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Narrada a Melatti por Diniz em 26-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 316-318).
Txuaret reuniu três aldeias para atacar uma aldeia (talvez dos mã’krare). E vinham vindo. Arrancharam a uma distância como daqui no varedão (área de chão úmido e fofo, perto da aldeia de Cachoeira, da qual o narrador é chefe).
Um índio dessa aldeia andava caçando veado. Os veados só corriam para o canto (área apertada entre morros). Ele desconfiou. Chegou no alto e viu fumaça. E viu barracas: eram muitas. Ele correu para avisar à aldeia. E veio gritando e o povo ajuntou no pátio. O “governador” lhe perguntou: “O que você viu? Será porco, será índio?” “Eu vi índio mesmo, é inimigo, vem atacar a aldeia, lá naquela cabeceira.” Dois rapazes disseram: “É conversa, ele viu foi porco queixada.” Aí ele se danou e voltou, foi para a casa. Os outros disseram: “Deixe ele contar primeiro!” Seu “compadre” (hõpin) pediu para o chamar. E ele veio comendo batata na cuia na direção do pátio. Quando chegou, perguntaram-lhe: “Como é, você viu mesmo? Porque seu hõpin está chamando você para contar a verdade, para a gente ficar sabendo.” “Não, não é porco não, é gente mesmo que vem atacar a aldeia.” Outro rapaz disse: “Eu estava duvidando, mas vou lá para ver.” E pôs o arco no ombro e correu. Foi lá, viu e voltou: “Não, não é mentira dele não, é certo, eu vi!” Dois rapazes foram ver lá perto também. E correram. Viram e voltaram. E contaram: “Não é mentira dele não, é certo, eu vi!” E outro foi ver também.
E na aldeia mesmo combinaram: “Como vamos fazer?” Os mais novos falaram com os mais velhos: “É este povo que gosta de atacar esta aldeia e aproveitar batata, inhame e comida daqui mesmo, porque lá não trabalha, vem só atacar a aldeia daqui para agüentar.” “Como vamos fazer, para não correr daqui?” Os mais novos disseram: “Vamos fazer assim: não podemos topar aqui na aldeia; vamos encontrá-los lá onde estão arranchados.” “É, assim está bom.” O “governador” falou: “E vamos escolher quem é mais alto e mais grosso para nós empenarmos (emplumarmos) e para nós não corrermos. Se nós não emplumarmos outro, nós vamos correr e estragar o de comer.” O “governador” falou: “Assim está bom.” E viram homem forte, alto e grosso e o emplumaram. E foram saindo lá para o rumo de Txuaret. Então foram andando. Já era tarde. Foram devagar. Já de tardinha andavam.
Um dos do povo de Txuaret estava caçando e estava escavando toca de tatu no meio da estrada. O povo o viu e disse: “Outro está tirando tatu daqui, vamos ver.” A arara preta dava volta por cima daquele que estava escavando buraco de tatu. O povo foi andando para o rumo de Txuaret e pegou um coco e jogou por cima do homem que estava escavando tatu. O homem pegou o coco e falou para as araras: “Segura com o bico; você está apanhando com o bico e está soltando aqui, segura com o bico. Se você soltar aí no meio, aí dá na minha cabeça.” O povo ficou quieto, tornou a dar a volta e jogou outro coco. O homem falou a mesma coisa. E o povo foi andando. O homem largou o tatu e foi andando atrás. Aí enxergou o povo por trás. E passou a andar ligeiro, dando a volta na moita. Todo o mundo caiu (se jogou no chão) na beira da estrada. O homem ficou sem saber para onde o povo tinha ido e falou: “E para onde esse povo foi?” E o povo na beira da estrada escutando.
Aí o homem chegou lá e contou para o povo de Txuaret. Foi ao pátio. “Eu estava cavando tatu, vim andando e vi quatro ou cinco andando na minha frente; já estava escurecendo e quando entraram por trás da moita não os vi mais.” E disseram: “Talvez o povo da aldeia já esteja sabendo.”
De noite o povo chegou perto do acampamento. Fizeram cama para deitar. E a rapaziada dava volta em torno do acampamento. E toda hora o contornavam. De madrugada, Txuaret estava cantando e na sua própria cantiga dizia para o povo que cercava o acampamento: “Oh inimigo, não avexe (se apresse) não, deixa o sol sair para ficar claro, para você me pegar de uma vez; agora está escuro, deixa para amanhã.” O povo percebeu que Txuaret já estava sabendo. Quando a noite passou, aí o povo gritou para o acampamento o grito de guerra. Aí o povo de Txuaret saiu todo na direção do grito. O povo já tinha feito fila. O povo de Txuaret também fez. Txuaret disse para a mulher: “Agora você quebra um carvão para eu passar no corpo.” A mulher quebrou carvão e Txuaret o passou na boca e no tronco, um risco vertical. Pegou seus enfeites, de pescoço, de penas e outros. O índio valente tem muito enfeite, porque acostumado a matar os outros. A mulher dele disse: “Como é? Você não vai deixar nenhum enfeite?” “Não, não posso deixar, porque hoje eu estou com o corpo mole; não sei se volto. Eu levo tudo.” E levou todos os enfeites.
Quando chegou lá, começaram a brigar. E as flechas se cruzavam. O povo da aldeia (que tinha emplumado o homem) falou: “Agora vamos fazer assim: vamos todo o mundo jogar flechas na cara; um magote joga no peito e um magote joga nas pernas; às vezes dá de pegar.” Um índio que sabia matar macaco lá em cima no olho do pau rasgou pela metade as penas da flecha e mandou o povo fazer assim. Aí um bocado foi na cara, um bocado no peito e um bocado nas pernas. Txuaret estava reparando as flechas e aí atiraram uma última (do homem que matava macaco). Txuaret se virou e a flecha bateu-lhe nas costas. Txuaret caiu no meio de seu povo. O mais valente morreu e o povo dele não mais valeu para nada. O povo (que havia emplumado o homem) matou quase tudo; alguns fugiram. Foram às barracas e mataram quase todas as mulheres. O povo de Txuaret o levou para sua barraca e lá fez sepultura, mas fez rasa, porque estava com medo. Txuaret gostava de espantar a aldeia para pegar a comida, mas dessa vez a rapaziada da aldeia não deixou.
Os índios craôs, como outros timbiras (Nimuendajú, 1946, pp. 97-100; 1956, pp. 16-17) dispõem da instituição da chefia honorária. Quando uma aldeia quer estabelecer boas relações com outra, escolhe um habitante desta e o faz chefe honorário. A cerimônia de investidura do chefe honorário consiste em dar-lhe um banho no ribeirão, depois do que não toca mais os pés no chão, sendo conduzido ao pátio da aldeia nos ombros de seus habitantes. Aí é colocado de pé sobre uma esteira; passam-lhe sobre o corpo resina de almécega, cobrindo-o em seguida com uma camada de penugem de aves. Uma vez emplumado e pintado, dá uma volta pelo caminho circular da aldeia nos ombros dos seus habitantes, que o aclamam, sendo levado novamente ao pátio, onde lhe oferecem presentes. Daí por diante, o chefe honorário sempre receberá presentes quando visitar esta aldeia. Os habitantes desta encontrarão abrigo na sua casa quando visitarem a aldeia onde mora. O chefe honorário é sempre escolhido entre os homens ou mulheres que defendem os interesses da outra aldeia dentro de sua própria aldeia, ou entre os filhos e filhas desses homens e mulheres. Geralmente, as mulheres escolhem um homem para chefe honorário, e os homens escolhem uma mulher. Mas um mesmo indivíduo pode ser escolhido por habitantes dos dois sexos. Nessa narrativa, os habitantes da aldeia ameaçada resolvem emplumar um homem. Uma informação adicional diz que isso era para fazê-lo pa?hi, pois assim não poderiam deixá-lo nas mãos do inimigo e fugir; o pa?hi foi junto com eles, mas não lutou. Ora, pa?hi é o nome que se dá ao chefe de aldeia e ao chefe honorário. Por conseguinte, esse homem era um chefe honorário. Mas seria um habitante da própria aldeia ou seria de outra? A narrativa nada diz. É interessante, de qualquer modo, esse episódio, que mostra o uso de uma instituição para se obter uma outra finalidade diferente daquela a que normalmente se destina: não fugir diante do inimigo.
Aliás, vemos também a manipulação de uma outra instituição: fazer referência a um desejo ou pedido do amigo formal, para se obter de uma pessoa o que se quer.
A narrativa ainda é interessante pela descrição de certas técnicas de combate.
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