PRINCIPIOS PARA A AÇÃO
Louis Joseph Lebret O.P.

 

Eveux-Ecully, marzo-julio de 1944.

0. Apresentação
1. Os Objetivos
2. Salvação do Homem
3. Orientações da Ação
4. A Eficiência
5. A Verdadeira Prudência
6. As Regras de Ouro do Marinheiro
7. O Combate
8. O Chefe
9. A Vida da Equipe
10. Organização
11. A Divisão das Responsabilidades
12. Os Colaboradores
13. Escolha e Educação dos Colaboradores
14. As Cisões
15. Seguir seu Caminho
16. A Força
17. Humildade e Magnanimidade
18. Especialização e Cultura
19. O Equilíbrio
20. A Fé
21. A Esperança
22. O Respeito pelo Outro
23. O Amor
24. Sabedoria e Contemplação
25. A Arrancada Humana
26. A Oração
27. A Missa
28. Conselhos
29. A Espiritualidade do Cristão Engajado


Estes princípios, escritos com muitas interrupções, ás vezes se repetem; pareceu-nos preferível aceitar essas repetições a fim de dei xar a cada conjunto a sua coesão e o seu vigor. Não há nestas páginas uma só palavra que tivesse sido colocada para parecer bem. Nada mais fizemos senão revelar as conclusões de uma experiência. As poucas citações empregadas não foram escolhidas por causa da personalidade de seus autores, mas porque foram também experimentadas.

A experiência, aqui referida, foi prosseguida durante oito anos de vida marítima e quinze anos de ação social. Muitas obras re sultaram disso e, no setor marítimo, até mesmo reforma de instituições.

1. Os Objetivos

Partindo dos fatos, à luz da razão e da fé.

É preciso abordar um problema pelo seu objeto, no sentido mais amplo da palavra: "De que se trata?"'

Nada, a não ser a submissão ao objeto. Nada, a não ser a ambição do bem.

Inserir-se no plano de Deus. Tudo colocar no plano de Deus. Ser totalmente dominado por esse grande desejo.

Apagar-se diante da obra que vai ser empreendida e que tem o bem como objetivo.

O que conta é a obra a realizar. Assim sendo, ninguém perderá tempo consigo mesmo, nem atrapalhará os outros com a sua pessoa; e aqueles que nos virem viver, desinteressados e ardentes, ficarão nossos amigos.

Colocar constantemente essa obra como uma parte integrante da obra total do Cristo.

A obra a ser realizada: trabalhar com todo o seu ser para a elevação humana.

E preciso ter uma mensagem para anunciar ao mundo.

É preciso propor aos homens um grande objetivo. Sofrem por serem convidados apenas para o medíocre.

O que é preciso é dar testemunho da verdade, testemunho de Cristo.

2. Salvação do Homem

O objetivo: salvar e elevar o homem. O homem todo e toda a humanidade.

Salvar o homem, salvar o homem na totalidade de seu ser; logo, antes de mais nada, salvar o espírito. Sim, o respeito a cada homem; mas a neutralidade é traição.

Engajamento é o ato do misericordioso impelido pela justiça, animado pelo amor.

Não se agarrar tanto aos males, mas às suas causas.

O setor do engajamento: lá onde houver mais o que fazer, e o que se for capaz de fazer; lá onde houver menos resposta à necessidade ou ao apelo.

Para que gemer? O que é preciso é atracar-se corpo a corpo com o mal, atacá-lo e vence-lo.

Meditar e tornar a meditar o Evangelho do caminho de Jericó. O moribundo à beira da estrada? É o infeliz que realmente encontramos em nosso caminho, mas é, também, o proletariado oprimido, os ricos materializados, a burguesia sem grandeza, os poderosos sem horizontes, toda a humanidade de nosso tempo em todos os seus setores.

A miséria, toda a miséria humana, toda a miséria das habitações, dos vestuários, dos corpos, do sangue, das vontades, dos espíritos; a miséria dos desclassifi cados, dos proletários, dos que ajuntam avaramente, dos banqueiros, dos nobres e dos príncipes, das famílias, do sindicalismo, dos "cartéis", dos impérios.

Devemos acolher antes de tudo em nosso coração a miséria do povo. É a menos merecida, a mais tenaz, a mais opressiva, a mais fatal. E o podo não tem ninguém para preservá-lo da miséria, para ajudá-lo a sair dela. Muita gente tem dó dele, algumas pessoas o auxiliam, mas ninguém se preocupa com as causas profundas dessa miséria. Daí a ineficiência da filantropia, da assistência, da beneficência. A miséria do povo está ao mesmo tempo no corpo e na alma. Cuidar das necessidades imediatas adianta pouco enquanto as inteligências não forem alargadas, enquanto as vontades não forem retificadas e fortalecidas, enquanto os melhores não estiverem animados por um grande ideal, enquanto as opressões e as injustiças não forem suprimidas ou, pelo menos, atenuadas, enquanto os humildes não se unirem para a conquista progressiva da própria felicidade.

Colocar em nosso coração e sobre os nossos ombros a miséria do povo; não com a atitude de um estranho, mas como uma criatura entre outras criaturas, com as cria turas; arrastando-as para a luta comum, atirando-as ao combate pela própria salvação, ajudando-as a se elevarem na realização de um grande esforço.

Desde que a gente se preocupa seriamente, eficazmente, com a miséria, ela começa a chover em volta de nós, sobre nós. Ou então, é como uma maré montante: ela nos submerge.

Quem quiser ter muitos amigos não precisará senão pôr-se a serviço dos abandonados, dos oprimidos. Mas nada de esperar muita gratidão.

O contrário da miséria: não a abundância, mas o valor. O principal não é produzir riquezas, mas valorizar o homem, a humanidade, o universo.

Salvação do homem: que ele perceba Deus naquele que o aborda e que o ama.

O outro deve, ao mesmo tempo, sentir que está envolvido de ternura, por causa do bem que nele existe e do bem que poderia nele existir.

3. Orientações da Ação

A virtude é o bom uso da natureza; o pecado, o abuso.

Exercer o nosso esforço nos setores que ficaram disponíveis; tomar a nosso cargo aquilo que resta por fazer.

Grandeza. Ver com grandeza, querer com grandeza, pensar com grandeza, realizar com grandeza. Nos combates de hoje tudo se trava na escala do homem e na escala do mundo.

E preciso estar sempre disposto a realizar, por todos os modos, coisas grandes, mesmo se, na ação empreendida por muitos, não se puder conservar senão um papel secundário.

Não se preocupar em fazer carreira, mas em encher a vida em plenitude, pois todos os atos são finalizados pelo essencial.

O essencial não se percebe sem procura e sem a intervenção do Espírito Santo.

Nada de imitar a burguesia: não se trata de obter ou de conservar considerações e privilégios; trata-se de servir.

Nada de discutir: construir.

Não se trata de descobrir e de percorrer sozinho, uma única vez, uma pista, mas de traçar e de construir, para uso de muitos, uma larga estrada.

Não adianta estar a par de tudo o que os outros dizem ou escrevem, se a gente se privar do contato direto com o objeto. O problema não consiste em acumular informações, mas em julgar bem a realidade. O conhecimento não consiste num "estetismo" de conceitos, mas num acordo com o objeto.

A melhor escola para aqueles que têm mais capacidade: o banho. É preciso entrar nele, e nadar, e vencer a correnteza ou servir-se dela.

Mas, é preciso não jogar na água aqueles que não tardarão a se afogar. Nem todos são feitos para a heróica aventura.

4. A Eficiência

Há uma técnica da ação: não querer estudá-la nem aplicá-la é tentar Deus.

Uma vez fixados os fins, usar meios proporcionais. Começar pelo inquérito, que deve ir-se tornando progressivamente exaustivo. Aquele que sabe, porque viu, porque experimentou, porque meditou longamente, não ficará dependendo da aprovação dos outros; seguirá com segurança o próprio caminho.

No começo da vida ativa qualquer ação de certa importância precisa ser preparada pacientemente, minuciosamente. A improvisação é normalmente desastrosa. O reflexo da ação objetiva não é conseguido senão pouco a pouco, depois de muitas apalpadelas, de muitas experiências, de muitos fracassos.

Não é preciso, entretanto, esperar saber tudo para agir. Ninguém nunca sabe tudo e é a própria ação que permite progredir no saber.

Amar a obra bem feita. Dedicar a isso o tempo necessário. Mamãe me dizia que a gente nunca deve fazer as coisas como quem "não se importa".

As interrupções da ação - as doenças, por exemplo - são muito úteis para a gente pôr cada coisa em seu lugar, para a gente retomar as perspectivas. Graças a essas interrupções, muitas vezes, o nosso trabalho tornase mais fecundo. Isolados do barulho, libertados dos empurrões, podemos olhar as coisas e os acontecimentos de mais alto, e domina-los. Podemos assim exprimir as conclusões de nossa ação. Podemos, enfim, confrontar a experiência e os princípios, e dar aos princípios uma nova vitalidade, repondo-os em estado de germinação.

Conforme o dito de São Tomás: é preciso pensar sempre no assunto.

Logo que a gente consiga adquirir em todos os domínios o sentido daquilo que é mais essencial, não sobrará tempo senão para ele.

Tender para um fim único, arrastando a ele os outros, e pensando sempre nele. O ser transforma-se pouco a pouco. Temos assim a orientação, a dinami zação de todo o ser. Obtêm-se, assim, os reflexos de ação objetiva.

A vida é curta demais para a gente gastar, uma hora que seja, em intrigas.

É preciso chegar a impregnar a lei das condições da elevação humana para as multidões.

Nossa eficiência verdadeira será talvez, aquela dos momentos em que nos arrancamos daquilo que consideraríamos o nosso trabalho essencial. Apesar do

cansaço recebemos bem e ajudamos aquele que considerávamos um impostor, e a orientação de uma vida foi mudada.

5. A Verdadeira Prudência

Não tomar posição antes de conhecer a questão. Evitar julgamentos apressados ou apaixonados sobre os homens e sobre os acontecimentos. Evitar na ação qualquer precipitação.

Queres saber? Vai ver. Desconfia do livro; segue o objeto.

No setor que escolheste, deves ser o homem mais sabido: não porque conheças melhor todos os pormenores - isso é impossível - mas porque conheces, e de maneira coordenada, pormenores suficientes para perceber o conjunto. O que mais falta hoje, em todos os domínios, é o homem capaz de abranger a totalidade do problema. Às vezes surgem alguns, mas são falsos. Não começaram pela análise minuciosa. Ou, então, falta-lhes cultura, ou esquecem o elemento humano.

É preciso tudo isso ao mesmo tempo.

Dar um jeito? - Nada disso. Entregar-se ao objeto.

Sinceridade e lealdade. Jogar jogo franco é a suprema habilidade. (Isso de dar um jeito, de dar um arranjo, é coisa que exaspera.) É preciso deixar os "golpes" aos medíocres.

Muitos há que procuram, não a verdade, nem o bem, mas o que convém no momento, o que dá bom resultado. Esses são malfeitores.

Ousar. Quem segue o objeto arrisca menos. Ensinam-se aos homens, sobretudo, a não fazer, a não empreender, a não arriscar: exatamente o contrário da vida.

Espiritualidade. Afastar-se, em cinco pontos, da espiritualidade habitual da gente de bem, que consiste em:

- não fixar os objetivos,

- não usar os meios proporcionais, - fracassar,

- acusar os maus,

- abandonar-se a Deus.

Ao contrário, observar, ouvir, concluir, querer, engajar-se, retificar-se, racionalizar, insistir, alargar, orar, abandonar-se.

Fixar- os fins, estudar o terreno, não desprezar os adversários, estabelecer um plano, usar de todos os meios racionais, de que se possa dispor; preparar cuida dosamente as armas, empenhar-se valentemente no combate, abandonar-se a Deus.

Aceitar os recursos pobres, e não recorrer aos menos pobres, a não ser por objetividade, por necessidade. Gastar sem hesitar para adquirir o "necessário" para a tua vida e para tua ação, e Deus te ajudará. Mas, para que Deus te ajude com recursos, exige o teu esforço e exige que sejas pobre de verdade.

Cada um só dispõe, conforme a saúde, o temperamento, as ocupações, de certo potencial de combate. É preciso não gastá-lo em escaramuças.

Muitos se gastam em lutas inúteis, em lugar de administrarem bem a agressividade para reagirem com vigor quando for preciso.

O importante é embarcar. Mesmo sem saber que navios se irão encontrar, que tempestades se irão sofrer, em que portos se irá descansar. Mesmo não tendo pre visto tudo, a gente parte e chega. Basta que o navio não tenha rombo, que os porões estejam suficientemente cheios, a máquina em bom estado e que o capitão e os seus homens entendam suficientemente do ofício. Há risco. Isso não impede de partir.

Uma grande obra é sempre, aos olhos do mundo, uma imprudência.

O cristão não corre nenhum perigo de "materializar-se", desde que procure, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça.

6. As Regras de Ouro do Marinheiro

Meter à orça.

Expressão marítima. Navegando à vela o mais perto, o mais perto possível do vento pela proa, meter-se no vento para aliviar o navio quando a brisa força passa geiramente. Essa passagem mais forte do vento chama-se pé de vento. É notada pela cor mais sombria da água e pelo embranquecimento das ondas. Em outras palavras: Diminuir as dificuldades dando-lhes menos pontos de ataque. Ou ainda: Diante de uma súbita oposição, ceder um instante e retomar o caminho. Outros dizem: Deixar passar o pé de vento ou Deixar passar a tempestade. Vigiar o pé de vento.

O pé de vento caracteriza-se por um aumento rápido da força do vento, seguido muitas vezes por chuva ou neve; é muito perigoso na navegação à vela; pode arran car as velas e até mesmo desarvorar o navio. Logo, é importante prever a sua chegada, reduzir o velame ao estrito necessário antes que ele chegue, estar com o olho atento na barra.

O chefe deve vigiar o pé de vento quer dizer, deve ver de longe as dificuldades futuras, estar pronto para vencê-las, antecipar-se aos acontecimentos. Sem o quê, um dia ou outro, será arrastado. Nunca deve dormir embalado pela impressão de segurança.

Pôr a proa em cima.

Expressão marítima. Quando um navegante medroso, desejando reconhecer um marco de arribação põe a proa a um ponto situado a uma certa distância desse

marco, corre o risco de não atingir o alvo. É preciso, portanto, caminhar resolutamente em direção daquilo que a gente quer atingir.

O seguro morreu de velho.

Expressão popular. Isso significa: É preciso garantir sempre certa margem de segurança.

Aproveitar o vento favorável.

Quando as circunstâncias forem favoráveis é preciso aproveitá-las, para ganhar um bom pedaço do caminho.

7. O Combate

Amar o combate. Considerá-lo como normal. No estado da natureza decaída ele é a vida. Não ficar espantado com ele; aceitá-lo, mostrar-se corajoso, ser senhor de si, jamais faltar à verdade e à justiça. As armas do cristão não são as armas do mundo.

Amar o combate, não por ele mesmo, entretanto, mas por amor do bem, por amor dos irmãos que devem - ser libertados. Há mesmo no combate certa beleza; não é proibido gozá-la.

A batalha, ataque decisivo.' Não se trata de guerrilhas, e não se vai armado de lanças ao encontro de carros blindados.

Não ceder diante de obstáculos sucessivos. Lutar até o fim. "Uma batalha perdida é uma batalha que a gente pensa ter perdido".

Quem quiser dominar os acontecimentos deve andar mais depressa do que eles. É preciso para isso ver com antecipação a realidade em suas causas e agir sobre as causas. Uma vez. travado o combate, é preciso triunfar. Não se trata de ter um pé aqui, outro lá. É preciso ir ao fundo até a decisão.

A ação é sempre um combate; quem a conduzir com moleza tem garantido o fracasso total. Na ação é preciso ir mais depressa do que os acontecimentos, é preciso impor-lhe o ritmo,.

É muito difícil a gente não se deixar manobrar, mesmo se não se procura senão a verdade e a justiça. A recepção cheia de cuidados, o bom jantar, o sucesso que nos foi prepa rado, o oferecimento de uma subvenção excepcional, de u-m automóvel, de um apoio permanente sem condições: são essas as armadilhas mais vulgares. Há a ação sobre os membros mais conciliadores da equipe para faze-los ceder cada vez um pouco de terreno; há a exploração da_s divergências, de tal maneira que a gente é obrigada a capitular debaixo da ameaça de uma cisão; há a maioria da clientela que quer impor uma determinada ton alidade; há a introdução de falsos amigos nas equipes. JE- preciso estar sempre vigilante para que possamos guardaiLr verdadeiramente a liberdade, para não nos deixarmos engolir, ou comprometer, por um grupo.

Exploram tudo: a tua falta de dinheiro, a tua necessidade de apoio, a tua virtude e as tuas fraquezas, a tua timidez e a tua audácia, os teus amigos e os teus inimigos, a tua ingenuidade e a tua prudência. Aproveitamse de cada uma de tuas hesitações, de cada um de teus tropeços. Cercam-te, pouco a pouco, de todos os lados. Pensam que já te dominaram. Deus queira que não seja verdade. É quase um milagre.

Para vencer é preciso ser o primeiro em tudo que diga respeito à documentação. É preciso ter antenas, e conseguir livre entrada em toda parte. É preciso estar dominado por uma idéia poderosa que não se irá exprimindo, senão pouco a pouco.

Quando a idéia se apresenta aos homens sucessivamente, debaixo de muitas formas diferentes, desde que essa idéia os preocupe, eles não lhe resistirão por muito tempo.

É preciso agüentar firme. Muitos ficam gastos depois das primeiras batalhas. Não tinham armas, ou não tinham tenacidade. É preciso agüentar firme, cerrar os dentes, encarniçar-se, obstinar-se, preparar recursos poderosos de ação, aperfeiçoar as técnicas pessoais, a tática, tornar-se estrategista. Todos pensam que estás morrendo, e nunca estiveste tão forte.

O capitalismo julga que tem todos os direitos, outorga-se todos os direitos. Pensa que a justiça só pode estar do seu lado. Tendo dinheiro, crê que pode ter tudo. E assim crê, porque já corrompeu muitos infelizes, que não se revoltaram; enganou muita gente parcimoniosa que continua a alimentá-lo, impôs muitas leis favoráveis a seus planos, corrompeu muitos políticos... não imagina que alguém possa resistir-lhe por muito tempo.

Quando encontra oposição da parte dos humildes, ou da parte dos padres, acusa-os de heresia, de revolução, de anarquia, de comunismo. Tem tamanha cons ciência de representar a ordem, que imagina que a Igreja está sempre do seu lado.

Nada o impressiona tanto, nada o põe tão zangado, quanto a pacata afirmação diante dele dos direitos do homem. Mas, essa afirmação não basta. É preciso colocar os homens em situação de resistir-lhe.

O comunismo, no fundo, tem medo. E é por isso que é tão duro. Não compreendendo o homem, é obrigado a maltratar o homem. Mostrou-se por toda a parte, e não pode deixar de manter-se, opressor. Ainda tão jovem, debate-se na contradição. Tendo aniquilado Deus, tornou-se um falso deus.

Sua força consiste em ter encontrado em seus opositores inimigos que não percebem sua verdadeira fraqueza. Imaginam que é preciso liquidá-lo pela força, quando não se triunfará dele a não ser pelo amor.

De fato, mostra-se impotente em fazer do homem o deus do homem. É esse o ponto que é preciso atingir nele. A revolta de seus súditos grita contra ele.

Se seus inimigos amassem a humanidade, não tardaria a esfacelar-se.

O anticomunismo, o anticapitalismo: bobices. É preciso amar todo homem, apaixonadamente. É com as doutrinas e os comportamentos que é preciso lutar. Mas isso exige mais esforços do que a negação pura e simples. A gente nunca está sozinho, mesmo nas horas de pior solidão. Desde que alguém afirme a verdade, desde que queira o bem, desde que combata pela justiça, faz muitos inimigos, mas prepara também muitos amigos. Ao lado de cada um de nós, outros há que amam a verdade, o bem, a justiça. Amanhã, estarão todos abertamente a nosso lado.

Mesmo entre os que hoje se opõem à nossa ação há sempre homens dispostos a se unirem conosco, desde que conheçam os nossos verdadeiros sentimentos.

8. O Chefe

O chefe é aquele que recebeu ou assumiu o encargo de um setor da humanidade e do universo para orientá-lo de conformidade com o plano de Deus.

São palavras de Bossuet: A realeza e um poder universal de fazer o bem. Quanto mais autoridade tivermos, tanto mais dela nos aproximamos.

Função do chefe: prever, organizar, ordenar, coordenar, controlar.

O chefe deve habituar-se a abranger os conjuntos; a colocar o que vê e o que faz no conjunto. O chefe deve ver com largueza e à distância.

Antigamente, envelhecendo, a gente se tornava mais apto para dirigir. Hoje o mundo gira depressa demais.

Os velhos não podem mais se adaptar. É preciso estar preparado, perto dos "quarenta", para empenhar-se na ação decisiva. E, como tudo está mais complexo do que nunca, é preciso, ao mesmo tempo em que se faz o aprendizado da ação, adquirir uma cultura universal. O chefe realmente grande destes tempos deve ultrapassar, e muito, o príncipe de antigamente. E por isso não se vêem chefes como esses emergindo da massa dos ambiciosos. Por isso é cada vez mais importante preparar homens superiores que estejam amanhã à altura das circunstâncias.

O chefe esbarra constantemente com a passividade e com a autonomia de seus colaboradores; ao mesmo tempo retardado e ultrapassado, deve continuamente fazer a revisão do seu plano, adapta-lo. Assim, não é nunca o seu projeto que ele realiza, mas um compromisso entre a sua personalidade e a dos membros da sua equipe. Muitas vezes isso resulta em graves prejuízos; e, outras vezes, em sérias vantagens: conforme a estrutura, o espírito, o verdadeiro devotamento à causa daqueles que por ela se responsabilizaram. A obra, enfim, é comum; apesar dos obstáculos criados por alguns e de ninguém ter visto realizar-se o seu próprio plano.

Sofrimento dos chefes: sofrimento de quem está na frente e que os outros não seguem e não compreendem. 0 seu sonho, as intuições, as certezas constituem a sua riqueza e o seu tormento. Os outros têm também os seus sonhos; e julgam que têm também as suas certezas, as suas intuições. Por que o chefe há de ter razão? Com idéias tão acanhadas... Veja quanta coisa lhe falta. Então, por que desejaria ele nos arrastar pelo seu caminho? Ele nos limita, quebra a nossa vontade. Queremos explorá-lo, utiliza-lo, mas, não queremos servi-lo.

O chefe deve muitas vezes continuar o seu caminho na solidão, com o seu quinhão de certeza, seu quinhão de ilusões, seu grande sonho e todo o seu risco. Na maior parte das vezes estará sozinho; e mesmo aqueles que o tendo melhor compreendido mais se entregaram a ele, esses mesmos, terão os seus períodos de desafeição. Esses mesmos, nas suas horas de lassidão, de extrema prudência, ou de orgulho, ameaçam abandona-lo.

Desde que o chefe quer subir sobre um pedestal, ele está perdido. Se perceber que está instalado nele, que trate de descer depressa.

O chefe deve ser forte, e sua virtude teologal é a Esperança.

Confiança do chefe: esperar que aqueles que o seguem apesar de tudo hão de ultrapassa-lo; ou porque estejam melhor equipados, ou porque as suas próprias hesitações lhes serão poupadas, ou porque estarão muito reunidos na mesma obra.

Sobretudo, não ter a mística do chefe diante de quem tudo deve curvar-se.

Tanto mais seremos chefes, quanto mais formos simplesmente e integralmente servidores.

É preciso, à medida que os colaboradores crescerem, deixar-lhes com confiança o setor de responsabilidades que possam validamente assumir.

É preciso sempre estar pronto a entregar a mão àquele que se tornou mais capaz do que você para segurar o leme.

O essencial para o fundador ou para o responsável consiste em não se julgar em função de si mesmo, mas da obra total a ser realizada.

Quem pensa em seu prestígio, em seus direitos, já está fora de combate, já é um estranho. Os colaboradores cessam de segui-lo. É preciso não cessar de esquecer-se. É preciso não se dar conta de si.

É fatal que os jovens, tornando-se adultos, sejam exigentes. Um dia superam, ou julgam superar, aquele que lhes abriu o caminho. Querem mais liberdade, mais iniciativa, menos controle. Estão prontos a fazerem secessão.

A reação de defesa dos direitos adquiridos sobre a instituição que criamos e sobre os homens que nela se engajaram não deve ser em nenhum caso a defesa de si mesmo. É preciso pôr-se de novo diante das finalidades mais altas que foram por nós fixadas, e julgar em função desses objetivos.

Que importa se um grupo se separa, embora se mantendo na mesma perspectiva? Que importa que a equipe seja absorvida num organismo que a torna eficaz? Que importa que tudo pareça comprometido, quase perdido?

Finalmente, tudo encontra de novo a convergência e o melhor jorra dos escombros.

9. A Vida da Equipe

A equipe é o grupo ligado ao mesmo trabalho construtivo. Seu vigor é feito das intensidades da adesão. É às vezes mais sólida, às vezes mais frágil. Essas flutuações são inevitáveis. Quem nela trabalha para si a desassocia. Quem nela se insere sem reserva a fortifica.

Nunca se faz de uma só vez. Forja-se na constância do trabalho.

Viver a vida de equipe; e conformar-se em não poder dizer a última palavra.

Aceitar "perder tempo" pela obra comum; administração, trabalhos manuais, recados, conferências, conversas...

Muitas vezes é nisso que consiste o nosso trabalho, a parte importante que é desejada por Deus. É com esses trabalhos que podemos também enriquecer de saber e de experiência certos setores em que somos deficientes. Por meio dessas atividades podemos arranjar uma porção de relações que nos poderão ser muito úteis mais tarde.

Enfim, o que conta, não é tanto o ato realizado, mas o grande amor que o anima.

Mas é preciso salvar os minutos de plenitude intelectual. E, portanto, não hesitar em afastar os que atrapalham. E preciso não ter medo de descontentar os importunos e os indiscretos. Eles que aprendam a ter juízo.

Deixar todos à vontade e, contudo, impor a disciplina do grupo.

Sempre preciso... nunca hesitante. A confiança não se impõe; ganha-se. Não apenas comandar: associar-se.

Não querer que os outros adiram a nós, mas ao objeto.

Sobretudo, não tomar a atitude do eterno bom aluno que derreia os outros, sem descanso, com princípios dos quais ele mesmo ignora o alcance.

Podemos ter uma vida muito ativa e cheia de iniciativa, na obediência. A obediência pusilânime não adianta nada. A verdadeira submissão consiste em saber interpretar e em realizar a vontade dos superiores. Aceitar e desejar o controle é o sinal de que não nos desviamos.

Se queres guardar a justiça e manter a paz, não endosses as paixões dos teus colaboradores, ou dos teus amigos.

A base do sucesso é o dom de si mesmo. É preciso fazer o que os outros não fariam; empregar o esforço naquilo que não anda; deixar cada membro da equipe tomar todo o lugar que convém a seu temperamento, a sua inclinação; e tomar para si os setores que foram abandonados.

Atribuir o sucesso aos colaboradores.

A si mesmo atribuir todos os fracassos ou imperfeições da ação.

A equipe ideal nunca existe, mas toda equipe pode ter belos dias que lhe dão o ar da equipe ideal.

Para que haja equipe, basta que cada um perceba alguma coisa do bem comum e, mesmo resmungando contra os meios, nela se alinhe.

A equipe toma a sua consistência na luta por atingir os objetivos e triunfar das dificuldades.

Há equipes de disciplina estrita, há equipes de espontaneidade orientada e, entre esses extremos, todas as cambiantes.

Por vezes, as tensões na equipe serão benéficas. Obrigam-nos a aprofundar e a progredir. Poderão também tornar-se destrutivas, sobretudo quando o orgulho toma parte, ou simplesmente porque alguém se engana a respeito da própria capacidade e quer dirigir mais do que na realidade pode.

A equipe que consegue manter-se firme durante muito tempo, sem abandonar os objetivos e se renovando constantemente, beira o milagre.

É preciso, porém, impedir que os mais velhos nela se enquistem e se tornem, assim, peso morto ou verdadeiros "breques". A vitalidade da equipe exige que cada um queira permanecer jovem, aceite a contradição, reveja periodicamente suas posições.

Quem já não quer ser criticado, já pulou fora.

Um grande sofrimento: quando o companheiro da equipe, que parecia ter-se entregue, se retoma, quer honrarias ou ganhar muito dinheiro. Daí já não é mais totalmente homem de equipe. Já não anima. Breca. Complica.

10. Organização

Observar sempre, e tomar nota; senão a observação fica sendo uma simples impressão.

É preciso adquirir as técnicas da ação. Quem as despreza, fatalmente fracassa! Cada ação tem a sua técnica! Uma meditação, um dia de estudo, um retiro, um congresso, uma sessão, uma viagem de conferência, uma campanha de jornal; a redação, a administração, a conjuntura, a secretaria, o sindicalismo, a corporação, a comunidade, um movimento.

É preciso que aqueles que têm experiência nos iniciem, e é preciso que experimentemos por nós mesmos. Muitas vezes as pessoas de bem se obstinam em empregar meios fora do uso; perdem o melhor do seu tempo em trabalhos ridículos. Desde que um homem, desde que um grupo deseje conseguir alguma coisa, é preciso organizar uma secretaria rudimentar, mas bem aparelhada, principalmente quando a tarefa a realizar for mais importante e menor a quantidade de dinheiro disponível.

Excelentes taquígrafas, boas datilógrafas, excelentes contadoras são indispensáveis, hoje em dia, para a eficiência de qualquer equipe.

Nada de páo-durismo com a compra de materiais. O que é preciso é estandardizá-los para o pessoal e para a equipe. Verificar o que há de melhor, e mais em conta, em arquivos, cadernos, fichários, escrivaninhas etc., e tratar de adquiri-los. Com isso, ganha-se tempo, e isso facilita a ordem, a iniciação e educação do novo pessoal, a qualidade do trabalho, a paz e a alegria.

Sempre que for possível, é preciso aperfeiçoar, cada vez mais, a utilização racional desse material.

Nunca se comprometer com despesas por capricho; Deus não será obrigado a nos ajudar se deixarmos de ser fiéis ao objeto.

Um lugar e um tempo para cada coisa; e cada coisa em seu lugar e a seu tempo.

Nenhum ano se parece com o outro. Nada recomeça de novo. A ação consiste sempre numa adaptação a novas situações, a novas necessidades. Daí o perigo de a administração, no sentido corrente, querer estandardizar, isto é, recomeçar indefinidamente. A verdadeira administração proporciona, modifica, inventa incessantemente.

Não devemos resolver imediatamente nenhum problema, além das decisões do serviço corrente. É preciso deixar o problema repousar, ou colocá-lo em repouso; deixá-lo ao cuidado do subconsciente. O subconsciente, quando não o acorrentamos, é um instrumento admirável de absorção, de decantação, de harmonização. Um belo dia ele nos dá a solução.

Não crescer muito depressa, mas como uma árvore.

11. A Divisão das Responsabilidades

Em cada setor designar o responsável e só trat com ele. Sacudir e agitar o responsável até que ele ten] tomado consciência do seu serviço. Não ter senão algu: responsáveis diretamente diante de si, e a eles subordin os outros responsáveis.

Na alta direção devem existir muitos responsávei Temo o "Diretor" único quando se trata de obras q vão além da possibilidade de um só homem. É preci que muitos de igual inteligência se unam à obra comui para juntos abrangerem todo o horizonte, e resolvere as oposições pela submissão ao objeto e pela afeiç', mútua. O coração representa aqui um grande papo

Ajudar o chefe de equipe pela disciplina, pela co fiança e pela afeição. Não o deixar resolver tudo sozinh Não lhe levar de repente o nosso pequeno plano. Leve lhe luzes - ele muito necessita delas - e, não un vontade predeterminada. Não o deixar cair dizendo: E sempre consegue se arrumar.

Nunca devemos esquecer que somos apenas uma parte do exército, e que deve ser realizado um plano de conjunto.

Disciplina intelectual, inteligente e ativa, dizia Foch. Isso quer dizer que cada um deve procurar compreender a situação e a posição do chefe diante dessa situação; que cada um deve procurar os meios de realizar o pensamento do chefe, e que cada um efetivamente o realize. Obedecer é completar o chefe.

O "desabafo": dizer tudo o que a gente tem no coração, tudo o que não anda direito, tudo o que pesa, o que parece idiota, ridículo, inadaptado, ultrapassado. Ser simplesmente, e algumas vezes brutalmente, sincero. "O desabafo": "meter o pau". É a lei da vida.

O chefe deve ter a maior potencialidade possível de "agüentar firme".

É preciso não nos assustarmos quando os nossos colaboradores nos dão o contra. Alguma coisa eles nos têm que dizer. Freqüentemente têm razão. Mas é preciso manter-se inflexível quanto ao essencial. Para manter-se na linha, uma suave obstinação é necessária.

12. Os Colaboradores

Uma equipe é uma pirâmide que sobe constantemente, pois surgem sempre debaixo novos elementos que a tomam sobre os ombros e que a elevam.

Deixar cada um tomar o seu lugar: sempre haverá muito que fazer. Entretanto, qualquer ascensão rápida demais é perigosa, tanto para o que quer subir, como para a equipe. Quem não souber suportar trabalhos medíocres, quem não teve uma extensa base de experiência, quem não foi judiado em diversos postos não tardará a capotar.

Realizar a união mútua pela submissão ao objeto. O Padre Sertillanges chama São Tomás "um conciliador". É preciso saber colaborar com pessoas muito diferentes. É preciso associá-las a nós, apesar dos seus preconceitos, de suas oposições, elevando-as. A compreensão é atingida em planos superiores. É preciso mergulhá-las em uma luz superior. É preciso atrelá-las ao mesmo trabalho, apesar das suas discordâncias. À medida que crescemos na mesma luz e que realizamos em comum, cada vez mais nos unimos.

É preciso que cada um se torne um conciliador. Os homens brigam muito por ninharias; no "fundo" estão de acordo. É preciso atingir esse "fundo", desembaraçá lo. E, assim, unir. Este é essencialmente o papel daquele que tem sabedoria, daquele que sabe perceber as razões profundas e reduzir o múltiplo à unidade. Isso não quer dizer que devemos abandonar a verdade e a justiça; muito pelo contrário. Não se trata de encontrar posições oportunas para sair do embaraço, mas de a gente mesmo ir adiante e fazer com que os outros alcancem a justiça e a verdade.

Os colaboradores são exigentes. Nenhuma das fraquezas do chefe lhes escapa. Se não se sentirem compreendidos e amados, retraem-se. Se as facilidades de vale rem mais não lhes forem oferecidas, tornam-se amargos. Se forem dominados demais, revoltam-se ou tornam-se diminuídos.

Se o chefe trabalha para si mesmo, para sua glória, sua segurança, seu ganho, a equipe já está em vias de dissolução.

É importante saber que se terá muitas espécies de colaboradores.

Há o que se dá todo, com a totalidade de si mesmo, e que aceita plenamente a aventura.

Há o que somente se dá por metade e quer garantias.

Há o que se dá por certo tempo e que não espera manter-se sempre na aventura.

Há o que adere às perspectivas, mas quer um gênero de vida digno de ser honrado.

Há o homem de equipe cuja família é insaciável de honras e de dinheiro.

Há o que ajuda procurando coisa melhor.

Há a personalidade forte que se tornará o chefe da equipe ou chefe de outra coisa.

Há o estipendiado que fará conscienciosamente o seu trabalho, desde que seja pago.

Todos juntos constituem um pedaço interessante da humanidade. Não há motivo para a gente se lamentar. Todos servem, de um jeito ou de outro, à construção.

Aqueles cujo concurso é preciso recusar são os amargos, os críticos negativos, os ingênuos demais, os irrefletidos, os vadios.

13. Escolha e Educação dos Colaboradores

Educar pacientemente os colaboradores. Escolhêlos, o quanto for possível, cuidadosamente.

Não deixes passar perto de ti o homem que te seria necessário para levar a bom termo a obra empreendida; trata de colocá-lo na situação que lhe convém.

Aceita, deseja colaboradores que te sobrepujem. Com bons meninos bem comportados, passivos e sempre de acordo, nunca farás nada de grande. Para conhecer os homens é preciso p0-los a trabalhar. É preciso tentar distinguir na atividade de cada um o que é de Deus e favorecer-lhe o desenvolvimento.

Evitar o "atrapalhado", aquele que por toda a parte leva o desequilíbrio.

Evitar o "mole", aquele que não será capaz de se dar e irá resmungar diante do obstáculo.

Não adianta discutir, o que é preciso é decidir.

Deixar que um trabalho seja mal feito. E, a não ser para evitar uma catástrofe, só repreender o responsável no fim.

É preciso "carregar" seus colaboradores, gerá-los, fazer com que desabrochem. Isto só é possível no esquecimento de si mesmo.

É preciso, às vezes, muitos anos até que um colaborador manifeste sua medida. É necessária muita paciência. E eis que um homem "complexado" se libera e um hesitante se torna forte.

14. As Cisões

O orgulho é o pior flagelo de uma equipe. O orgulho de quem nunca se quer enganar; o orgulho de quem não quer tomar conhecimento da maneira de pensar do ou tro; o orgulho de quem pensa já ter adquirido tudo e nada mais ter para aprender; o orgulho de quem julga levianamente; o orgulho de quem fica a impingir princípios mal digeridos. Aí então, os outros se opõem, encasquetam, tornam inevitável a cisão.

Quando houver dificuldades entre os colaboradores o melhor é não intervir logo no primeiro choque, quando a paixão ainda domina. Muitas vezes a briga morre como uma faísca no ar e, logo depois, já ninguém mais pensa nela. Depois que a paixão amortecer, então discutir friamente o caso. Para que isso aconteça é preciso, às vezes, esperar anos e anos, e nesse entretempo a vida já se encarregou de retificar muita coisa.

Nada de dramas! Há colaboradores que dramatizam tudo. Nada disso. É preciso pacificar, ter paciência, olhar as coisas friamente; não se zangar, nem com o que aconteceu, nem com o que é inevitável.

É preciso aceitar certas separações. Elas saneiam a situação. E logo a gente se encontra de novo. É fatal, cada qual realizou a obra providencial que lhe cabia. Nem todos devem habitar a mesma morada...

Depois das separações definitivas, por mais dolorosas que possam ter sido, é preciso não cessar de amar aqueles com os quais trabalhamos e combatemos.

15. Seguir seu Caminho

Aquilo que anda é porque pode andar.

Ninguém se deve espantar, ou comover, com a estupidez e a maldade dos homens. Aliás, se há uma legião de espíritos medíocres, raros são os homens verdadeiramente maus.

A gente sempre desaponta alguém. Não devemos nos inquietar com isso.

Não devemos nos incomodar muito com o que os outros dizem. Quem segue o objeto tem sempre razão. Não devemos perder tempo em discutir com os estetas, com os críticos, com os espectadores. Tocar para diante. O que é preciso é construir. Devemos ouvir pacientemente o homem que viu, que construiu. Não devemos dizer "não" para quem viu e executou; como não devemos dizer "sim", sem mais nem menos, para quem gosta de dar conselhos, enunciar princípios.

Não fazer caso de ser apenas seguido de longe. E alegrar-se quando outros passarem à frente.

É preciso não esquecer que as idéias caminham lentamente. Há muita gente que imagina que basta descobrir uma verdade para que ela penetre imediatamente em todos os espíritos. Esses se irritam com a demora, com as resistências. Esse torpor, essas resistências são normais; provêm da apatia, da experiência pessoal, da cultura dos outros. Cada um parte do que é, do que já adquiriu para si. Para que aceite, plenamente, outro pensamento é preciso que o fixe, o assimile, o harmonize com a aquisição anterior.

Não se admirar nem se irritar com a oposição: ela é normal, muitas vezes é justa. Indica um engajamento no combate e prepara, ao mesmo tempo, a adesão dos outros e _nossa maior adaptação ao real.

E preferível que eles resistam e que discutam as nossas idéias e os nossos atos: assim a nossa contribuição ao bem comum penetra mais profundamente, retifica, anima; e quem se for embora esquecendo-nos - depois de inventar de novo ou melhorar o nosso sistema - acabará queira ou não queira, militando ao nosso lado. Isso é suficiente.

Não adianta nada a gente se gastar com brigas.

- Seu negócio está em crise, me dizem; está seriamente ameaçado de soçobrar.

- Em crise? Entretanto, não vê como estou calmo?

- Vejo, mas há isso, e mais isso e mais isso que não anda bem.

- Mas, meu caro amigo, há sempre muita coisa que não anda bem. E apesar disso anda, não é verdade? O que anda está, na verdade, sempre em crise. E a lei da ação.

O homem evangélico é um homem de audácia, na certeza que lhe dá Deus. Há sempre uma via evangélica nas mais difíceis conjunturas.

16. A Força

Procede sempre com desinteresse: serás logo o árbitro, e não te deixarão na mão.

Não te entregues nunca aos ricos e aos poderosos. Manter-se puro, ser duro, tornar-se seguro; quer dizer, procurar unicamente a verdade, o bem e a justiça.

Não poupar esforços para atingir esses ideais e, à medida que forem conquistados, tornar-se um sólido apoio para os outros.

O característico do forte: doçura, flexibilidade e obstinação ao mesmo tempo.

Desejo de conhecer a fundo, de ter nas mãos todos os recursos, e correr os riscos. Preparação do êxito, e coragem na adversidade.

Ser ingênuo, fazer questão de continuar ingênuo. Acreditar, apesar de tudo, no ideal, na justiça, na verdade, no bem, num pouco de bondade no coração dos homens. Acreditar nos recursos pobres. Travar batalhas, em boa fé, com os poderosos. Não procurar nunca enganar ninguém. Não se corromper. Não deixar o coração endurecer-se. Ser reconhecido. Manter-se fiel aos amigos. Não fazer ursada com ninguém.

Fraqueza de muita gente: ruminar antes de ter pastado; querer dominar antes de se ter dominado a si próprio.

É preciso não usar sua agressividade contra ninharias, mas reservá-la para aquilo que vale a pena.

Muitos homens, diante dos obstáculos, páram, consideram-nos, medem-nos e ficam no lugar. Encontram um cupim e o transformam numa montanha. Bastaria, quase sempre, saltar por cima ou contornar.

Outros, ficam parados, sistematicamente, analisando todos os obstáculos, todas as dificuldades reais e possíveis, atuais e futuras. Tal atitude é semelhante à do ciclista que pretendesse permanecer em equilíbrio sem pedalar e sem correr. O equilíbrio da ação está no movimento.

Quando é a oposição dos homens que cria o obstáculo a melhor tática consiste quase sempre em continuarmos o nosso caminho sem nos preocuparmos com essas oposições. Perdemos um tempo precioso com polêmicas quando o que está em jogo é apenas a construção.

Os injustos ignoram a força da justiça. Pensam que são poderosos, e basta que encontrem um só homem justo para todos os seus planos caírem por terra. Logo que encontrem um grupo de justos são obrigados a bater em retirada, a recompor ou, pelo menos, a usar a máscara da justiça.

Se a oposição vem dos homens de boa vontade, dos "santos", dos superiores, devemos verificar nossa orientação e, se estivermos com a Igreja, devemos tirar o melhor partido das circunstâncias, sem estardalhaço. A vida dos assuntos humanos consiste em não andar sem dificuldades, sobretudo nos assuntos apostólicos. Pertencemos à Igreja militante, vivemos num estado de "tensão". O testemunho do apóstolo tem algo de violento. Os violentos arrebatam o reino de Deus.

Ser forte! Ser capaz de ficar sozinho contra todos. A gente ainda vai bem longe depois de estar cansado.'

Muitas vezes nos sentimos esgotados. Seria necessário um descanso. Ele é impossível. Avançar apesar de tudo, confiando-se a Deus.

É necessária uma grande força quando, conforme a razão, tudo está perdido e quando, entretanto, Deus pede que se agüente firme.

A grande ascese: não parar para colher as flores do caminho.

É preciso ter coragem de despedaçar o coração. Que terrível ascese a ação eficaz!

O sofrimento, a cruz: não a cruz que teríamos escolhido. A verdadeira cruz, aquela que vem porque ficamos em nosso posto no meio do grande combate em que nos atiramos. Esta, configura ao Cristo.

17. Humildade e Magnanimidade

A regra fundamental consiste em a gente considerar-se um Zé-ninguém a serviço de uma grande obra; servidor inútil, mas servidor.

Parar, nem que seja um instante, diante das honrarias ou da glória é puro vazio.

Colocar-se no seu verdadeiro lugar entre os homens e diante de Deus. Do lado dos homens não é a ridícula posição de considerar-se como inferior a todos; e do lado de Deus é o conhecimento de nossa absoluta dependência, a concepção de que se está separado dele por um infinito: a percepção de que todas as superioridades que se têm com relação aos outros vêm, antes de tudo, dele.

Apagar-se diante de Deus, diante de seu plano, diante da obra a realizar. Apagar-se, mas tendendo para Deus, realizando seu plano, levando para a frente a obra empreendida. Não um apagar-se retirando-se, tornando-se

Não se deixar embevecer. Olhar imediatamente todo o batente que espera ainda, e atacá-lo de frente. O amanhã de novo trará os seus fracassos.

Munificência, magnificência, magnanimidade, três partes da força desconhecida de nossa época sórdida. O munificente magnífico não teme as despesas para reali zar de uma maneira grande e bela. Pensa noutra coisa, e não em investir ou em encher os bolsos de seus parceiros. O magnânimo pensa e realiza na escala do homem e na escala da humanidade; se é cristão, pensa e realiza na escala do Cristo.

Magnanimidade e humildade são complementares.' Magnanimidade: o espírito e o coração que se dilatam.

Magnanimidade: poucas partidas são jogadas num só setor de atividade ou num plano local. No mundo moderno, tudo se entrelaça e não se pode isolar nada. As partidas são jogadas no plano nacional e no plano internacional. Quem não tiver uma visão larga, quem não tiver uma vontade grande, estará vencido antes de combater. É carta fora do baralho.

Muitos gritarão em teus ouvidos: Cuidado com o orgulho, porque tens grandes planos.

O toque de alerta é inútil: a gente é sempre tão pequeno diante dos grandes trabalhos, e tanto menor quanto eles são maiores. É preferível ter a humildade de

se passivo, mas um dom em plenitude, um esforço vigoroso de inteligência e de inserção.

Humildade: não se iludir a si próprio; colocar-se no próprio lugar. Reconhecer ajusta medida da própria inteligência, da própria habilidade, da própria virtude, ter consciência das próprias superioridades. Mas, diante de Deus, saber da sua absoluta dependência, da sua carência e, diante dos irmãos, saber que somos todos da mesma natureza e que Deus é o Mestre soberano de seus apelos e de seus dons.

Toda superioridade é para o bem comum.

Não cuidar de si, mas da obra. Nunca se embevecer, nunca se deixar abater.

Ir no passo de Deus. Não correr mais depressa do que Deus.

Fusão de nossa vontade de homem com a vontade de Deus: tudo se resume nisso. Perder-se nele.

Tudo o que ponho de mim sem ele é demais, ou melhor, nada é. Não esperar nenhum reconhecimento. Alegrar-se com o que vier.

empreender grandes obras arriscando o fracasso, do que o orgulho de um sucesso completo no medíocre. Grandeza e recompensa do chefe: no meio do grande combate de que ele participa, precisa sempre sobrepujar-se no amor.

Fazer objetivamente e valentemente todo o esforço possível, e abandonar-se a Deus.

18. Especialização e Cultura

Temo o especialista de uma só especialidade. Tenho dó do homem culto que só estudou nos livros.

É preciso desenvolver ao mesmo tempo a especialização e a cultura. Quem se especializar nos problemas do homem concreto, qualquer que seja o setor, sem se preocupar com o homem todo, será levado a formular a si próprio tantas questões que será obrigado a procurar saber tudo; a extensão de sua cultura se fará a partir do real que ele conhece diretamente. Centrada no homem a cultura se desenvolverá harmoniosamente na unidade. Nessa linha, cultura e especialização vão a par. O homem de estudo e o homem de ação não se opõem: deve-se ser, ao mesmo tempo, um e outro.

Cultura: deve-se fazer isso como se cultiva uma terra, por lavras profundas, pondo nelas sementes escolhidas e bom adubo. Depois, é preciso regar, capinar, colher, deixar a terra descansar; ou melhor, praticar a rotação tendo em conta a qualidade dos terrenos e equilibrando a exploração da melhor maneira, atendendo as próprias necessidades e o suprimento dos mercados.

A cultura do espírito é sempre um equilíbrio que recompensa um trabalho metódico e contínuo. Difere da erudição. O erudito aprendeu muito, mas sobretudo nos livros. Não equilibrou, não harmonizou, não repensou o seu saber. Não verificou a objetividade de seus conhecimentos fundamentais. Não centrou toda sua bagagem nos problemas do homem.

Cultivar-se é tornar-se capaz de perceber todos os problemas impostos à humanidade. Olhando, ouvindo, defendendo os humildes, alarga-se consideravelmente a própria cultura.

Muitos pensam que são cultos. Sabem tudo da história dos homens passados, todas as filosofias antigas e modernas, são iniciados em todas as ciências exatas e aplicadas, seguem todas as publicações literárias na medida em que aparecem. Vivem ou encolhidos em si mesmos, ou debruçados sobre os maiores problemas da Pedagogia e da Política. São capazes de julgar e de falar de tudo. Mas, ignoram o homem, o homem real de seu tempo; grupo, classe por classe; a miséria profunda do tempo em que vivem lhes é estranha; o grande sofrimento dos lares sem ar e sem pão, a grande resignação e a grande revolta íntima dos infelizes, a realidade da vida das vilas operárias, dos cortiços, das favelas insalubres, do barzinho consolador, da evasão ao acaso, nos cinemas e nos encontros, da compensação no álcool, no sindicato, na política. Nada sabem do contato dos dirigentes com os homens, da grande candura, da grande pureza e do grande apelo que existem muitas vezes no coração dos humildes; do egoísmo sórdido de muitos de seus amigos que subiram; da generosidade que cochila ou estoura nos menos afortunados. Falam do povo sem conhece-lo; incapazes de compreende-lo, de amá-lo, de auxiliá-lo.

Passam sabendo tudo e ignorando o que deveria ser importante para eles: o homem do tempo em que vivem, o semimorto ao longo do caminho de Jericó, e a tarefa que lhes cabe diante dele.

O humanismo requintado e avariado que eles exibem não impedirá que o primeiro líder que apareça, conhecendo a psicologia dos homens de seu tempo e dig nando-se falar-lhes, tome conta do povo à espera de um pouco de justiça e de amor.

19. O Equilíbrio

Antes de tudo, guardar o equilíbrio pessoal. Sobretudo, tornar-se e manter-se senhor de si mesmo; dominar-se.

Conservar, se possível, a saúde, mas sem cair na angústia a respeito dela, nem na moleza. Ficar firme, ao máximo, segundo as próprias forças.

Respeitar os ritmos da natureza e da vida. O heroísmo do excesso contínuo é tolice.

Semear, dar tempo ao tempo, dar tempo a Deus. Muitos imaginam a ação como uma pressão contínua; a ação é antes um impulso que a gente renova, tornando-o preciso, adaptando-o. É fácil colocarmos centenas de homens em nossa ambiência, encontrandoos uma vez por ano, escrevendo-lhes de tempos em tempos, importunando-os para um artigo de jornal, pedindo-lhes às vezes um serviço.

Estão embarcados, fazem parte da expedição, não nos largarão, como nos teriam largado se tivéssemos cessado de procurá-los. O homem exige que se tenha confiança nele; nunca estima o chefe que o fiscaliza constantemente.

O verdadeiro animador sabe administrar os seus impulsos, adaptando-se aos homens e às circunstâncias. Mas não procura nunca fazer tudo, ver tudo com os próprios olhos.

Devemos impor a nós mesmos contatos freqüentes com a natureza. Isso descansa o homem, equilibra-o; isso lhe dá as justas proporções das coisas.

É preciso, de tempos em tempos, um pouco de fantasia.

O equilíbrio de uma grande vida prepara-se de muito longe pela extensão e variedade de observações e de experiências, pela escolha harmoniosa de disciplinas, por uma mescla feliz de estudo, de ação e de reflexão, pela volta habitual à contemplação.

Não se dispersar.' Mesmo vivendo em pleno turbilhão, manter-se no eixo, e atirar-se a Deus. Eis aí uma verdadeira oração.

Precisamos arranjar horas de repouso, momentos de solidão. É-nos preciso recuar para podermos julgar a ação passada, para termos uma visão de conjunto, para nos pacificarmos, e para conseguirmos ver claro.

Cada um conforme seu tamanho: ter a ambição de dar toda a sua medida, mas reconhecendo seus limites, as necessidades dos outros, seu setor providencial de ação.

Dar-se cem por cento, até o limite. Mas organizar a vida para salvar o rendimento.

Evitar as dispersões: mas manter as diversões necessárias para o enriquecimento cultural, ou para o equilíbrio humano, ou para a euforia espiritual.

O homem não encontrará plenitude de equilíbrio se não tiver trabalhado com suas próprias mãos, se não tiver viajado, se não tiver lutado e criado.

A abnegação é um princípio de equilíbrio. A tática de Deus consiste em constranger a isso aqueles que dizem trabalhar nele.

Há fases em que o equilíbrio está particularmente ameaçado. Não que se tenha visto grande demais. Mas provocamos séries de determinismos, de operações, dian te das quais já não podemos recuar. É preciso afrontar num esforço excessivo que já não deixa quase mais tempo para a reflexão e a oração.

Tornamo-nos um escravo na obra empreendida. Somos como um animal de carga no serviço da humanidade de Deus. Se não ficarmos sob a dependência de Deus estaremos perdidos.

Sobretudo, nada de sublimidades. A vida fecunda é devorada por trabalhos concretos e humildes. Quem não aceita o pequeno é incapaz do grande: quem se contentar em conhecer apenas os princípios, nem sequer chegará a compreendê-los. O intelectualismo barra a verdade.

Não forçar o espírito. Ele tem os seus ritmos. Quem o sobrecarregar e o maltratar impede-o de inventar. Ora, é para isso que ele foi feito.

Encher a nossa vida de plenitude quer dizer que nada devemos fazer de mais ou de menos do que convenha à nossa dimensão, conforme os dons recebidos, a nossa bagagem e as circunstâncias; isso quer dizer que não devemos recusar nada ao Espírito e nunca devemos procurar passar sem ele.

A ação pode tornar-se tão dominadora que já não se vive mais humanamente. Fica-se como um animal perseguido, sem nenhuma possibilidade de salvaguardar o tempo da reflexão e da oração. E isso pode durar muitos anos. Somos arrastados pelo determinismo dos atos anteriormenté praticados, das operações que não podem ser recusadas, da multidão dos apelos.

É grande o perigo de esgotamento, de estafa, de desequilíbrio, de procura de compensações numa vida dirigida para os excessos.

Para responder a todos não se pode dar a cada um senão muito pouco tempo; para manter os prazos previstos - sem o que toda a planificação desmorona - é preciso fazer prodígios de trabalho concentrado e coordenado.

Os ritmos ultra-rápidos, agitados, da vida moderna, tornam impossível o momento de parada entre duas atividades. A diversidade dos problemas a serem considerados obriga a uma ginástica intelectual arrasadora.

Se não tivermos acumulado na fase anterior de nossa vida, se não guardarmos a unidade no esforço, nessa dispersão aparente, se não nos mantivermos dominados pelo objetivo final que não pode ser senão a elevação da humanidade, estaremos perdidos.

É preciso não se engajar deliberadamente nessa malha de impasses. É preciso desengajar-se se percebemos que iremos nos desviar ou que não poderemos man ter nosso equilíbrio psicológico e espiritual essencial. Mas, uma vez enredados nas malhas, eis que não poderemos mais nos retomar. Somos acorrentados no dom absoluto de nós mesmos, na aceitação da escravidão. É preciso retomar-se, equilibrar-se, afirmar-se na pureza da adesão a Deus, na renovação e na purificação do amor pela humanidade, no encontro doloroso e pacificador do Cristo verdadeiro.

20. A Fé

A fé é uma luz invasora. À medida que vivemos mais, ela se torna mais iluminante.

Ela tudo penetra, fazendo-nos tudo ver em função do essencial, da eterni dade.

Ela tudo reduz à simplicidade, à unidade. Quem a segue nunca está nas trevas; ela a tudo traz solução. Por meio dela, nos momentos das piores dificuldades, no mais aceso combate, no fim das forças, nós nos evadimos até Deus, encontramos o Cristo, saltamos como a rolha do "champagne" que não pode fugir senão subindo.

O otimismo da fé: cada gota conta....

O entusiasmo que dura só pode ser o entusiasmo da fé

Crer obstinadamente no contágio do bem, no poder da verdade.

Ressalvar o contato com o Cristo na fé pura. De fé em fé.

Saber que devemos ser semelhantes ao Cristo; logo, devemos sofrer.

Deus pede o nosso máximo esforço, mas nada mais do que isso. É preciso ter bastante fé para ir ao máximo; e bastante fé para se manter aí. Se quisermos ir além, estamos então no plano do homem, não mais no plano de Deus.

Desde que um homem abandona os caminhos batidos, luta com os poderosos, fala de revolução, todos o tomam por louco, sobretudo, se ele for cristão. Como se dar testemunho do Evangelho não fosse loucura, como se a sabedoria não consistisse em abrir os olhos para todo o objeto e em lutar contra todo o mal; como se o homem não fosse capaz de um grande esforço reformador e construtor, como se o militante não fosse forte na própria fraqueza. Precisamos de muitos loucos e não devemos engajar em nossa equipe senão loucos.

A fé e, muitas vezes, a projeção no impossível.

O homem de fé nunca é totalmente desamparado. No mais profundo, no mais alto de si mesmo encontra de novo Deus e, na luz de Deus, a estrada de saída do abatimento ou dos impasses.

Não é senão pouco a pouco que até mesmo os melhores se acostumam a viver no impossível da fé.

21. A Esperança

Lá vem pancada.

Cincoenta por cento de fracassos. Gozar os fracassos.

Começar por acusar-se a si mesmo.

O fracasso também constrói.

Alegria, paz, tralalá.

Pois então, tralalá.

Viva a vida.

É a vida.

A vida é bela.

Não se indignar.

Não se irritar.

Não estourar.

Não gritar.

Sorrir sempre, apesar de tudo, e levantar o ânimo do outro.

Continuar. Nada se faz num dia, num mês. No fim de dez anos fez-se muito. Cada gota conta. A cada dia basta a sua pena.

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Esperar os piores "espinhos" e não pensar que tudo está perdido quando eles chegam. O tempo dá arrumação para muita coisa.

Se a gente olhar cada setor da ação, um por um, nada anda; entretanto, o conjunto anda e conforme a vontade de quem o faz andar.

Quando se realizou até o máximo do esforço, quando a gente está esmagada, não podendo mais e não tendo diante de si senão incertezas e dificuldades, é o momento de suspirar um pouco, de encontrar de novo ritmos normais de trabalho, de abandonar-se a Deus.

Depois de uma pancada, esperar outra. Habituarse a agüentar firme, a ser abandonado, a recomeçar. A gente está sempre a ponto de soçobrar. Muitos amigos encaram a nossa dificuldade como um espetáculo: Perdeu o pé, mas sabe nadar. Vejam como está cansado. Não pode mais. Vai-se afogar na certa. Levou a breca. Por que se foi meter nessa encrenca? E vão-se embora, em lugar de se atirarem à água para nos salvar. Mas, com um esforço mais vigoroso, vencemos a onda e eis que estamos de novo em plena ação.

E um novo naufrágio nos ameaça.

Dar sem fazer caso, sem trapaça, em plenitude, dar a Deus e aos irmãos. Então, Deus tomará cargo de ti. Ele te levará e passarás indene no meio de incríveis dificul dades. Ele te conduzirá ao seu trabalho, ao trabalho que conta. Ele te aperfeiçoará, te completará. Servir-se-á de ti. Ele te porá em convergência com todos os que o procuram e que são animados por ele. Quando ele te segura não te larga facilmente.

Já não sabes mais aonde Deus quer levar-te. Pouco importa: ele te jogou no impossível, para te fazer sair dele de uma maneira que não poderás imaginar.

22. O Respeito pelo Outro

Nunca desprezar ninguém.

Respeitar toda criatura humana como uma pessoa feita à imagem de Deus e chamada por Deus.

Nada de ódio, nem mesmo para os próprios inimigos. Contudo, um ódio ardente contra o erro, contra a injustiça.

A justiça: ter fome e sede dela até que ela se faça. É um duplo serviço: para aquele que recebe justiça, e para aquele que espontaneamente ou por constrangimento faz justiça.

Desde que se reconheça que uma alma se deu toda a Deus, é preciso ter confiança no Espírito Santo a seu respeito. Seria tolice querer impor-lhe as nossas vistas curtas. O Espírito Santo se servirá dela e de nós mesmos para realizar harmoniosamente o seu plano.

Ninguém sabe, a não ser Deus, o que cada um leva em si. Cada um pode, entretanto, ter intuição da mensagem que será capaz de comunicar, da obra que deverá realizar. É como que um chamado dentro de si, como um fogo, como um grão que germina, como um braseiro que se acende, como se a gente subisse a bordo de um navio prestes a partir. Não enxergamos o futuro, adivinhamolo, tiramo-lo daquilo que sabemos, que fizemos, da visão que temos do mundo, dos apoios que nele encontramos, dos fracassos nele sofridos, dos sucessos nele alcançados, das faculdades que desenvolvemos, da cultura que adquirimos, da força d'alma que empregamos, da grandeza de nosso desejo, da profundidade de nossas raízes, de nossa fé, da nossa esperança, do nosso imenso amor.

Compreendemos que nem a vida, nem a natureza, nem a ciência, nem a amizade, nem a graça nos foram dadas para serem estragadas, para serem aviltadas, para serem mutiladas, para que nós as gozemos egoisticamente, a sós ou com alguns. Temos a consciência de um testemunho a afirmar, de uma luz a manifestar, de um movimento a suscitar, de um combate a travar, de uma generosidade a espalhar, de um dom a aperfeiçoar, de um ideal a comunicar.

Não sabemos exatamente como se irá realizar. Não temos de nosso, senão a nossa vontade e o nosso cabedal, e talvez, o nosso plano e diante de nós está o desco nhecido; estão as resistências, as armadilhas, as desilusões. Que nos importa? Embarcamos, vivemos a nossa grande esperança, e a realizamos por etapas, de noite em noite, de luz em luz.

Muitos se enganam sobre o seu próprio potencial autêntico. Quebram as asas e recaem mais medíocres; mais medíocres do que quando tentaram subir acima das próprias forças.

Outros nunca chegaram, sozinhos, a tomar consciência da própria grandeza, a desempenhar a própria missão. Que uma clarividência atilada, que um coração amigo possa então descobrir a riqueza escondida, avivar a chama ainda hesitante, provocar o vôo!

O chefe deve auxiliar cada um dos seus a conhecer-se, a ocupar o lugar que lhe cabe, a dar em plenitude, sem nada tentar acima das próprias forças, a não se deixar embebedar de orgulho.

O chefe é aquele que desperta almas para a grandeza; não atrai a si os outros só para associar-se a eles, mas para associá-los ao plano de Deus. Deverá muitas vezes modificar seu plano e quebrar seus projetos a fim de que resulte o melhor possível.

Não devemos sacrificar os outros aos nossos planos. Há um ponto de parada que devemos respeitar na pressão sobre as pessoas, para levá-las ao que temos em vista, à nossa ação. Há uma região extrema de liberdade onde não podemos, mesmo para o bem, exercer nenhuma violência. Há um respeito último do direito de cada um escolher, e do plano secreto de Deus sobre o outro que não devemos violar.

Temos tanta certeza de estar no bom caminho, somos levados por tal paixão de realizar a grande obra a que estamos ligados, de tal modo essa recusa nos parece catastrófica para os projetos que temos em mente, que é duro renunciar ao companheiro escolhido. É a hora de subirmos mais alto, de aderirmos mais profundamente aos planos de Deus, de fundirmos mais universalmente o nosso desejo só no desejo de Deus.

Então, as almas que se distanciaram, juntas comungam ao essencial. Sabem que se associaram na procura do melhor bem; sabem que na abnegação total, na plenitude do dom, ia o atingiram.

Depois desse grande combate, repousam durante certo tempo numa grande paz; tomaram contato com o absoluto, com o eterno.

23. O Amor

Deixar-se amoldar lentamente e enobrecer pelo amor.

O verdadeiro segredo da grandeza: sempre avançar e nunca voltar atrás no amor.

É preciso a gente estar animada por um imenso amor.

Sobretudo, guardar, intacto o nosso amor.

Amar intensamente todos os nossos irmãos em humanidade. Sofrer com seus fracassos, com suas misérias, com sua opressão.

Amá-los por tudo quanto neles há de valor autêntico.

Amá-los para que cada um se torne mais do que é. Um único amor pode sintetizar o amor de Deus, o amor de si próprio, o amor de cada homem, o amor à

humanidade, até o amor à natureza: é o amor pelo Cristo. No Cristo vamos encontrar todo o objeto de nosso amor, até a natureza que ele criou como Deus e libertou como homem. Tudo amar com o Cristo, é aproximar tudo de Deus.

Nenhum ato é pequeno na caridade.

Não há atos pequenos; cada qual tem o seu lugar no plano de Deus e cada qual pode estar carregado de um infinito amor.

Tantas espigas caídas, outros tantos grãos guardados, outros tantos atos de amor!

O amor, sim, mas de caridade.

O amor, sim, mas o amor inteligente e perspicaz. E preciso muito esforço para atingi-lo.

É muito difícil determinar o que na ação provém da necessidade de agir, de querer ter sucesso, da procura de si mesmo, do dom autêntico. Não se deve perder tempo com isso. É somente depois de muito tempo que o amor se torna totalmente puro. O essencial é que ele esteja presente e que ele cresça.

Há momentos em que não se sabe mais como sair do embaraço. Tantos deveres preciosos acumularam-se que é impossível atendê-los. Já não se pode mais. Já não se encontra normalmente uma saída.

Então, porque se fez tudo quanto se acreditava dever fazer, é preciso simplesmente entregar-se a Deus. E eis que uma solução aparece. A situação fica clara. Ofe recem-se novos prazos. Colaboradores se apresentam. Enfim, tudo saiu bem para aquele que não tinha agido senão por amor.

Já não podes mais. Está bem. Adere à vontade divina.

24. Sabedoria e Contemplação

Quem se especializar nos problemas do homem pode estar seguro de que alarga harmoniosamente a sua cultura.

Cultivar-se por absorção, partindo de uma cultura básica, que permite tudo acolher; escolher em qualquer aquisição o melhor. Não há nenhum objeto sem interesse.

Contemplação e ação não se opõem, não se subtraem, mas adicionam-se.

Tanto quanto se possa, repensar tudo por si mesmo, objetivamente.

Felicidade do homem deste tempo: ele possui a ciência. O admirável esforço da inteligência humana de três séculos para cá nos forneceu a chave das coisas, descobriu a dialética dos acontecimentos, entregou-nos o plano do universo. Quando comparamos o que sabemos da natureza e da história, e os nossos instrumentos de análise, com os meios de investigação dos antigos ou da Idade Média e com suas físicas, suas cosmogonias, suas lendas, devemos agradecer ao homem e agradecer a Deus. Tudo nos fala de Deus, nos conduz a Deus, nos dá

Deus, postula Deus, se soubermos olhar o mundo e os homens.

A nossa contemplação deve ser universal e incessante. Se nos assenhorarmos de tudo pelo conhecimento e pelo uso, poderemos conduzir tudo a Deus pela oferenda e pela ação.

Querer tudo o que Deus quer, querer todo o ser com Deus, todo o natural e todo o sobrenatural ao mesmo tempo. Inteligência, desejo, oração, ação, sofrimento, fecundidade, abandono, sabedoria: uma mesma árvore. Sabedoria: dar a cada coisa, a cada acontecimento sua real importância, seu verdadeiro valor.

Em resumo: vida teologal, vida prudencial, vida eficaz; nada a não ser a vida, mas toda a vida; nada a não ser o Evangelho, mas todo o Evangelho. Não ser senão testemunha do Cristo.

A ação católica: o movimento universal para Deus pela humanidade no Cristo.

Os momentos mais felizes do homem engajado: quando encontra Deus, quando Deus o arrebata.

Deus pode ocultar-se durante longo tempo. É duro agir na escuridão. Depois Deus se dá e nos lança outra vez na austeridade do esforço.

25. A Arrancada Humana

Elevar o mundo, e que isso provenha do Cristo. Não se trata de impor o jugo do Cristo, mas de dar à vida do Cristo todo o seu desenvolvimento.

Trata-se, para cada um, de viver plenamente o Cristo e de querer com o Cristo todo o bem do mundo, portanto a marcha do mundo para o máximo do ser, para o máximo do valor. E isso não é senão muito parcialmente, sem dúvida mesmo, muito secundariamente, uma questão de orações recitadas ou cantadas, de procissões, de manifestações. É a arrancada universal para o melhor; e, portanto, inicialmente, libertação do desordenado, do impuro; e quebra das alienações, libertação dos homens.

Muitos cristãos se esgotam em querer conservar quando se trata de construir. Felizmente, Deus faz germinar Santos. A chama cristã não deseja senão tornar-se um braseiro, mas muitos padres a apagam, querendo fazer uma Igreja bem arranjadinha, bem calma, bem garantida, de completo repouso.

O sopro do Espírito Santo coloca o cristão numa aventura perpétua. Mas só essa aventura dá a verdadeira segurança. 0 Espírito Santo é empreendedor.

Nunca o mundo esperou tanto da cristandade.

É preciso que em dez anos a espiritualidade do "engajamento" seja universalmente. adotada. Isso há de vir. É preciso quebrar todos os quadros artificiais em que se quer aprisionar o Espírito Santo. Tudo o que é falso deve voar em pedaços. Temos medo demais de escandalizar: o conformismo nos esmaga.

Catástrofe. Uma notícia imprevista. Todo o plano caiu por terra. Desespero? Impaciência? Não. Manter-se bem calmo, jantar bem, dormir sossegadamente. De manhã tudo já estará mais claro. Implorar Deus mais longamente na solidão. Um novo plano aparece. Basta recomeçar. Quando Deus me ordena, só se trata de meu bem. O mando de Deus nunca é a ordem brutal daquele que se impõe aos outros desprezando-os; é a indicação do Pai aos filhos para lhes evitar a infelicidade. O mando de Deus indica ao homem o caminho para o engrandecer. É o homem que está em jogo, o sucesso do homem. A ordem foi dada para facilitar o sucesso.

Quando Deus diz: "Amarás o Senhor teu Deus, e só a ele adorarás" ele me arranca do amor e das inquietudes desastrosas. É reconhecendo o divino, optando por ele, que o homem dá à sua vida o seu pleno sentido, realiza a mais alta justiça, harmoniza-se com o universo. O pecado é o mal do homem. Não pode ser o mal de Deus. Em Deus não pode haver mal. O pecado não pode ser nocivo a Deus, mas ao homem. Se Deus proíbe o pecado, é porque o pecado diminui o homem, destrói o homem. 0 que se chama de glória de Deus - não digo a sua glória substancial - é a resposta favorável dos homens aos convites divinos para darem ao universo o maior valor possível.

26. A Oração

Oração: não estar nunca separado de Deus, não escapar nunca de sua influência.

Oração a Deus: estou diante de vós como uma dependência, como uma necessidade, como um apelo.

A minha oração, é o meu desejo, meu grande desejo de que todo o bem chegue, um desejo grande como a minha alma. A minha ação o exprime imperfeitamente, e Deus o completa.

Minha oração, do fundo do coração, ato de fé: "Que se realize o melhor."

A oração deve tornar-se a própria vida, o apelo nunca revogado daquele que se sente de todo dependente, e que se mantém aderido à vontade de Deus.

O homem que, dando tudo, trabalha para Deus bem sabe que sua capacidade e importante.

Meu Deus, faz com que a humanidade, enterrada nos materialismos, deles escape. Faz com que os povos 107

Poderosos e ricos considerem, enfim, com amor os pobres, e povos que, em vez de pensarem sempre em seus próprios haveres, saibam ajudar os outros a serem mais.

27. A Missa

A Missa: recolher tudo em si, encontrar de novo tudo no Cristo, oferecer tudo com o Cristo, receber o Cristo.

A Missa: a ação essencial, a ação suprema. O sacrifício. Eu sou padre. Eu sagro. Eu consagro. Torno sagrado o dom de Deus e dos homens, torno-o divino.

A começar por este pão e este vinho. Por este pão impregnado de trabalho humano e de cooperação divina. Por este pão que recebe a sua natureza do trigo e seu preparo e o seu cozimento do esforço do homem.

Neste pão encontro a humanidade: aqueles que o puseram no forno, aqueles que manipularam a massa, aqueles que esmagaram o grão. Está todo impregnado com o trabalho do moleiro, do carroceiro, dos malhadores, dos ceifadores, do semeador, do lavrador, e eu teria que subir de geração em geração até encontrar o homem que primeiro o cultivou.

Encontro concentrado nele o esforço dos homens para viverem juntos e para reinarem sobre toda a terra; o arboricultor cuidou das árvores, o lenhador as derru bou, o serrador as aparelhou; a oficina de máquinas agrícolas as empregou nas rabiças do arado, nos suportes do debulhador. O mineiro extraiu o mineral e o carvão, os siderúrgicos fizeram o ferro gusa e, depois, o aço; os mecânicos deram forma à matéria, reuniram as peças, montaram a máquina. Foi preciso pintar as máquinas, pôr óleo nas engrenagens, gasolina ou óleo combustível nos motores, utilizar a eletricidade. Quantas e quantas vezes os estivadores, os navegadores, os ferroviários, os motoristas de caminhões, os garagistas, não foram obrigados a intervir para que a máquina chegasse bem acabada e pronta para servir e para este pão chegar até minhas mãos. Ele representa diante de mim todo o esforço humano e a soma de todas as técnicas.

E, da mesma maneira, o vinho, fruto da vinha. Acumula também os mais diversos trabalhos; trabalho dos que espremeram as uvas e trabalho dos que fizeram o lagar; trabalho dos que moram perto e dos que moram longe.

Foram necessários: o enxofre, o cobre, os minérios, os químicos, os metalúrgicos para salvar as videiras das diversas pragas; este vinho, diante de mim, resume tarefas realizadas nos quatro cantos do mundo.

O mundo está como que reunido diante de mim, sobre esta mesa, o pão sobre a toalha bem branca que as fábricas teceram das fibras do linho; o vinho no cálice feito de metal precioso.

É um mistério da colaboração dos homens entre si com Deus que se encontra ali, diante de mim, neste pão, neste vinho, nesta toalha, neste vaso sagrado, neste altar.

Sou o padre, aquele que representa todos os homens, aquele que recebeu o mandato para falar e para oferecer em nome de todos. Ofereço o pão, o vinho, o trabalho dos homens e a obra de Deus, a ação da natureza intimamente ligada.

Sou aqui tributário das multidões humanas do meu tempo. Opero a reparação da natureza, recomeço a volta de todas as coisas ao Criador, sou a gratidão da huma nidade, voltando a seu Deus, e o cântico de todas as coisas elevando-se por mim a Deus.

Ofereço o pão, o vinho. Despojo-me de tudo: reconheço que pertencem antes de tudo a Deus, e que nos foram dados por Deus com os homens, antes dos homens. Entrego-os a Deus. A natureza e a sociedade completam na minha oferenda a sua aspiração. Sou, pela minha oferenda, em nome de meus irmãos em humanidade, o pontífice, a ponte entre o mundo e Deus.

Ofereço este pão, este vinho. É a minha ação, a mais elevada das ações, toda enriquecida com todas as ações dos homens, que a tornaram possível, que a prepararam.

Todas as ações dos homens. Quantos não sulcaram a terra, não malharam o ferro, não construíram as fábricas, não organizaram os transportes por cupidez? Quantos não lançaram mão da natureza para proveito próprio, e não para proveito de seus irmãos? Quantos não se mostraram vorazes, injustos, ladrões, opressores? Quantos entre esses gerentes, esses capitalistas, esses industriais, esses engenheiros, esses contramestres, esses operários? Quanta promiscuidade e quanto relaxamento nas oficinas, quantos desejos adúlteros nos escritórios, quanta gente arrastada à prostituição pelos salários injustos!

Este pão, este vinho; mas é também o pecado dos homens, a recusa de servirem a Deus e de servirem aos outros homens. Este pão, este vinho não são puros, estão pesados de sensualidade, de inveja, de ódio, de orgulho. Deus não quer saber de minha oferenda.

Este pão, este vinho, objetos manchados pela ação dos homens, pela intervenção do pecado nas manifestações sadias da natureza.

"Este pão é o meu corpo, este vinho o meu sangue." Falei, ou melhor, o Cristo falou por mim: "Meu corpo, meu sangue", proferiu ele.

Este pão, o corpo do Cristo; este vinho, o sangue do Cristo...

Que ação! Uma ação que atinge o ser na sua profundidade; que já não opera na superfície das coisas para transforma-las, mas que se apodera das próprias natu rezas, das essências, da substância. E que finalidade! O corpo, o sangue do Cristo, a humanidade do Cristo que recebe o ser do próprio ser do verbo de Deus. O fim dessa ação: o Cristo que nos é dado em sua totalidade, o Homem-Deus, o vivente para todo o sempre.

Ofereço este pão, este vinho... não... Ofereço este corpo, este sangue. O corpo que foi flagelado, coroado de espinhos, crucificado. O sangue que jorrou, que es correu pelas chagas vivas. O corpo, o sangue, impregnados com o trabalho do Cristo.

Este corpo foi o corpo de um peregrino que começou muitó cedo as suas jornadas e as suas saídas para além das fronteiras, que percorreu campos e atravessou povoações, aldeias e cidades.

Este corpo foi o corpo de um militante que pregava aos homens que emendassem o coração, fizessem bom uso das coisas, que não fossem cobiçosos, nem opressores, nem estupidamente orgulhosos.

Este corpo foi o corpo de um fundador que agrupava discípulos, lerdos de entendimento, prontos para abandonarem o amigo, ardentes na luta pelas posições. Este corpo foi o corpo de um condenado.

O seu corpo, o seu sangue. Começaram a separa-los em casa de Pilatos, terminaram sobre a cruz.

O seu corpo, o seu sangue, separados por um momento.

Eu disse sucessivamente, separadamente: "Este pão é o meu corpo."

"Este vinho é o meu sangue."

Representei o mistério inefável do Cristo crucificado, a única ação que merecia a salvação de todos os homens.

O corpo, o sangue de Cristo, enriquecidos com todas as ações do Cristo caminhante e dirigindo-se para a morte. Todos os méritos da vida do Cristo neste corpo e neste sangue agora reunidos.

Estou junto com o Cristo, ofereço o Cristo, seu corpo, seu sangue.

Fiz do pão, do vinho, tudo quanto há de mais sagrado. Consumei o sacrifício. Exaltei infinitamente esta matéria, fruto da ação humana, que estava em minhas mãos. Estou junto do corpo e do sangue do HomemDeus, todo impregnado com o seu trabalho por nós todos, com seus méritos para nos fazer amar e aceitar o justo sofrimento, e para que nos seja possível morrer bem, para entrarmos na vida eterna.

O sacrifício, a ação sagrada, foi começada por Jesus desde o primeiro instante em que ele se voltou para o Pai para lhe dizer: Tu não quiseste nem os seus sacrifícios, nem os seus holocaustos. Eis que venho eu, ó Pai, para fazer a tua vontade.' Jesus, desde o primeiro instante, se oferecia sem reserva, encaminhava-se sem esforço para o Pai, depunha a sua vontade humana na Divina. Jesus se oferecia e oferecia o universo com ele, o universo sobre o qual tinha direito, que lhe pertencia.

Jesus se oferecia, me oferecia e oferecia todos os de minha família, todos os de minha amizade, todos os de minha profissão, todos os de minha classe, todos os de minha nação, todos os da humanidade.

Jesus se oferecia, e oferecia a terra, e os minerais, e as plantas, e os animais, e o mar, e os rios, os lagos, as riquezas do subsolo, a luz, o ar, o firmamento, a energia espalhada por toda a parte. Jesus oferecia tudo. Tudo, por ele, voltava ao Pai. A natureza se emendava, encontrava de novo a liberdade. Por ele, nele, corria para o Pai.

Jesus se oferecia, Jesus no seu coração oferecia todos os homens amados por ele. Nada havia no universo, a não ser o pecado dos homens, que não fosse apresen tável. Ele não oferecia os pecados dos homens: ninguém oferece a negação do ser. Oferecia os homens. Oferecia-se a si próprio, carregado com os pecados dos homens. Haveria de levar até o fim a expiação, com imenso amor. Haveria de abolir em sua carne e por seu amor o pecado de cada um dos homens.

Para cada um dos pecados deveria haver nele alguma coisa de positivo, um mérito, um direito ao resgate, de maneira que não haveria de existir um pecado puro, pecado sem o contrapeso de uma ação positiva de amor. O amor apaga tudo, o amor ultrapassa tudo. A ordem total seria restabelecida no Cristo vencedor do pecado.

Eu sou o sacerdote de Jesus.

Quando digo: "Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue", é ele quem torna eficaz as minhas palavras, é ele quem opera a aproximação. E eis que este pão é o seu corpo; este vinho, o seu sangue. A minha oferenda é tão eficaz que se identifica com a própria oferenda do Cristo; o seu corpo, o seu sangue, carregados de méritos, frutos de seus trabalhos.

Quando ofereço este corpo, este sangue, o meu Cristo, nada faço, senão continuar a evidenciar a sua oferenda. É ele que me leva a oferece-lo. Ele me tornou sacerdote para isso. A minha oferenda é sua oferenda, ele quer oferecer, por meu intermédio, para que eu associe os homens de meu tempo à sua oferenda.

Todos juntos, cristãos, nós o oferecemos e eu sou o vosso mandatário, como sou o mandatário do Cristo. Ofereceis comigo, encontrais de novo o Cristo comigo, a começar pelo pão e pelo vinho que me foram dados por vós.

Isto é o meu Corpo; isto é o meu Sangue.

Estamos diante da pura realidade; nós o possuímos, nós o apresentamos ao Pai, nós o oferecemos, nós nos oferecemos nele. Ele nos ofereceu; unindo-nos à sua ofe renda, nós nos encontramos de novo nele, tudo o que ele ganhou, adquiriu, mereceu por nós, todos os méritos que acumulou para nós, todos os direitos à nossa purificação, à nossa emenda, à nossa exaltação, ao nosso inteiro

aperfeiçoamento pelo amor, à nossa plenitude de vida, à vida eterna.

A nossa ação reuniu-se à sua ação, que é ao mesmo tempo a sua ação de graças, o seu reconhecimento a Deus por tudo de bom que foi feito aos homens, todo o universo, todas as naturezas, e a natureza humana em primeiro lugar, e o dom do Homem-Deus a todos os homens. O seu canto de louvor, o louvor permanente que foi e continua sendo a sua vida e a sua ação redentora. O seu doloroso trabalho, consumado uma só vez, o sacrifício total da gratidão e do resgate, do louvor e da expiação.

Não, Deus agora não repelirá mais a nossa oferenda. Ele não mais se tornará insensível ao nosso dom. Isto é o meu Corpo; isto é o meu Sangue. Já não resta mais pão em minhas mãos, nem vinho neste cálice, mas, simplesmente, esta realidade não substancial, e graças a ela estou na presença do corpo e do sangue do meu Cristo.

Não são os meus olhos carnais que vêem o Cristo, mas a minha fé, debaixo das aparências.

Estou na culminância da ação. Mudei o pão em corpo do Cristo, o vinho em sangue do Cristo. Ofereço no Cristo todos os méritos que a sua ação conseguiu para os homens e para mim mesmo. Ofereço-me a mim mesmo sem reservas, com tudo o que tenho, e todo o universo que me é dado, e todos os meus sofrimentos de hoje, e todos os meus sofrimentos de amanhã; o meu grande tormento pelo fato de o Evangelho não se espalhar ainda mais; pelo fato de os homens, metidos em sua crosta material, não serem mais permeáveis à mensagem. Ofereço no Cristo, com o Cristo, em seu coração e no meu, todos os meus irmãos e, mais particularmente, os mais infelizes, os mais miseráveis.

Ofereço todos eles: os da pesca, os da navegação costeira, os 'da cabotagem, os do longo curso, os da marinha de guerra; os do ar, os das estradas de ferro e de rodagem, os do cultivo da terra e os da tecelagem; os da metalurgia e os da mecânica; os do carvão, os do petróleo e os da eletricidade; os da química e os das construções; os do comércio e os dos transportes; os dos serviços privados e dos serviços públicos; os da História e os da Matemática; os do Direito e os das Ciências Aplicadas; os da Geologia e os da Antropologia; os da Pintura e os da Escultura e os da Arquitetura e os da Música; todos os que trabalham num ofício honesto e útil: todos os que, de qualquer maneira, procuram obter para os homens o pão e o vinho, e o vestuário, e a moradia, e a cultura e a sã alegria.

Os outros, Senhor, aqueles que impedem a vinda de vosso reino, aqueles que algemam os homens na volúpia, aqueles que os fecham a sete chaves nas casamatas dos materialismos; aqueles para os quais a carne, o dinheiro e o poder são deuses, eu os abandono à vossa misericórdia. Mas, não vos posso oferecer o trabalho deles, que é pecado.

Ofereço-vos, entretanto, no Cristo a ação que ele realizou para compensar, a vossos olhos, todas essas manchas.

Dignai-vos, Senhor, aceitar minha oferenda. Eis que quero aproximar tudo de vós, orientar tudo para vós, polarizar tudo em vós. Quero arrastar tudo até vós. Nada mais tem sentido para mim, senão como referência a esse movimento universal dirigido para vós pelo vosso Cristo, com ele, nele. Oh! como desejaria que os homens se associassem a meu arrebatamento e arrastassem com eles todos os seus irmãos e toda a terra! Desejaria que eles se entregassem a seus divertimentos debaixo da vossa luz, desejaria que se embebedassem com a verdade. Desejaria que eles se respeitassem e se amassem uns aos outros. Desejaria que cooperassem na libertação da natureza, colocando-a ao mesmo tempo, a serviço de seus irmãos e a serviço do altar. Desejaria que eles construíssem casas onde a gente pudesse viver bem, onde se pudesse aceitar sem restrições a lei da vida, onde todos se sentissem fortes em comunhão com a cruz; desejaria que criassem estruturas sociais, econômicas, políticas, favoráveis à abundância e à paz.

Senhor, ofereço-vos minha oração na oração do Cristo, à qual me reuni em minha oferenda.

Assim é a Missa, a mais essencial de todas as ações, a mais universal, a ação suprema.

A nossa vida exterior não deverá ser outra coisa senão um prolongamento desta ação, para provar a Deus a realidade do que se passou, e para dar à ação do Cristo uma eficácia total.

A resposta do Cristo à nossa Missa é a sua ação de vencedor. Depois de haver ganho um mérito pelo seu trabalho doloroso, está agora forte bastante para salvar. À oferenda da humanidade vai responder o dom da divindade; Deus vai dar a vida aos homens pela humanidade gloriosa e poderosa de seu Filho. É a hora da eficácia. A graça desce até o homem para ressuscitá-lo, para vivificá-lo.

Os sacramentos transformam, purificam, enriquecem, elevam as almas dos homens e, daqui há pouco, vão ser-lhes dados como alimentos o próprio corpo e o sangue do Cristo. Este pão, este vinho. Não. O meu Corpo, e o meu Sangue, diz o Cristo. Porque a minha carne é verdadeira comida, e o meu Sangue é verdadeira bebida.

Ite, missa est. Ide, é a despedida. A ação está terminada ou, se preferirdes, a ação vai começar; vai começar o que os homens chamam de ação: o trabalho, os cuidados, os fracassos, a luta, a vida. Bastará então que eu dê o meu testemunho, inserindo com inteligência e amor toda a minha atividade no plano total de Deus. É a Missa que continua, que invade tudo, é a oferenda de cada um que se realiza em seguimento à oferenda do Cristo. É o sacrifício sem interrupção; tudo o que fazemos, tudo o que tocamos, tudo o que trabalhamos, tudo orientado para Deus pelo nosso gesto interior; é o sagrado invadindo toda a vida.

Ite, missa est. Ide, a expedição está terminada, a oferenda está consumada, a remessa já partiu.' Juntos, fizemos chegar até Deus, no Cristo, o nosso pedido, a expressão de nossa necessidade, o montante de nossa dívida. Ide, a humanidade tornou a si e sobrepujou-se a si mesma, uniu a terra ao céu, deu totalmente a Deus o melhor de si mesma.

Ide, depois de haverdes realizado a vossa ação, o vosso gesto; o gesto do homem, gesto ao qual já respondeu o gesto de Deus, na comunhão e na purificação mais elevada de nossas almas.

Ite, missa est. Ide, para o vosso trabalho, para a vossa luta. Já foi dado o toque de partir. Levai a cabo durante o vosso dia a ação que ainda agora começastes.

Ite, missa est. É o mundo se transformando lentamente debaixo da ação total dos cristãos, o reino de Deus se realizando pela informação de todo o temporal pelo espiritual, pela regulamentação de todo o natural pelo sobrenatural. É a fé invasora, a caridade conquistadora, a esperança triunfante.

Um dia virá o último combate contra a última inimiga, a morte. Assim se remata a oferenda, a ação se coroa. O Cristo foi realmente encontrado de novo no termo da plenitude de seu dom para seus irmãos, consumou-se a sua semelhança perfeita conosco. A ação de nosso corpo vai parar, o nosso sangue vai cessar de circular. Que importa! Nós também já terminamos a nossa obra meritória, aceitamos a expiação, restabelecemos a justiça, e a nossa ação, unida à do Cristo, perdurará pelos séculos dos séculos.

A contemplação eterna irá começar logo: a visão, a ação da alma apreendendo Deus em toda a sua pureza, da alma que se deu totalmente, incapaz agora de se despregar de sua livre união.

A missa total, o sacrifício total: a marcha de tudo para Deus, a consagração do homem e do mundo, a subida universal para Deus pelo Cristo, a ação católica em seu sentido pleno. É a explicitação da primeira missa e das missas cotidianas, o sacrifício único em sua inteireza, o desenrolar através dos séculos do esforço humano procurando sobrepujar-se para atingir a divindade, a mais profunda dialética histórica. Tudo isso tem origem na oferenda do Cristo, e na oferenda, pelo padre e pelo povo, do pão e do vinho tornando-se o corpo e o sangue. É toda a cristandade em marcha arrastando o mundo consigo. A dialética é, ao mesmo tempo, pessoal e universal, humana e cósmica. Uma vez admitida a existência do pecado, essa marcha prosseguirá forçosamente na oposição e na dor.

Assim, a cruz domina a imensa luta humana para a libertação do homem e da natureza. O último gesto dessa ação grandiosa será o julgamento, quando o Filho do Homem vier afirmar a sua soberania sobre toda a carne ressuscitada, sobre todo o espírito posto em face da verdade. Ele fará a partilha entre a tese e a antítese, entre a aceitação e a recusa, a luz e as trevas, o bem e o mal, a beneficência e a avareza. A sua espada cortante penetrará até a medula, até as juntas para tudo dividir. Toda ação humana será, então, dividida em dois pedaços: a ação vazia de divindade, vazia de ser; a ação cheia de divindade, abundante de ser. A ação que escapou à fecundidade da oferenda, a ação fecundada pela oferenda; a ação do homem sozinho, a ação do Cristo no homem.

Então começará a definitiva ação de graças. Consumada a redenção, o sacrifício tornar-se-á de novo o sacrifício de puro louvor, como o de Adão e Eva antes do pecado. O homem na posse de Deus tornar-se-á de novo senhor da terra e dos'céus, uma nova terra e novos céus. A oferenda, cheia de gratidão e de amor, da humanidade fiel, fundida na oferenda do Cristo completará a ordem toda da natureza elevada à divindade, consumará a volta decisiva do universo a Deus. O triunfo do Cristo e de seu corpo será o fecho eterno do único sacrifício. O gesto da humanidade será tanto mais impregnado de louvor quanto mais o gesto de Deus a respeito do homem tiver sido o dom total do próprio Deus.

Este pão é o meu Corpo, este vinho o meu Sangue-. Eis, que atingi a mesma oferenda ininterrupta do Cristo, que não terá mais fim. Eis que inseri a oferenda da minha geração na oferenda total. Hoje ofereço,- no Cristo, os seus méritos à ação amorosa e fecunda dos homens. No fim dos tempos, todos, juntos, oferecemos com o Cristo toda a humanidade, essa mesma humanidade que, por sua vez, conquistou os seus méritos, que revelou claramente aquilo que o Cristo encerrava para ela em seu coração, em sua oração, em seu direito; essa mesma humanidade que realizou a sua ação no sentido da plenitude.

Agora não preciso senão inserir a minha vida na oferenda total, senão incorporar, ao máximo, toda a minha ação e a ação dos homens de meu tempo na própria ação do Homem-Deus.

28. Conselhos

Vossa primeira tarefa será tomar claramente consciência de vossa missão. Recensear os que vos são confiados. Primeiramente os marinheiros, grumetes, novi ços, simples marinheiros, patrões ou capitães. Depois os membros das profissões conexas: pescadores, operários ou operárias em geral. Enfim, os patrões dessas profissões. Eles são, todos juntos, a vossa paróquia; aqueles que Deus confiou ao vosso cuidado para que os ajudeis, para que penseis por eles no problema de sua vida humana em plenitude, para que sejam por vós conduzidos a essa plenitude.

Eles são, no sentido vigoroso, em Deus e no Cristo, ao mesmo tempo, vossos irmãos e vossos filhos. Amai-os.

Amai o bem que se encontra neles, a sua simplicidade, sua rusticidade, sua audácia, sua resistência, seu vigor, suas qualidades de lutadores encarniçados e nunca cansados; sua paciência diante da provação; suas tradições de gente do mar; a beleza humana que se encontra neles, a beleza humana de homens duros para consigo mesmos e realizando sem desfalecimento o dever que lhes compete de fornecer pão aos que Deus lhes confiou.

Amai-os até o ponto de não suportar que eles sejam infelizes demais.

Resguardaios do perigo. Afastai deles as causas de sua ruína. Rechaçai de seus lares o alcoolismo, as doenças venéreas, a subalimentação, a tuberculose. O vosso papel não consiste somente em consolá-los e abandonálos na indigência, ao passo que vós tendes mais que o suficiente para comer e para vestir. É preciso que a infelicidade deles vos faça sofrer. A falta de higiene em suas casas, a qualidade defeituosa de seu alimento, a má educação de seus filhos, as suas devassidões, as suas ignorancias; é preciso que tudo aquilo que os diminui corte o vosso coração.

Amai-os para faze-los viver.

Para que desabroche neles a vida simplesmente humana. Para que a inteligência deles desabroche, para que não fiquem uns atrasados mentais, para que saibam usar corretamente a própria razão, discernir o bem e o mal, repelir a mentira, reconhecer a grandeza da obra de Deus, comungar com a natureza, gozar de tudo o que é belo, para que sejam homens e não animais.

Que o erro aferrado em seus corações não vos deixe indiferentes, mas que vos fira.

Que as ilusões com que são alimentados vos incomodem. Que os jornais materialistas que lhe são fornecidos vos irritem. Que os seus preconceitos vos atormentem.

Pois que o mal deles é o vosso mal, pois que os amais, que os tendes alojados em vosso coração com o Cristo, pois que desejais que com o Cristo eles vivam como homens na luz.

O Cristo é a verdaderia luz que alumia a todo o homem que vem a este mundo.

Amai-os para faze-los viver da luz do Cristo.

Toda luz da razão natural e a luz do Cristo. Todo conhecimento, toda ciência humana. O Cristo é a ciência suprema. No momento em que abrirdes o coração deles à verdade, realizais neles a imagem de Deus. Quando desenvolverem a inteligência, quando comungarem com o universo, aproximarem-se de Deus, se parecerem com ele, já estarão caminhando para ele.

Mas, sabemos pelo Cristo que ele traz uma outra luz, luz que lhes orienta a vida para o essencial, que ele

lhes traz a resposta para as questões mais angustiosas. Por que vivem eles? A que destino foram chamados? Sabemos que há um grande chamado de Deus para cada um deles para beneficiá-los com a visão dele próprio, face a face, sabemos que são chamados a um alargamento do olhar até a totalidade de Deus.

O chamado é para cada um deles, para o mais miserável, para o mais ignorante, para o mais despreocupado, para o mais depravado dentre eles. A luz do Cristo alumia as trevas para todos eles. Eles têm necessidade dessa luz. Sem essa luz eles são simplesmente uns infelizes.

Amai-os para lhes dar consciência do seu destino, para que se estimem como homens chamados por Deus ao mais alto conhecimento, para que estimem Deus no seu valor de Deus, para que estimem todas as coisas segundo o valor delas em relação ao plano de Deus. Amai-os apaixonadamente em vosso Cristo para que sua semelhança se realize neles,

para que eles se retifiquem por dentro,

para que tenham horror ao se demolirem ou se atrofiarem,

para que tenham respeito pela própria grandeza e pela grandeza de qualquer outra criatura humana,

para que tenham a preocupação da verdade e do direito,

para que respeitem os bens, a mulher e a honra do outro,

para que reconheçam no outro o mesmo direito à

vida,

para que a vida do Cristo seja neles,

para que o amor com o qual o Cristo os amou opere neles,

para que todo o seu ser espiritual desabroche em Deus,

para que encontrem o Cristo no extremo do olhar e do amor,

para que o sofrimento do Cristo lhes seja útil,

para que completem, com seus sofrimentos, os sofrimentos do Cristo,

para que amem todos os seus irmãos com o Cristo. Se os amais, amai-os apaixonadamente, e, se os amais, sabereis o que lhes deverá ser feito.

Corresponderão eles a vosso amor? ...

Tereis sucesso em vossos trabalhos? ...

Sim, sem dúvida, mas parcialmente, lentamente.

Deus quer sobretudo o vosso esforço, e nada é perdido daquilo que é feito com amor.

29. A Espiritualidade do Cristão Engajado

Os Princípios da Revolução Permanente

Estamos decididos a transformar a sociedade pela nossa transformação e pela transformação dos agrupamentos humanos nos quais militamos.

Portanto, queremos:

1°) Poder dizer não a muita coisa da sociedade contemporânea.

2°) Contribuir de maneira coordenada e eficaz para a construção de um mundo humano e cristão.

A persecução desses dois objetivos determinará em nós certo estilo de vida verdadeiramente cristão, verdadeiramente revolucionário.

A nossa revolução será permanente e ascendente. A revolução permanente deve operar-se pela inserção progressiva de cada um e de toda a sua atividade no plano de Deus; quer antes de mais nada, realizar o movimento universal para Deus, pela humanidade, no Cristo.

A revolução ascendente começa pela transformação espiritual de cada um e prolonga-se nos grupos onde cada um exerce a sua influência. Por conseguinte, leva cada um daqueles que a realizam, e todos aqueles que são arrastados por eles, e o universo, para Deus.

Essa forma de revolução é sempre eficaz e efetua-se com absoluta segurança.

À medida que, pelo nosso próprio engrandecimento, nos tornarmos capazes de uma influência maior, a nossa ação passará a atuar-se no plano social, no plano eco nômico, no plano político, no seio de agrupamentos cada vez maiores, mas ela escapará às vicissitudes dos movimentos políticos e continuará a atuar sem interrupções através das evoluções sociais e econômicas. Perdurará e irá crescendo mesmo através das subversões, sejam elas da natureza que forem. Nesse sentido, sempre estará em avanço sobre qualquer outro movimento revolucionário, e será uma ação muito mais profunda porque estará colocada no plano da transformação das almas e da extensão indefinida e coordenada da irradiação delas, e não no plano superficial dos programas.

Instaurando, ao mesmo tempo, o bem pessoal e o bem comum, libertaremos os homens e levaremos para as formas comunitárias todo o agrupamento fundamental de que somos membros.

Engajamento

Debaixo do olhar de Deus, no conhecimento da nossa fraqueza, nos comprometemos:

    a dar intrepidamente testemunho da verdade e a nunca traí-la voluntariamente; a nunca participar conscientemente da injustiça, e a não nos deixarmos dominar pela cupidez; a respeitar efetivamente, concretamente, com amor, toda pessoa humana; afazer esforço cada dia para nos sobrepujarmos a nós mesmos; a dizer mutuamente e diretamente, uns aos outros, os nossos motivos de queixa; a nos tornarmos eficazes para instaurar o bem comum em toda a comunidade de que sejamos membros; a assumir o encargo - cada um segundo as suas forças de um setor definido da miséria humana; a combater, até ficarmos gastos, pela supressão da condição proletária ou para o desenvolvimento dos países pobres; e, deste modo, a realizar a revolução permanente e ascendente, inserindo-nos cada vez mais noplano de Deus.

Estilo de Vida

Tudo empreender e tudo realizar na verdade.

Abordar toda pessoa humana com um grande respeito e um grande amor.

Criar entranhas de misericórdia.

Permanecer sempre acolhedor a qualquer miséria. Perceber em cada um os seus valores e amá-lo.

Ir ao objeto, apagar-se diante do objeto.

Ir sempre ao mais essencial.

Ser encarniçado no trabalho.

Pôr em ação os meios proporcionais.

Fazer bem feito tudo o que se estiver fazendo. Adquirir eficiência.

Manter seus compromissos.

Não desistir da obra começada.

Não repelir nenhuma boa vontade.

Tomar consciência do bem comum.

Jogar o jogo da equipe.

Tomar com muita largueza a parte que lhe cabe nos trabalhos materiais.

Começar por acusar-se a si mesmo.

Desejar, provocar, aceitar a crítica.

Caçoar sempre um pouco de si mesmo.

Aceitar os encargos difíceis.

Considerar como normais a dificuldade, a luta.

Inquietar-se quando tudo parece fácil.

Aproveitar-se dos fracassos.

Manter-se otimista.

Construir em vez de falar.

Lutar incansavelmente contra a injustiça.

Barrar o caminho aos exploradores, aos ladrões, aos mentirosos, aos intrigantes. Desenvolver-se pela abnegação, pelo dom.

Não se desassociar da comunidade com a qual estiver combatendo.

Deixar-se inteiramente penetrar pelo Evangelho.

Construir com a Igreja.

Ter confiança na vida e no sopro de Deus.


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