus me
ordena, só se trata de meu bem. O mando de Deus nunca é a ordem brutal daquele
que se impõe aos outros desprezando-os; é a indicação do Pai aos filhos para
lhes evitar a infelicidade. O mando de Deus indica ao homem o caminho para o
engrandecer. É o homem que está em jogo, o sucesso do homem. A ordem foi dada
para facilitar o sucesso.
Quando Deus diz: "Amarás o Senhor teu Deus, e só a ele
adorarás" ele me arranca do amor e das inquietudes desastrosas. É
reconhecendo o divino, optando por ele, que o homem dá à sua vida o seu pleno
sentido, realiza a mais alta justiça, harmoniza-se com o universo. O pecado é
o mal do homem. Não pode ser o mal de Deus. Em Deus não pode haver mal. O
pecado não pode ser nocivo a Deus, mas ao homem. Se Deus proíbe o pecado, é
porque o pecado diminui o homem, destrói o homem. 0 que se chama de glória de
Deus - não digo a sua glória substancial - é a resposta favorável dos homens
aos convites divinos para darem ao universo o maior valor possível.
26. A Oração
Oração: não estar nunca separado de Deus, não escapar
nunca de sua influência.
Oração a Deus: estou diante de vós como uma dependência,
como uma necessidade, como um apelo.
A minha oração, é o meu desejo, meu grande desejo de que
todo o bem chegue, um desejo grande como a minha alma. A minha ação o exprime
imperfeitamente, e Deus o completa.
Minha oração, do fundo do coração, ato de fé: "Que
se realize o melhor."
A oração deve tornar-se a própria vida, o apelo nunca
revogado daquele que se sente de todo dependente, e que se mantém aderido à
vontade de Deus.
O homem que, dando tudo, trabalha para Deus bem sabe que sua
capacidade e importante.
Meu Deus, faz com que a humanidade, enterrada nos
materialismos, deles escape. Faz com que os povos 107
Poderosos e ricos considerem, enfim, com amor os pobres, e
povos que, em vez de pensarem sempre em seus próprios haveres, saibam ajudar os
outros a serem mais.
27. A Missa
A Missa: recolher tudo em si, encontrar de novo tudo no
Cristo, oferecer tudo com o Cristo, receber o Cristo.
A Missa: a ação essencial, a ação suprema. O sacrifício.
Eu sou padre. Eu sagro. Eu consagro. Torno sagrado o dom de Deus e dos homens,
torno-o divino.
A começar por este pão e este vinho. Por este pão
impregnado de trabalho humano e de cooperação divina. Por este pão que recebe
a sua natureza do trigo e seu preparo e o seu cozimento do esforço do homem.
Neste pão encontro a humanidade: aqueles que o puseram no
forno, aqueles que manipularam a massa, aqueles que esmagaram o grão. Está
todo impregnado com o trabalho do moleiro, do carroceiro, dos malhadores, dos
ceifadores, do semeador, do lavrador, e eu teria que subir de geração em
geração até encontrar o homem que primeiro o cultivou.
Encontro concentrado nele o esforço dos homens para viverem
juntos e para reinarem sobre toda a terra; o arboricultor cuidou das árvores, o
lenhador as derru bou, o serrador as aparelhou; a oficina de máquinas
agrícolas as empregou nas rabiças do arado, nos suportes do debulhador. O
mineiro extraiu o mineral e o carvão, os siderúrgicos fizeram o ferro gusa e,
depois, o aço; os mecânicos deram forma à matéria, reuniram as peças,
montaram a máquina. Foi preciso pintar as máquinas, pôr óleo nas
engrenagens, gasolina ou óleo combustível nos motores, utilizar a
eletricidade. Quantas e quantas vezes os estivadores, os navegadores, os
ferroviários, os motoristas de caminhões, os garagistas, não foram obrigados
a intervir para que a máquina chegasse bem acabada e pronta para servir e para
este pão chegar até minhas mãos. Ele representa diante de mim todo o esforço
humano e a soma de todas as técnicas.
E, da mesma maneira, o vinho, fruto da vinha. Acumula também
os mais diversos trabalhos; trabalho dos que espremeram as uvas e trabalho dos
que fizeram o lagar; trabalho dos que moram perto e dos que moram longe.
Foram necessários: o enxofre, o cobre, os minérios, os
químicos, os metalúrgicos para salvar as videiras das diversas pragas; este
vinho, diante de mim, resume tarefas realizadas nos quatro cantos do mundo.
O mundo está como que reunido diante de mim, sobre esta
mesa, o pão sobre a toalha bem branca que as fábricas teceram das fibras do
linho; o vinho no cálice feito de metal precioso.
É um mistério da colaboração dos homens entre si com Deus
que se encontra ali, diante de mim, neste pão, neste vinho, nesta toalha, neste
vaso sagrado, neste altar.
Sou o padre, aquele que representa todos os homens, aquele
que recebeu o mandato para falar e para oferecer em nome de todos. Ofereço o
pão, o vinho, o trabalho dos homens e a obra de Deus, a ação da natureza
intimamente ligada.
Sou aqui tributário das multidões humanas do meu tempo.
Opero a reparação da natureza, recomeço a volta de todas as coisas ao
Criador, sou a gratidão da huma nidade, voltando a seu Deus, e o cântico de
todas as coisas elevando-se por mim a Deus.
Ofereço o pão, o vinho. Despojo-me de tudo: reconheço que
pertencem antes de tudo a Deus, e que nos foram dados por Deus com os homens,
antes dos homens. Entrego-os a Deus. A natureza e a sociedade completam na minha
oferenda a sua aspiração. Sou, pela minha oferenda, em nome de meus irmãos em
humanidade, o pontífice, a ponte entre o mundo e Deus.
Ofereço este pão, este vinho. É a minha ação, a mais
elevada das ações, toda enriquecida com todas as ações dos homens, que a
tornaram possível, que a prepararam.
Todas as ações dos homens. Quantos não sulcaram a terra,
não malharam o ferro, não construíram as fábricas, não organizaram os
transportes por cupidez? Quantos não lançaram mão da natureza para proveito
próprio, e não para proveito de seus irmãos? Quantos não se mostraram
vorazes, injustos, ladrões, opressores? Quantos entre esses gerentes, esses
capitalistas, esses industriais, esses engenheiros, esses contramestres, esses
operários? Quanta promiscuidade e quanto relaxamento nas oficinas, quantos
desejos adúlteros nos escritórios, quanta gente arrastada à prostituição
pelos salários injustos!
Este pão, este vinho; mas é também o pecado dos homens, a
recusa de servirem a Deus e de servirem aos outros homens. Este pão, este vinho
não são puros, estão pesados de sensualidade, de inveja, de ódio, de
orgulho. Deus não quer saber de minha oferenda.
Este pão, este vinho, objetos manchados pela ação dos
homens, pela intervenção do pecado nas manifestações sadias da natureza.
"Este pão é o meu corpo, este vinho o meu
sangue." Falei, ou melhor, o Cristo falou por mim: "Meu corpo, meu
sangue", proferiu ele.
Este pão, o corpo do Cristo; este vinho, o sangue do
Cristo...
Que ação! Uma ação que atinge o ser na sua profundidade;
que já não opera na superfície das coisas para transforma-las, mas que se
apodera das próprias natu rezas, das essências, da substância. E que
finalidade! O corpo, o sangue do Cristo, a humanidade do Cristo que recebe o ser
do próprio ser do verbo de Deus. O fim dessa ação: o Cristo que nos é dado
em sua totalidade, o Homem-Deus, o vivente para todo o sempre.
Ofereço este pão, este vinho... não... Ofereço este
corpo, este sangue. O corpo que foi flagelado, coroado de espinhos, crucificado.
O sangue que jorrou, que es correu pelas chagas vivas. O corpo, o sangue,
impregnados com o trabalho do Cristo.
Este corpo foi o corpo de um peregrino que começou muitó
cedo as suas jornadas e as suas saídas para além das fronteiras, que percorreu
campos e atravessou povoações, aldeias e cidades.
Este corpo foi o corpo de um militante que pregava aos homens
que emendassem o coração, fizessem bom uso das coisas, que não fossem
cobiçosos, nem opressores, nem estupidamente orgulhosos.
Este corpo foi o corpo de um fundador que agrupava
discípulos, lerdos de entendimento, prontos para abandonarem o amigo, ardentes
na luta pelas posições. Este corpo foi o corpo de um condenado.
O seu corpo, o seu sangue. Começaram a separa-los em casa de
Pilatos, terminaram sobre a cruz.
O seu corpo, o seu sangue, separados por um momento.
Eu disse sucessivamente, separadamente: "Este pão é o
meu corpo."
"Este vinho é o meu sangue."
Representei o mistério inefável do Cristo crucificado, a
única ação que merecia a salvação de todos os homens.
O corpo, o sangue de Cristo, enriquecidos com todas as
ações do Cristo caminhante e dirigindo-se para a morte. Todos os méritos da
vida do Cristo neste corpo e neste sangue agora reunidos.
Estou junto com o Cristo, ofereço o Cristo, seu corpo, seu
sangue.
Fiz do pão, do vinho, tudo quanto há de mais sagrado.
Consumei o sacrifício. Exaltei infinitamente esta matéria, fruto da ação
humana, que estava em minhas mãos. Estou junto do corpo e do sangue do
HomemDeus, todo impregnado com o seu trabalho por nós todos, com seus méritos
para nos fazer amar e aceitar o justo sofrimento, e para que nos seja possível
morrer bem, para entrarmos na vida eterna.
O sacrifício, a ação sagrada, foi começada por Jesus
desde o primeiro instante em que ele se voltou para o Pai para lhe dizer: Tu
não quiseste nem os seus sacrifícios, nem os seus holocaustos. Eis que venho
eu, ó Pai, para fazer a tua vontade.' Jesus, desde o primeiro instante, se
oferecia sem reserva, encaminhava-se sem esforço para o Pai, depunha a sua
vontade humana na Divina. Jesus se oferecia e oferecia o universo com ele, o
universo sobre o qual tinha direito, que lhe pertencia.
Jesus se oferecia, me oferecia e oferecia todos os de minha
família, todos os de minha amizade, todos os de minha profissão, todos os de
minha classe, todos os de minha nação, todos os da humanidade.
Jesus se oferecia, e oferecia a terra, e os minerais, e as
plantas, e os animais, e o mar, e os rios, os lagos, as riquezas do subsolo, a
luz, o ar, o firmamento, a energia espalhada por toda a parte. Jesus oferecia
tudo. Tudo, por ele, voltava ao Pai. A natureza se emendava, encontrava de novo
a liberdade. Por ele, nele, corria para o Pai.
Jesus se oferecia, Jesus no seu coração oferecia todos os
homens amados por ele. Nada havia no universo, a não ser o pecado dos homens,
que não fosse apresen tável. Ele não oferecia os pecados dos homens: ninguém
oferece a negação do ser. Oferecia os homens. Oferecia-se a si próprio,
carregado com os pecados dos homens. Haveria de levar até o fim a expiação,
com imenso amor. Haveria de abolir em sua carne e por seu amor o pecado de cada
um dos homens.
Para cada um dos pecados deveria haver nele alguma coisa de
positivo, um mérito, um direito ao resgate, de maneira que não haveria de
existir um pecado puro, pecado sem o contrapeso de uma ação positiva de amor.
O amor apaga tudo, o amor ultrapassa tudo. A ordem total seria restabelecida no
Cristo vencedor do pecado.
Eu sou o sacerdote de Jesus.
Quando digo: "Isto é o meu corpo, isto é o meu
sangue", é ele quem torna eficaz as minhas palavras, é ele quem opera a
aproximação. E eis que este pão é o seu corpo; este vinho, o seu sangue. A
minha oferenda é tão eficaz que se identifica com a própria oferenda do
Cristo; o seu corpo, o seu sangue, carregados de méritos, frutos de seus
trabalhos.
Quando ofereço este corpo, este sangue, o meu Cristo, nada
faço, senão continuar a evidenciar a sua oferenda. É ele que me leva a
oferece-lo. Ele me tornou sacerdote para isso. A minha oferenda é sua oferenda,
ele quer oferecer, por meu intermédio, para que eu associe os homens de meu
tempo à sua oferenda.
Todos juntos, cristãos, nós o oferecemos e eu sou o vosso
mandatário, como sou o mandatário do Cristo. Ofereceis comigo, encontrais de
novo o Cristo comigo, a começar pelo pão e pelo vinho que me foram dados por
vós.
Isto é o meu Corpo; isto é o meu Sangue.
Estamos diante da pura realidade; nós o possuímos, nós o
apresentamos ao Pai, nós o oferecemos, nós nos oferecemos nele. Ele nos
ofereceu; unindo-nos à sua ofe renda, nós nos encontramos de novo nele, tudo o
que ele ganhou, adquiriu, mereceu por nós, todos os méritos que acumulou para
nós, todos os direitos à nossa purificação, à nossa emenda, à nossa
exaltação, ao nosso inteiro
aperfeiçoamento pelo amor, à nossa plenitude de vida, à
vida eterna.
A nossa ação reuniu-se à sua ação, que é ao mesmo tempo
a sua ação de graças, o seu reconhecimento a Deus por tudo de bom que foi
feito aos homens, todo o universo, todas as naturezas, e a natureza humana em
primeiro lugar, e o dom do Homem-Deus a todos os homens. O seu canto de louvor,
o louvor permanente que foi e continua sendo a sua vida e a sua ação
redentora. O seu doloroso trabalho, consumado uma só vez, o sacrifício total
da gratidão e do resgate, do louvor e da expiação.
Não, Deus agora não repelirá mais a nossa oferenda. Ele
não mais se tornará insensível ao nosso dom. Isto é o meu Corpo; isto é o
meu Sangue. Já não resta mais pão em minhas mãos, nem vinho neste cálice,
mas, simplesmente, esta realidade não substancial, e graças a ela estou na
presença do corpo e do sangue do meu Cristo.
Não são os meus olhos carnais que vêem o Cristo, mas a
minha fé, debaixo das aparências.
Estou na culminância da ação. Mudei o pão em corpo do
Cristo, o vinho em sangue do Cristo. Ofereço no Cristo todos os méritos que a
sua ação conseguiu para os homens e para mim mesmo. Ofereço-me a mim mesmo
sem reservas, com tudo o que tenho, e todo o universo que me é dado, e todos os
meus sofrimentos de hoje, e todos os meus sofrimentos de amanhã; o meu grande
tormento pelo fato de o Evangelho não se espalhar ainda mais; pelo fato de os
homens, metidos em sua crosta material, não serem mais permeáveis à mensagem.
Ofereço no Cristo, com o Cristo, em seu coração e no meu, todos os meus
irmãos e, mais particularmente, os mais infelizes, os mais miseráveis.
Ofereço todos eles: os da pesca, os da navegação costeira,
os 'da cabotagem, os do longo curso, os da marinha de guerra; os do ar, os das
estradas de ferro e de rodagem, os do cultivo da terra e os da tecelagem; os da
metalurgia e os da mecânica; os do carvão, os do petróleo e os da
eletricidade; os da química e os das construções; os do comércio e os dos
transportes; os dos serviços privados e dos serviços públicos; os da
História e os da Matemática; os do Direito e os das Ciências Aplicadas; os da
Geologia e os da Antropologia; os da Pintura e os da Escultura e os da
Arquitetura e os da Música; todos os que trabalham num ofício honesto e útil:
todos os que, de qualquer maneira, procuram obter para os homens o pão e o
vinho, e o vestuário, e a moradia, e a cultura e a sã alegria.
Os outros, Senhor, aqueles que impedem a vinda de vosso
reino, aqueles que algemam os homens na volúpia, aqueles que os fecham a sete
chaves nas casamatas dos materialismos; aqueles para os quais a carne, o
dinheiro e o poder são deuses, eu os abandono à vossa misericórdia. Mas, não
vos posso oferecer o trabalho deles, que é pecado.
Ofereço-vos, entretanto, no Cristo a ação que ele realizou
para compensar, a vossos olhos, todas essas manchas.
Dignai-vos, Senhor, aceitar minha oferenda. Eis que quero
aproximar tudo de vós, orientar tudo para vós, polarizar tudo em vós. Quero
arrastar tudo até vós. Nada mais tem sentido para mim, senão como referência
a esse movimento universal dirigido para vós pelo vosso Cristo, com ele, nele.
Oh! como desejaria que os homens se associassem a meu arrebatamento e
arrastassem com eles todos os seus irmãos e toda a terra! Desejaria que eles se
entregassem a seus divertimentos debaixo da vossa luz, desejaria que se
embebedassem com a verdade. Desejaria que eles se respeitassem e se amassem uns
aos outros. Desejaria que cooperassem na libertação da natureza, colocando-a
ao mesmo tempo, a serviço de seus irmãos e a serviço do altar. Desejaria que
eles construíssem casas onde a gente pudesse viver bem, onde se pudesse aceitar
sem restrições a lei da vida, onde todos se sentissem fortes em comunhão com
a cruz; desejaria que criassem estruturas sociais, econômicas, políticas,
favoráveis à abundância e à paz.
Senhor, ofereço-vos minha oração na oração do Cristo, à
qual me reuni em minha oferenda.
Assim é a Missa, a mais essencial de todas as ações, a
mais universal, a ação suprema.
A nossa vida exterior não deverá ser outra coisa senão um
prolongamento desta ação, para provar a Deus a realidade do que se passou, e
para dar à ação do Cristo uma eficácia total.
A resposta do Cristo à nossa Missa é a sua ação de
vencedor. Depois de haver ganho um mérito pelo seu trabalho doloroso, está
agora forte bastante para salvar. À oferenda da humanidade vai responder o dom
da divindade; Deus vai dar a vida aos homens pela humanidade gloriosa e poderosa
de seu Filho. É a hora da eficácia. A graça desce até o homem para
ressuscitá-lo, para vivificá-lo.
Os sacramentos transformam, purificam, enriquecem, elevam as
almas dos homens e, daqui há pouco, vão ser-lhes dados como alimentos o
próprio corpo e o sangue do Cristo. Este pão, este vinho. Não. O meu Corpo, e
o meu Sangue, diz o Cristo. Porque a minha carne é verdadeira comida, e o meu
Sangue é verdadeira bebida.
Ite, missa est. Ide, é a despedida. A ação está terminada
ou, se preferirdes, a ação vai começar; vai começar o que os homens chamam
de ação: o trabalho, os cuidados, os fracassos, a luta, a vida. Bastará
então que eu dê o meu testemunho, inserindo com inteligência e amor toda a
minha atividade no plano total de Deus. É a Missa que continua, que invade
tudo, é a oferenda de cada um que se realiza em seguimento à oferenda do
Cristo. É o sacrifício sem interrupção; tudo o que fazemos, tudo o que
tocamos, tudo o que trabalhamos, tudo orientado para Deus pelo nosso gesto
interior; é o sagrado invadindo toda a vida.
Ite, missa est. Ide, a expedição está terminada, a
oferenda está consumada, a remessa já partiu.' Juntos, fizemos chegar até
Deus, no Cristo, o nosso pedido, a expressão de nossa necessidade, o montante
de nossa dívida. Ide, a humanidade tornou a si e sobrepujou-se a si mesma, uniu
a terra ao céu, deu totalmente a Deus o melhor de si mesma.
Ide, depois de haverdes realizado a vossa ação, o vosso
gesto; o gesto do homem, gesto ao qual já respondeu o gesto de Deus, na
comunhão e na purificação mais elevada de nossas almas.
Ite, missa est. Ide, para o vosso trabalho, para a vossa
luta. Já foi dado o toque de partir. Levai a cabo durante o vosso dia a ação
que ainda agora começastes.
Ite, missa est. É o mundo se transformando lentamente
debaixo da ação total dos cristãos, o reino de Deus se realizando pela
informação de todo o temporal pelo espiritual, pela regulamentação de todo o
natural pelo sobrenatural. É a fé invasora, a caridade conquistadora, a
esperança triunfante.
Um dia virá o último combate contra a última inimiga, a
morte. Assim se remata a oferenda, a ação se coroa. O Cristo foi realmente
encontrado de novo no termo da plenitude de seu dom para seus irmãos,
consumou-se a sua semelhança perfeita conosco. A ação de nosso corpo vai
parar, o nosso sangue vai cessar de circular. Que importa! Nós também já
terminamos a nossa obra meritória, aceitamos a expiação, restabelecemos a
justiça, e a nossa ação, unida à do Cristo, perdurará pelos séculos dos
séculos.
A contemplação eterna irá começar logo: a visão, a
ação da alma apreendendo Deus em toda a sua pureza, da alma que se deu
totalmente, incapaz agora de se despregar de sua livre união.
A missa total, o sacrifício total: a marcha de tudo para
Deus, a consagração do homem e do mundo, a subida universal para Deus pelo
Cristo, a ação católica em seu sentido pleno. É a explicitação da primeira
missa e das missas cotidianas, o sacrifício único em sua inteireza, o
desenrolar através dos séculos do esforço humano procurando sobrepujar-se
para atingir a divindade, a mais profunda dialética histórica. Tudo isso tem
origem na oferenda do Cristo, e na oferenda, pelo padre e pelo povo, do pão e
do vinho tornando-se o corpo e o sangue. É toda a cristandade em marcha
arrastando o mundo consigo. A dialética é, ao mesmo tempo, pessoal e
universal, humana e cósmica. Uma vez admitida a existência do pecado, essa
marcha prosseguirá forçosamente na oposição e na dor.
Assim, a cruz domina a imensa luta humana para a libertação
do homem e da natureza. O último gesto dessa ação grandiosa será o
julgamento, quando o Filho do Homem vier afirmar a sua soberania sobre toda a
carne ressuscitada, sobre todo o espírito posto em face da verdade. Ele fará a
partilha entre a tese e a antítese, entre a aceitação e a recusa, a luz e as
trevas, o bem e o mal, a beneficência e a avareza. A sua espada cortante
penetrará até a medula, até as juntas para tudo dividir. Toda ação humana
será, então, dividida em dois pedaços: a ação vazia de divindade, vazia de
ser; a ação cheia de divindade, abundante de ser. A ação que escapou à
fecundidade da oferenda, a ação fecundada pela oferenda; a ação do homem
sozinho, a ação do Cristo no homem.
Então começará a definitiva ação de graças. Consumada a
redenção, o sacrifício tornar-se-á de novo o sacrifício de puro louvor,
como o de Adão e Eva antes do pecado. O homem na posse de Deus tornar-se-á de
novo senhor da terra e dos'céus, uma nova terra e novos céus. A oferenda,
cheia de gratidão e de amor, da humanidade fiel, fundida na oferenda do Cristo
completará a ordem toda da natureza elevada à divindade, consumará a volta
decisiva do universo a Deus. O triunfo do Cristo e de seu corpo será o fecho
eterno do único sacrifício. O gesto da humanidade será tanto mais impregnado
de louvor quanto mais o gesto de Deus a respeito do homem tiver sido o dom total
do próprio Deus.
Este pão é o meu Corpo, este vinho o meu Sangue-. Eis, que
atingi a mesma oferenda ininterrupta do Cristo, que não terá mais fim. Eis que
inseri a oferenda da minha geração na oferenda total. Hoje ofereço,- no
Cristo, os seus méritos à ação amorosa e fecunda dos homens. No fim dos
tempos, todos, juntos, oferecemos com o Cristo toda a humanidade, essa mesma
humanidade que, por sua vez, conquistou os seus méritos, que revelou claramente
aquilo que o Cristo encerrava para ela em seu coração, em sua oração, em seu
direito; essa mesma humanidade que realizou a sua ação no sentido da
plenitude.
Agora não preciso senão inserir a minha vida na oferenda
total, senão incorporar, ao máximo, toda a minha ação e a ação dos homens
de meu tempo na própria ação do Homem-Deus.
28. Conselhos
Vossa primeira tarefa será tomar claramente consciência de
vossa missão. Recensear os que vos são confiados. Primeiramente os
marinheiros, grumetes, novi ços, simples marinheiros, patrões ou capitães.
Depois os membros das profissões conexas: pescadores, operários ou operárias
em geral. Enfim, os patrões dessas profissões. Eles são, todos juntos, a
vossa paróquia; aqueles que Deus confiou ao vosso cuidado para que os ajudeis,
para que penseis por eles no problema de sua vida humana em plenitude, para que
sejam por vós conduzidos a essa plenitude.
Eles são, no sentido vigoroso, em Deus e no Cristo, ao mesmo
tempo, vossos irmãos e vossos filhos. Amai-os.
Amai o bem que se encontra neles, a sua simplicidade, sua
rusticidade, sua audácia, sua resistência, seu vigor, suas qualidades de
lutadores encarniçados e nunca cansados; sua paciência diante da provação;
suas tradições de gente do mar; a beleza humana que se encontra neles, a
beleza humana de homens duros para consigo mesmos e realizando sem
desfalecimento o dever que lhes compete de fornecer pão aos que Deus lhes
confiou.
Amai-os até o ponto de não suportar que eles sejam
infelizes demais.
Resguardaios do perigo. Afastai deles as causas de sua
ruína. Rechaçai de seus lares o alcoolismo, as doenças venéreas, a
subalimentação, a tuberculose. O vosso papel não consiste somente em
consolá-los e abandonálos na indigência, ao passo que vós tendes mais que o
suficiente para comer e para vestir. É preciso que a infelicidade deles vos
faça sofrer. A falta de higiene em suas casas, a qualidade defeituosa de seu
alimento, a má educação de seus filhos, as suas devassidões, as suas
ignorancias; é preciso que tudo aquilo que os diminui corte o vosso coração.
Amai-os para faze-los viver.
Para que desabroche neles a vida simplesmente humana. Para
que a inteligência deles desabroche, para que não fiquem uns atrasados
mentais, para que saibam usar corretamente a própria razão, discernir o bem e
o mal, repelir a mentira, reconhecer a grandeza da obra de Deus, comungar com a
natureza, gozar de tudo o que é belo, para que sejam homens e não animais.
Que o erro aferrado em seus corações não vos deixe
indiferentes, mas que vos fira.
Que as ilusões com que são alimentados vos incomodem. Que
os jornais materialistas que lhe são fornecidos vos irritem. Que os seus
preconceitos vos atormentem.
Pois que o mal deles é o vosso mal, pois que os amais, que
os tendes alojados em vosso coração com o Cristo, pois que desejais que com o
Cristo eles vivam como homens na luz.
O Cristo é a verdaderia luz que alumia a todo o homem que
vem a este mundo.
Amai-os para faze-los viver da luz do Cristo.
Toda luz da razão natural e a luz do Cristo. Todo
conhecimento, toda ciência humana. O Cristo é a ciência suprema. No momento
em que abrirdes o coração deles à verdade, realizais neles a imagem de Deus.
Quando desenvolverem a inteligência, quando comungarem com o universo,
aproximarem-se de Deus, se parecerem com ele, já estarão caminhando para ele.
Mas, sabemos pelo Cristo que ele traz uma outra luz, luz que
lhes orienta a vida para o essencial, que ele
lhes traz a resposta para as questões mais angustiosas. Por
que vivem eles? A que destino foram chamados? Sabemos que há um grande chamado
de Deus para cada um deles para beneficiá-los com a visão dele próprio, face
a face, sabemos que são chamados a um alargamento do olhar até a totalidade de
Deus.
O chamado é para cada um deles, para o mais miserável, para
o mais ignorante, para o mais despreocupado, para o mais depravado dentre eles.
A luz do Cristo alumia as trevas para todos eles. Eles têm necessidade dessa
luz. Sem essa luz eles são simplesmente uns infelizes.
Amai-os para lhes dar consciência do seu destino, para que
se estimem como homens chamados por Deus ao mais alto conhecimento, para que
estimem Deus no seu valor de Deus, para que estimem todas as coisas segundo o
valor delas em relação ao plano de Deus. Amai-os apaixonadamente em vosso
Cristo para que sua semelhança se realize neles,
para que eles se retifiquem por dentro,
para que tenham horror ao se demolirem ou se atrofiarem,
para que tenham respeito pela própria grandeza e pela
grandeza de qualquer outra criatura humana,
para que tenham a preocupação da verdade e do direito,
para que respeitem os bens, a mulher e a honra do outro,
para que reconheçam no outro o mesmo direito à
vida,
para que a vida do Cristo seja neles,
para que o amor com o qual o Cristo os amou opere neles,
para que todo o seu ser espiritual desabroche em Deus,
para que encontrem o Cristo no extremo do olhar e do amor,
para que o sofrimento do Cristo lhes seja útil,
para que completem, com seus sofrimentos, os sofrimentos do
Cristo,
para que amem todos os seus irmãos com o Cristo. Se os
amais, amai-os apaixonadamente, e, se os amais, sabereis o que lhes deverá ser
feito.
Corresponderão eles a vosso amor? ...
Tereis sucesso em vossos trabalhos? ...
Sim, sem dúvida, mas parcialmente, lentamente.
Deus quer sobretudo o vosso esforço, e nada é perdido
daquilo que é feito com amor.
29. A Espiritualidade do Cristão Engajado
Os Princípios da Revolução Permanente
Estamos decididos a transformar a sociedade pela nossa
transformação e pela transformação dos agrupamentos humanos nos quais
militamos.
Portanto, queremos:
1°) Poder dizer não a muita coisa da sociedade
contemporânea.
2°) Contribuir de maneira coordenada e eficaz para a
construção de um mundo humano e cristão.
A persecução desses dois objetivos determinará em nós
certo estilo de vida verdadeiramente cristão, verdadeiramente revolucionário.
A nossa revolução será permanente e ascendente. A
revolução permanente deve operar-se pela inserção progressiva de cada um e
de toda a sua atividade no plano de Deus; quer antes de mais nada, realizar o
movimento universal para Deus, pela humanidade, no Cristo.
A revolução ascendente começa pela transformação
espiritual de cada um e prolonga-se nos grupos onde cada um exerce a sua
influência. Por conseguinte, leva cada um daqueles que a realizam, e todos
aqueles que são arrastados por eles, e o universo, para Deus.
Essa forma de revolução é sempre eficaz e efetua-se com
absoluta segurança.
À medida que, pelo nosso próprio engrandecimento, nos
tornarmos capazes de uma influência maior, a nossa ação passará a atuar-se
no plano social, no plano eco nômico, no plano político, no seio de
agrupamentos cada vez maiores, mas ela escapará às vicissitudes dos movimentos
políticos e continuará a atuar sem interrupções através das evoluções
sociais e econômicas. Perdurará e irá crescendo mesmo através das
subversões, sejam elas da natureza que forem. Nesse sentido, sempre estará em
avanço sobre qualquer outro movimento revolucionário, e será uma ação muito
mais profunda porque estará colocada no plano da transformação das almas e da
extensão indefinida e coordenada da irradiação delas, e não no plano
superficial dos programas.
Instaurando, ao mesmo tempo, o bem pessoal e o bem comum,
libertaremos os homens e levaremos para as formas comunitárias todo o
agrupamento fundamental de que somos membros.
Engajamento
Debaixo do olhar de Deus, no conhecimento da nossa fraqueza,
nos comprometemos:
a dar intrepidamente testemunho da verdade e a nunca traí-la voluntariamente;
a nunca participar conscientemente da injustiça, e a não nos deixarmos dominar pela cupidez;
a respeitar efetivamente, concretamente, com amor, toda pessoa humana;
afazer esforço cada dia para nos sobrepujarmos a nós mesmos;
a dizer mutuamente e diretamente, uns aos outros, os nossos motivos de queixa;
a nos tornarmos eficazes para instaurar o bem comum em toda a comunidade de que sejamos membros;
a assumir o encargo - cada um segundo as suas forças de um setor definido da miséria humana;
a combater, até ficarmos gastos, pela supressão da condição proletária ou para o desenvolvimento dos países pobres;
e, deste modo, a realizar a revolução permanente e ascendente, inserindo-nos cada vez mais noplano de Deus.
Estilo de Vida
Tudo empreender e tudo realizar na verdade.
Abordar toda pessoa humana com um grande respeito e um grande
amor.
Criar entranhas de misericórdia.
Permanecer sempre acolhedor a qualquer miséria. Perceber em
cada um os seus valores e amá-lo.
Ir ao objeto, apagar-se diante do objeto.
Ir sempre ao mais essencial.
Ser encarniçado no trabalho.
Pôr em ação os meios proporcionais.
Fazer bem feito tudo o que se estiver fazendo. Adquirir
eficiência.
Manter seus compromissos.
Não desistir da obra começada.
Não repelir nenhuma boa vontade.
Tomar consciência do bem comum.
Jogar o jogo da equipe.
Tomar com muita largueza a parte que lhe cabe nos trabalhos
materiais.
Começar por acusar-se a si mesmo.
Desejar, provocar, aceitar a crítica.
Caçoar sempre um pouco de si mesmo.
Aceitar os encargos difíceis.
Considerar como normais a dificuldade, a luta.
Inquietar-se quando tudo parece fácil.
Aproveitar-se dos fracassos.
Manter-se otimista.
Construir em vez de falar.
Lutar incansavelmente contra a injustiça.
Barrar o caminho aos exploradores, aos ladrões, aos
mentirosos, aos intrigantes. Desenvolver-se pela abnegação, pelo dom.
Não se desassociar da comunidade com a qual estiver
combatendo.
Deixar-se inteiramente penetrar pelo Evangelho.
Construir com a Igreja.
Ter confiança na vida e no sopro de Deus.