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Narrada a Melatti por Pedro Penõ em 20-01-65 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 319-325).
Os apanhãmekra combinaram de acabar com os mã’krare. Tomkaté, pai de Pan e Tut, enganou os mã’krare, convidando-os para aproveitar a comida na aldeia dele, que estava se estragando. Tomkaté foi e disse: “Olhem, eu venho buscar o pessoal para ir todo conosco, porque lá a batata está se estragando, a comida está se estragando; eu venho buscar vocês para aproveitar, senão se perde.” Estava só enganando. Os mã’krare falaram: “É, nós vamos todos. Ninguém vai ficar aqui. Nós temos vontade mesmo, porque aqui a comida é pouca, a gente passa mal.” Hakëtxe, que governava a aldeia, disse: “Agora nós vamos todos; ele veio buscar, não um só, mas todos.”
Quando o dia amanheceu, arrumaram os cofos e saíram todos. Chegaram perto. Tomkaté ia buscar batata, trazia um cofo pequeno e espalhava as batatas para os mã’krare apanharem. Tomkaté se cansou de caminhar e falou para os mã’krare: “Agora vocês mandam uns dois rapazes para trazerem cofo grande, porque eu não estou trazendo muito.” Aí mandaram os dois rapazes. Eles entraram na rua da aldeia com o cofo. Os apanhãmekra viram e disseram: “Vamos matar logo estes, porque vieram?” Aí puxaram borduna e os rapazes largaram os cofos e se foram. Chegaram lá e contaram. Tomkaté, ao ouvir, disse: “Oh, eu vou lá saber.” Mas não foi não: se escondeu e voltou. E falou: “Eu não disse? Isso é brincadeira, eles estão brincando; eu cheguei lá, não tem nada.” Estava só enganando. Aí todo o mundo foi e chegou à aldeia. Mas não lhes deram rancho. E os mã’krare fizeram barracas entre as casas da aldeia. Os apanhãmekra fizeram toras para correr.
Nesse dia Tut e Pan foram entoar uma cantiga na rua. Em cada casa davam três voltas e paravam. Até que chegaram à barraca de um mã’krare. Uma moça quebrou um pau; Tut olhou. A moça o chamou e ele foi. Abraçaram-se e deitaram na cama. O pai de Tut soube e veio falar com ele: “Levanta daí, vá terminar a cantiga e depois você vem.” Tut não respondeu. O pai disse: “É verdade o que eu estou dizendo, vá terminar a cantiga e depois você vem.” Tut não respondia nada. Falou de novo: “É verdade, vá-se embora, vá acabar a cantiga logo.” Tut não respondeu. O pai dele o xingou e foi embora. Depois veio a mãe de Tut, porque que soube que o pai o havia xingado. Ela perguntou: “O que seu pai falou para você?” Tut contou. A mãe ficou zangada. Foi para o centro, derrubou o marido, bateu nele. O marido levantou e disse: “Podem animar, podem animar o movimento, ela está só brincando comigo!” Tut ficou até pelas cinco horas da tarde. Aí saiu de casa e foi com o irmão dele. Quando escureceu, Tut voltou para a casa da moça. Deitou-se e ficou. O pai dele vinha falar com ele e ia embora. Tut conversou com a moça.
De manhã, os mã’krare levaram Tut para o pátio, enfeitaram-no e lhe deram agrado. Tut ficou pa?hi (chefe honorário) dos mã’krare. Tut então não mais se afastava de seu povo mã’krare. Os apanhãmekra não tinham mais jeito de brigar. Tut falava: “Enquanto eu estiver vivo, não podem mexer com o meu povo. Se me matarem, aí podem mexer com o meu povo.” Aí os apanhãmekra não tinham jeito de mexer, porque Tut não se afastava do povo dele. Os apanhãmekra fizeram festa. Os apanhãmekra cortaram toras grandes. Os mã’krare foram para correr com tora. Aí Tomkaté veio encontrar com o filho: “Você vai logo, junte mais seu irmão e vão botar as toras para fora, porque estão dentro do brejo e está ruim.” Tut não quis. Tomkaté sai e volta no meio da estrada: “Saia logo, junte-se com seu irmão e vá tirar as toras de dentro do brejo.”
Tut não respondeu. Até que o pai se cansou e deixou. Todo o mundo chegou ao local das toras. Tomkaté falou: “Nós já chegamos; agora escolham quem corre mais com tora pesada, quem puxa muito, e esse vai pegar uma. Aí Hakëtxe disse: “Eu mesmo é quem vai pegar primeiro.” Levantaram as toras e as puseram nos ombros de Pan e de Hakëtxe. Correram. Hakëtxe já estava passando à frente com a tora e Tomkaté parou, ficou na frente e disse: “Pare, pare, vamos acertar!” E Hakëtxe fica parado com a tora no ombro. Quando acertam as pontas da toras (quando as duas toras estão lado a lado), aí Tomkaté empurra (manda dar continuidade à corrida). Quando Hakëtxe passa à frente, Tomkaté corre e fica na frente. “Pare, eu quero que corram todos iguais, porque assim é feio.” E Hakëtxe pára e espera o outro emparelhar com ele. Tomkaté empurra (manda continuar). Pouco depois, Hakëtxe toma a dianteira e Tomkaté corre e fica na frente: “Pare, pare, está passando o outro, assim é feio!” E Hakëtxe pára. Hakëtxe não está agüentando mais o peso da tora e já se zangou. Aí acertaram as pontas das toras e Tomkaté mandou: “Embora!” Correram, correram, e aí Hakëtxe passou à frente e não mais se importou com Tomkaté. E Hakëtxe foi trocando a tora com os outros.
A rapaziada apanhãmekra estava na estiva, na beira da grota. Reconheceram que não eram seus pais nem seus tios que vinham na frente e desmancharam a estiva. Hakëtxe chegou na beira do ribeirão e viu que não tinha estiva e disse para o povo: “Arredam daí que eu mesmo vou ver se passo.” Deu um pulo e caiu do outro lado e continuou a correr toda a vida. Os outros ficaram para trás. Hakëtxe e seu povo chegaram na frente à aldeia e aí jogaram a tora. Então Tut mandou: “Agora fiquem todos armados, porque meu pai pensa outra coisa. Todo o mundo pegou arco e flecha e ficou de joelho, esperando. Aí os outros chegaram, jogaram a tora no chão, cansados. Não fizeram nada não. Todo o mundo foi se banhar. Depois da festa Tut saiu com o povo dele, foi despachar no meio da estrada e voltou.
Aí Tut chegou e os apanhãmekra estavam pelejando com ele para brigarem com os mã’krare. E ele não queria deixar. Depois de dez anos, o hõpin (amigo formal) de Tut, chamado Pïrïpok, foi pedir a Tut para deixar brigar com os mã’krare, e como não se pode sovianar com o hõpin, Tut deixou. Pïrïpok falou: “Agora, hõpin, você pensa comigo de entregar, esses são nossos inimigos e você não pode sovinar com (deixar de entregar) os nossos inimigos.” Tut falou: “Bom, dou, dou ordem, mas se você não fosse meu hõpin, eu não daria licença.” Então quatro aldeias apanhãmekra se juntaram. Convidaram os mã’krare. Dos mã’krare só foram três aldeias. Ai Tut contou tudo para eles: “Agora é para pegar (brigar) mesmo, não vou esconder não. Podem pegar mesmo, não esmoreçam! Podem pegar de verdade!”
Quando anoiteceu, os apanhãmekra fizeram um grande fogo no centro. A rapaziada dos apanhãmekra levava as raparigas mã’krare e as matava; os mã’krare também estavam matando as raparigas apanhãmekra. Havia muitos mortos em torno da aldeia, Os homens fizeram fogueira. Pan e Tut puxavam os mã’krare para a fogueira. Os apanhãmekra estavam em torno da fogueira. Tut só ia acompanhando o irmão. Era Pan quem puxava. Pan dava a ponta da borduna, o mã’krare puxava a ponta e ia para o centro. Brigavam em duelos, estrangulavam-se e aquele que matava jogava o outro na fogueira. Foram atrás de Hakëtxe. Este era valente. Pan foi dar a borduna para Hakëtxe. Este puxou a borduna com força, quebrou-a e aí pulou logo em cima de Pan. Aí todo mundo se pegou. Um bocado de mã’krare foi com Txórtxó e se escondeu no mato, isto é, num capão. O pai de Tut foi perseguir alguém e caiu num ribeirão e todo mundo pisava em suas costas, isto é, os mã’krare, até que o mataram afogado.
Com Txórtxó só foi rapaziada nova. Txórtxó já não agüentava mais de frio. Os apanhãmekra cercaram o capão onde estava Txórtxó. Era noite. Txórtxó mandou alguém subir numa árvore comprida e reparar. Este viu fogueiras juntas e um espaço vazio entre duas delas. Aí contou para os outros. Eles então caíram n’água e foram devagar naquela direção. Quando alguém fazia barulho na água, os apanhãmekra falavam: “Vai reparar, deve haver algum vivo.” Os mã’krare ficavam quietos. Quem reparava dizia: “Não, estão mortos, são os peixes que estão chupando o sangue de veado.” Ai os mã’krare saíram, ultrapassando o cerco. Quando o dia amanheceu, entraram no outro mato. Caminharam pedaço. Os apanhãmekra gritaram para eles. Mas os mã’krare já estavam no centro do mato e os inimigos não podiam ir atrás. Voltaram. Os mã’krare chegaram à aldeias deles.
E aí foi que Txórtxó foi-se criando devagar. Txórtxó cresceu. E falou com o tio dele: “Agora, meu tio, faça aí uma borduna bem feita, borduna boa.” O tio fez borduna, preparou tudo para ele. Txórtxó já estava homem e ainda estava lembrando e não dizia nada, porque Txórtxó não falava.
Uma vez chegou um apanhãmekra à aldeia dos mã’krare. Fez apito e tocou. Txórtxó mandou o irmão: “Você sai e vai ver quem está chegando.” O irmão de Txórtxó o enganou: “Aquele é seu inimigo, você não presta, você é um garoto, você não faz nada.” Txórtxó só fez escutar: “Deixa estar, que amanhã ele vai direto para aldeia dele.” Quando ia escurecendo, Txórtxó foi para o centro e ficou escutando. Quando acabam de brincar, apanharam esteiras para deitar no centro. Txórtxó viu o lugar onde deitou o apanhãmekra e foi embora. Quando todos estavam dormindo, Txórtxó foi para o pátio com borduna, levantou a esteira, deu-lhe na cabeça três vezes, embrulhou-o e aí foi embora. Quando amanheceu, o pessoal disse: “Vão acordar aquele para ajuntar.” Quando alguém chegou e abriu a esteira, disse: “Não, está morto.” Aí o carregaram, abriram buraco e o jogaram lá.
Passaram uns dias e chegou outro. Aí buzinou. Txórtxó mandou o irmão: “Sai, vê aquela pessoa, quem é.” O irmão: “Ah, esse falou de você, Txórtxó, ele falou de você, disse que você só presta para comer.” Aí Txórtxó responde: “Deixa que amanhã ele vai embora!” Matou o outro de noite. Ninguém soube. Ele ficou calado. Ninguém sabia quem tinha matado. Sepultaram o homem.
Vieram três apanhãmekra. Buzinaram e ele mandou o irmão: “Vá ver quem está chegando.” O irmão disse: “Ah, esse aí falou de você, que você é feio, não vale nada, que não tem força no braço.” O irmão estava só mentindo. Txórtxó falou: “Deixe estar amanhã vão sair todos alegres para a aldeia deles.” Entrou e deitou. Quando era noite, ficou sentado; a rapaziada disse: “Vamos embora deitar.” Viu o lugar onde os três apanhãmekra tinham deitado. Txórtxó conversou, conversou, e foi embora. Quando todos dormiam, ele veio e matou os três, embrulhou-os e foi embora. O dia amanheceu e disseram: “Vão acordar aquele povo para banhar.” Abriram e estavam mortos. Não disseram nada e sepultaram.
Passaram uns dez dias vieram cinco apanhãmekra. Buzinaram. Txórtxó mandou o irmão: “Sai e vê quem vem.” “Vêm cinco, todos falaram de você, que você é menino que não sabe terminar serviço.” “É, deixa.” De noite fez a mesma coisa. Sentando, quando todos dormiram, matou todos os cinco e embrulhou-os com a esteira. Amanheceu e falaram: “Levantem aquele povo, vamos embora banhar.” Mas estavam mortos. E os botaram no buraco.
Aí os mã’krare combinaram: “Mas quem é que está fazendo assim? Agora vamos ver se aparece este matador.” Combinaram fora (na ausência) de Txórtxó e ele não estava sabendo. No outro dia veio um apanhãmekra. Chegou. Txórtxó já tinha matado mais de cem pessoas. O povo disse: “Agora vamos ver esse matador.” Txórtxó fez a mesma coisa: matou e foi embora. Bem cedo ajuntaram no centro, já estavam combinados e não sabiam quem tinha matado. “Quem está fazendo isso venha acabar de matar, deixando o homem sofrer.” Txórtxó pensou: “Como é que está vivo? Eu matei direito, foi com toda a força! Como é que ele levantou?” Puxou a borduna e foi para o centro. Aí todo o mundo viu. Ele destampou e bateu com força na barriga e na testa: “Como é que ele levanta? Está morto!” “Ah, é Txórtxó que está fazendo isso!”
Aí o pessoal conversou com o amigo de Txórtxó para que, quando chegasse outro, levasse para longe. Quando chegou outro apanhãmekra, o amigo (amigo formal?) foi falar com Txórtxó: “Agora você deixa isso, vamos matar lá longe.” Estava só mentindo; eles queriam matar Txórtxó. No outro dia levaram-no para longe. O homem que havia chegado estava cantando. Quando chegava alguém, ele perguntava: “Quem é que vem aí?” Txórtxó chegou com a borduna amarrada no pescoço. O apanhãmekra perguntou: “É ele mesmo que já vem?” “É.” Aí o apanhãmekra cantou remedando Txórtxó. Aí este veio depressa mesmo, no rumo dele. Chegou, rodeou: “Como é que você está dizendo?” E bateu-lhe na cabeça. Acabou de matar o apanhãmekra. Aí os Mãkraré avançaram para Txórtxó e chegaram de flecha, mas ele se desviava e as flechas não pegavam nele; até que as flechas se acabaram. Aí Txórtxó começou a tomar os arcos. Tomou os arcos de todo mundo. Fez um grande feixe de arcos e caminhou para o rumo de casa. Quando chegou, já tinham matado a avó — mãe da mãe — dele. Ele ficou zangado. Pôs os arcos num canto. Sua avó foi enterrada. Ele estava em casa e ninguém entrava nela. Só estava dentro de casa e não saía. Todo pessoal dele estava sem saber de Txortxó. Não tinham arco.
Passaram cinco dias e o pessoal conversou com o amigo — hõpin — dele: “Fala com ele para entregar logo os arcos, para a gente caçar.” O amigo foi. E falou: “Agora, meu amigo, você vai entregar as armas do pessoal, que estão com as mãos limpas e estão achando ruím, tenha a bondade de entregar; eles não fizeram nada com você.” “Está bem. Vou entregar, mas que eles venham amanhã de tarde. Eles são esquecidos. Ainda não faz cem anos, nem trinta anos, que estou lembrando que nadei no riacho, quase morri de frio; mas eles não, são esquecedores, gostam de esquecer; para eles não tem nada, mas para mim tem.” Aí deu aviso: “Você avisa a eles que venham aqui, fazer carreira aqui, pois eu vou entregar, mas não entrego na sua mão não.” “Txórtxo era valente e todo mundo viu que as flechas não pegavam nele e todo mundo ficou com medo dele. O amigo avisou no centro: É para ir tudo, para receber logo os arcos.” Todo mundo fez carreira e aí Txórtxó saiu de borduna no ombro. O povo ficou com medo. E ele disse: “Vocês são esquecidos. Que vocês estão lembrando? Como é que vocês fizeram na aldeia deles? Eles lhe deram de comer? Fizeram bem com vocês? A mim não. Nenhum de vocês parece que está prestando.” Falou a cada um em particular. Estava carrancudo. Todo mundo abaixou a cabeça. Ninguém podia falar com ele, senão ele passava a borduna. Falou para todo mundo. Aí apanhou o feixe de arcos e os desmanchou. Entregou um arco para o dono: “Pega teu arco, mole velho; você é um lagarto que não presta para nada, você já esqueceu que nadou no riacho feito capivara, mole velho.” “Aí pegava outro arco e dizia, falava muito. Deu os arcos para todo mundo, mas falando mesmo. O povo ficou com medo, porque ninguém o pegava com flecha. Entregou todos os arcos e disse: “Ninguém sai; eu vou falar primeiro.” Pegou a borduna outra vez e falava de pertinho, olhando na cara deles; “Agora eu vou falar outra vez; vocês são esquecedores; eu sofri de frio, sofri de fome e não esqueci e vocês me empataram. Se vier outro, vocês não façam nada, senão eu mato na vista de todos. Se alguém me triscar com flecha, eu mato. Vocês são moles, lagartos, comedores de folha.” Aí Txórtxó aquietou. O pessoal foi para o centro. E conversaram: “É, agora não empatamos, não mexemos com ele, porque ninguém o trisca com flecha. Ninguém diga mal dele, senão ele acaba com a gente. Nenhum de nós presta.”
Passou algum tempo e Txórtxó foi para outra aldeia mã’krare, onde estava sua irmã. E disse: “Bem, eu vim aqui para arrumar um arco para caçar, porque eu não tenho arco.” O governador do centro falou: “Nós vamos juntar todos os arcos; se algum servir, você leva.” Todos juntaram os arcos e o chamaram. Ele veio. “Agora você escolha qual é o que lhe serve.” Ele juntou todos os arcos, fez um feixe grande e caminhou. O povo disse: “Eh, não, ele vai levar tudo.” Txórtxó foi embora com os arcos. Todo mundo ficou sem arco. Txórtxó fazia assim. Toda a vez Txórtxó fazia assim. Todo o mundo já sabia como era Txórtxó. Txórtxó era valentão.
Narrada a Melatti por Diniz, em 27-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 326-330).
Tomkaté estava na aldeia dele. Tomkaté foi a outra aldeia para convidar e enganar: foi dizer que havia muita comida (na aldeia dele), que estava se estragando. De tarde, depois da corrida de toras, o povo chamou Tomkaté ao pátio. O Kapẽryõtxuon (“governador”) perguntou a Tomkaté: “Como é? Você não veio aqui? Talvez você queira contar alguma coisa de lá. Que você soube lá?” Então Tomkaté começou a contar: “Não, eu venho avisar o povo daqui, para todo mundo ir lá ajudar a comer o alimento lá, porque só o pessoal de lá não dá conta, senão a comida se estraga: batata, milho, amendoim, inhame.” Ele estava enganando, para todo mundo ir lá, brigar.
O povo combinou de sair. No outro dia todo mundo viajou. E foram indo. Chegaram lá, havia dois filhos de Tomkaté. Um era Pan e outro era Tut. A aldeia enganada chegou à aldeia de Tomkaté. Pan e Tut quebraram talinho de buriti e fizeram bico de jacu. E deram uma volta na rua. Eram corredores forte e valentes. E vinham imitando jacuzinho. Tomkaté estava no pátio e falou com mulheres e homens: “Tenham cuidado, não mexam com esses jacus não, são jacus novinhos, senão os meninos aleijam os jacus.”
Uma mulher da aldeia visitante estava descascando batata para fazer farinha. Apanhou cascas e atirou-as em Tut. Tut e Pan pararam. Tut falou com Pan: “Espere aqui, eu vou saber.” Ele entrou, abraçou a mulher e deitou com ela. Passou algum tempo e Pan chamou: “Vamos embora, vamos terminar.” Mas não responderam. Passou mais um pouco ele chamou de novo. Chamou umas três vezes, mas Tut não respondia. Pan jogou o talinho no chão e foi embora.
Tomkaté chamou Tut: “Vamos ver, Katam, para você terminar sua cantiga com seu irmão.” Mas ele não respondeu nada. Tomkaté disse: “Katam gosta de comer tucunzinho e os dentes apodrecendo; Katam gosta de comer jatobazinho da chapada e os dentes apodrecem.” Tut não respondeu nem saiu. Tut da casa mesmo foi para a fonte com a mulher. E voltou para a mesma casa. A mãe de Tut chegou da roça e alguém lhe falou: “Oh, mas seu marido está xingando seu filho; disse que não saiu para acabar de cantar, que gosta de comer tucum da chapada e os dentes apodrecendo; gosta de comer jatobá da chapada e os dentes apodrecendo.” “A mulher de Tomkaté jogou o cofo em casa e saiu. Foi lá na casa onde Tut estava e perguntou a ele: “Como foi, dizem que seu pai está xingando?” “Foi está me xingando, disse que...” A mulher foi para o pátio, pegou nos cabelos de Tomkaté, derrubou-o e bateu-lhe com as mãos. Quando o largou, Tomkaté só mesmo ria: “Não, eu não disse assim para nosso filho não.” Aí levantou.
O povo de Tomkaté foi para as toras. Toras grandes. E o povo visitante arranchara só numa casa, onde Tut entrou. Então Tut disse: “Agora vocês não vão sair nenhum daqui. Eu também não vou sair não.” De manhã a turma de Tomkaté foi para as toras grandes. E vieram com o irmão de Tut para avisar ao Tut para correr. Tomkaté veio falar com Tut e este disse que não ia.
Tut não foi. Já ficou do lado da aldeia visitante. Havia uma estivinha no caminho para as toras. Tut foi guiando o povo da outra aldeia. Chegou lá com a turma e Tomkaté disse: “Agora você vai pegar tora com seu irmão, não quero que seja com outro.” Arribaram (levantaram) as toras, pondo-as nos ombros de Tut e Pan. Tomkaté começou a acertar as pontas das toras. Começaram a correr. Tut deixou Pan. Os menino da aldeia de Tomkaté estavam de arco; estavam na passagem da estiva. Tomkaté deu conselhos para os meninos: “Se a parte de Tut vem na frente, vocês desmancham a estiva; se nossa parte vem na frente, vocês não desmancham não.” O partido de Tut foi na frente. Tut pegou a tora e saltou a estiva e ficou do outro lado. E chegou à aldeia, ao pátio. De manhã Tut levou os visitantes para despachá-los, porque seu pai só enganava.
Passaram-se três anos e Tomkaté foi lá na outra aldeia outra vez. Eles já tinham se esquecido. Saiu para o pátio e lhe perguntaram e ele respondeu: “Eu só vim avisar vocês para me ajudarem a comer batata, milho, inhame, senão vão apodrecer.” Aí arrumaram as coisas para viajar e comer (ou caíram, ilegível) na estrada. Foram indo, com filhos miudinhos, saíram todos. Ficaram com fome, porque demoraram na estrada. Os meninos já estavam com fome. Tomkaté falou: “Vocês estão com fome?” “Estamos.” Então vocês tiram dois rapazes para buscar batata lá; lá eles dão meu recado, ajuntam (batatas) em todas as casas e vêm trazer.” O povo tirou dois rapazes e eles foram para a aldeia. Chegaram lá, na primeira casa. O povo da aldeia viu os dois rapazes e apanharam cacete para matá-los. Alguém não deixou. Os dois rapazes viram e voltaram logo. Foram encontrar outra vez com os viajantes. Lá lhes perguntaram se tinham arrumado as batatas. Os dois rapazes contaram o que tinha acontecido: “Quando chegamos à primeira casa, um homem pegou o cacete para matar a gente e outro não deixou e o primeiro disse que não gostava de ver o povo de cá; e então voltamos de mãos vazias.” Tomkaté falou: “Mas que povo é esse, povo ignorante! Eu mesmo vou lá.” Tomkaté foi lá. E só arrumou batatinhas miúdas, só raiz mesmo. Encontrou os visitantes e falou: “A conversa não é assim não; estão apenas brincando.” Começou a dividir as batatinhas miudinhas. Pegava (as batatas) com as mãos e jogava para a meninada, dizendo: “Pi, pi, pi, pi, pi! Pi, pi, pi, pi, pi! Coitadas dessas emas, os pintinhos das emas já vêm com fome.” Os meninos iam catando as batatas no capim. Acabou de dividir e foi (foram) para a aldeia.
Chegaram lá e já havia palha de bacaba. Cercaram o pátio no meio, de modo que os visitantes ficassem apenas de um lado da cerca. O povo de Tomkaté fez fogueira grande. Começaram a cantar. Katutkhë andava com a turma dele. Murék também. Katutkhë e Murék eram visitantes. Tomkaté cantava, cantava, pegava o povo de Katutkhë e Murék para ficar no meio do pessoal dele para serem mais facilmente dominados quando chegasse a hora. O povo de Tomkaté apanhava as mulheres escondido, levava para trás das casas, copulava e depois matava. E mataram muitas mulheres. O povo de Murék e Katutkhë soube. E começaram a fazer o mesmo com mulheres do povo de Tomkaté. Atrás das casas só havia mulher morta. E Tomkaté cantava, pegando os homens devagar e pondo no meio dos seus. Mas primeiramente havia muito índio. Os craôs eram muitos. Já chegava a madrugada. As mulheres da turma de Murék e Katutkhë estavam arranchadas no pátio. Murék pensava: “Venha cá, venha cá me pegar, você está pegando outro besta.” Aí Tomkaté já vinha atrás de Murék. E vinha cantando:
Vinha mostrando o pauzinho, pau-roxo, chamado kruatxa, do tempo que a gente usava para a guerra. Murék pegou o kruatxa do cantador da aldeia de Tomkaté, quebrou e jogou e começou a brigar. Gritando: ah! ah! pa! pa! pa! (pa é para avançar).
Naquele tempo Txórtxó era ainda menino mole, ou ainda grandinho. A mãe de Txórtxó era rapariga. Já tinham matado muitos homens de Murék. Estavam brigando até de noite. O povo de Murék entrou num capão, na beira do ribeirão. O povo de Tomkaté cercou. E fizeram fogueira em volta para que eles não escapassem de noite e falaram: “Só quando o dia clarear nós vamos dar neste caititu!” O povo que entrou no capão andava com Txórtxó. Um dos rapazes subiu numa árvore e viu as fogueiras: “Nós não vamos sair de jeito nenhum; nós vamos é morrer.” “Não, nós vamos caçar meio, é só aqui no ribeirão; nós vamos sair bem aqui no ribeirão.” Deram a volta e caíram no ribeirão e foram devagar. Havia muita gente morta dentro d’água. Quando a água mexia, o povo de Tomkaté escutava e dizia: “Acende fogo!” Quando acendiam fogo, os fugitivos paravam, deitavam e ninguém via nada. Então os de Tomkaté diziam: “Não é nada não, isto é peixe que está mergulhando por causa do sangue da capivara.” Foram devagar. Se mexiam (a água) outra vez, (os de Tomkaté) tornavam a acender fogo. Foram devagar e passaram. E viajaram todo o tempo na água do ribeirão até subir. Pegaram a chapada e descambaram para outro mato grande. Quando foi de manhã, o povo de Tomkaté foi acabar de matar o resto. Repararam no capão e não viram nada, só trilha (rastro) e deixaram de ir atrás.
A avó de Txórtxó sempre contava (esse acontecimento) para ele. Ele ficou grande. “Vamos tomar banho, Txórtxó, para você crescer logo, enquanto estou viva”, dizia a avó. E Txórtxó cresceu logo. Banhava todo o dia de manhã. Ficou homem refeito. Outro lhe fez borduna. Quando gente de Tomkaté visita a aldeia, de noite Txórtxó levanta a esteira mata visitante e torna a cobri-lo com a esteira. E assim matou muitos. Quando o pessoal da aldeia perguntava: “Quem matou este homem?” Txórtxó ficava calado. E já tinha matado muitos. O último ele matou assim também. Alguém resolveu descobrir. E disse: “Quem matou? Venha acabar de matar porque está vivo ainda!” Aí Txórtxó apanhou a borduna e veio acabar de matar, mas o homem já estava morto, duro. Cutucou com a ponta da borduna: “Quem está mentindo assim? Já está morto.” E aí ficaram sabendo.
Resolvi transcrever as duas versões que tomei, desta narrativa, porque certos episódios que estão mais desenvolvidos em uma não estão na outra e vice-versa.
Convém notar a preocupação de herói Txórtxó em tomar banho freqüentemente para poder crescer depressa e vingar as mortes que os inimigos haviam infringido a sua aldeia. Isso lembra dois dos ritos de reclusão dos craôs, o Khetwaye e o Ikhréré (este já desaparecido) em que os jovens são molhados com freqüência para crescerem depressa.
A tentativa dos habitantes da aldeia de matarem Txórtxó, embora incompreensível a primeira vista, pois Txórtxó estava se vingando dos inimigos da aldeia, parece ter uma explicação. Como Txórtxó escondia as mortes que fazia, quando o normal seria ufanar-se delas, esse comportamento anômalo amedrontava os habitantes da aldeia. Além disso, para esconder sua responsabilidade, ele por certo não observava as restrições a que estava sujeito o homicida.
Txórtxó matava os inimigos que dormiam na praça da aldeia. Entre os timbiras, os rapazes solteiros, os homens viúvos, divorciados ou em resguardo, dormem na praça da aldeia, ao relento, sobre uma esteira, cobertos com um pano, aquecidos por fogueiras e protegidos de ventos por toras de corrida já utilizadas. Antigamente, ao invés de pano, cobriam-se com outra esteira. Os visitantes do sexo masculino, não acompanhados de mulheres, também dormem na praça.
No episódio da corrida de toras ocorre a demolição de uma estiva. Na área em que vivem os craôs chama-se de “estiva” a uma calçada de madeira colocada sobre áreas de terra amolecida, ou então a pontes de madeira cobertas com terra. Nessa corrida de toras, a insistência de Tomkaté em manter os corredores rivais emparelhados não correspondia às regras a serem observadas nas corridas de toras.
Tomkaté, ao insultar seu filho Tut, chama-o de Katam. Os nomes timbiras são constituídos de uma série de palavras. Provavelmente Tut e Katam pertenciam ao mesmo nome.
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