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Narrada a Melatti provavelmente por Esteves (Itxẽk Hëktókót), em 15-11-63 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 338-340).
Um rapaz daqui estava caçando veado na chapada. Antigamente havia muito veado. Enxergou rastro de porco queixada. Quando voltou, contou ao povo, de manhã. Ainda pela manhã, o governador falou com o povo: “Amanhã nós vamos levar só mulher solteira, sem filhos.” Mandaram um rapaz botar para fora (do mato?) os porcos queixadas. O rapaz apanhou a buzina, tocou-a até pôr para fora os porcos queixadas. Os velhos disseram: “Vocês deixem Iohen — chefe de partido — flechar primeiro.” E ele flechou primeiro. O genro dele flechou três porcos queixadas. A mulher de Iohen avisou: “Não, awawï (marido da tua irmã) já flechou porco queixada; talvez sua irmã já moqueou.” Iohen foi a casa da irmã dele: “Ipantumẽtxi, eu venho aqui, talvez você arrange um pouco de carne para eu pôr no grolado.” “Meu irmão, a carne não está boa não, a carne está crua.” Aí Iohen ficou com vergonha. O marido dela só estava escutando. “Bom, só para isso eu vim; vou embora.” Aí o marido falou: “Oh, como é que você está fazendo assim; podia você ... (ilegível) seu irmão; deixa cortar, para comer para esperar a mulher dele; você não está com vergonha?”
Iohen ficou com vergonha e raiva da esposa, porque a irmã não lhe deu carne. Aí a mulher ofereceu porco a Iohen e ele se zangou e não comeu. “Não, não fique zangado comigo não.” Mas ele só escutou e não respondeu. Aí a mulher moqueou porco queixada. Fez cama e deitou. Quando estava bom, tirou do moquém e jogou ao pé de Iohen; tirou palha, agitou o abano para esfriar. A mulher conversou até que ele comeu. “Eu como, foi você que contou, mas eu como, mas eu fiquei com vergonha.”
De madrugada, o povo estava tirando toras para correr para a aldeia. De manhã, ele arrumou o cofo da mulher dele e armas e tudo: “Pode ir adiante, quando chegar, eu vou dizer para você.” Aí a mulher chegou primeiro e Iohen chegou depois com tora. A mãe de Iohen estava na aldeia; não tinha saído não. Ela falou com a filha: “Você deu carne para Iohen?” “Não.” A mãe apanhou a banda de porco queixada e foi para o outro lado. Iohen estava deitado na casa da sogra. Não queria (um pouco ilegível) o porco que a mãe oferecia. A sogra apanhou-o: “Come, come um pedaço, fui eu quem deu para você.” Iohen só escutou, porque ele era quem mandava na aldeia.
Entardecia. Ele foi com a mulher para a fonte. Banharam-se. Ele falou: “Quebre carvão para mim.” Queria pôr enfeite (pintar) na boca. A mulher dele chorou e disse: “Para que você quer carvão?” Ela já estava sabendo que ele ia morrer com flecha. “Bom, eu vou ao pátio.” Estavam todos no pátio. Uma mulher velha o enxergou: “Aquele homem não vai governar mais a aldeia não. Ele vai morrer.” Os companheiros estavam esperando por ele. “Amanhã nós vamos tirar olho de buriti; minha casa (cama?) já está muito velha, não presta.” Duas raparigas chamaram Iohen. Ele sentou entre elas. Elas pelejaram, pegaram nas mãos dele, puseram-na na vulva e ele não quis. “Bem, você não quer, você pode ir embora. Eu não empato você na sua viagem.” As raparigas foram embora. Ele foi para a casa da mulher.
De manhã o povo de Iohen estava esperando lá no mato. Mandaram um rapaz para saber o que estava acontecendo. Iohen estava se pintando com urucu. “Que você quer?” “O povo está esperando você.” “Eu vou já.” O rapaz voltou e contou. Iohen chegou aonde o povo estava e verificou se todos estavam presentes. “Vamos embora.” Quando caminharam um pedaço, já vinha um quati grande na estrada. Iohen caminhava na frente; enxergou-o e mandou o povo matar. Mandou colocá-lo no meio da estrada para reparar o sangue — se abelha chegar no sangue, vai haver luta. Chegaram muitas abelhas e o sangue corria para a frente — se o sangue corre para nós, não tem nada não. Apanhou o quati. Caminharam um pedaço e mandaram dois rapazes para caçar para eles comerem. Mataram veado do campo, tatu, quati, jibóia. Os apinajés já estavam arranchados, tirando olho de buriti. Os apinajés estavam misturados com os pucobiês. Iohen dormiu na estrada. Mandou dois rapazes na frente para reparar se havia olho de buriti. Os dois rapazes enxergaram rastro de dois rapazes dos apinajés. Os apinajés tinham deixado um cofinho no chão, pois já tinham comido as batatas. Os rapazes de Iohen apanharam o cofinho. E o povo bateu com cacete no cofo, porque ia brigar. Resolveram esperá-los na encruzilhada. Flecharam um no peito e feriram o outro, que foi embora. Os apinajés, pouco depois, estavam tocando muito borá, buzinha, cabacinha. Iohen falou: “Como é, nós vamos voltar?” “Não, não se volta não, você já veio, você é o dono da estrada.” Os apinajés e gaviões fizeram três filas: os mais maduros na frente, os mais novos atrás. Iohen acabou com a primeira fila, acabou com a segunda. Mas as flechas já estavam poucas. O terceiro partido matou Iohen e os companheiros dele. Um só escapou, foi embora e contou ao povo.
A narrativa, logo em seu início, faz referência ao governador. Cada aldeia craô, além de seu chefe, tem sempre dois “governadores” ou “prefeitos”, chamados na língua indígena de këkate. Durante a estação seca, esses dois prefeitos devem sempre pertencer à metade Wakmẽye. Na estação chuvosa são da metade oposta, Katamye. Todo indivíduo craô pertence a uma ou outra dessas metades, segundo o nome pessoal de que seja portador. Além disso, em qualquer estação, um dos prefeitos deve pertencer à metade Khöikateye e o outro à Harãkateye. Este último par de metades abrange as classes de idade e não tem nada a ver com o nome pessoal. Os prefeitos ou governadores procuram manter a paz dentro da aldeia e dirigem as reuniões matinais na praça da aldeia onde se resolve sobre as atividades que se executarão naquele dia; presidem também à partilha da carne dos animais abatidos em caçadas coletivas, no local de onde sairá a corrida de toras; e ainda, distribuem os presentes oferecidos à aldeia pelas pessoas que estão em evidência ritual.
Iohen foi o primeiro a flechar os porcos, porque era chefe de partido. Deveria ser talvez um chefe de classe de idade, que, normalmente, tem dois chefes.
O genro de Iohen flechou três porcos queixadas. Convém notar que, ao falar em português, os craôs muitas vezes usam o termo “genro” para traduzir ipiayõye, que pode significar (para ego masculino) tanto marido da filha, como marido da irmã ou marido da filha da irmã.
Iohen passa carvão na boca. Ainda hoje se nota esse uso entre os craôs. A pintura nos cantos da boca e, em forma de Y, no peito, traçada com carvão, é utilizada por indivíduos em resguardo pelo nascimento de um filho ou por terem matado a outrem, a fim de evitar que as almas dos mortos lhes toquem quando saem da aldeia. Provavelmente serviria para protegê-lo dos mortos na perigosa expedição.
Duas raparigas procuram dissuadir Iohen de ir procurar o perigo e a morte. Na região em que vivem os craôs, o termo em português “rapariga” significa “prostituta”. Os craôs apontam algumas mulheres de suas aldeias como raparigas. Mas não se pode entender por isso que sejam prostitutas, tal como as que existem em nossas cidades. Toda mulher não virgem — e entre os craôs não há virgens com idade superior a treze ou quatorze anos — que não tenha marido, seja solteira, viúva ou divorciada, é considerada rapariga. Mas ela mora na casa materna, como qualquer outra mulher e pode vir normalmente a se casar. É certo que a rapariga recebe presentes de seus amantes e pode pedir deles que prestem um eventual serviço a um de seus parentes; portanto, receberiam um pagamento, tal como as nossas prostitutas. Mas acontece que, entre os craôs, também os parentes das mulheres casadas recebem presentes e serviços de seus maridos pelos favores sexuais e domésticos que elas lhes prestam. Nisto, portanto, uma rapariga não seria diferentes da mulher casada. Na verdade, podemos considerar uma rapariga dos craôs, não como uma prostituta, mas como uma mulher sem compromissos matrimoniais. O termo pelo qual são chamadas na língua indígena é mẽkré’krére; mas este é o termo que se aplica também aos homens solteiros, viúvos ou divorciados. É mais um indício de que não podemos tomá-las como prostitutas. Na narrativa, quando o governador propõe que se levem mulheres solteiras, sem filhos, está na verdade propondo que se levem raparigas.
Borá é um som produzido com a boca, sem auxílio de instrumentos; serve para dar alarmes. Cabacinhas são instrumentos de sopro, constituídos de cabacinhas minúsculas, com quatro orifícios: um, por onde se sopra e três, onde se aplicam os dedos. A buzinha é constituída de uma grande cabaça comprida, furada nas duas extremidades, sendo que num dos furos se encastoa um gomo de taboca, com um orifício retangular lateral, onde se sopra.
Essa narrativa ainda nos oferece dados sobre uma formação de batalha: três filas, ordenadas por idade, vindo os mais velhos à frente e os mais novos atrás.
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