Conto 3

Iõhe e os Kokham’khiere

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Primeira versão

Narrada a Melatti por Pedro Penõ em 31-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 341-342).

Iõhe saiu para a caçada. Tinha ido à casa de sua irmã e não recebera nada. Sua esposa comentou: “Nem parente teu tem coragem de te dar um pedacinho de carne!” “É, mas eu vou caçar.” De madrugada saiu. Falou à mulher: “Eu vou neste caminho; chegando lá no carrasco (tipo de vegetação), bem  no pé de sucupira, eu ponho minha comida e saio. Se encontrar uma caça, eu pego, e volto para pegar minha comida, e volto.” Pendurou o alimento e entrou no mato. Viu um mutum e matou. Mais adiante viu muitos guaribas. Flechou um, que morreu lá em cima; flechou outro e aconteceu a mesma coisa; flechou outro, e a mesma coisa. “Ora, mas por que?” Botou o arco o chão, dependurou o khëiré (ilegível) e subiu. Quando já estava bem no meio do pau, chegaram os kokham’khiere, uma outra nação. Talvez sejam os carajás, porque se diz que os carajás sabem mergulhar. Mandaram Iõhe descer. Iõhe desceu e queria correr, mas os kokham’khiere o pegaram. Perguntaram-lhe o nome e ele disse. Mandaram-no subir e ele subiu e tirou todos os guaribas. Os kokham’khiere pegaram os guaribas. Iõhe acompanhou os kokham’khiere para a aldeia deles. E foram fazendo acampamentos pelo caminho.

Depois de três dias, o irmão veio perguntar por ele à mulher. Ela disse: “Ele foi fazer uma caçada naquele carrasco, mas por onde foi tapou a estrada.” Aí o irmão saiu de madrugada e chegou onde estava a comida de Iõhe. Era no verão; ainda havia rastro. Chegou lá, viu trilhado (rastro de muita gente) debaixo da árvore. Continuou a rastejar e viu rastro de Iõhe bem no meio do de Iõhe (aqui deve haver uma falha devido à anotação apressada: deve ser kokham’khiere). Chegou ao acampamento e viu rastro e aí voltou para a aldeia, onde contou a história. Avisou à irmã. A irmã convidou os homens. Fizeram comida e saíram no mesmo dia. Foram no trilhado (rastro) de Iõhe. E dormiram aí onde os kokham’khiere o tinham pegado. Foi a metade da aldeia procurar Iõhe. Bem cedo saiu o irmão de Iõhe e encontrou o lugar do rancho. O irmão de Iõhe ia sempre na frente e voltava para avisar ao povo, atrás. Encontrou dois lugares de dormida. Depois encontrou dormida com fogo aceso. Estavam perto.

Os kokham’khiere chegaram à beira de um rio grande, nela arranchando. O portador dos kokham’khiere já fora avisar aos outros (que estavam na aldeia deles) para virem, para matarem Iõhe e irem embora. Quando o portador saiu, o irmão de Iõhe se aproximou. Iõhe cantava e fazia sinal de que os kokham’khiere estavam todos dormindo. Fez sinal para o cercarem. O irmão voltou e encontrou o pessoal a uma distância como daqui até ao Posto (6 km); avisou a eles e voltou. Olhou para Iõhe e este fez sinal para vir logo. Quando chegaram perto, dividiram-se em grupos para cercar. O chefe dos kokham’khiere estava com khëiré no braço. Iõhe pegou o khëiré e o chefe viu: “Iõhe pegou o khëiré; eu quero que ele cante muito; eu estou com sono.” Iõhe respondeu: “É, eu estou assim solto, eu estou maneiro (leve), eu quero pegar khëiré para cantar pesado.” O chefe dos kokham’khiere tornou a dormir logo. Iõhe deu na testa do chefe com o khëire mesmo. O pessoal matou todos os kokham’khiere. Só um escapuliu. Alguém lhe bateu na perna, mas ele mergulhou e foi embora.

No fim havia carne de caça e de gente. Iõhe resolveu pegar carne de caça. Pegou carne de veado, ema, anta e deu para o povo. Aí, acabaram de comer e retornaram. Viajaram dois dias e chegaram. O pessoal falou para Iõhe: “Agora nós queremos sua irmã, para conversar com ela.” Era moça ainda. Iõhe foi pegar a irmã dele pelo braço e trouxe. Fizeram roda, taparam de toras e todo o mundo copulou com a moça. Era o pagamento da viagem. Antigamente era assim.

Segunda versão

Narrada a Melatti por Gregório (Hü?te I’përe) em 17-10-63 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 349-350).

Iõheti disse à mulher dele: “Eu vou caçar.” Aí foi. Entrou no mato, caçando alguma coisa e sempre achou um jacu. Caminhou outra vez e sempre achou guariba. Flechou um, que morreu lá em cima. Matou dois. Morreram lá em cima. Os kokham’khiere já estavam chegando. Iõheti cortou uma vara. Subiu para mexer os guaribas, para caírem. Os kokham’khiere já estavam tomando conta do pé de pau (...) entregar a vara para o outro. (Iõheti) Mexeu os guaribas. Aí desceu. Os kokham’khiere pegaram Iõheti. Amarraram-no. E o levaram para a casa deles.

A irmã de Iõheti esperou até de manhã e se passaram dois ou três dias. Então a irmã dele convidou os homens e foram atrás de Iõheti. Chegaram onde ele dormiu e tornaram a caminhar. Chegaram ao outro lugar de dormir. E tornaram a caminhar. Aí alcançaram Iõheti e os kokham’khiere. Iõheti estava cantando sozinho entre os kokham’khiere (que eram muitos). Estes estavam dormindo. Era dia. O irmão dele chegou e Iõheti logo enxergou e fez com a mão assim: a mão direita na altura do ombro, passando da direita para a esquerda. Foi Iõheti que fez esse gesto para o irmão, para avisar que os kokham’khiere estavam dormindo. Então todos cercaram os kokham’khiere. E mataram todinhos. Não escapou nenhum. Voltaram com Iõheti. Este tinha dito ao chefe dos kokham’khiere: “Me dá o khöiré para eu cantar e ficar alegre.” Logo começou a cantar e os kokham’khiere dormiram. Quando o seu povo os cercou, ele mesmo, Iõheti, matou  o chefe dos kokham’khiere com o khöiré. E levou para a aldeia o khöiré.

Esclarecimentos

Ela também nos ensina como o caçador providenciava sua alimentação durante a viagem de caça: não a levava consigo, mas a deixava pendurada no meio do caminho.

É curioso que o informante identifica os kokham’khiere com os carajás por causa de um dado da própria narrativa: um deles consegue fugir, mergulhando num rio grande.

Nessa narrativa vemos ainda o khëiré, numa emergência, sendo usado como arma.

Um outro ponto importante é que essa narrativa dá importância à retribuição pela ajuda. Em primeiro lugar, Iõhe se preocupa em servir os seus salvadores com carne de caça tirada do acampamento dos kokham’khiere. Em segundo lugar, ofereceu a eles sua irmã, para que com ela tivessem relações sexuais. A narrativa não explicita se era a mesma irmã que lhe havia negado alimento; mas não precisava de ser ela necessariamente. Ainda hoje, quando uma mulher craô tem um irmão ou outro parente em dificuldade, solicita àqueles homens que costumam ter relações sexuais com ela que o ajudem.

Há também algo do humor do próprio narrador, quando diz que no final da luta “havia carne de caça e de gente. Iõhe resolveu pegar carne de caça.” Convém notar que os timbiras não têm a antropofagia nas suas tradições.

A segunda versão não foi incluída na primeira edição deste trabalho, na Série Antropologia, n° 8, mas o foi na coletânea em inglês de Wilbert e Simoneau (1984). Nela “jacu” foi adequadamente traduzido por “guan”, mas impresso erradamente como “gun” (p. 349).

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