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Parece que nenhum civilizado percebeu a ocorrência do movimento messiânico craô no momento de sua manifestação. Nós mesmo só viemos a saber de sua existência no segundo período de pesquisa de campo. Começamos então a procurar informações sobre tal movimento, que ocorrera uns dez anos antes de chegarmos pela primeira vez às aldeias craôs. Obtivemos assim um material sobre o tema que não é dos mais ricos, mas suficiente para indicar as características mais gerais do movimento. Sobre os acontecimentos que o constituíram, dispomos dos depoimentos de quinze informantes indígenas, sendo que seis deles apresentam mais de um depoimento.
Embora tais depoimentos, pobres quanto possam ser, constituam o cerne dos dados em que se apóia este trabalho, nossa descrição e análise não se baseiam apenas neles. Ajudaram-nos a completar o quadro fragmentos de histórias de vida, sobretudo a do líder messiânico, os mitos colhidos, principalmente o de Auke e as versões indígenas do mito de Adão e Eva, todas as informações sobre o contacto interétnico, em suma, todo o material coletado veio a servir para chegarmos a uma melhor compreensão do movimento messiânico.
Há, porém, uma dificuldade: os depoimentos não coincidem exatamente entre si e existem contradições entre depoimentos dados até por um mesmo informante. Essas incongruências, lapsos e acréscimos se devem a vários fatores.
Em primeiro lugar, deve-se considerar que este movimento era guardado em segredo pelos índios. Uma vez descoberta a primeira pista, conseguimos mais informações de outros informantes ao demonstrarmos que já sabíamos de alguma coisa. A certos indivíduos foram feitas muitas perguntas para se conseguir muito pouca informação.
Em segundo lugar, parecia haver, por parte dos informantes, uma certa vergonha em terem acreditado nas promessas e obedecido às ordens do vidente. Assim, vários indivíduos, ao narrarem sobre as ordens do líder messiânico, afirmaram que os demais lhe obedeceram, mas que ele próprio desconfiou delas e deixou mesmo de cumpri-las.
Em terceiro lugar, a falta de coerência dos depoimentos também pode refletir a modificação das relações mantidas entre os indivíduos. Assim, os depoimentos prestados pelo chefe de aldeia Pedro Penõ em 1967 diferem daqueles que prestou em 1963. Nos últimos, ele acrescenta que o líder messiânico, depois do fracasso do movimento, ficou com raiva do povo e provocou, por feitiço, uma febre que afetou os habitantes da aldeia durante três dias. Acontece que, em 1967, a amizade entre este chefe de aldeia e o antigo líder messiânico tinha terminado, devido à tentativa deste último em afastar-se da aldeia, atraindo para si outros seguidores. O chefe, despeitado, acusa o vidente de feitiço, fato que não consta no primeiro depoimento, prestado quando ainda havia amizade entre os dois.
Em quarto lugar, os craôs costumam, muitas vezes, dar dois tipos de explicação para o mesmo fenômeno. O próprio líder do movimento mostrava não saber se suas experiências sobrenaturais tinham sido mesmo reais ou se tudo não passava de efeito da maconha.
Devido a tais incongruências, transcrevemos todos os depoimentos no Apêndice I, para que o leitor os compare e não seja lesado pelo resumo que apresentamos dentro do texto. As letras, ou letras seguidas de algarismos, citadas entre parêntesis, daqui por diante, se referem aos depoimentos contidos nesse apêndice.
A data em que ocorreu o movimento messiânico craô nos oferece alguma dificuldade. Um informante (A2) assegurou que ocorreu no tempo de um encarregado chamado Veloso. Ora, este encarregado esteve entre os craôs em 1948. Outros (B2, C4, I) afirmaram que esse acontecimento se deu no tempo do encarregado Ely Távora. Os documentos arquivados na sede da Povoação Indígena mostram que Ely Távora a dirigiu por duas vezes: uma, em 1949 e outra em 1951. O índio Aleixo, no ano de 1962, quando ainda nada sabíamos da presença de crenças messiânicas entre os craôs, fez referências a fatos ligados ao movimento, dando-lhes a data de 1952. No ano seguinte, falando desta vez abertamente sobre o caso, o mesmo índio (H) disse que o movimento havia ocorrido entre outubro e novembro de 1951. Nem todos os índios sabem distinguir os anos. Aleixo, porém, fala bem o português, possuindo mesmo um vocabulário mais rico do que a maioria dos craôs. Sua informação parece digna de crédito, pois ele mesmo afirmou que tomava como ponto de referência para o acontecimento o ano de 1950, quando esteve no Rio de Janeiro. O ano de 1951 corresponde ao segundo período da gestão do encarregado Ely Távora. Parece, por conseguinte, que podemos considerá-lo como a data do movimento.
Também não podemos dizer com nenhuma precisão o tempo de duração do movimento. Temos apenas, como vimos, a informação de Aleixo, que o coloca entre outubro e novembro de 1951. Teria sido, pois, no início da estação chuvosa. Isso é, até certo ponto, confirmado pelos depoimentos de Pedro Penõ, segundo os quais, quando o líder messiânico tocava pífaro, trovejava e chovia. Além disso, vários informantes dizem que fizeram o plantio das roças contra as ordens do líder; ora, o plantio também se inicia com a estação chuvosa. O movimento, pois, teria tido lugar nos últimos meses de 1951.
O movimento teve como sede uma das aldeias craôs: aquela que posteriormente se cindiria para dar origem à aldeia do Posto e à de Pedra Branca. Os informantes afirmam unanimente que ela então se localizava num sítio próximo à atual Fazenda Maravilha (pertencente ao extinto S.P.I. e agora à atual FUNAI), junto ao riacho São Vidal, também chamado Pedra Furada, afluente do Ribeirão dos Cavalos, que desemboca no rio Manoel Alves Pequeno. O local onde esteve a aldeia pode ser reconhecido até hoje pelo grande número de mangueiras ali plantadas, cujos frutos os habitantes da aldeia chefiada por Pedro Penõ ainda colhem em grande quantidade. Apenas em um depoimento (B3) afirma-se que o movimento começou quando a aldeia estava junto da casa do Posto e continuou ainda depois que ela se transferiu para o local junto à Fazenda Maravilha. Era, pois, essa aldeia a sede do movimento. As outras duas (a de Serrinha e a que iria dar origem às aldeias de Boa União e do Abóbora) sabiam desses acontecimentos através de mensageiros e, até certo ponto, participavam das atividades messiânicas.
O movimento foi desencadeado por um índio chamado Rópkur Txortxó Kraté, conhecido também pelo nome de José Nogueira. Deveria ter, então, uns trinta anos de idade. Estimulado pela maconha, começou a ouvir vozes e a ter visões. Segundo o próprio vidente, ele teria entrado em contacto com Ta?ti, ou seja, com a personificação da chuva. Convém notar que, quando os craôs dizem "chuva", não entendem por isso apenas a queda de gotas d'agua, mas todo o conjunto formado pelas nuvens escuras, os relâmpagos, os trovões e a pancada d'agua. Além disso, embora a chuva constitua um importante elemento na simbologia craô, ela não aparece nos seus mitos e ritos como um ente personificado. No entanto, José Nogueira descreve "Chuva" com a aparência de um homem novo, de cara fechada, cabelos pretos, barba grande e com um fuzil na mão. Os oferecimentos de "Chuva" a José Nogueira tinham dois objetivos: ao mesmo tempo que punha à sua disposição poderes para castigar os "cristãos", queria também transformar os índios em civilizados.
O castigo a ser aplicado consistia na destruição dos civilizados, pelo menos daqueles que viviam dentro e nas vizinhanças do território indígena. Para isso, "Chuva" oferecia a José Nogueira o próprio raio. O castigo dos civilizados tinha dois motivos como se pode depreender das próprias palavras atribuídas a "Chuva". Em primeiro lugar, ele consistia na vingança do ataque que os civilizados havia feito a duas aldeias indígenas em 1940. Assim, "Chuva" diz (C1) a José Nogueira: "Se você quiser, você apanha minhas coisas (o raio) e você acaba todo o mundo, porque gente (os civilizados) não tem vergonha na cara, todo o mundo. Por isso que kupe(n) (os civilizados) não pensava mais em mim, como é que acabou com (massacrou) vocês?" Em segundo lugar, a destruição dos civilizados visava a impedir que tomassem as terras indígenas; por isso, "Chuva" ordena (C1) ao vidente: "Olhe, você apanha minhas coisas (o raio) e você tem de transformar todo esse povo. Agora você fica chefe, agora você é dono deste lugar onde estão vocês. Você toma o lugar para o civilizado não tomar". E um informante (B3) atribui as seguintes palavras ao líder messiânico: "Agora meus soldados vão ser muitos e que é que nós vamos fazer? Depois que todo o mundo virar (se transformar em civilizado), aí nós atacamos os moradores, porque eles estão tomando terra". Mas o próprio José Nogueira conta que ficou com medo de tocar no raio, tinha receio de se queimar. Por isso, não pôde destruir os "cristãos" e nem transformar os índios.
Não sabemos dizer se o oferecimento do raio fez parte dos primeiros contactos de "Chuva" com José Nogueira ou se dos últimos. "Chuva" deu uma série de instruções para o vidente transmitir aos indígenas com o objetivo de transformá-los em "cristãos". E José Nogueira transmitiu tais instruções, incentivando os companheiros de tribo a pô-las em prática. Se a negativa em aceitar o raio foi o motivo do fracasso do movimento, o oferecimento do mesmo deve ter sido feito no último contacto que o vidente teve com "Chuva", uma vez que todas as outras instruções foram obedecidas. Se a negativa de José Nogueira em aceitar o raio tivesse sido logo no primeiro contacto com "Chuva", este ente não teria se ocupado em dar as demais instruções. Mas é difícil, com ajuda dos depoimentos, colocar esses acontecimentos em ordem cronológica. O fato é que outras instruções foram dadas por "Chuva". Assim, José Nogueira ordenou aos índios que construíssem uma grande casa para ele, para que tivessem um lugar onde estocar as mercadorias que iriam receber; e os indígenas a edificaram. Ordenou também a construção de um grande curral, que, em determinado dia, deveria encher-se espontaneamente de gado; e os índios o fizeram. Na sua grande casa, José Nogueira dava bailes em certos dias da semana, quando os índios dançavam aos pares, como os civilizados; os homens casados tinham o cuidado de só dançarem com suas esposas. José Nogueira transmitiu ordens para que deixassem de comer determinados alimentos, sobretudo carne, durante certos dias da semana, numa evidente imitação da abstinência dos católicos. Ordenou que se fizessem paredes de barro nas casas para que elas se transformassem em habitações semelhantes às dos civilizados. Incentivou o abandono da pintura de corpo, dos cânticos acompanhados por maracá, das corridas de toras. Mandou que atirassem fora todos os tipos de cestos que tinham dentro de casa, pois seriam substituídos por malas como as dos civilizados. Aconselhou o consumo dos animais domésticos e das sementes destinadas ao plantio, pois, quando se transformassem em "cristãos", tudo isso seria recuperado e multiplicado. José Nogueira ainda prometeu aos índios que, em determinada noite, chegaria um "motor", isto é, uma lancha pelo riacho da aldeia (que não era navegável), trazendo artigos industrializados para os craôs.
As mensagens, instruções, promessas que José Nogueira recebia de "Chuva" e transmitia aos demais índios podem ser distribuídas em quatro esquemas de ação distintos, cada um deles equivalente, por si só, a um programa de atividades de um movimento messiânico. Em outras palavras, as atividades messiânicas dirigidas por José Nogueira eram redundantes, uma vez que lançavam mão de vários meios para chegarem a um só objetivo.
Um desses esquemas de ação se registra em dois depoimentos de Pedro Penõ (B2 e B3), que parece ter gozado de uma grande confiança do vidente. Conta Penõ que, após fumar maconha, José Nogueira viu aproximar-se da aldeia uma tropa de animais; um portador veio na frente, pedindo que se acalmassem os cachorros e os índios não fizessem barulho. Mas, como o povo não se afastasse da casa de José Nogueira, continuasse a fazer ruídos e não fizera calar os cães, a tropa fez meia-volta e retornou. Embora os depoimentos não digam, é muito provável que esta tropa trouxesse artigos industrializados para os índios. Se tivesse chegado até a aldeia, os índios receberiam seus carregamentos e se transformariam em civilizados. A chegada da tropa, por conseguinte, teria bastado para transformá-los, sendo desnecessária a chegada da lancha, a imitação de costumes civilizados, o recebimento do raio.
Um segundo esquema seria constituído pelo oferecimento do raio. De posse deste elemento, José Nogueira poderia não só destruir os civilizados vizinhos, mas também transformar os indígenas em "cristãos". Por conseguinte, a posse do raio teria sido suficiente, por si só, para fundamentar a atividade messiânica.
O terceiro esquema de ação seria constituído por aquela série de atos ordenados por José Nogueira no sentido de abandonar o comportamento tradicional dos índios (pintura corporal, corrida de toras, cânticos com maracá, cestaria etc.) e imitar o comportamento dos civilizados (bailes, abstinência de carne, paredes de barro etc.). Insistindo nesses atos, acordariam num determinado dia todos transformados em "cristãos".
Por fim, o quarto esquema consistiria na espera da lancha carregada de artigos civilizados. Ora, a chegada dessa lancha teria efeitos idênticos aos da chegada da tropa de animais: os índios receberiam o carregamento e estariam equipados assim com as mesmas coisas que os civilizados, tornando-se como eles.
José Nogueira contava com alguns auxiliares. Nas ocasiões decisivas, como a noite da espera da lancha, estava, geralmente, cercado por xamãs. Não sabemos com certeza se José Nogueira já era xamã antes de iniciar o movimento messiânico; de qualquer maneira, a partir do momento em que entrou em contacto com a personificação da chuva, poderia se considerar um xamã, segundo os padrões craôs. Os xamãs, como mediadores entre a aldeia e o mundo externo, entre a sociedade e a natureza, seriam as pessoas mais indicadas para atuarem nesses momentos decisivos. Assim, Pedro Penõ, convidado a participar da espera da lancha na beira do ribeirão, declarou-nos (B3) que ficara com muito medo, pois, não sendo xamã, poderia ser levado pela enchente, quando as águas do ribeirão crescessem. José Nogueira contava também com alguns mensageiros, que levavam suas instruções à demais aldeias. O vidente tinha previsto também quais os índios que exerceriam determinadas funções, como "prefeito", "delegado", "motorista", "caixeiro, depois que se transformassem em "cristãos". De um modo geral, parece que todos os jovens e a maioria dos homens maduros aceitavam a idéia de se transformarem em civilizados e esperavam ansiosos o momento da metamorfose. Somente os velhos estavam desgostosos em saber que teriam de abandonar os costumes de seus antepassados. Naturalmente, a ação de José Nogueira se fazia sentir mais acentuadamente na aldeia onde morava. Marcão, chefe da aldeia nesse período, parece ter ficado un tanto eclipsado por José Nogueira; talvez não acreditasse muito no vidente, mas, de qualquer forma, não se opôs abertamente a ele. O próprio José Nogueira parecia intimidar aqueles que não concordavam em se transformar em "cristãos": enquanto estava empenhado nessas atividades, municiava sua espingarda, punha-a junto à porta da casa e ameaçava fazer fogo sobre quem o importunasse (B1). Uma vez quase atingiu o filho de sua própria esposa, quando este, namorando, tentou entrar em casa através da parede de palha (B2). Quanto às demais aldeias, sabe-se que elas também participaram, embora menos intensamente, das atividades messiânicas. Os índios de Serrinha foram ajudar os da aldeia em que estava o vidente a fazer o curral. Nos momentos decisivos, habitantes dessas outras aldeias se dirigiam à aldeia do líder messiânico. Além disso, mesmo longe do líder, alguns moradores das outras aldeias atendiam a suas recomendações. Portanto, José Nogueira obtinha a ascendência sobre os demais craôs, devido não somente à vontade que estes tinham de se tornarem civilizados, tomando por isso sua mensagem a sério, mas também às ameaças de violência que fazia àqueles que desejassem impedi-lo de desenvolver seu programa messiânico.
Parece que mais de uma vez José Nogueira marcou uma data para a transformação dos índios em civilizados; e, naturalmente, mais de uma vez os que nele acreditavam se decepcionaram. O vidente sempre apresentava uma explicação para seus fracassos. Assim, a retirada da tropa de animais teria sido causada pela negativa dos índios em respeitar as condições de isolamento em que deveria permanecer. O raio, não o recebeu porque tivera medo de pegá-lo. A não aproximação da lancha, atribuiu-a a feitiço de outros xamãs. Assim, procurava contornar o desapontamento daqueles que esperavam pela metamorfose e predispô-los a novas tentativas. Chegou um momento, entretanto, em que esgotou a confiança dos demais indígenas, e isso parece ter acontecido na madrugada em que não conseguiu fazer a lancha se aproximar da aldeia. Os índios então o acusaram de os ter enganado. O vidente, por sua vez, atribuía seu fracasso ao feitiço de seus opositores. Alguns, mesmo, exigiram dele prestação de serviços em troca dos prejuízos que lhes havia causado, quando mandou que consumissem sementes e animais domésticos. E o próprio José Nogueira passou, a partir de então, a se sentir ameaçado pelos demais craôs. Em 1962, quando o vimos pela primeira vez, não estava psicologicamente em estado normal. Embora ninguém lhe quisesse fazer mal, pensava que os índios estavam resolvendo matá-lo toda vez que via algum ajuntamento. Chegou mesmo a tentar o suicídio. No ano seguinte, parecia curado, mas em 1966, julgando-se novamente ameaçado, passou a viver fora da aldeia; para junto dele queriam se transferir alguns de seus parentes.
Após o fracasso de José Nogueira, parece que a atividade de cunho messiânico ficou um tanto desacreditada entre os craôs. Existe uma informação (B3) de que, logo em seguida às tentativas frustradas desse líder, o índio Xerente Pedrão, irmão da esposa de José Nogueira, tentou convencer os índios de Serrinha a fazerem um curral. Estes lhe impuseram uma condição: fazer uma rês aparecer; caso o conseguisse, executariam qualquer tarefa que ordenasse. Como Pedrão nada fez aparecer, não teve o apoio de seus companheiros da aldeia. Entretanto, parece que, pouco a pouco, ressurgem entre os craôs esperanças messiânicas. Por exemplo, em 1963 as chuvas se atrasaram. Na região habitada pelos craôs, elas se iniciam nos últimos dias de outubro, mas, naquele ano, só começaram a cair depois dos meados de dezembro. Os civilizados, contando com a chuva na sua data de costume, plantaram o milho, que brotou e murchou. Entre os índios, então, se dizia que as chuvas iriam se atrasar bastante, de modo que os civilizados perdessem toda a colheita; isso lhes serviria de castigo, uma vez que haviam atacado em julho do mesmo ano os índios Canelas, no Maranhão; temiam os craôs que um de seus companheiros de tribo, um rapaz que estava viajando, tivesse sido morto durante esses acontecimentos (vide mais adiante o movimento messiânico Ramkokamekra). Um índio, nessa mesma ocasião, ao ver um dos habitantes da cidade próxima, Itacajá, queixar-se da demora das chuvas, pensou consigo mesmo que elas não vinham como castigo pelos preços altos que os comerciantes daquela cidade cobram aos índios. Pode-se dar mais um exemplo: um médico-feiticeiro, Patrício Chiquinho, numa noite de março de 1967, quando estava um tanto embriagado, declarou que os civilizados vizinhos acusavam os índios de roubo de gado; mas ele, Patrício Chiquinho, tinha o poder de destruí-los com chuva e o faria no mês de fevereiro de 1968. Disse que acabaria com os civilizados próximos, bem como os de Goiânia, Brasília, Rio de Janeiro (depois excluiu esta cidade). Acrescentou que fora Deus quem o ensinara a fazer isso. Por conseguinte, parece que, entre os craôs, ainda existem condições para o desenvolvimento de crenças e atividades messiânicas.
Não sabemos se José Nogueira teve precursores. Convém registrar, no entanto, um caso que nos contou o índio Secundo (G2), o qual teria ocorrido quando o informante era ainda pequeno. Como Secundo tinha mais de vinte anos quando nos fez tal narrativa, talvez os acontecimentos a que se refere tenham ocorrido antes do movimento de José Nogueira. Diz-se que o índio Wapo estava caçando sozinho e baleou um veado, que saiu correndo na direção do morro do Chato, perseguido pelo caçador. Ao chegar junto ao morro, o veado penetrou-lhe a encosta rochosa. O "dono" dos veados, que era um "cristão", passou a interpelar o índio lá do alto do morro sobre o motivo de sua presença naquele lugar. E acabou por convidar o caçador a penetrar também na pedra e acabar de matar o veado que havia baleado. O caçador entrou. Viu que o interior do morro estava cheio de veados. Havia também uma casa, que era como loja comercial: lá estavam espingardas, tecidos e outras mercadorias. Ali era a casa de Deus, que vinha, de vez em quando, passar algum tempo naquele lugar. O homem que tomava conta dos veados combinou com Wapo para que este voltasse todas as semanas àquele local, a fim de receber pequenos presentes: duas espingardas, na primeira vez; uma panela, na segunda; miçangas, na terceira... No fim de algum tempo, poderia conduzir todos os índios até ali para receberem presentes, os quais não precisariam mais de procurar no Rio de Janeiro. Por ora, entretanto, Wapo deveria guardar segredo e fazer resguardo: não comer carne, farinha, arroz, sal, rapadura; só deveria se alimentar de milho. E o índio voltou à aldeia carregando o veado morto. Porém, não voltou ao morro no dia marcado; atrasou-se e, por isso, não foi recebido pelo "dono" dos veados, quando lá chegou. No caminho de volta para a aldeia, sentiu febre. Ao chegar à casa, contou à mulher tudo o que tinha acontecido e declarou que iria morrer, por não ter chegado ao monte na data combinada. Observou que, se tivesse cumprido o que havia tratado, teria se transformado em "cristão".
Vale a pena observar que Deus, nessa história, onde não sabemos se é identificado com a imagem de Deus que fazem os sertanejos, ou se com o herói mítico Pït, o Sol, é retratado como um fazendeiro e, ao mesmo tempo, como um comerciante: tem um rebanho de veados e possui uma casa cheia de mercadorias. Deus é o sertanejo rico da região onde vivem os craôs. Mas a promessa de dar presentes identifica a Deus e seu ajudante não com um civilizado da área e sim com pessoas que vivem longe das terras indígenas, nas grandes cidades, onde eles vão buscar presentes. Civilizado de longe e de perto se fundem na imagem de Deus: os índios querem a generosidade dos civilizados distantes; mas os presentes que desejam devem ser constituídos pelas mesmas espécies de bens de que dispõem os civilizados próximos. É interessante notar, também, que, nas promessas feitas pelo "dono" dos veados, não há nenhuma palavra de vingança contra os civilizados, como ocorre na mensagem de José Nogueira. A única coisa que se propõe é fazer com que os índios disponham dos mesmos bens dos civilizados por uma intensificação de dádivas que decorreriam de um comportamento paternalista dos civilizados para com os índios [nota 1].
Nota-se, tanto na história de Wapo, que morreu antes que pudesse dar origem a qualquer movimento messiânico, como na mensagem de José Nogueira um ponto em comum: o interesse de conseguir os bens materiais dos civilizados. Não podemos dizer muita coisa sobre a idéia que os craôs fazem da natureza e origem da cultura material dos brancos. Segundo o índio Joaquim, se não fosse Deus, os "cristãos" não saberiam escrever, fazer avião etc. O "cristão" não pensa em Deus, mas este manda todas as coisas para ele. O mesmo informante assegurou uma vez a Vilma Chiara (1961/62, pp. 351-352) que foi Deus, ao sonhar, que descobriu como fazer o avião. Acordou e o fez. Os civilizados, observando Deus a trabalhar, imitaram-no e fizeram um avião ainda maior. José Nogueira se queixou uma vez (C3) de que os civilizados fazem preços muito altos para os índios, mas deviam tudo a "Chuva", que fez todas as coisas, deixando-as aos cuidados de Papam ou Pït (Deus ou Sol). Portanto, os craôs parecem admitir que não foram os civilizados que inventaram suas técnicas; receberam-nas prontas da divindade. Entretanto, utilizando tais técnicas, são eles mesmos que fabricam os artefatos que constituem seus bens.
Por fim, o mito de Auke nos mostra que a tecnologia dos civilizados é superior, fazendo com que sejam mais ricos e poderosos do que os índios. Este mito, que é compartilhado pelos craôs com os demais Timbira, narra a história de um menino, Auke, filho de uma mulher indígena e, segundo certas versões, de uma serpente. O comportamento deste menino, que se transformava em animais ou em pessoas das mais diversas idades, deixa os habitantes da aldeia tão amedrontados que resolvem matá-lo. Depois de algumas tentativas sem resultado, conseguem queimá-lo numa fogueira. No local onde ficaram suas cinzas, os índios encontram pouco depois uma casa de fazenda, cercada de animais domésticos, cheia de mercadorias. Nela estava morando Auke, que faz os índios escolherem entre o arco e a espingarda. Como dão preferência ao primeiro, recebem, com o arco, toda a cultura material indígena; se tivessem optado pela espingarda, teriam também toda a cultura material dos civilizados. Numa outra versão, Auke atrai para dentro de sua casa os índios mais jovens e manda que seus soldados afugentem os mais velhos com tiros de espingarda para o ar. Os índios jovens se transformam também em civilizados.
O mito de Auke, por conseguinte, mostra-nos que a cultura material dos civilizados aparece pronta e juntamente com eles. Ainda indica que os índios perderam a cultura material dos civilizados, porque tentaram matar Auke. Se não o tivessem afastado de sua aldeia, ele lhes ensinaria tudo o que sabia. O mito de Auke tem uma grande importância para o movimento craô: de certa maneira, a atividade messiânica visava corrigir a distribuição de técnicas que fora feita entre índios e civilizados de que esse mito faz menção. O mito é tão importante que mais de um informante, ao fazer seu depoimento sobre o movimento messiânico, resolveu precedê-lo com a narrativa do mito. É verdade que os craôs explicam também o aparecimento dos civilizados através de uma versão modificada do mito de Adão e Eva. Mas deixaremos a análise dos fundamentos mitológicos do messianismo craô para o Capítulo IV.
Em resumo, os craôs, a princípio aliados dos civilizados contra os outros índios da região, foram se sentido cada vez mais indesejados por aqueles, à medida que se tornavam desnecessários para esvaziar de índios o terreno a ser ocupado pelos fazendeiros e seus rebanhos. Desde logo devem ter tentado explicar a existência desse povo tecnologicamente mais adiantado e mais forte com que se defrontavam; por isso, nesse primeiro período de contacto, talvez ainda no século passado, tenha se formado o mito de Auke. Mas a diferença de riqueza entre os craôs e os civilizados ia crescendo aos olhos dos índios à medida que a presença dos sertanejos criava dificuldade aos seus meios de vida tradicionais e também à proporção que o contacto criava novas necessidades. Assim, o decréscimo da quantidade dos animais de caça tornava para eles ainda mais desejável a posse de gado; por outro lado, o uso de tecidos só se inicia em data posterior a 1920; até mais ou menos a mesma data, o consumo de sal devia ser quase nulo entre os índios; esta substância era algo raro mesmo para os sertanejos, que faziam longas viagens para consegui-la. Conforme melhoravam as comunicações com outras áreas e o abastecimento dos próprios sertanejos se tornava mais regular, a diferença de riquezas entre eles e os índios se fez sentir de modo mais enfático. Parece datar daí a história de Wapo, onde o índio quer ter os mesmo bens que os sertanejos ricos, mas recebendo-os de presente. Mas o ataque de 1940 fez sentir aos índios como eram odiados; mesmo depois do massacre e do estabelecimento da proteção governamental, os sertanejos não escondiam a cobiça pelas terras indígenas. Por isso, a mensagem de José Nogueira vai conter não somente os meios para os índios conseguirem as riquezas dos civilizados, mas também pregará a destruição dos sertanejos vizinhos. E mesmo depois que José Nogueira caiu no descrédito, continua entre os craôs a esperança de que seus vizinhos civilizados venham a ser punidos por meios sobrenaturais.
Nota 1 — Um caso semelhante ao de Wapo teria ocorrido com o índio João Delfino, como narramos num outro trabalho (MELATTI, 1967, pp. 137-138).
Ver caso de João Delfino em Índios e Criadores |
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