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Narrada a Melatti por Diniz, em 26-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 333-336).
Puthi era o chefe da turma. Puthi pensou e disse ao povo: “Agora eu vou sair daqui para ir buscar urucu na tapera.” Os homens não foram. Só as cunhãs foram com Puthi. Chegaram lá na aldeia velha e Puthi disse: “Agora vocês vão pegando urucu, e eu vou reparar no estreito para ver se há rastro de inimigo, para podermos dormir.” Chegou a uma garganta entre duas serras e reparou; foi para outra e arara canindé estava gritando lá. Assuntou (escutou) e voltou para a aldeia velha. “Eu reparei tudo no estreito (garganta); mas não cheguei perto do outro e ouvi arara canindé, mas não cheguei lá perto não; vamos ver!”
De tardezinha as mulheres aprontaram cama para dormir de noite. Puthi cavou o chão de modo a caber duas pessoas. Aí acendeu fogo, cedo ainda, e deixou só mesmo as brasas. O buraco estava no meio dos urucuzeiros. Deitou lá com sua mulher, afastado das cunhãs.
De noite, de seis para as sete horas, Khë(n) já vem com a turma. Devagar. De noite. Vinham deitando, escutando, se arrastando. Puthi falou com a mulher: “Vamos ficar quietos para assuntar, porque eu sonhei alguma coisa de inimigo.” À meia-noite, o povo de Khë(n) deu nas cunhãs de Puthi. Mataram muitas cunhãs. Quase todas. Metade sempre escapou. Khë(n) encostou e ficou na frente de Puthi. Estava pensando que era da turma dele e falou para ele: “Não, pode aproveitar as cunhãs; eu não quero matar as cunhãs; eu quero matar os homens; se eu matar as cunhãs, notícia não corre para outra aldeia; mas se matar homens, a notícia corre.” Aí Puthi pegou flecha (pó?ti, flecha farpada de taboca) e atirou-a em Khë(n), bem no peito. E disse: “Olhe aqui homem, este é que é homem.” Aí Puthi gritou para o povo de Khë(n). Khë(n) andou um pedaço e morreu seguro num urucuzeiro seco. O povo de Khë(n) foi embora. O povo de Khë(n) tinha combinado de esperá-lo numa cabeceira, mas o esperou em vão.
Puthi mandou um rapaz para a aldeia para convidar os maridos das cunhãs para sepultar as mortas e levar as feridas. De manhãzinha os homens já vinham à procura das mulheres. Os homens sepultaram as mortas. Puthi falou para o povo: “Outro chegou aqui, procurando os homens e não queria matar mulher e eu o flechei e ele correu para lá, vamos reparar.” Chegaram lá e estava morto. Deitaram-no no chão. E perguntaram: “Quem é esse?” Um dizia que era Aprëtïk, outro, que Mĩré. Um outro disse: “Não, esse não é Aprëtïk, nem Mĩré. Esse é Khë(n). No tempo que eu era rapaz, eu deitei com ele no ikhréré, eu parti comida com ele. Vocês não estão vendo tanto enfeite?” Tinha enfeite no pescoço, na cabeça, nos braços, porque sabia brigar. O povo falou com Puthi: “Como é, Puthi, será que é para botar no fogo ou só mesmo flechar?” “Não, eu não posso destruir o couro, ponham no fogo.” Aí fizeram coivara e o fogo comeu (o corpo de Khë(n)). Puthi e o povo retornaram à aldeia.
A turma do Khë(n) foi para a aldeia deste. A mãe e o pai de Khë(n) o procuraram. Choraram. Todo o dia, toda a tarde. Limparam o limpo (área capinada) com vassoura, porque Khë(n) gostava de andar na rua (caminhos da aldeia). A mãe e o pai de Khë(n) xingavam o povo de Puthi toda a hora.
Hëka estava na aldeia de Khë(n). Mas Hëka era da aldeia de Puthi e tinha-se casado na aldeia de Khë(n). Aí Hëka pensou: “Eu vou mandar minha irmã para saber lá.” Ela se chamava Amtxokhwoi. Hëka falou com ela: “Ipantumẽtxi (irmã ), agora você vá lá à aldeia de Horhe (pai de Puthi) para saber lá se o povo de lá matou mesmo esse Khë(n), porque já estou cansado, porque estão xingando todo dia.” Amtxokhwoi disse que ia. Amtxokhwoi foi. Mas o rapaz amigado com ela foi junto. Ela continuou o caminho e o rapaz ficou caçando, esperando.
Ela chegou lá na aldeia. Havia dois rapazes fora da aldeia, reparando, fazendo sentinela. Quando viram Amtxokhwoi, um falou com o outro: “Quem é? Não é homem, é mulher; vamos chegar à estrada para ver essa mulher?” Desceram do pau (árvore) e ficaram na beira do caminho, tirando tucum. Perguntaram-lhe quem era ela. “Não sou outra pessoa não, eu sou Amtxokhwoi; eu nasci aqui, eu casei aqui e fui para outra aldeia; eu vim saber; depois eu vou contar como as coisas aconteceram.” Esses dois rapazes disseram: “Agora, ĩtxe (mãe), vou gritar para o povo chegar aqui e ver você.” Então eles gritaram o grito de guerra: “Kau, kau, kau!”
Aí o povo da aldeia veio cantando. Não havia passado muitos dias e Puthi estava coberto de carvão. E Puthi também veio cantando. Amtxokhwoi mesmo explicou para Puthi: “Não me faça matar não, eu sou daqui mesmo; meu irmão se chama Hëka; eu vim saber de outra coisa.” Puthi veio e a cumprimentou. Chegou muito povo. Horhe veio atrás; era meio maduro. Jogou flecha (no chão?) e tirou a linha do arco e a enrolou na extremidade do arco. Puthi pegou no braço de Amtxokhwoi e a pôs detrás dele próprio. Horhe vinha enrolando a corda do arco. Puthi falou com Horhe: “Não, meu pai, essa mulher nasceu aqui, é irmã de seu atõ (irmão) Hëka. Horhe atirou o arco na direção do sexo de Amtxokhwoi. Mas ela abriu as pernas e o arco furou o chão, fazendo um movimento de vai e vem. Ele cumprimentou-a e a levou para a aldeia. Então Amtxokhwoi perguntou a Horhe: “Eu vim aqui manda por Hëka. Ele mandou-me saber nesta aldeia, por que Khë(n) sumiu e não sei que aldeia matou Khë(n); e a mãe dele só fala nele; e assim eu vim saber.” Então Horhe disse: “Não foi outra pessoa não, foi meu filho Puthi que o flechou. Mas a flecha só bateu e caiu; mas ele só dormiu em pé, não foi morto não.” “É isso que vim saber.” “Quando volta?” “Eu volto depois de amanhã.” Hëka havia mandado recado a Horhe para que cada partido (classe de idade) desse uma flecha para ele. E deram as flechas a Amtxokhwoi para levá-las a Hëka.
Amtxokhwoi voltou, encontrou o companheiro, levou as flechas para o irmão e lhe disse: “Ipantuhum (irmão), foi Puthi que matou.” Aí Hëka escutou Amtxokhwoi. Amtxokhwoi falou com Hëka que, quando o povo de Khë(n) fosse atacar a aldeia de Horhe, mandasse aviso. O povo de Khë(n) combinou atacar a aldeia de Horhe, marcando mês: “Vamos dar na aldeia só no verão, assim na queimada; na queimada é bom.” E aprontaram flechas e arcos. Então Hëka assuntou e mandou Amtxokhwoi para dar recado. Amtxokhwoi contou para Horhe: “O povo de Khë(n) ficou muito zangado com seu povo e vai atacar aqui no verão, na queimada.” Horhe disse: “É, não tem nada não, pode.” Horhe também sabia brigar.
Quando foi no tempo, o povo de Khë(n) saiu para a caçada. E o povo de Horhe saiu também. Os dois povos vinham tocando (queimando) o capim. E subiu a fumaça do povo de Horhe e fumaça do povo de Khë(n). Os dois povos iam se encontrando. Um espinho de tucum furou Horhe na perna e ele ia capengando. As duas fumaças se encontraram. Aí brigaram. Mataram bastante povo de Horhe. Horhe estava na barraca. Ele pensava que já tinham matado seu filho. E saiu. A mulher não queria, porque ele estava doente da perna. Mas ele disse que seu filho estava sofrendo e tinha pai ainda. E saiu. Horhe foi. E Puthi brigava com os outros. Horhe entrou no barulho. Mas ele não agüentava, porque o espinho o tinha furado na batata da perna. O povo de Khë(n) matou Horhe e matou seu filho também. Aí acabou.
Narrada a Melatti por Pedro Penõ em 27-10-63 (tradução para o inglês publicada por Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 336-338).
Puthi falou com o pai (Horhe) e foi à tapera tirar caroço de urucu (pï). Aí o pai dele mandou. “Oh, meu pai, eu não tenho mais urucu; eu vou com tua nora apanhar urucu para eu passar.” E foi com a mulher dele. Foram outros também. Foram à tapera tirar urucu. Passaram dois dias. Aí sapecaram a capoeira e uma mulher falou com Puthi: “Olhe, demore, deixe-nos arrancar o inhame, kupa. Aí tiraram o inhame, kupa e moquearam.
Khë(n), de outra aldeia, vinha matá-los. Já era meia-noite e Khë(n) vinha vindo pertinho, deitado como onça e caminhando devagar para não o verem. Vinha com uma turma.
Uma índia quis mijar: “Hum, wai tu!” Aí ela foi. Agachou-se, mijando perto do moqueado e viu rodas de orelha (batoques auriculares). Ela parou de mijar e falou para o marido: “Hum, olha gente que está deitada aqui!” O impien (marido) respondeu: “Que diabo que tem aqui; é outro daqui mesmo!” Aí a índia falou: “Não, não é não, porque eu vi, porque ele está lá deitado.” “Ah, não importa não!”
Aí Khë(n) parou um bocado e deitou um pedaço para a gente dormir. Quando era meia-noite, saiu arrumando cacete em todos. Khë(n) não queria matar cunhãs. Mas o pessoal as estava matando com cacete. E Khë(n) correu atrás dos outros e parou junto a Puthi. Este já estava armado. Aí Khë(n) perguntou. “Cadê o homem, eu não quero cunhã, eu quero saber é de homem!” E Puthi flechou Khë(n) no peito. Aí o pessoal de Khë(n) correu.
E Puthi foi avisar lá na aldeia. Aí o pai de Puthi e outros vieram enterrar as cunhãs. Aí enterraram os mortos e voltaram para a aldeia. Chegaram à aldeia e ficaram quietos.
Hëka Ihoktó era um rapaz que morava na aldeia de Khë(n). A família de Khë(n) estava chorando muito, xingando mesmo Atórkrã e Horhe. Hëka falou com a irmã, que se chamava Amtxokhwoi: “Ipãtumẽtxi (irmã), vá saber lá na aldeia de Atórkrã e Horhe quem matou Khë(n).” “Esta bom, amanhã eu vou.” De manhã Amtxokhwoi foi à outra aldeia. Aí o “olhador” de caminho da aldeia de Atórkrã viu Amtxokhwoi. E vinha vindo. Amtxokhwoi falou-lhe: “Höpö, ituahum (olá, filho)!” Aí o rapaz tomou conta de Amtxokhwoi, dizendo-lhe: “Eu grito.” “Se você gritar, pode, não tem nada não.” Aí o rapaz gritou. O pessoal da aldeia ajuntou muito. E Atórkrã apareceu. E Horhe veio atrás. Aí este viu Amtxokhwoi, jogou as flechas no chão e tirou a corda do arco. E veio vindo perto, olhando, e Amtxokhwoi reparava, em pé, abrindo as pernas. Aí Horhe furou a terra por entre as pernas de Amtxokhwoi e ela agarrou no cabelo (dele). Aí Horhe disse: “Höpö, ĩtxi (iprõ, esposa)!” E levou-a para a aldeia. Aí Atórkrã, irmão de Amtxokhwoi, perguntou: “Que dia você volta, ipantumetxi (irmã)?” “Eu volto daqui a dois dias.”
À noite, Atórkrã foi à praça, cantando, e depois Horhe veio e chamou Amtxokhwoi; e sentaram na praça, conversando. E Amtxokhwoi perguntou a Horhe: “Me conte notícias do Khë(n).” Aí Horhe respondeu: “É, Khë(n) morreu mesmo, porque meu filho que matou.” Aí ela soube a notícia e Atórkrã e Horhe ajuntaram flechas para dar para Hëka. E mandaram flechas para Hëka através de Amtxokhwoi.
Depois de dois dias, Amtxokhwoi voltou para a casa. De tardezinha ela chegou à aldeia de Khë(n). Entregou as flechas a Hëka. Cada classe de idade tinha dado uma flecha. Aí Hëka perguntou a Amtxokhwoi e ela contou o caso para ele: que Puthi matara Khë(n). Aí Hëka contou para a família de Khë(n), que estava chorando no lugar onde Khë(n) andava: “Olhem, eu bem disse para o Khë(n) andar para lá; Khë(n) andou para lá, então o marimbondo (família de Atórkrã) que fica esperando aí no estreito.”
Além da segunda versão, Pedro Penõ ainda fez alguns esclarecimentos em, provavelmente, 31-03-71.
É costume dos craôs plantar urucu atrás e aos lados de suas casas. Quando mudam a aldeia para um outro local, o urucu continua vegetando na aldeia abandonada. Puthi foi, portanto, procurar urucu numa dessas aldeias abandonadas.
As cunhãs o acompanharam. “Cunhã” é uma palavra de origem tupi e utilizada pelos sertanejos para designar as mulheres indígenas. Os craôs, embora falem língua da família jê, adotaram a palavra e chegam mesmo a acrescentar a ela partículas de sua própria língua, como em “cunhãré”, isto é, “pequena cunhã”.
Puthi chegou a uma garganta entre duas serras. O norte do Estado do Tocantins e o sul do Maranhão se caracterizam pela presença de morros de encostas verticais e cimos chatos e ainda pela presença de morros escalonados. As araras costumam fazer ninhos nas encostas dessas elevações.
Esta narrativa deixa clara a preocupação de Khë(n) com a fama. Mas essa fama só virá se matar homens e não mulheres. Khë(n) usava muitos enfeites, porque sabia brigar. A narrativa não deixa claro se tais enfeites eram feitos especialmente para ele ou se eram tomados a inimigos. Pelas palavras do homem que o identificou depois de morto, percebe-se que Khë(n) já era conhecido das aldeias vizinhas.
O homem que o identificou diz que tinha estado com ele no ikhréré. Este é o nome que se dá ao pequeno quarto, dentro da casa materna, em que fica o rapaz durante um certo rito de iniciação que também toma o nome de Ikhréré. Nesse rito, os rapazes em iniciação não podem ser vistos por ninguém, passando uns meses presos nesses quartos, e banhando-se freqüentemente com água para crescerem depressa. Os craôs não mais realizam esse rito. O fato do homem que identificou o cadáver de Khë(n) afirmar que participou do Ikhréré com ele indica que esse homem era originário da mesma aldeia dele ou então que as duas aldeias rivais eram originárias de uma cisão de uma aldeia anterior.
Quando Amtxokhwoi vai a sua aldeia para se informar sobre a morte de Khë(n), Puthi estava coberto de carvão. Entre os craôs, o homem que mata o outro deve passar por um período de resguardo durante o qual só come batata, inhame, milho branco e coco macaúba. Mastiga pimenta para não dormir, de modo a não ser atacado pela alma do morto. Pinta-se de preto, com carvão. O resguardo dura enquanto o cadáver tem carne. Só quando desaparece a carne é que o sangue do morto sai do corpo do homicida. Por isso este faz freqüentes escarificações.
O fato de Khë(n) ter morrido de pé, agarrado a um urucuzeiro, dá margem a Horhe para fazer piadas.
O ataque à outra aldeia fica combinado para o tempo da queimada. Mas nesse tempo, os indígenas queimam não somente as árvores derrubadas da floresta no local destinado às roças, como também queimam o capim do cerrado para provavelmente poderem mais facilmente apanhar os animais mortos pelo fogo.
A versão e os comentários de Pedro Peño divergem um pouco do que foi dito por Diniz. Segundo Penõ, Atórkrã é quem era pai de Puthi e ele, que estava com o pé machucado, é que morreu com seu filho na luta. O corpo de Atórkrã foi esquartejado e cada nação lhe levou um membro, outras levaram seus batoques auriculares, seu cinto, seu hókho (grande cocar de penas). Então Horhe e seu filho Khom saíram em perseguição do inimigo e tomaram os pedaços do corpo de Atórkrã e seus objetos. Levaram-no para a aldeia e o sepultaram. Talvez o que Pedro Penõ chama de “nação” seja algum outro tipo de agrupamento, como classes de idade.
Hëka, ainda segundo Penõ, havia pedido não somente a Amtxokhwoi que fosse saber na sua aldeia de origem a verdade sobre a morte de Khë(n), mas também pedir uma flecha de cada guerreiro, o que ela obteve. É que Hëka já havia governado sua aldeia de origem, e queria saber quantos guerreiros tinha a aldeia; ele conhecia a flecha de alguém assim como civilizados que se conhecem identificam a caligrafia um do outro. As flechas que ele não reconhecesse seriam de gente nova. Talvez fosse com essas flechas que Hëka saía fora de casa, quando os pais de Khë(n) choravam sua morte, e dizia: “É, eu estava bem dizendo, não vão rastejar meu rastro até aquela aldeia, porque lá há três marimbondos e eles gostam de esporar bem na vista e cega; e quem vai lá não volta.” Essa comparação do marimbondo com aldeia inimiga os craôs também a fazem num de seus ritos de iniciação, o Pembkahëk.
A ameaça que faz Horhe a Amtxokhwoi, fingindo que ia espetar o arco em seu sexo, é um tipo de brincadeira que pode bem se aplicar a pessoas que se chamam de “marido” e “esposa”.
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