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Narrada a Melatti provavelmente por Esteves em 15-11-63.
Antigamente já havia cristãos perto. Os craôs estavam no Wokrã (morro do Chapéu). O capitão dos craôs se chamava Inajá. Os gaviões (pucobiês) vieram atacar a aldeia. Atravessaram o rio onde havia estreito. Havia festa de Khetwaye e (os craôs) saíram para a caçada. Antigamente havia partido do Mehim (índio). Os chefes do partido eram Hóupï, Hepói, Apïhi. Havia dois pucobiês na aldeia. Foram junto com os três. De manhã o cachorro pegou bezerro e mataram. Os dois pucobiês estavam reparando a estrada, subiram em num morrinho e enxergaram as casas dos outros pucobiês. Um deles falou: “Vamos, porque nosso povo está lá.” “Não, não vamos não, nós já estamos aqui há muito tempo, há dez anos, nosso povo pode não nos conhecer e nós só ganhamos borduna.” Aí voltaram. Chegaram e contaram tudo. Mas os três não se importaram. Mataram, pois, o bezerro. Resolveram caçar três dias. Um bocado de velhos tinham ido com eles. Os três falaram: “Agora esses velhos vão fazer moquém, paparuto com este bezerro.” Os pucobiês já vinham tomando a estrada, gritando. E os craôs não estavam sabendo. Os três chefes dividiram-se. Mataram o povo de Hepói e de Houpï. Metiam o arco no ânus e saía pela goela. Só os velhos, que estavam fazendo moquém, escaparam.
Um índio escapou, porque se escondeu. Uma perdiz caminhava na chapada e Apïhi queria matar. Aí o rapaz chegou: “Iwawï (marido da irmã), você não está sabendo que os gaviões mataram todo o nosso povo e só eu escapei?” “É verdade mesmo?” Aí Apïhi se zangou: “Bem, vamos chegar aos velhos e depois eu quero morrer também.” Os velhos estavam só chorando com pena do povo. Aí Apïhi falou: “Vamos todos embora, vocês me dão licença, vamos todos embora, nós vamos morrer também, eu não quero voltar. Os velhos seguraram Apïhi para não ir. Aí Apïhi se zangou. Não quis paparuto, nem comida: “Eu não quero passar a noite aqui não. Eu vou embora.” Apanhou o arco e foi embora. Voltaram para a aldeia (sem Apuhi?). Acabaram a festa de Khetwaye.
Os pucobiês tornaram a voltar. Mas flecharam e mataram um bocado de gado de kupẽ (civilizado). Os vaqueiros apanharam o gado e botaram no curral e tiraram flecha de gavião e mandaram um vaqueiro: “Você dá recado para o capitão vir hoje aqui para conversar.” O vaqueiro deu o recado. O patrão tinha guardado a flecha de pucobiê. “Seu capitão, foi o povo de você que flechou meu gado?” “Deixe-me ver a flecha.” O patrão mostrou. O capitão tinha arco e flecha. “Não, não é flecha nossa não; é flecha de gavião; olhe, minha flecha é esta, ela é de canajuba; agora, a flecha de gavião é de canabrava.” “Como é que nós fazemos, capitão Inajá?” “Você avisa ao povo de vocês, eu vou avisar a outra aldeia e vamos acabar com os gaviões.” “Bem, eu espero, vou fazer duas matutagens (matalotagens) para você e duas para meu povo.” “Não, eu venho, eu quero pagamento de meu primo, de meu filho.”
E o capitão Inajá contou na aldeia. E mandou avisar à outra aldeia de mã’krare (há mã’krare e kenpo’krare). Avisou à outra aldeia. Chegaram de noite. Antigamente era muito índio mesmo. De manhã cedo foram para a casa de kupẽ. Já estavam esperando quatro matutagens: duas para os kupẽ e duas para o capitão Inajá. Cortaram toras perto da casa do fazendeiro, e correram com elas até ela, jogando as toras no terreiro. Na casa se ajuntaram um bocado de cristãos. Antigamente era espingarda de negócio de fuzil. Um vaqueiro foi ver os gaviões: estavam moqueando gado. O vaqueiro voltou e avisou. De tarde o povo apanhou lenha e cantou baixinho. As moças cantaram também. Aí comeram carne, farinha, para agüentar, porque nenhum ia dormir; se alguém dormisse e sonhasse, iria morrer logo, com flecha. Se sonhar com cipó, corda, qualquer linha, morre.
De manhã mandaram o vaqueiro. Os gaviões quase matavam o vaqueiro. Naquele tempo os índios não comiam sal e corriam demais por causa disso. O povo de Inajá deitou no chão, esperando os gaviões. Tocaram buzina e os gaviões voltaram e entraram onde estavam arranchados, num capãozinho. Um partido ficou e o outro partido foi e cercou os gaviões na mata, e os kupẽ misturaram. Os gaviões estavam no capão. O outro partido acompanhou, atrás, e ajudou a cercá-los. O capitão falou com o homem (civilizado): “Você que tem arma de fogo, vá na frente.” O capitão perguntou: “Quem é?” E gritou: “Pïrïpok, você acompanhou o pessoal dos pucobiês, então vem logo, senão você morre.” Pïrïpok era craô e tinha se casado com mulher gavião. Os gaviões só batiam com as flechas. “Bom, você está batendo só arco e flechas; até de manhã você vai levar muita carne para a mulher; hoje nós trocamos mesmo flechas e balas.” E os pucobiês estavam roçando para atirar flechas. E kupẽ foi atirar primeiro e pucobiê flechou e morreu. O patrão só brigou de boca com o povo dele. Ele amarrou com um pano branco de ... (ilegível) para amarrar na cabeça para ficar sabendo e os kupẽ, também amarraram. O patrão tomou as espingardas e deu para os índios: “Capitão Inajá, pega; meu povo não sabe brigar, você mesmo que vai atirar.” Agora os kupẽ estavam só mesmo de facão. E atiraram, carregaram, atiraram, carregaram. Os arcos e flechas já estavam estragados de tiro. Aí o povo de Inajá furou Pïrïpok no ânus. Os craôs já entravam no mato e os gaviões estavam correndo para o cerrado. Os Pikóbye corriam entre duas filas de inimigos. “Meu povo pega o gavião e você mata com faca.” Só escaparam um bocado que entraram num oco de pau.
Os craôs que não mataram nenhum, tiraram os hókho. E o gavião que se escondeu de noite levou os hókho. “Eu deixei aqui, talvez outro tenha escapado, apanha na estrada e vai levar.” Diz-se que esses craôs constituíam só duas aldeias. Diz-se que os gaviões moravam do outro lado do Tocantins e atravessavam o estreito para brigar. Mas os apinajés correram com eles e moram deste lado. De manhã foram reparar. Os pucobiês já estavam correndo na chapada. Apïhi novo pegou outro gavião e ele parou. O gavião já era maduro. Experimentou os braços. Aí brigaram. O pucobiê derrubou Apïhi; este se levantou e derrubou o pucobiê. O pucobiê mordeu Apïhi na coxa e este o mordeu no braço, e gritaram. Apïhi pediu socorro. Os outros vieram. Apïhi já estava chorando, mas o pucobiê não chorou não, já era maduro. Quebraram as pernas do gavião e o mataram.
Os craôs contaram os craôs (ou gaviões?) mortos e as mulheres vieram pisar os corpos; ficaram alegres porque já tinham pagamento dos parentes, os gaviões já estavam mortos. E os cristãos viram Pïrïpok caminhando abaixado. E perceberam que era Pïrïpok. Estava enganando. “Como chama você?” Mataram Pïrïpok. Era craô, mas tinha passado para os gaviões.
Em 07-03-71, o mesmo narrador contou a mesma história, mas com menos detalhes e sem toda a parte inicial.
Essa narrativa bem reflete o tipo de relação que os craôs mantiveram com os brancos no passado (Melatti, 1967, pp. 32-43): auxiliavam os civilizados na luta contra os outros índios, embora eles próprios também abatessem reses pertencentes àqueles. Veja-se, por exemplo, que logo no início da narrativa um grupo de índios craôs sai para a caçada e mata um bezerro; no entanto, vão ajudar um fazendeiro contra os gaviões, que faziam o mesmo com o gado deste. É interessante notar também que o fazendeiro induz os craôs a pegarem as espingardas para matarem os gaviões, eximindo-se e a seus subordinados dessa responsabilidade.
O fazendeiro dá duas matutagens aos indígenas. “Matutagem” é uma corruptela de “matalotagem”; é o gado abatido para o consumo do vaqueiro. Os craôs chamam de “matutagem” a toda rês que lhes é oferecida para consumo.
Na segunda vez que Esteves me fez essa narrativa, deu o nome do capitão da outra aldeia craô: Pirika. Deu também o nome do pucobiê que conseguiu fugir: Wakõré. Disse ainda que a expedição craô que foi ajudar ao fazendeiro levava só uma mulher, para cantar junto ao fogo; chamava-se Parakhwoi.
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