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Narrada a Melatti por Diniz em 18-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 350-351).
O povo pôs os meninos no ikhréré. Já haviam passado um ou dois anos. Todos os meninos já estavam grandes. E havia flechas nas casas. Saíram para o mato para terminar o Ikhréré.
Ficaram só as mulheres.
Passaram uns dias e os pucobiês vieram para atacar a aldeia. Um aleijadinho fêz um pau do jeito de cabeça de ema. Emplumou o pescoço da cabeça de ema e andava roncando feito ema. Um rapaz chamado Wap’txire era magro e corria muito. Wap’txire disse para a avó: “Tïré, abra um pouco a parede para eu ver essa ema.” Ela abriu e ele enxergou. E disse: “Tïré, isso não é ema não, é gente mesmo.” O aleijadinho disse aos outros que não tinha visto homens; só mulheres e ikhréré.
Quando foi de noite, os pucobiês foram lá e perguntaram: “Que dê seus pais e os homens, para onde andam?” “No mato.” “Quando chegam?” “Não sei.” “Amanhã, tire linha de arco, ponha no sangrador (pescoço?), só para seu amigo.” Aí o rapaz disse: “Não, amanhã você pode vir.” “Que dê Wap’txire?” “Já morreu, de cobra.” E outro chegou a outra casa e perguntou: “Que dê Wap’txire?” “Já morreu, doente, pau caiu por cima e matou.” “Então amanhã eu pego no seu cabelo, para não ter mais confusão.”
E assim foram falando em todas as casas. Aí o ikrãrikate do Ikhréré foi ao outro e disse: “Como é, ikhïonõ, vamos esperar o que? Gente grande já saiu para o mato; vamos procurar o jeito para não deixar esse povo matar nós todos.” Ajuntaram todos os ikhréré. Saíram para o pátio. As cunhãs, os velhos, ficaram com medo. Wap’txire disse: “Velhos, não chorem, vocês não vão acabar não. Enquanto estou aqui, eu fico na frente.”
E quando foi de manhã, os pucobiês fizeram fila com feixe de flechas. O povo do ikhréré também fez fila. Wap’txire recomendou que não jogassem flechas, pois primeiramente iria ver o inimigo. Wap’txire foi correndo e assobiando como os gaviões. Os pucobiês disseram: “Este gavião não é gaviãozinho não; é gavião-real.” Aí Wap’txire disse que podiam jogar flechas. Wap’txire pegava os pucobiês com a mão e os jogava para os outros os matarem. Não mataram nenhum ikhréré. Só os pucobiês que morreram bastante. Aí disseram: “Este não é outra pessoa não: é Wap’txire mesmo.” O resto dos pucobiês saiu. Lá mesmo os ikrãrikate combinavam um com o outro: “Vamos ficar nestas casas ou vamos nos mudar?” “É o jeito, porque aqui há muita carniça perto.”
O txïkate já vinha do mato. Viu urubus. Depois viu flechas fincadas. Pensou: “Talvez outra nação tenha dado na rapaziada e matou tudo.” Aí deu no rastro e foi para a aldeia nova. Tocou o pïriakhë. Reuniram-se no pátio. O txïkate era velho.
Os ikhréré derrubaram o txïkate — um de cada vez. Estavam zangados com ele, porque não ajudara a brigar. Aí o txïkate voltou e contou. Aí (os homens) voltaram para a aldeia nova.
Os jovens que ficam reclusos em quartos de palha dentro da casa materna durante o rito do Ikhréré têm dois chefes, que são denominados ikrãrikate. Os dois ikrãrikate se chamam mutuamente de ikhïonõ. Não fica claro na narrativa se o jovem Wap’txire era um dos ikrãrikate. De qualquer modo, era alguém temido pelos inimigos, antes talvez de ser considerado um adulto no sentido pleno da palavra, pois estava recluso no ikhréré. Convém notar que os jovens timbiras passam mais de uma vez pelo mesmo rito de reclusão; e o Ikhréré é apenas um deles. Um jovem craô atual só deixa de estar sujeito aos ritos de reclusão quando lhe nasce o primeiro filho. Os jovens reclusos nesse rito são também chamados de ikhréré. Os craôs atuais não mais realizam o Ikhréré.
O txïkate é uma espécie de mensageiro. Esse termo é composto do elemento txï, que vem a ser um cinto tecido em algodão, com uma série de pendentes guarnecidos com sementes de tiririca, cada um terminado com uma ponta de cabaça. O mensageiro usa esse cinto na cintura; ele avisa a aldeia do resultado da caçada. Parece que também era um dos enviados às roças pelos índios em expedição de caça para saber se as plantas cultivadas já estavam boas para serem colhidas. O txï também é usado pelo cantador amarrado em volta do joelho, chocalhando a cada batida de pé no chão. O cantador também o segura na mão, batendo com ele contra o chão, quando canta sentado. O txïkate tocou um pïrïakhë, cuja tradução literal é “casca (khë) de cajá (pïri)”. De fato, trata-se de um apito de forma cônica, feito de casca de cajá. O indivíduo o toca por um furo lateral ao mesmo tempo que faz um movimento de vai-e-vem com o dedo, introduzido no orifício da base do cone.
A narrativa ainda atribui aos pucobiês ditos de humor agressivos.
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