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Narrada a Melatti por Messias (Hawöt Krëk Pïrïpok) em 31-10-63 e 12-11-63 (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp. 343-345).
O pessoal (pãrekamekra) da aldeia foi para o mato para caçar. Matando porco queixada. Aí já voltavam para a aldeia. Perto da mesma, fizeram rancharia. De noite os jovens queriam trocar porco queixada para comerem no pátio. Aí, um rapaz, Katamrik, falou com a irmã dele: “Ipantume(n)txi (irmã), me dá uma banda de kro (porco queixada)!” A irmã respondeu: “Não, não tem não; essa banda é toda para tuas comadres (“amigas formais”), porque tuas comadres são muitas.” Katamrik se zangou: “Bom, deixa!” E foi embora. Aí o ipiayõye (marido da irmã) de Katamrik disse à mulher: “Por que você não dá para seu atõ (teu irmão)?” “Não, porque estão mesmo chegando as comadres dele. Esta banda com que você chegou agora está crua.” Assim mesmo Katamrik se zangou; saiu calado. O amigo de Katamrik chegou com outra banda à casa da irmã dele e falou: “Chega, ikhïonõ, vamos comer isso; eu trouxe e é para nós comermos. Katamrik respondeu: “Não, pode comer o seu, porque se eu comer o seu, você não come o meu, que eu não trouxe.” “Não, ikhïonõ, não faz assim não, coma, é meu, vamos comer!” Mas Katamrik não queria e deitou quieto.
Já era de madrugada e os outros estavam cantando. O amigo de Katamrik estava falando: “Vamos embora para a aldeia, não pense nisso não, deixe estar.” Katamrik respondeu: “Não, não vou não; eu vou esperar você chegar (à aldeia) e na chegada você diz para o meu kederé.” “Olhe lá, você tem que esperar seu kederé aqui mesmo.” “Não, eu espero aqui mesmo.” Katamrik estava zangado e queria ir para outra aldeia.
Correram com toras e chegaram à aldeia. Mas Katamrik não foi atrás. Aí o amigo dele chegou à aldeia e contou ao kederé de Katamrik. O kederé resolveu-se logo e falou com sua esposa. Ela então ajuntou batata assada, pôs num cofo (cesto) e ele levou. O kederé foi sozinho. Encontrou com o sobrinho na rancharia. Ele estava deitado, esperando. O kederé falou: “Ah, sobrinho, você está aí, sobrinho (ipantu)? Olhe batata aqui. Espere-me, eu vou buscar água para você e venho.” “Está bem.” O kederé levou a cuia. Foi buscar água com ela. Ele voltou, Katamrik bebeu e depois levantou, comendo batata. Acabou de comer batata e o kederé perguntou: “Vamos ver, me conte porque você me chamou.” Aí Katamrik disse: “Olhe, kederé, vou-lhe contar. O(s) nosso(s) amigo(s) estava(m) trocando banda de porco e então eu fui à casa da tua iapartxwöi (tua “sobrinha”, minha irmã) e pedi a banda de porco. Ela disse que era pouquinho, que chegava minha comadre para comer e eu fiquei com vergonha, porque minha irmã não me deixou dar a banda de porco.” Katamrik perguntou: “E como você faz? Você volta ou vai-me acompanhar?” Aí o kederé: “Não, nós vamos juntos; sozinho eu não volto para trás. Então nós vamos.”
Quando o sol já pendia (45°), caminharam, caminharam, para o rumo de outra aldeia. Quando já eram cinco horas da tarde, um veado estava no meio da estrada e Katamrik disse para o tio: “Deixe-me ver se mato este veado para moquear, para nós comermos.” “Pode matar.” Aí Katamrik flechou o pó (veado campeiro). O veado caiu e ele o trouxe. O kederé fez moquia; sapecou o veado, porque antigamente não se tirava o couro, e moqueou. Comeram uma banda e ficou uma banda para o dia seguinte. Passaram a noite não sei onde e saíram cedo. Viajaram.
O pessoal da aldeia do Katamrik mais velho (trata-se aqui de um terceiro indivíduo de nome Katamrik, já que o citado kederé também tinha esse nome) tinha feito rancharia e os cortadores de toras estavam em atividade. Aí o jovem Katamrik falou com o tio: “É bom você esperar aqui e eu vou saber. Será que é pica-pau batendo no pau?” O jovem Katamrik caminhou na direção dos cortadores de toras. Eram dois rapazes que estavam cortando toras. Katamrik foi devagar. Um dos rapazes o viu e disse para o outro: “Eih, ikhïonõ, olhe! Quem é aquele que já vem?” “Aonde é?” “Ele vem vindo atrás de você.” Então o outro levantou e olhou e Katamrik falou: “Não, não corram não; eu não mexo com vocês não.” Aí os outros esperaram. Katamrik aproximou-se e falou; e (um deles) lhe responderam: “É, eu ando cortando toras aqui e o pessoal está aí nesse mato. Eu vou gritar.” E gritou. O pessoal escutou e fez zoada, batendo com a mão na boca. Veio um partido só. Ajuntaram. E tiraram um para ir avisar lá na aldeia. Aí o velho Katamrik chegou e tomou conta. O velho Katamrik levou o jovem Katamrik para a aldeia. O povo da aldeia do velho Katamrik estava querendo matar o novo Katamrik. Aí pediram ao primeiro que deixasse matá-lo. Ele não deixou. Mas deixou o jovem Katamrik cantar em torno da aldeia. O velho Katamrik falou com seu filho: “Olhe, você vá acompanhando seu pai novo; se uma pessoa o flechar, você pode flechá-la, se puder!” Aí ele foi.
Katamrik estava cantando na rancharia, acompanhado do filho de Katamrik velho. Alguém pegou um arco e dizia: “Eta, esse arco é bom demais; se for anta, eu flecho assim.” E abria o arco. Até que flechou o novo Katamrik. E mataram também o Katamrik que tinha vindo da outra aldeia junto com ele (seu kederé). O filho do chefe Katamrik flechou muitos dos habitantes da aldeia. Então foi à casa do pai dele. O pai dele também ajudou a matar o pessoal. De noite, o chefe Katamrik juntou seus filhos: três humré (sexo masculino) e três kahãi (sexo feminino), todos casados. Aí os três ipiayõ (genros) vieram deitar com as filhas dele, mas Karamrik não deixou, falando duro: “Ei! Quem é que entrou? Se ipiayõ entrar, pode ir embora; eu não quero mais ver cara de iwawï (ipiayõ)!” Aí o ipiayõ saiu e depois outro chegou e Katamrik falou do mesmo jeito. E ele saiu. Aí Katamrik imaginou e falou aos filhos: “Será que nós todos vamos para a outra aldeia de onde o pai de vocês (o jovem Katamrik) veio? Então nós vamos para lá!” E aí pegaram o rastro dos dois Katamrik que tinham vindo e chegaram à outra aldeia. Procurou a mãe do jovem Katamrik e falou com o pessoal dele; e os filhos que levou para lá casaram todos naquela aldeia.
Narrada por Pedro Penõ (Kro’kroko Haragai’këre Hampó Penõ), em 31-03-71 e registrada de memória por Melatti (tradução para o inglês em Wilbert e Simoneau, 1984, pp.346-347).
O pessoal de uma aldeia saiu caçando. E fazia acampamentos durante o percurso. Fizeram um último acampamento antes de retornar à aldeia. Dali deveriam partir em direção à mesma, correndo com toras. Os caçadores combinaram comer com seus ikhïonõ no pátio do acampamento. Katamrik foi buscar um pedaço de carne na cabana de sua irmã. Ela respondeu que não podia dar, pois já tinha destinado todos os pedaços para os ikritxua dele e não sobrara nenhum. Katamrik zangou-se. Foi para o pátio, mas não aceitou comer junto com o seu ikhïonõ, embora este insistisse. Katamrik dizia que ele comeria carne de seu ikhïonõ, mas este nada comeria dele.
Katamrik negou-se a ir para a aldeia com os outros e mandou chamar seu nominador. Este veio e lhe trouxe alimento. Quando Katamrik lhe disse que não pretendia mais voltar à aldeia, mas sair numa direção qualquer, o nominador prontificou-se em acompanhá-lo. E saíram. Andaram. Encontraram então um rapaz de uma outra aldeia junto das toras com que iam fazer corrida. Quando disseram o seu nome, o rapaz respondeu que Katamrik também era o nome de seu pai. Por isso, eles foram levados para a casa de Katamrik. Este guardou-os em casa.
O pessoal da aldeia queria matar os dois estranhos. Com o fito de matá-los, convidaram-no para jogar flechas, mas o anfitrião lhes disse que os visitantes estavam cansados da viagem. Convidaram-nos para cantar. Como aquele que veio convidar era hõpin de Katamrik, o anfitrião, este consentiu. E assim os dois visitantes Katamrik foram mortos. Katamrik, o anfitrião, ficou zangado. Não recebeu seus genros em casa, uma vez que estes não tinham evitado o assassinato. Parece que saiu para a roça e de lá mesmo foi com seu filho para a aldeia dos Katamrik assassinados. Trouxe o pessoal dessa aldeia para atacar sua própria aldeia, que destruiu. E ficou morando com seu filho na aldeia daqueles dois Katamrik que morreram.
Parte da ação dessa narrativa se passa em duas aldeias, outra parte, a primeira, numa rancharia. As aldeias timbiras têm forma circular. As craôs têm cerca de 100 metros de raio. As casas formam uma circunferência que envolve um caminho, também circular, que passa diante das mesmas. No centro da aldeia há um pátio. De cada casa parte um caminho retilíneo para o pátio. Neste (também chamado em português, nestas narrativas, de praça ou centro) não há nenhuma construção, nem mesmo uma casa-dos-homens. A aldeia fica vários anos instalada no mesmo local. Atualmente, pelo menos, embora as condições sejam outras, conheço aldeias craôs que estão há mais de dez anos no mesmo lugar. Quando os habitantes de uma aldeia saíam numa expedição, faziam, em seu percurso, acampamentos ou rancharias. Esses acampamentos deveriam de ser feitos de choças de construção rápida e, quando serviam de abrigo por um período mais longo, provavelmente tomavam uma forma semelhante à da aldeia, inclusive com um pátio no centro.
Nessa narrativa há referência a uma série de relações de parentesco. Vou-me ater apenas às especificadas, utilizando o material craô. Não está registrado se Katamrik era solteiro ou casado. Se era solteiro, deveria de morar na casa da irmã; se casado, dada a regra de residência uxorilocal, deveria de habitar uma outra casa. Não obstante, um homem, mesmo casado, visita constantemente a casa da irmã, que é também a da sua mãe. Nesta casa, onde ele nasceu, ele entra e sai à vontade e mexe em tudo o que encontra, podendo também comer o que encontrar. Se ele é casado e se divorcia ou fica viúvo, é para a casa da irmã e da mãe que deve retornar. Por isso, a inesperada negativa da irmã de Katamrik o deixou envergonhado.
A carne que Katamrik pedia destinava-se a ser trocada com o seu ikhïonõ. Um craô chama de ikhïonõ a um outro indivíduo que tenha nascido no mesmo dia que ele. Chama também por esse termo o seu companheiro em alguma posição de direção: os dois chefes de uma classe de idade se chamam mutuamente de ikhïonõ; o mesmo fazem os dois chefes dos jovens em reclusão, os dois “prefeitos” (ver os esclarecimentos referentes ao conto 4) da aldeia. Mas um homem pode chamar a outro de ikhïonõ simplesmente porque está sempre junto com ele e não o trata como um estranho, mantendo um comportamento que se aproxima daquele para com um parente consangüíneo, embora não o seja. Os craôs dispõem de uma série de ritos em que pessoas de sexo diferente, de diferentes metades, trocam alimento preparado por serviços ou frutos coletados. Essas trocas são efetuadas entre moradores de casas diferentes e sem dúvida têm por efeito estreitar os laços entre os moradores da mesma aldeia. Nunca cheguei a presenciar a uma troca de alimentos entre os ikhïonõ; parece-me que, no caso deles, a exemplo do que acontece entre os membros de uma mesma classe de idade, deveria se tratar de uma refeição comum, na praça, cujos restos seriam levados para as casas em que morassem. Diferentemente de Nimuendaju (1946, pp. 100-104), que descreveu este tipo de relação entre os Canelas, não chamarei o ikhïonõ de amigo formal, termo que reservarei apenas para o hõpin e hõpintxwöi, de que trato a seguir.
Para não dar carne a Katamrik, sua irmã alega que tem de satisfazer a obrigações para com as “comadres” dele. Os craôs traduzem com os termos “compadre” e “comadre” um tipo de relação que herdam com o nome pessoal: os amigos (hõpin) e amigas (hõpintxöi) formais da pessoa que lhe transmitiu o nome. A relação com um amigo formal é muito diferente da relação com um ikhïonõ. Um indivíduo não pode conversar com um amigo formal e nem mesmo lhe pronunciar o nome; evita mesmo cruzar com ele nos caminhos, passando ao largo. Se os amigos formais são de sexos opostos, não podem manter relações sexuais e, portanto, também não podem se casar. Apesar de todas essas regras de evitação, é grande a solidariedade entre os amigos formais; mas se trata de uma solidariedade mais ritual do que espontânea: um amigo formal ajuda o outro a desempenhar seu papel nos ritos; não permite que os outros o agridam nem mesmo ritualmente. Diz-se que, se um marimbondo picar um indivíduo, seu amigo formal quebra a casa de marimbondos; se uma fruta lhe faz mal, seu amigo formal ingere grandes quantidades da mesma. Mas tudo o que um amigo formal faz pelo outro é retribuído com presentes pelos parentes do agraciado. O pedido de um amigo formal, que geralmente é feito por intermédio de terceiros, nunca deixa de ser atendido, por isso é que os habitantes da aldeia do chefe Katamrik fazem com que um de seus amigos formais vá lhe pedir para deixar o jovem Katamrik cantar. Quando há carne na casa de um homem, suas amigas formais recebem um pedaço da mesma, bastando, para isso, chegar a sua casa; era para atender a esse costume que a irmã de Katamrik queria reservar a carne. Aos amigos formais falecidos, de ambos os sexos, se aplica o termo ikritxua, que freqüentemente é usado também para os vivos, como vemos na segunda versão da narrativa.
Quando resolve não mais voltar para sua aldeia, Katamrik pede a presença de seu kederé. Os craôs chamam de kederé ou de keti (dependendo do tamanho físico do indivíduo, se miúdo ou se corpulento, respectivamente) ao irmão da mãe, ao pai da mãe, ao pai do pai, aos irmãos reais ou classificatórios deles. Um indivíduo do sexo masculino, ao nascer, sempre recebe seu nome de um keti ou kederé. Convém esclarecer que o keti ou kederé não escolhe um nome para a criança: ele lhe dá o seu próprio nome. Juntamente com o nome, transmite os amigos formais, a qualidade de membro de duas metades (os craôs têm vários pares de metades), o privilégio de desempenhar certos papéis nos ritos. O termo recíproco para keti ou kederé é itamtxua. Mas um keti ou kederé chama de ipantu aos itamtxua que têm o mesmo nome que ele. Em outras palavras, sempre que dois indivíduos do sexo masculino são xarás, o mais velho é chamado de keti ou kederé pelo mais novo, que recebe, por sua vez, o tratamento de ipantu. É o que acontece na narrativa: o jovem Katamrik é chamado de ipantu por seu kederé, o que indica que era portador do mesmo nome pessoal, transmitido por este. Também o chefe da aldeia para onde se dirige o jovem Katamrik tem o mesmo nome, e talvez seja isso que faz o chefe protegê-lo contra os habitantes de sua própria aldeia. Como o jovem e o chefe são identificados pelo nome, o filho deste deve chamar àquele de “pai novo” (itxu(n)kuprï), o que entre os atuais craôs é uma identificação terminológica comumente usada. O jovem Katamrik chama sua irmã de ipantume(n)txi, isto é, “mãe de meu ipantu”, porque poderia dar nome ao filho dela. O kederé de Katamrik chama a irmã deste de iapartxwöi. Trata-se da forma feminina de ia’para. Essas formas correspondem a itamtxua, que pode ser aplicado aos dois sexos.
Vemos ainda outros três termos de parentesco presentes na narrativa: ipiayõye (que é o termo que Katamrik aplica ao marido de sua irmã), ipiayõ e iwawï (termos que o velho chefe aplica aos genros). Para os craôs esses três termos são equivalentes. O último deles é aplicado tanto aos genros e maridos das irmãs vivos como aos mortos.
Durante o percurso para a outra aldeia, o jovem Katamrik mata um veado. Seu kederé, para prepará-lo, primeiro sapecou-o, isto é, o pôs no fogo para queimar o pêlo; hoje os craôs não mais sapecam o pêlo de certos animais porque vendem seu couro a comerciantes civilizados. Depois o kederé moqueia o veado. Os craôs entendem por “moquear” assar em pedras quentes. Fazer “moquia” é preparar as camadas de pedras quentes entre as quais é assado o animal.
Ao se aproximarem da aldeia estranha, os dois viajantes encontram com dois jovens (ou com um só, segundo a outra versão) que estavam cortando toras. A corrida de toras é uma atividade muito freqüente entre os craôs. Ela costuma marcar o término de uma atividade diária fora da aldeia, geralmente uma caçada coletiva. Os caçadores destacam um ou dois indivíduos para cortar as toras, geralmente de tronco de buriti. Cortam-se duas delas, uma para cada metade. A corrida começa com o levantamento das toras, sendo cada uma colocada sobre os ombros de um corredor de uma das metades. Quando um dos corredores se cansa, um de seus companheiros de metade, dentre os que o acompanham, toma a tora e continua a correr. Ao chegarem à aldeia, dão várias voltas pelo caminho circular até que as deixam cair diante da casa de wïtï, nome de uma menina (ou um menino) que desempenha um determinado papel ritual.
Quando os jovens viram os viajantes, chamaram os companheiros, mas veio apenas um partido. Os craôs chamam em português de “partido” as suas metades ou classes de idade, pois identificam seus grupos rituais, sobretudo as metades, com os partidos políticos dos civilizados.
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