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Infelizmente nunca cheguei a saber se os craôs, índios timbiras que vivem no norte do Estado do Tocantins e que visitei por sete vezes entre 1962 e 1973, fazem uma classificação de suas narrativas e se atribuem nomes diferentes a cada classe. Seja como for, parece-me que as doze narrativas que apresento aqui diferem, em algumas características, daquelas que Harald Schultz (1950) publicou há meio século como “Lendas dos Índios Krahó”. De fato, em primeiro lugar, elas não contêm nenhum episódio que os membros de nossa própria sociedade poderiam considerar como fabuloso ou sobrenatural: nelas os animais não falam e nem se transformam em seres humanos; estes, por sua vez, não se transformam em animais; os homens não sobem aos céus e seres celestes não descem à terra; os instrumentos não trabalham sozinhos e os objetos rituais não cantam. Em segundo lugar, elas não relatam a origem dos homens, da agricultura, do fogo e nem dos ritos.
Enfim, as narrativas que irei apresentar nada mais são que episódios guerreiros entre habitantes de diferentes aldeias e, às vezes, de diferentes sociedades indígenas. São episódios que, salvo um ou outro exagero, poderiam realmente ter ocorrido. Não poderia dizer que elas constituem fragmentos da história real dos craôs, mas parece que se inspiram num passado realmente vivido. Por outro lado, essas narrativas têm também o aspecto de mito, não só pela repetição de certos temas como pela seqüência padronizada que algumas parecem mais ou menos seguir. São da mesma natureza das estórias de guerra dos índios canelas, que William Crocker (1978) examina num breve e interessante trabalho, sem entretanto transcrever nenhuma das numerosas que colheu.
Essas narrativas complementam os dados que obtive entre os craôs sobre seu sistema de parentesco, as relações entre aldeias e entre tribos e, mais ainda, chamam a atenção para o conflito entre vários tipos de relações a que o indivíduo tem de atender simultaneamente, bem como para certos padrões de comportamento que hoje não mais existem. Enfim, elas nos colocam uma série de questões sobre a sociedade craô. É a explicitação dessas questões que me interessa aqui.
Farei a apresentação de cada narrativa seguida de uma nota de esclarecimento onde exporei detalhes de outras versões bem como darei informações sobre aspectos do sistema social craô necessários à plena inteligibilidade da mesma.
No comentário final tento explicitar o que elas nos ensinam sobre os craôs.
Essas narrativas foram tomadas em português, uma vez que não domino a língua craô. Mesmo assim, a transcrição que faço aqui sofreu modificações, uma vez que substituí termos de uso local e fiz “correções” gramaticais ao português sertanejo dos indígenas. Por umas duas vezes não cheguei a entender minha própria letra no caderno de notas, para o que alerto o leitor, colocando entre parêntesis: “ilegível”. Não raro substituí palavras do informante no momento mesmo em que anotava a narrativa.
Com exceção de uma (o conto 9) as narrativas aqui apresentadas foram publicadas, em tradução para o inglês, na coletânea Folk Literature of the Gê Indians, organizada por Johannes Wilbert e Karin Simoneau (1984, pp. 316-354). No mesmo volume (pp. 354- ) também estão duas das estórias de guerra dos canelas colhidas por William Crocker.
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