Conto 11

Hipé

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Narrada a Melatti por Daniel (Pãnhi) em 27-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 352-353).

Na aldeia velha. Cindiu-se em duas para que cada uma caçasse de um lado, os meninos não podendo atravessar para o outro lado. O filho de Hipé se esqueceu e atravessou a linha. Pãnhi flechou o filho de Hipé. O menino correu e caiu; morreu. Os meninos pegaram o filho de Hipé e levaram para a aldeia. Lá puseram na sepultura. Hipé chorava o menino e juntava flechas e as emplumava. Terminou de emplumar e avisou a seu povo, dizendo para ir atrás dos que tinham matado seu filho. Iam dar uma briga boa mesmo por lá, porque Hipé tinha muita pena do menino.

Hipé levou a turma, chegou perto da aldeia, gritando para avisá-los. Os que estavam na aldeia foram para lá. Viram e pararam. E começaram a chamar os outros da aldeia para se juntarem a eles. A turma atacante fez três filas e os da aldeia também fizeram três filas. Duas filas estavam brigando com duas filas. A do meio ainda esperava Hipé. Hipé estava perguntando quem tinha matado seu filho. O que matou não queria dizer. Os outros o incentivavam a dizer, porque ele não estava sozinho, estava protegido. Ele falou: “Sou eu, mas não foi (de flecha) de ponta não, foi sem ponta.” Estava enganando. “Bom, você não é igual a meu menino, porque você é muito feio, meu menino era mais bonito do que você.” Hipé deixou as flechas e levou só mesmo o arco, avançando para Pãnhi. Este estava atirando flechas, mas elas não pegavam em Hipé e este se aproximou cada vez mais e derrubou Pãnhi. Os da turma de Pãnhi espetaram Hipé com as pontas de seus arcos.

Krorentó, da turma de Pãnhi, flechou um outro, que estava com hókho (grande penacho), e pegou-lhe o rastro e foi atrás, descendo para o ribeirão. Krorentó queria lhe tomar o hókho. Quando ele desceu para o ribeirão, Krorentó ficou com cuidado. O flechado jogou água sobre a terra para enganar que tinha saído por ali, e voltou e subiu. Krorentó reparou e viu a água, mas não se enganou. E viu sangue no rastro. O flechado estava perto de morrer. O flechado apanhou um pau-puba (pau podre), pois já não estava enxergando bem. Entrou nas folhas de bananeira brava e ficou esperando Krorentó para matá-lo. Krorentó, rastejando, dizia: “Lá vai rastro, andou foi aqui, lá vai rastro.” O flechado bateu com o pau na cara de Krorentó, mas não foi com força. E foi andando, já se arrastando. Krorentó se levantou. O outro estava de pé, já não via mais. Krorentó acabou de matar o homem e apanhou o hókho. E então foi para a aldeia. E falou com as cunhãs para juntar lenha para pôr o Hipé no fogo. A turma de Hipé não queria deixar queimá-lo e o tomou.

Uma cunhã estava fora da aldeia, defecando. A cunhã falou: “Chega, chega, minha gente, o povo já vem chegando.” O povo chegou nas casas e só havia cunhãs. “Como nós vamos fazer? Vamos matar as cunhãs porque a gente nasce (ilegível) das cunhãs.” E mataram as cunhãs e crianças, apanhando o que havia nas casas.

Aí já era quase boca da noite. Um menino pequeno, chamado Wako, falava com a avó: “Oh vovó, vamos embora, porque eu não agüento de fome.” A avó lhe dizia para esperar, para deixar o povo se afastar. A turma de Hipé levou seu corpo para não acabar no fogo. Um homem olhava a turma de um morro: “Olhe lá, já vai um bocado de péture (uma espécie de formiga).” Disse ao outro para não ir pela estrada. A turma de Hipé desconfiou que havia gente e pararam de cantar. Foram calados e encontraram com esse povo. Aí brigaram de flecha, já de noite. E foram embora. Chegaram na aldeia de Hipé e puseram seu corpo na sepultura.

Esclarecimentos

O seu final é bastante confuso. Mas o princípio é bastante interessante, sobretudo porque as duas aldeias que lutam parecem ter tido origem numa só e se terem separado devido a uma luta entre duas facções que perdura mesmo depois da separação.

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