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Narrado a Melatti por Diniz (Tébyet Kukrãtxö) em 26-03-71 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 347-348).
Ñatxï ajudou a matar dois rapazes. Diz-se que Ñatxï era corredor. Dois rapazes andavam. Esses dois rapazes eram irmãos. Um homem era casado com a irmã desses dois rapazes. Esse homem falou com a mulher: “Agora você vai deixar puba seca aqui e eu vou buscar carne para você fazer berubu para seus irmãos e para nossos filhos.” Ele saiu para a caçada. Os dois rapazes disseram: “Vamos falar com a itoi(n) (irmã) para fazer engrolado para nós comermos.” E falaram com a irmã: “Ipantume(n)txi (irmã), eu venho aqui mais seu irmão para você fazer engrolado para mim, porque eu e seu irmão estamos com fome.” Ela disse: “Não, essa puba já está ficando pouca e seu apiayõye (cunhado, marido da irmã) na hora da saída falou para não mexer, porque ia matar caça para vocês comerem com seus sobrinhos.” Os rapazes se zangaram. O mais velho falou para o mais novo: “Como é, vamos esperar o engrolado?” “Não, vamos embora.”
Os rapazes saíram para tomar banho. Lá na fonte, passou uma hora e o mais velho falou para o mais novo: “Como é, você vai voltar para sua irmã? Eu não vou voltar, porque ela não fez engrolado para nós.” O mais novo falou: “Não, não volto não, eu vou mais você.” Foram embora e levaram o khëiré (machado ritual, pertencente ao marido da irmã deles). E foram andando, andando. Naquele tempo não havia estrada. Os índios mais velhos eram o mesmo que bicho do mato, andavam assim. Encontraram com outro índio lá na chapada (cerrado). O outro índio andava caçando. Esse índio chamou os outros. O povo ajuntou. Aí mataram esses dois rapazes e os botaram na coivara. Ñatxï ajudou, ele era o chefe.
O cunhado dos rapazes chegou a casa. E a mulher lhe contou que não tinha feito engrolado. E o marido falou: “Mas você não é besta não? Por que você não fez? Eu não falei para você fazer para seus irmãos, para eles comerem? Eu vou procurá-los.” Foi rastejando até encontrar o lugar onde os haviam matado. Viu as cinzas e voltou. No outro dia foi à aldeia de Ñatxï. Lá falou com o chefe da aldeia. O cunhado dos rapazes era dessa aldeia. Ñatxï falou com ele: “Eu não vou dar khëiré sem corrida não; eu quero que vocês me o tomem na carreira; há tantos homens que correm; eu quero que vocês me tomem na carreira.” O cunhado voltou para a aldeia em que morava e falou com seu chefe: “Agora vocês vão tomar meu khëiré; ele (Ñatxï) pensa que o povo daqui não corre.” Então o povo combinou: “Nós tomamos.”
O homem tornou a sair. Chegou à aldeia de Ñatxï já de noite; foi para o pátio e ficou calado. Ñatxï falou: “Agora, amanhã, eu vou espiar a cinza, para reparar; talvez gente da outra aldeia ande por lá e eu mato.” O dono do khëiré estava escutando, e não disse nada. Ele voltou calado. Encontrou a turma que vinha da outra aldeia. E avisou: “Ñatxï vem com todos para a cinza dos dois rapazes.” Lá perto das cinzas eles se esconderam, deitados, espalhados. O dono do khëiré falou com o povo: “Se vocês pegam Ñatxï, não matem logo não; esperem; deixem-me reclamar na cara dele.” Ñatxi veio vindo; aí o povo deu nele. Mataram todos. Mas Ñatxï era corredor e saiu com o khëiré. Outro saiu atrás dele. Ñatxï meteu o pé num buraco de peba e caiu; e o outro o pegou. Segurou-o e chamou o dono de khëiré. Ele veio cansado. Lá pegou-o pelo cabelo: “Agora sim, você não quis me dar o khëiré; agora você não vê mais nada.” E falou para o povo: “Agora vocês podem fazer o que quiserem.” E eles mataram Ñatxï. O cunhado dos dois rapazes voltou com o khëiré.
Essa narrativa começa com o mesmo motivo semelhante ao do Conto 1: a irmã se recusa a dar alimento a seus irmãos, porque destinava a massa de mandioca para fazer berubu, o que é um alimento mais apreciado. A puba, a que se refere a narrativa, é uma massa que se obtém, deixando-se as raízes de mandioca cerca de quatro dias mergulhadas em água. A polpa assim resultante é passada no tipiti para perder o ácido venenoso. Tenho uma informação de que não se faz berubu com puba, só com mandioca ralada; mas me parece que o berubu feito de puba apenas não é tão apreciado quanto o outro, porque fica mais amargo. “Berubu” ou “paparuto” são duas palavras que os craôs aplicam a um bolo de mandioca e carne a que chamam na língua indígena de khïorkupu, quando é de mandioca brava, ou de khïorpéikupu, quando é de aipim (macaxeira). Estende-se uma camada de mandioca ralada, onde se distribuem pedaços de carne, cobrindo-os com mandioca outra vez. Isso é embrulhado em folhas de bananeira brava, formando um pacote chato, quadrado. Os berubus têm mais ou menos quarenta centímetros de lado; mas em certos ritos chegam a ter pouco mais de um metro. São assados entre duas camadas de pedras aquecidas, cobertas de folhas de bananeira brava, folhas de palmeira e de terra. Mas os dois irmãos preferiam engrolado. Os craôs chamam de “engrolado” ou “grolado” a um alimento preparado em panelas de ferro com massa de mandioca. É como que uma farinha retirada do forno no meio do processo de torragem, ainda úmida e encaroçada.
Os rapazes vão embora da aldeia e resolvem levar o khëire. Trata-se de um machado de pedra cuja lâmina tem a forma de um crescente lunar. Tem um cabo de madeira bem curto, talvez não mais longo que o fio da lâmina, de onde caem longos pendentes de algodão. Desde 1962 nunca vi nenhum khëiré em uso pelos craôs. A julgar por uma informação, parece que os modernos craôs não sabem confeccionar a lâmina de pedra; aproveitam machados confeccionados por populações já desaparecidas, que tornam a guarnecer com um cabo e enfeites. O khëiré não é utilizado como instrumento de corte ou arma. É simplesmente levado pelo homem que canta. É pendurado debaixo do braço, bem junto à axila, ou então empunhado pelo cabo, estando o cantador com o braço levantado, mas com o cotovelo dobrado, de modo que os pendentes de algodão caiam ao longo de seu antebraço.
Os habitantes da aldeia estranha mataram os dois irmãos e os puseram numa coivara, isto é, numa fogueira. Normalmente a cremação é o destino dos corpos dos indivíduos que morrem vitimados por outros. Os craôs acreditam que o sangue da vítima entra no corpo do assassino. Este tem de respeitar um severo resguardo até que a carne do morto tenha desaparecido, ficando apenas os ossos. A cremação do cadáver é um recurso para apressar esse processo e abreviar o resguardo.
Manoel Bertoldo (Rã’rãkre Wakõ) e Daniel (Panhi), ambos da aldeia de Cachoeira, me informaram em 27-03-71 que, na última vez que o dono do khëiré foi à aldeia de Ñatxï, estava enfeitado com fitas de olho de buriti; não entrou na casa de sua irmã; deixou o arco do lado de fora. Quando soube que iam à coivara, saiu na frente, para avisar à aldeia dos cunhados.
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